O MÉTODO KARDEQUIANO COMO ARQUITETURA... MARCELO CAETANO MONTEIRO

O MÉTODO KARDEQUIANO COMO ARQUITETURA EPISTEMOLÓGICA DA REVELAÇÃO ESPÍRITA.

A análise do método adotado por Allan Kardec exige rigor histórico e precisão epistemológica. Não se trata de mera curiosidade metodológica, mas da chave hermenêutica que sustenta toda a edificação doutrinária espírita. Sem compreender o método, incorre-se em dogmatismo. Sem analisá-lo criticamente, perde-se a dimensão progressiva que o próprio codificador preconizou.

I. O CONTEXTO EPISTEMOLÓGICO DO SÉCULO XIX.

O século XIX consolidava um paradigma científico de feição materialista, indutivista e quantitativa. A autoridade da Bíblia Sagrada como fonte exclusiva de verdade cedia espaço à verificação empírica. A ciência afirmava-se apenas quando munida de provas observáveis. Descobertas de Galileu Galilei, Isaac Newton, Antoine Lavoisier, Alessandro Volta e James Watt haviam demonstrado o poder transformador da observação e da experimentação.
É nesse cenário que Hippolyte Léon Denizard Rivail se depara com os fenômenos das mesas girantes. Sua postura inicial foi de ceticismo metodológico. Conforme registra em Obras Póstumas, página 324, colocava-se na posição dos incrédulos que negam por não compreender.

II. PRIMEIRO EIXO METODOLÓGICO.
A OBSERVAÇÃO ANALÍTICA.

Embora mencione o método experimental, o que Kardec efetivamente aplica no início é o método observacional. Os fenômenos mediúnicos não se submetiam à manipulação controlada típica do laboratório físico. Exigiam coleta reiterada, comparação de ocorrências e exclusão de hipóteses insuficientes.
Na página 327 de Obras Póstumas ele declara ter observado, comparado, deduzido consequências e remontado das causas aos efeitos por encadeamento lógico. Essa estrutura revela um procedimento hipotético dedutivo embrionário. Ele não parte de dogmas. Parte dos fatos.
O método consistia em:
Registro rigoroso do fenômeno.
Comparação entre ocorrências similares.
Eliminação de explicações inadequadas.
Inferência causal por coerência lógica.
Na introdução de O Livro dos Espíritos essa postura torna-se explícita. As comunicações são submetidas a análise racional. Quando hipóteses psicológicas ou mecânicas não resolviam a totalidade dos fenômenos, a hipótese da intervenção espiritual mostrava-se mais abrangente.

III. SEGUNDO EIXO.
A HIERARQUIZAÇÃO DO TESTEMUNHO ESPIRITUAL.

A constatação seguinte foi decisiva. Os espíritos não eram oniscientes. Na página 328 de Obras Póstumas afirma que eles não possuem ciência integral. O saber espiritual é proporcional ao adiantamento moral e intelectual.
Essa conclusão impede o oraculismo. Introduz um princípio crítico interno. A comunicação mediúnica não é absoluta. É testemunho condicionado.
Tal percepção dialoga com reflexões anteriores de Immanuel Kant acerca da impossibilidade de afirmar ou negar integralmente as narrativas espirituais. Kardec converte essa prudência filosófica em método sistemático.

IV. TERCEIRO EIXO. O CRITÉRIO DA CONCORDÂNCIA UNIVERSAL.

O elemento mais original de seu método encontra-se no critério da concordância. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, introdução item II, estabelece que a autoridade doutrinária nasce da concordância espontânea de comunicações obtidas por numerosos médiuns, estranhos entre si, em lugares diversos.
A aplicação prática ocorreu na elaboração da primeira edição de O Livro dos Espíritos publicada em 18 de abril de 1857. Mais de dez médiuns participaram. As respostas foram comparadas, fundidas, classificadas e retocadas após reflexão silenciosa.
Posteriormente, com a rede de quase mil centros espíritas mencionada na mesma introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo, ampliou-se o campo de verificação.
Trata-se de um consensualismo empírico espiritual. Não é maioria numérica simples. É convergência qualitativa de conteúdo.

V. QUARTO EIXO. A SUBMISSÃO À CIÊNCIA PROGRESSIVA.

Em A Gênese capítulo I item 55, Kardec afirma que o Espiritismo aceitará qualquer verdade nova que se revele. Aqui reside o princípio da perfectibilidade doutrinária.
Essa postura evitou cristalização dogmática. Contudo, também expôs limitações históricas. A chamada Uranografia Geral do capítulo VI de A Gênese foi superada por avanços astronômicos posteriores. O mesmo ocorreu com a teoria da geração espontânea.
A existência dessas revisões confirma coerência metodológica. Se a ciência avança, a interpretação espírita deve acompanhar.

VI. QUINTO EIXO. A CRÍTICA À AUTOCRACIA DOS PRINCÍPIOS.

Kardec rejeita a autocracia doutrinária. Em Revista Espírita sustenta que o espiritualismo completa o estudo da matéria sem suprimi-lo. A unidade futura do Espiritismo dependeria da observação contínua e da concordância renovada.
Isso implica reconhecer que espíritos e encarnados compartilham limitações dentro de determinado horizonte espaço temporal. A mediunidade não substitui investigação científica. Complementa-a.

CONSIDERAÇÕES FINAIS.

O método kardequiano compõe-se, portanto, de cinco pilares interdependentes:
Observação analítica rigorosa.
Exclusão de hipóteses insuficientes.
Hierarquização moral e intelectual das fontes espirituais.
Concordância universal das comunicações.
Submissão progressiva às descobertas científicas.
Compreendê-lo preserva o Espiritismo de dois extremos. O ceticismo materialista absoluto e o misticismo acrítico. O primeiro nega a dimensão espiritual por princípio. O segundo absolutiza comunicações contingentes.
O verdadeiro legado metodológico de Kardec não é a fixação de teses imutáveis. É a instituição de um procedimento investigativo que conjuga razão, experiência, moralidade e progresso. Quando esse procedimento é abandonado, a doutrina degenera em crença. Quando é respeitado, permanece como filosofia espiritual em diálogo permanente com a ciência e com a consciência.
A fidelidade ao método não consiste em repetir conclusões do século XIX, mas em reproduzir o mesmo rigor intelectual diante dos desafios contemporâneos. É nesse exercício que o pensamento espírita conserva sua dignidade e sua força.