“A Tirania do Ausente” Sofremos... silasoliveira13

“A Tirania do Ausente”



Sofremos muito com o pouco que nos falta e gozamos pouco o muito que temos. Esta sentença é diagnóstico impiedoso de uma humanidade doente de ingratidão e cega para a própria abundância.

Observe o homem moderno: possui teto, mesa farta, afetos que o cercam, saúde que o sustenta. Mas toda sua atenção está voltada para aquilo que não tem o cargo que não alcançou,

o reconhecimento que não recebeu, o amor que não conquistou, o dinheiro que não acumulou. Caminha sobre tapete de bênçãos sem olhar para baixo, com os olhos fixos no horizonte inalcançável das coisas ausentes.

Schopenhauer tinha razão: somos criaturas da falta perpétua. Não importa quanto possuamos o desejo já está correndo atrás do próximo objeto. Conseguimos o emprego sonhado e imediatamente queremos a promoção. Conquistamos o amor desejado e já olhamos para o que falta nele. Alcançamos a meta e sentimos vazio, porque a meta era apenas desculpa para não apreciar o caminho.

É perversão ontológica: transformamos presença em invisibilidade e ausência em obsessão. O filho saudável que brinca na sala é ignorado enquanto nos torturamos pelo filho que não tivemos.

A comida no prato é engolida sem sabor enquanto invejamos o banquete do vizinho. O presente que temos é desvalorizado pela promessa do futuro que talvez nunca chegue.

E quando finalmente conseguimos aquilo que faltava? Quando o pouco ausente se torna muito presente? Não gozamos. Não celebramos. Apenas deslocamos a falta para outro lugar. Porque não é a coisa que queremos é o querer que viciou nossa alma. Não é a conquista que buscamos é a angústia da busca que nos define.

Epicuro alertou há dois mil anos: aprende a viver com pouco e descobrirás que tens muito. Mas nós, surdos à sabedoria antiga, fazemos o oposto. Temos muito e vivemos como se tivéssemos pouco. Possuímos abundância e sentimos escassez. Somos ricos que vivem na mentalidade da pobreza não de bens, mas de gratidão.

Esta é cobrança que precisa ser feita: você, que reclama do pouco que falta, já agradeceu hoje pelo muito que tens? Você, que sofre pela promoção que não veio, já celebrou o emprego que possui enquanto milhões estão desempregados? Você, que chora pelo amor que terminou, já honrou os que permanecem ao seu lado? Você, que lamenta o que perdeu, já reconheceu o que nunca te foi tirado?

A ingratidão é forma sofisticada de cegueira. Não vemos o que está presente porque nossa visão está intoxicada pelo ausente. É como passar a vida procurando óculos que estão no próprio rosto enquanto procuramos, não enxergamos nada do que está diante de nós.

Marco Aurélio escrevia para si mesmo: “Quando acordares de manhã, pensa no privilégio que tens de estar vivo de respirar, de pensar, de apreciar, de amar.” Mas quantos de nós acordamos pensando nisto? Acordamos já contabilizando faltas, já lamentando ausências, já construindo listas de insatisfações.

Jesus disse: “Não vos inquieteis pelo dia de amanhã.” Mas vivemos perpetuamente inquietos não pelo amanhã apenas, mas por tudo que não temos hoje. Transformamos o presente em sala de espera angustiada pelo futuro. E quando o futuro chega, já estamos olhando para o próximo, numa fuga perpétua do agora.

Existe crueldade nesta escolha porque é escolha. Ninguém nos obriga a sofrer pelo pouco que falta. Escolhemos focar no vazio em vez da plenitude. Escolhemos a ferida pequena em vez da saúde ampla. Escolhemos a sombra fina em vez da luz abundante.

E o mais trágico: este sofrimento autoinfligido não produz nada. Não nos torna melhores. Não melhora nossa situação. Apenas consome a vida que temos enquanto esperamos pela vida que imaginamos merecer. Morremos de sede ao lado do poço, reclamando que não é oceano.

A vida te deu saúde? Agradeça antes de lamentar a beleza que não tens. Te deu família? Celebra antes de chorar pelos que partiram. Te deu trabalho? Honra antes de invejar o trabalho alheio. Te deu hoje? Vive antes de angustiar-te pelo amanhã.

Porque aquilo que tens hoje este corpo que respira, esta mente que pensa, estes olhos que leem estas palavras é exatamente aquilo que alguém que já partiu daria tudo para ter novamente. Tua vida comum é milagre impossível para os que jazem sob a terra.

Então para. Olha ao redor. Conta. Enumera. Lista tudo que tens antes de lamentar o que falta. E descobrirás verdade constrangedora: tens mais do que mereces, mais do que precisas, mais do que percebes.

Sofremos muito com o pouco que nos falta porque escolhemos sofrer. Gozamos pouco o muito que temos porque escolhemos não gozar. E um dia, quando tudo isso que ignoramos hoje nos for tirado, finalmente entenderemos tarde demais que éramos ricos e vivíamos como mendigos.

A cobrança é simples: para de reclamar e começa a agradecer. Para de contar faltas e começa a reconhecer presenças. Para de viver no exílio do que poderia ser e habita a plenitude do que é.

Porque a vida não te deve nada. Mas tu deves à vida o reconhecimento de tudo que ela já te deu.