NÃO É POEIRA, SÃO CINZAS DE MENINO.... Van Gogh Jr.
NÃO É POEIRA, SÃO CINZAS DE MENINO.
Me desculpem a poeira:
estou sacudindo as cinzas de menino.
A vida obrigou-me a atear este incêndio, que consumiu a minha inocência.
Hoje, o menino se foi. Dele restaram apenas cinzas.
O Homem reergue-se. Não por opção mas por dever. O dever antigo e mudo de ser Homem.
Um dever que…
não se aprende nos livros.
Não se herda do pai.
Não se ganha com idade.
A gente vem ao mundo marcado.
A sina vem na primeira respiração, um peso nos ombros que ainda não têm largura para carregá-lo.
Chamam-nos de Homens quando ainda somos meninos de sapatos de veludo.
O mundo espera guerreiros onde há apenas olhos assustados.
Exige provedores de mãos vazias.
E a vida, com sua gentileza cruel, vem buscar o que é seu.
O colo da mãe vira memória téria.
O aconchego, dívida.
As 8 horas de trabalho, deixam de ser simplesmente “tempo”: é um túnel que se escava todos os dias com as próprias unhas cravadas no solo, rumo a prosperidade:
E que prosperidade?
O salário é um cálcio magro no fim do mês, um suspiro curto antes de fechar os olhos e recomeçar.
A dor não se partilha.
O cansaço não se mostra.
O medo não tem voz.
É assim.
Não por escolha, mas por lei antiga escrita no sangue e no suor dos que vieram antes.
Carregamos a culpa de não sermos fortes o bastante e a vergonha de precisarmos sê-lo.
Mas ouça bem:
Não é sobre não chorar.
É sobre segurar o mundo nos braços enquanto as costas arrebentam, e mesmo assim não deixar cair.
Não é sobre não ter medo.
É sobre ouvir o filho chorar no escuro e, com a mesma mão que treme, aconchegá-lo nos braços.
É sobre olhar para o espelho e não se encontrar, e no desespero perguntar-se:
em que momento é que comecei a me perder?
É olhar no espelho e ver o menino perdido, e ainda assim amarrar os ténis e ir à luta.
Porque o homem não surge do nada.
As cinzas estão lá, o pó sempre esteve lá.
O menino não morre.
Ele é enterrado vivo.
E todos os dias, à mesma hora, ele ergue uma pá e cava.
Cava para encontrar ar.
Cava para encontrar sentido.
Cava para provar, só para si mesmo, que mesmo enterrado, ainda respira.
A vida não pergunta.
Entrega o peso e espera.
O mundo não aplaude.
Apenas consome.
E nós?
Nós fazemos.
Porque nascemos para isso.
Na marra.
Na garra.
Na angústia muda de quem sabe que o amor, às vezes, tem o peso de uma pedra e o nome de obrigação.
Não é missão.
É destino.
Não é glória.
É chão.
Não se ensina.
Apenas se vive.
Até que um dia, os pés descalços e calejados descobrem que o caminho, por mais duro, foi o único possível.
E nesse dia, sem fanfarras, o menino e o homem olham-se no espelho.
E finalmente, um acena para o outro.
Dois estrangeiros que, no fim da jornada, aprenderam a habitar o mesmo corpo.
Ser homem é isso:
Assinar, todos os dias, com a própria vida, um contrato que nunca se leu, mas que se cumpre com um suor sagrado.
A sina está cravada.
Agora meu caro, caminhe.
