A Profecia A profecia não vem do... Carolina Marinho
A Profecia
A profecia não vem do futuro.
Ela nasce no corpo cansado
De alguém que aprendeu a prever dor
para não ser surpreendido.
Ela se veste de certeza,
fala firme,
diz: “vai acontecer novamente”,
“a paz não dura”,
“algo sempre vem”.
Mas a profecia não é vidente.
Ela é exausta.
Ela olha para trás
Para todas as noites atravessadas,
Para todos os medos acumulados
e chama memória de destino.
Quando o descanso falta,
a mente constrói mapas de medo.
Não para te enganar,
mas para te proteger.
Ela prefere anunciar a tempestade
a permitir a esperança de um dia de Sol.
A profecia não quer te matar.
Ela quer te poupar.
Ela acredita, ingenuamente,
que se você não esperar nada,
nada poderá te ferir.
Mas ela erra.
Porque confunde repetição com eternidade.
Confunde “aconteceu muitas vezes”
com “acontecerá para sempre”.
A profecia do cansaço é convincente
porque fala alto quando você está fraca.
Ela não precisa gritar —
basta repetir.
E ainda assim…
ela não é lei.
Ela é sintoma.
Quando o corpo descansa,
a profecia perde a voz.
Quando a dor é dividida,
ela fica menor.
Quando alguém fica,
ela vacila.
Talvez hoje
você não consiga ignorá-la.
Tudo bem.
É cansativo agora.
Hoje basta saber isto:
profecias também vacilam.
E algumas só existem
até alguém segurar sua mão
e dizer:
“isso não é o futuro —
é só o agora pedindo descanso.”
