LIVRO DOS MÉDIUNS. CAPÍTULO 18. ITEM... MARCELO CAETANO MONTEIRO
LIVRO DOS MÉDIUNS. CAPÍTULO 18. ITEM 221.
INFLUÊNCIA DO EXERCÍCIO DA MEDIUNIDADE SOBRE A SAÚDE. O CÉREBRO. AS CRIANÇAS.
A questão proposta no item 221 do referido capítulo ocupa lugar de elevada relevância doutrinária, pois toca diretamente na relação entre o fenômeno mediúnico e a integridade do ser humano considerado em sua totalidade orgânica, psíquica e moral. O método adotado é fiel ao espírito clássico da Doutrina Espírita. Observação paciente. Prudência. Equilíbrio. Recusa de exageros e de misticismos que afastam a razão.
Ao indagar se a faculdade mediúnica constitui um estado patológico ou simplesmente anormal, a resposta estabelece uma distinção fundamental. O termo anormal não significa enfermidade. Indica apenas que a mediunidade não é a condição comum da maioria das criaturas. Trata-se de uma faculdade específica. Um modo particular de sensibilidade e de relação entre o Espírito encarnado e o mundo invisível. O texto é categórico ao afirmar que existem médiuns de saúde perfeita. Quando há enfermidade, esta decorre de outras causas, não da mediunidade em si. Essa afirmação dissolve um preconceito antigo e recorrente. A tendência de associar mediunidade a desequilíbrio físico ou mental nasce da ignorância ou da observação apressada de casos mal conduzidos.
Quanto à fadiga, a Doutrina se mantém coerente com as leis naturais. Toda faculdade humana, quando exercida em excesso, provoca cansaço. O intelecto. A visão. A força muscular. A mediunidade não constitui exceção. Especialmente a mediunidade de efeitos físicos exige maior dispêndio de fluido vital. Esse fluido, elemento intermediário entre o Espírito e a matéria, ao ser utilizado de forma intensa, gera desgaste temporário. Todavia, esse desgaste é reparável pelo repouso. A noção apresentada é profundamente higiênica e racional. Não há condenação do exercício mediúnico. Há apenas a advertência contra o abuso.
Do ponto de vista higiênico, o texto avança com notável lucidez. Afirma que existem situações nas quais a abstenção ou o exercício moderado não apenas é aconselhável, mas necessário. Essa necessidade varia conforme o estado físico e moral do médium. Aqui se revela um princípio essencial do Espiritismo clássico. A mediunidade não é uma prática mecânica. Ela é sensível ao estado íntimo do indivíduo. O próprio médium, quando atento a si mesmo, percebe os sinais de advertência do organismo e da consciência. O respeito a esses limites é expressão de sabedoria e não de fraqueza.
A advertência se aprofunda ao tratar das pessoas mais suscetíveis à superexcitação. Certos organismos e certos temperamentos não suportam estímulos contínuos e intensos. Nesses casos, a mediunidade pode funcionar como fator agravante. Não por sua natureza, mas por atuar sobre uma estrutura já predisposta ao desequilíbrio. A Doutrina, longe de impor regras universais e rígidas, convida à individualização responsável.
No tocante ao cérebro e à possibilidade de loucura, o texto apresenta uma das afirmações mais claras e serenas do pensamento espírita. A mediunidade não produz a loucura mais do que qualquer outra atividade humana. O fator decisivo é a predisposição. Se existe fraqueza cerebral ou germes latentes de desequilíbrio mental, qualquer abalo pode precipitar o quadro. A mediunidade, nesse contexto, não é causa, mas ocasião. O critério seguro para avaliar o risco está no estado moral e no bom senso do indivíduo. Onde estes falham, a prudência deve prevalecer.
A abordagem da mediunidade nas crianças revela o cuidado extremo da Doutrina com os seres em formação. Desenvolver deliberadamente a mediunidade infantil é considerado perigoso. O organismo da criança é descrito como débil e delicado. A imaginação, ainda em construção, pode sofrer superexcitação. O risco não está no fenômeno espontâneo, mas na indução imprudente. A orientação aos pais é clara. Afastar as crianças de práticas mediúnicas e tratar o tema apenas sob o aspecto moral e educativo.
Quando a mediunidade surge espontaneamente na infância, o entendimento é outro. Nesse caso, ela faz parte da natureza do Espírito reencarnante e da constituição que lhe foi concedida. A criança, em geral, não se impressiona excessivamente com visões ou percepções espirituais. Trata-as com naturalidade e frequentemente as esquece. O fenômeno só ganha contornos perturbadores quando o adulto interfere de forma imprópria, estimulando, explorando ou dramatizando aquilo que deveria ser observado com discrição e respeito.
A questão da idade adequada para o exercício da mediunidade reforça a ausência de fórmulas fixas. Não há idade cronológica que sirva de regra. O critério verdadeiro é o desenvolvimento físico e, sobretudo, moral. Existem crianças mais equilibradas do que muitos adultos. Ainda assim, certas modalidades mediúnicas, como os efeitos físicos, são reconhecidas como mais exigentes para o corpo. A mediunidade de escrita, por sua vez, traz riscos próprios quando exercida sem orientação, podendo transformar-se em brincadeira leviana ou em fonte de perturbação.
O conjunto dessas respostas revela o espírito autêntico da Doutrina Espírita. Serenidade. Discernimento. Respeito às leis naturais. A mediunidade é apresentada não como privilégio místico nem como ameaça patológica, mas como instrumento sério que exige equilíbrio interior, vigilância moral e responsabilidade contínua.
Ler, meditar, estudar, conhecer, viver, praticar e divulgar o Espiritismo não é um apelo retórico. É um programa de vida. A mediunidade, quando compreendida à luz desses princípios, deixa de ser motivo de temor e converte-se em meio de serviço, esclarecimento e elevação. Felizes são aqueles que não apenas conhecem a Doutrina, mas se deixam transformar por ela, fazendo do equilíbrio e da prudência o alicerce silencioso de toda verdadeira tarefa espiritual.
