Fabrício Hundou - um autor desconhecido: EU VOU A Evolução de si pode, de toda...

EU VOU

A Evolução de si pode, de toda maneira, ser visível no tamanho dos pés, nos velhos fios brancos de novas fases, nas esquinas das rugas, nas ondas turbulentas do dorso das mãos. No verso deste esperado rumo, a Evolução permite-se, também, se manter em hiato. Depois de muitos gritos, a Evolução desata em paz os nós das cordas vocais. Passada as páginas dos calendários, as malas da Evolução reduzirão-se cabendo alguns poucos presentes de sua longa viagem, mas sobrando espaço para passados apertados. Evoluir-se é um ato boçal, de exigência e ordem: um passo para frente é uma queda em ar livre - sem nenhuma liberdade de voo. Evoluir-se é uma escolha de livre e espontânea pressão. Há quem nos dirá em voz e eco que ainda temos tempo, nunca tememos o tempo. Em tons afinados de mantra, repetirá o refrão do lapso: ainda somos o que fomos, sempre seremos iguais. Mas não podemos rechaçar comentários estúpidos. Afinal, os enganos são jubilosos encadeamentos de causas e efeitos. Enquanto isso, transformo-me em um monte de minutos acumulados, presos e engasgados com atrasos pontuais. Quem olha as folhas ressecadas, acumuladas aos meios-fios, não imagina que entrei em outono de mim mesmo, na estação em que me desfaço de cascas enfeitadas e me disfarço em risos retorcidos, secos e ajustados a baixas temperaturas. Ainda - sem culpa do uso do advérbio - prossigo a minha Evolução. Donde vim - há tantas léguas de distância de mim mesmo -, pontes peripétalas me põem em travessia, a todo tempo, aos solos da fuga.

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Inserida por FabricioHundou