Fabio de Melo Acaso Deus Felicidade
Quando penso em sentimentos à flor da pele, a primeira coisa que me aparece é a liberdade de vivê-los intensamente ou o poder de suportá-los. Tem sempre cara de risco, de perigo, porque nos marca e não sabemos direito pelo que ou por quem queremos ser marcados. Ao mesmo tempo não temos esse poder de escolha, ou temos? Somos marcados por aquilo que passa por nós, nos atropela de um jeito inusitado. Nosso impulso, a curiosidade, o desafio, as paixões, nossos medos, tudo isso nos leva a viver coisas marcantes. Viver à flor da pele é se arriscar a transpor limites, superar barreiras, alongar músculos preguiçosos.
Parafina
De vez em quando
minha fé resmunga
reclamando
Inconstância súbita
me questiona
me põe em dúvida
me indaga
Mas meu pavio
não se apaga
segue aceso
e embora ileso
em chaga
A juventude é inquieta. E é somente a inquietação da juventude que nasce aquilo que é belo, que é bom.
Visitantes recentes
O que querem insistentes
e que buscam [me perscrute]
os "visitantes recentes"
que vasculham meu Orkut?
E por que tal descaso
em me deixar só pegadas?
Se me visitam por nada,
o fazem só por acaso?
Quem serão esses vultos
que me deixam inquieto?
Serão amigos secretos
ou inimigos ocultos?
Peabiruta
Eu peregrino
dia por dia,
longa romaria
Eu peregrino
no pó, no espinho
durante o caminho
Eu peregrino
aspirando outros ares
da terra-sem-males
Eu peregrino
piso a terra laranja
que meu pé desarranja
Eu peregrino
e se às vezes me exalto
não prefiro o asfalto
Eu peregrino
em rastros inteiros
de outros romeiros
Eu peregrino
Faço irmão o destino
e irmãs as estrelas
e mesmo sem vê-las
Peregrino
Rituais e homenagens póstumas não apagam traições. Estátuas não compensam torturas. Letreiros luminosos em prédios edificados com grana pública não ofuscam isolamentos cruéis. Jardins no centro não limpam cusparadas. Isso não basta.
Construir um belo obelisco a pacifistas regionais não basta. É mísero! Insensatez! Para homenageá-los, seria preciso construir a paz e a justiça pela qual lutaram, e não monumentos apenas.
Não basta pregar uma placa para um militante idealista numa salinha. Isso é nada! Importa tirar do túmulo seus ideais, levar suas idéias adiante.
Não basta beatificar um mártir. É muito pouco. É preciso imitar-lhe a coragem, a perseverança e ajudar outros corajosos e perseverantes em suas lutas, para que não precisem conhecer o batismo de sangue.
Tributo aos amigos
Meu coraçao peabiruta
Gratidão fertiliza
E obrigado tributa
Aos meus caros amigos
Que de forma precisa
Me abrandam perigos
E dividem comigo:
Piadas
Brinquedos
Problemas
Torpedos
Cachaça
Segredos
Suas preces
Seus medos
Aos amigos de berço
Aos amigos de acaso
Aos amigos de terço
Aos amigos de passo
Aos amigos à vista
Aos amigos a prazo
Aos amigos de trampo
Aos amigos de aço
Aos amigos grandes
Aos amigos pequenos
Aos amigos sinceros
E aos mais ou menos
E a quem do meu lado
Peregrina essa estrada
Um abraço apertado!
Uma Skol bem gelada!
Algea, eleison!
Que é a dor,
senão fria corrente
que une os mortais?
Que é o amor,
senão medo pungente
de murmurar ais?
É a dor quem desenha
os santos e os pecadores.
É ela a mesma senha
nas prisões e nos andores.
Pois santidade e imperfeição
têm nas veias mesmo sangue:
São filhas da aflição,
paridas num mesmo tanque
cujo nome é coração.
