Fabio de Melo Acaso Deus Felicidade

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O Bilhete Devolvido e o Acaso Misterioso do Mal


Você aceitaria uma harmonia eterna se o alicerce dela fosse o choro de uma única criança injustiçada? Para Dostoiévski, a resposta é um grito de revolta: “Eu devolvo o bilhete”. Através de Ivan Karamazov, ele recusa um paraíso que exija, como pedágio, o sangue dos inocentes.


Muitos tentam justificar a dor como o preço da nossa liberdade, mas a verdade pode ser mais sombria. E se o mal for apenas um acaso misterioso? Um erro de percurso que surgiu fora do plano divino. O mal é aquilo que nunca deveria ter existido; não é uma lição, nem um teste. É um intruso incompreensível que desafia qualquer lógica ou propósito. O mal é, de fato, injustificável. Ele está além da capacidade humana de suportar — e nem o próprio Deus o suportou no Getsêmani, quando clamou: "Pai, afasta de mim este cálice". Em seus casos extremos, o mal é esmagador, sobre-humano e desumano. É o que jamais deveria ser.


É necessário ignorar alguma Perfeição


Existem assuntos que não podem ser tratados como equações matemáticas para serem resolvidos com todo o rigor matemático e exato. Em relação à existência de Deus e ao sofrimento, alguma coisa deve ser ignorada. Um Deus onipotente, onipresente, onisciente, perfeito e amoroso em uma existência onde existe o mal faz com que uma existência exclua a outra. Mas, aí, não podemos dizer que não existe Deus, porque existe algo em vez de nada. A existência, a razão, os sentimentos, as emoções e a consciência não existem a partir do nada ou de algo impessoal.


Nesse embate entre o sagrado e o horror, uma certeza resta: alguma perfeição sempre será ignorada.


Se o mal existe como um acidente que Deus não planejou, ignoramos Sua onipotência.


Se o aceitamos como parte de um plano deliberado, ignoramos Sua bondade.


Diante do sofrimento que não faz sentido, a "perfeição" teórica é a primeira coisa que se quebra. Se o mal é um acidente não planejado, o mundo deixa de ser um tribunal e vira um hospital de campanha. As coisas são o que são, mas as coisas deveriam ser de outra forma. Creio que esta escolha é mais realista diante do absurdo do mal; é algo que não se compreende, que não se aceita, nem se suporta, nem se justifica; é algo que não deveria não existir.


O Conflito da Existência


Deus Todo-Poderoso, Onisciente, Onipotente e Onipresente exclui-Se em uma realidade onde o mal, o sofrimento e as imperfeições existem. Um exclui o outro, e vice-versa.


Tudo o que existe é uma continuidade de Deus de alguma forma; nada escapa disso, senão o próprio Deus. Por que existe algo em vez de existir nada? Tudo tem uma causa, uma origem. Só Deus não teve origem. Existem duas existências, com certeza absoluta: a eterna e a criada. A criada teve início e pode perder perfeição. A vida, a razão, a ordem, o existir, o amor, o coração... é impossível que venham do nada. Essas coisas são a continuação de Deus. Então, concluímos: Deus Todo-Poderoso existe. Mas, no nosso mundo, identificamos o mal, o sofrimento e as imperfeições — que não existem em Deus.


O Acaso Misterioso e a Liberdade
Deus não cria outro Deus. Deus cria coisas que são perfeitas, mas Deus cria seres com vontade própria e livre-arbítrio. Deus sempre criou seres com vontade própria e livre-arbítrio perfeitos. Temos que encarar o problema com ousadia e não com ideias prontas e fixas.


Não acredito que Deus criou o mal para termos liberdade; não é necessário criar o mal para que haja liberdade. Existe a liberdade para o bem: eu posso fazer um bem ou outro bem. Não acredito que Deus criou o mal porque Deus, sendo bondoso, amoroso e fazendo o bem, não criaria por deliberação o contrário à Sua essência, porque um exclui o outro.


Deus não tem propósito nenhum em criar seres imperfeitos que gerem o mal, o sofrimento e a injustiça. Mas, por um acaso misterioso — que acredito que Deus nunca entenderá — essa criatura imperfeita foi criada. Deus criou Lúcifer e o ser humano para adorá-Lo, para ser a razão de ser de toda criatura. Mas, por algum acaso misterioso, essa criatura imperfeita foi criada, e Deus está trabalhando para restaurar Sua criação. E tudo voltará a ser como antes: a criatura sendo o reflexo do Criador. Creio que Deus não iria criar seres para gerar mal, sofrimento e injustiça — e isso será um eterno acaso misterioso. Mas Deus é bom, é amor, Deus é a verdade, e tudo será perfeito como antes, em Jesus.


O Mal como Ausência de Ordem
A minha definição de mal é esta: o mal é a falta da ordem estabelecida e da presença de Deus. Quando as coisas, as criaturas e a criação se afastam de Deus e não obedecem a Deus e à Sua ordem, sempre ocorrerá o mal.


O mal entre os seres humanos existe porque não se obedecem os mandamentos de Deus.


Terremotos, tornados e vírus existem porque a Terra está distante.


Todos os desastres e males da natureza ocorrem porque a natureza não está obedecendo a Deus; ela está distante de Deus, e perdeu-se o que foi estabelecido por Ele. Deus estabeleceu estabilidade na Terra, mas essa estabilidade foi perdida porque a Terra está distante de Deus — e tudo o que está distante de Deus perde a perfeição. Tanto nas tradições antigas quanto no cristianismo, o mal é fruto dessa desobediência original.


Se o ser humano obedecesse à palavra que Jesus Cristo disse em Mateus 22:37-39: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”, não existiria mais o mal entre os seres humanos, e creio que toda a criação não teria mais o mal. Em Apocalipse, Jesus Cristo virá e, em Sua coxa, estará escrito: "Rei dos Reis, Senhor dos Senhores". Ele estabelecerá Sua presença e ordem, e o mal acabará.

É preciso ter mais fé para acreditar que o mundo e o universo são obras do acaso do que acreditar que tudo é obra de um Deus soberano

Não fique parado no tempo, esperando pelo acaso.
Seja o vento que ninguém segura e apareça inesperadamente, mostrando sua força e seu poder para mudar uma situação.

A sincronicidade é a dobra de um nó que o Dharma atou no invisível, onde o acaso e o destino se encontram para fingir que não se conhecem.
Reno Fioraso

Feminicídios
Helaine Machado
Ela não morreu por acaso…
ela foi silenciada.
Todos os sinais estavam lá —
no olhar cansado,
na voz baixa,
no medo escondido atrás de um sorriso forçado.
Mas ninguém viu.
Ou fingiu não ver.
Ela pediu ajuda em silêncio,
nos gestos,
nas pausas,
nas lágrimas que caíam sozinhas no travesseiro.
E mesmo assim…
o mundo continuou girando.
Até que um dia,
o grito virou notícia.
Mais um nome,
mais um rosto,
mais uma história interrompida
pela violência de quem dizia amar.
Amor não mata.
Amor não machuca.
Amor não controla, não prende, não apaga.
O que fizeram com ela
foi crime,
foi dor,
foi covardia.
E quantas ainda vão precisar partir
pra que alguém entenda
que isso não é normal?
Ela tinha sonhos,
planos,
uma vida inteira pela frente…
Mas teve tudo roubado
por mãos que nunca souberam amar.
E o mais cruel…
é que ela não é a única.
São muitas.
Todos os dias.
Em silêncio ou em manchetes.
Por isso, falar é preciso.
Denunciar é necessário.
Cuidar umas das outras
é urgente.
Que nenhuma mulher
tenha sua história interrompida
por alguém que nunca mereceu
ser chamado de amor.
Helaine Machado

O Logos da Fraternidade

Não nasce do acaso ou da biologia,
O laço eterno que nos fez unidos;
É o Logos puro que conduz os dias,
E dá sentido aos corações remidos.

Várias essências numa mesma via,
Pelo invisível sendo conduzidos;
Em nós habita a sã filosofia,
De sermos um, em Deus preestabelecidos.

O Salmo cento e trinta e três declara:
Quão bom e suave é estarmos em união!
É a benção santa que na alma clara,

Neste Farol que afasta a solidão,
Os nossos passos e o pensar se aclaram:
Mais que amigos, todos são irmãos.

Ninguém está na nossa vida por acaso...mesmo que virtualmente! Somos nós que escolhemos, atraímos ou afastamos.

O acaso não erra: apenas nos mostra, em fragmentos, que jamais fomos senhores do que acreditávamos controlar. Cada gesto carrega ecos de mundos que não vivemos, e cada silêncio é mais eloquente que todas as palavras que ousamos pronunciar.

"Entre flechas lançadas ao acaso, Cupido acerta quando menos espera; e a paixão, que parecia confusão, encontra o coração certo e dá certo"

Mais Que um Acaso


Não conheço o seu abraço,
mas conheço o conforto
que existe quando você fala.


Não conheço seus passos,
mas já reconheço o jeito como você chega.


Não sei ainda
todas as suas histórias,
seus medos,
suas manias,
as coisas que o tempo
ainda vai me revelar.


Isso também já me fez perguntar:
Como pode nascer tanto Amor
em tão pouco tempo?


Como pode alguém
que ainda não esteve diante de mim
conseguir estar tão presente
em pensamentos que antes eram só meus?


Não sei explicar.


Só sei que,
entre uma conversa e outra,
alguma coisa foi acontecendo.


Sem promessa,
sem planejamento,
sem que nenhum de nós
precisasse procurar.


E agora existe você
em um lugar que eu não esperava
que alguém pudesse ocupar em tão pouco tempo.


Algumas coisas, de fato, eu não sei:


Mas não quero diminuir o que sinto
só porque ainda não tivemos tempo suficiente para entender.


Porque, se isso for loucura, como você disse,
que seja uma daquelas loucuras
que a vida nos concede uma única vez.


E não preciso conhecer ainda o seu abraço
para saber que quero um dia estar dentro dele.


Nem conhecer todos os seus caminhos
para desejar caminhar ao seu lado.


Porque, mesmo sem nunca ter tocado você,
alguma coisa em mim já tocou alguma coisa em você.


E isso, meu amor,
é bonito demais para chamarmos apenas de acaso.

Quem tá na tua vida não vem por acaso,
é laço que fica, não é só abraço.
Uns chegam de leve, outros chegam com cor,
uns deixam saudade, outros deixam amor.
Tem gente que ensina, tem gente que some,
mas tudo que passa na vida tem nome.
E quem permanece é raiz, não é vento,
é porto seguro em qualquer momento.

Um dia vou te encontrar de novo. Não por acaso. Por destino atrasado.
Já não serei a mesma pessoa.
Nossas vidas estarão diferentes.
Outros caminhos, outras versões, outras cicatrizes.
Mas algo em mim ainda vai reconhecer você.

Duas almas não se procuram por acaso,
se encostam no caos, se reconhecem no abraço.
No meio do mundo, do ruído e da dor,
se acham em silêncio, como quem sabe o amor.
E quando se cruzam, já não são mais sozinhas,
viram destino, estrada, entre linhas fininhas.
Como se o tempo dissesse: “é agora, enfim”,
duas almas se encontram… e começam em mim.

Nem todo resultado é bênção; às vezes é apenas esforço humano ou acaso. Confundir vaidade com fé configura a presente liturgia digital.

Criaturas humanas se encontram por acaso e permanecem até o ocaso da vida.

“Há encontros que parecem acaso, mas deixam na alma a sensação estranha de que já eram esperados.”

— Juliana Hoffmann Liska

Lançados ao acaso da folha em branco,
somos manchas que o tempo dispersa,
manuscritos rasurados em um banco,
fragmentos de uma voz que não conversa.


Linhas cegas cruzando o vazio absoluto,
cada uma em seu exílio de carvão e cor,
um traço torto, um borrão em luto,
tentando esboçar o contorno do amor.


Buscamos no outro o ponto de encontro,
a intersecção que nos faça um desenho,
mas seguimos à margem do próprio encontro,
perdidos na pressa de um vago desempenho.


Somos apenas rabiscos soltos de tinta,
vetores abstratos de uma força qualquer,
que teimam na busca, enquanto a luz finda,
de alguma coisa que o mundo saiba ler.

Eu sei que minha frase é curta
mas não é curto o meu pensamento
Se acaso o que falo não curta
Não encurta o meu sentimento

Transito entre o determinismo e o minimalismo, não por acaso: escolher exige renúncias e, num exercício de futurologia, não posso congelar o vapor ou prever a fúria do amanhã.
Reno Fioraso

Eu vou estar perto de todos que amo,
Nada é por acaso, eu não sei explicar ⁠