Eu Vou mais eu Volto meu Amor
Então não se espante se na próxima vez que me vir eu tiver um sorriso largo demais no rosto , um perfume diferente ou uma aura radiante . Não ache estranho minhas risadas espontâneas demais ou um jeito de ser novo que você não conhecia e que até mesmo eu desconhecia. Sobretudo não estranhe eu passar por você e te tratar não com muita atenção , não com frieza, mas com a mais pura normalidade e desatenção como se você fosse uma pessoa comum , a mais comum das criaturas. Tudo isso é sinal de que estou sendo amada, e por alguém que não é você.
Eu prometi, jurei até que não iria lhe escrever, que ia deixar a saudade me matar, me sufocar por dentro, ir me matando um pouquinho a cada dia ao invés de lhe escrever. Só que eu também avisei que após escrever a primeira carta está tudo perdido: aí escrevo a segunda, a terceira, a quarta e isso se torna um ciclo viciante do qual não posso fugir. Escrever faz parte de mim, e infelizmente, te amar também.
Queria te contar tanta coisa ! Contar o quanto doeu, o quanto eu sofri todo esse tempo, te contar de como minha melhor amiga teve que aguentar meus choros e dramas, contar da festa surpresa que fiz para minha mãe. Queria que você entendesse Shakespeare e Vinícius, queria te contar do primeiro dia de aula, de minhas expectativas e frustrações, de como uma música funk começou a tocar no meio da aula, fazendo todos caírem na gargalhada, até o professor. Mas acho que estou perdendo a noção de ridículo de te escrever ainda, de sentir saudades e de te amar.
E ao ler aquela mensagem e vê-lo ali, eu quase morri, quase derreti igual manteiga, quase desmaiei ali mesmo na rua. E estava tão fraca, frágil, e eu era tão dele e ele nem sabia, nem sabia o que se passava em meu coração, eu era como flor levada pelo vento, sendo eu a flor e ele a ventania que me levava pela noite.
E se me perguntar o porquê de dar um tapa nele eu nem sei dizer. Foi resultado de ele ter me deixado, foi resultado de ter vindo atrás e pedido perdão, foi o fruto de meu orgulho venenoso que se misturou a uma saudade traiçoeira. Foi o amor gritando para ser ouvido nas trevas que eram o meu coração.
Eu sou tão fria, tão centrada em mim mesma, focada em meus objetivos, séria, e aí chega essa pessoa que magicamente me faz meiga, me faz doce, quebra minhas barreiras,e isso tudo vindo me dar um simples "oi", vindo dar "oi" com o sorriso mais escandalosamente lindo do mundo.
Tudo era tão simples e podia dar tão certo!Eu e ele, isso bastava para dar certo, o resto do mundo não tinha nada que ver com isso. A gente conversava,a gente brigava, a gente ria e isso bastava para dar certo.Não importava a opinião dos outros, não era preciso orgulho, nem disputas, nem ciúmes.O amor de verdade é simples, as pessoas é que são complicadas...
Começou a tocar "por você"na voz de Frejat no rádio e se eu já estava derretida, eu caí, eu mergulhei, eu me afoguei nas calmarias arrasadoras do amor. Eu o beijei com doçura e ele correspondeu, e eu segurei o "eu te amo" para não explodir em palavras, em versos insanos e em sentimentalismo. Segurei porque a menor demonstração de sentimentalismo poderia estragar tudo, podia fazê-lo nunca mais me querer, já que o mundo é dos que não sentem, não amam,praticam a lei do desapego como se fosse essencial para a sobrevivência da espécie humana. O que eu queria mesmo era gritar que eu o amava, que ele era minha fraqueza, meu delírio, minha droga preferida, que por ele eu faria todas as coisas que Frejat dizia na música e ainda mais, que devíamos ser felizes agora porque amanhã ninguém sabe...Mas só o que consegui foi deitar a cabeça no ombro dele e ficar sufocando com as palavras que eu não disse.
Eu o procurei por todos os lugares, do palco até a porta, das mesas até os banheiros , e nada, ele não estava em lugar nenhum além de em meu pensamento. E parecia incrível , mas todos os caras ao meu redor tinham seu perfume , sua risada ou sua fisionomia. Ele nublou meus olhos, por isso todo cara que eu via se parecia com ele , ele confundiu minha mente, e desde então eu não pensava em mais ninguém, ele mexeu no meu coração , e daquele momento em diante me impossibilitou de amar qualquer pessoa que não fosse ele.
Depois daquele fora, daquele choque, daquela ofensa, eu comecei a rir de maneira histérica. Ele pediu se eu era louca e me deu as costas.Continuei rindo por mais um tempo, porque rir era a única coisa que eu me permitia fazer, porque eu ria para não chorar, porque rir de tudo é desespero.
Minha alma transbordou de tristeza, de modo que eu não podia pegar na caneta sem sentir no peito uma dor excruciante. Mas se eu não escrever, aí sim que é uma tragédia, que não falo, não existo, estou muda, estou morta. Eu não posso me permitir morrer em palavras, a morte mais trágica para um escritor. Não posso deixar que aquele cara mate essa parte de mim, uma vez que ele já matou minha esperança e enterrou vivo o meu amor. Por isso estou escrevendo de novo, e me perdoe a demora, me perdoe a má caligrafia, me perdoe a dor.
As compras não me animaram, nem o dia, nem a luz do sol. Eu tinha a cara inchada de tanto chorar, a alma seca, e o coração com cade ferida aberta, exposta, e quando a rinite chegou após o meio dia, eu desejei que ela me consumisse por inteiro, acabasse comigo, me matasse.
No começo eu tive medo porque a sua ausência doía demais e eu tinha medo que essa dor durasse para sempre. Mas há qualquer coisa de diferente agora; eu sinto uma força absurda na sua ausência, como se eu pudesse ir muito mais longe sem você, como se você fosse um peso morto e eu pudesse ser muito mais feliz sem você. E meu bem, há momentos em que dói tanto, há momentos em que não dói nada...A verdade é que o caminho do amor é repleto de flores e espinhos e não se pode separar um do outro, por isso amar significa sofrer em qualquer idioma.
E eu e minha amiga rimos e falamos de garotos, até que ela tocou no nome dele e eu disse como ele era idiota e que bom que estava fora da minha vida. Só que quando fui dormir, como todos os dias, ele ainda foi o último pensamento do meu dia. Quer dizer, o penúltimo, porque o último foi uma frase de Drummond: "essa ferida, meu bem, às vezes não sara nunca ,às vezes sara amanhã".
Há muito tempo eu lhe disse que algumas coisas são difíceis de serem explicadas,que algumas coisas só precisam ser sentidas, como o sopro do vento no rosto. E nesse momento meu querido, eu sinto: sinto o carro correr em alta velocidade, sinto a melodia de Nenhum de nós tocando no rádio, sinto o vento, e principalmente, sinto a liberdade gritante por todos os meus poros,e de como a liberdade é uma coisa inteiramente minha, e é mais plena, e sempre será, sem você atrapalhando.
Eu poderia passar o dia falando sobre a natureza, a vida, a beleza e a arte, mas não estou aqui para isso. Estou aqui para lhe agradecer por romper comigo,por ser estúpido e mostrar sua verdadeira essência , demostrando que você não servia para mim. "Nós aceitamos o amor que achamos merecer" é a famosa frase, não é? E eu mereço, querido, eu mereço muito, eu mereço um amor que tire meus pés do chão, encha meus dias de esplendor , que faça a poesia em mim mais vibrante, mais sentida. Não pense que isso é egocentrismo, porque não é, eu apenas preciso pensar mais em mim...
Eu danço na ponta dos pés, eu faço caretas para o espelho, eu passo um batom e saio e eu nem ao menos penso em você e isso é tão estranho...Eu reinvento meu próprio mundo, e ele é colorido, cheio de verbos, sentimentos, pessoas, risadas, momentos, e você não está em nenhuma parte desse meu mundo, e isso é diferente, mas é tão bom, porque há tanta paz! E de pouco em pouco, de dia em dia ,de hora em hora, essas coisas enterram você e você desaparece como um grão de areia levado pelo vento.
Ontem eu ouvia Arnaldo Antunes cantando "socorro, não estou sentindo nada" e eu sorria aliviada porque era verdade, não havia amor, nem dor. Porém, hoje o dia amanheceu ao contrário porque aquele cara me mandou uma mensagem e agora eu grito por socorro, porque eu sinto tudo como um misto de amor, medo, frustração e desespero. Com uma mensagem ele virou meu mundo do avesso, mas isso me assusta porque e se o avesso for meu lado certo?
Somos feitos de "quases" eu e você . Feitos de quase beijos , quase toques, quase romance, quase amor. Porém, eu sou egoísta e não me contento com migalhas. Não gosto do ameno , o morno me entedia e o opaco me dá sono. Não posso ser sua quase amiga ou seu quase amor. E no meio de toda essa confusão de afabilidades, obséquios e cortesias somos o que, afinal ? Futuros amantes, talvez. Amor parcelado, chove não molha, beijos tácitos e devaneios...
Talvez ele tenha me traumatizado com os aeroportos para sempre. Talvez eu esteja estragada e nunca mais consiga voltar a ser inteira. Talvez eu não consiga mais entrar num aeroporto e sentir a leveza e a calma na alma , e só consiga sentir angústia. Não sei. Talvez até Fagner esteja certo quando diz que "o amor deixa marcas que não dá pra apagar". Mas não fique triste por mim, porque eu não estou. E apesar de tudo, essa é minha vida: brilhante, surpreendente, poética e louca. Talvez o futuro seja azul, azul como o céu, o mar, o amor e a música do Djavan. Quem sabe tenha amor e poesia , ou quem sabe seja repleta de tragédias e escuridão, traumas e angústias. Eu não tenho como saber , mas nesse meio tempo eu aposto: aposto no sol que brilha, no amor que consome, nas músicas que alegram , nos sentimentos que nos salvam , nas escolhas que nos definem, e na sorte.
