Eu Trocaria a Eternidade por essa Noite
Minha Carla, o silêncio da casa à noite é o grito mais alto que eu já ouvi. Olho para o lado e vejo o espaço vazio, o eco de um riso que ainda mora nas paredes, mas que o tempo insiste em querer levar. Você é o meu cais e a minha tempestade, o lugar onde eu sempre quis ancorar meus medos. Escrevo porque o peito transborda e as mãos tremem com a falta do teu toque. O mundo lá fora é barulho, mas aqui dentro, no santuário da nossa história, só existe você. Que o sono te encontre mansa, enquanto eu sigo aqui, sendo o guarda das nossas memórias, esperando o sol nascer só para ter a chance de te amar de novo.
DeBrunoParaCarla
Durante a noite enquando dormes,
Não sei se sou eu quem habita em seus
Sonhos, mas que seja as minhas
orações feitas a Deus, que venham
zelar pelo o seu sono.
Talvez não seja eu, a quem seus olhos
Anseiam ver ao amanhecer da alvorada;
Deitado ao seu lado, com o meu
braço debaixo da sua cabeça,
Mas que seja então, o meu beijo,
Levado pela brisa da manhã,
A tocar a sua pele de pessêgo,
Para que você venha se sentir amada.
Pode não ser a minha voz a
Sussurrar em seus ouvidos,
Mas que sejam as minhas palavras,
Mesmo em silêncio, levar o seu
Coração, voltar a acreditar
Outra vez no amor.
Eu gosto mais da noite, quando não tem o barulho das cigarras. Eu lembro quando eu era pequeno e tudo era muito mais silencioso.
(Kensuke Aida)
Autor e teólogo Jalison Santos
ESCREVEU AS 12 POEMAS PARA SUA ESPOSA.
1.De noite eu busquei em minha cama
A quem a minha alma ama;
Busquei‑a, e não a achei.
2.Mas uma noite comecei sem a minha amada,
Esperei muito, mas a noite passou sem ela.
3.Comecei mais uma noite e esperei,
Quando a minha amada chegou, eu a busquei
E ainda não a achei — A quem a minha alma ama.
4.Onde está a minha amada,
A quem a minha alma ama?
5.Pensei até que a minha amada já estivesse comigo,
Procurei no meu leito e não a encontrei.
6.Depois esperei que ela viesse até mim,
Mas não apareceu; a noite ia passando,
E no meu coração eu esperava o milagre dela chegar,
Mas ela ainda não apareceu.
7.Onde você está, minha flor?
Onde está a flor do jardim do meu coração,
A minha doçura?
8.Eu sinto que em breve eu encontrarei a minha amada;
então abraço os pés e o meu coração se abre para ela,
e eu digo: “Você é a quem a minha alma ama”.
9.O que é tão doce quanto estar ao seu lado?
10.E assim, finalmente, encontro a minha amada,
fico com ela e não a deixo mais partir.
11.Eu sinto: quando a minha amada chega,
o meu coração bate mais forte,
pois sei que ela está ao meu lado.
12.Às vezes parece que você passa
lá no fundo do meu olhar…
A noite cultiva jardins de pequenos remorsos. Cada um deles é uma flor que não se abre. Eu passo os dedos e sinto pó de saudade. Há um perfume que lembra promessas quebradas. E continuo a regar o que não floresce apenas por costume.
No silêncio da noite eu me encontrei
Entre pedaços de mim que escondi
Tantas dores, tantos medos guardei
Mas a minha alma insistiu em florir
Meu peito chora, meu peito canta
Entre feridas eu tento me achar
Tem dias que a vida pesa tanto
Mas ainda existe luz pra me guiar
Helaine machado
Tantas Coisas
Mais uma noite,
e eu querendo dormir,
querendo acordar,
querendo fugir,
querendo dançar.
São tantos desejos
morando no mesmo peito,
tantas vontades
brigando pelo mesmo desejo.
E, ao mesmo tempo,
é o tempo...
que nunca parece suficiente
para tanta coisa
que insiste em viver dentro de mim.
Você é minha razão e eu amo você seja dia, ou seja, noite me desperta meu querer, delírio e inspirações acompanham meu coração fazendo-me justo com os sentimentos ensandecido em uma louca paixão.
Meu farol são teus olhos e meu caminho é teu coração você é meu refugio com coragem que me liberta da solidão.
Encho meu coração de alegria em te ver, desejo repentino. Só penso em você, pois não vivo sem teu amor quero conquistar o seu querer.
Boa noite luz que ilumina o meu caminho, você me traz sentimentos que nem mesmo eu conhecia;
Que nem mesmo o meu coração sabia... Mas além de não saber, também acredita que estarás segura em seus sonhos;
Por que ninguém pode sonhar nossos sonhos e ninguém pode viver os nossos sentimentos;
Boa noite, meu amor 🌙
Antes de você dormir, quero lembrar o quanto eu te amo e o quanto você é especial para mim. Sou muito grato por ter você na minha vida. Mesmo quando estamos longe, você está sempre nos meus pensamentos e no meu coração.
Espero que esta noite seja tranquila e que Deus envie os Seus anjos para proteger o seu sono, renovar as suas forças e encher o seu coração de paz. Que amanhã seja um novo dia de alegrias, conquistas e muitas bênçãos.
Nunca se esqueça de que você é muito importante para mim. Estarei sempre ao seu lado, apoiando você, torcendo pela sua felicidade e cuidando do nosso amor com todo o carinho. Meu desejo é continuar construindo uma linda história ao seu lado, com respeito, confiança e muito amor.
Durma bem, meu amor. Tenha lindos sonhos e acorde com um lindo sorriso. Que Deus abençoe você hoje, amanhã e sempre.
Boa noite! Eu te amo infinitamente. Que Deus cuide de você e do nosso amor. ❤️🌙🙏
“Eu me lembro de uma noite em que morri e, na manhã seguinte, levantei, tomei banho, me vesti e segui com a minha vida.”
Outra vez é noite alta
é madrugada
Eu acordo do nada
ou de um sonho ruim
Eu procuro
com os olhos no escuro
O meu velho fantasma
que em criança me fazia medo
Num tempo em que sonho
era sempre algo bom
e que eu tinha tanta vontade
de sair pra rua e viver a tudo que eu vivi
Eu queria tanto acordar
quando já fosse dia
Perguntar pra minha velha assombração
aquele medo bobo, que me protegia
De criança que chora por alguma falta
Não sentia essa falta de ar, que eu sinto agora
Qual era a tua sensação
Por que foi que sumiu
Que segredo guardava sobre mim
e de onde vinha o cheiro de hortelã
Combinado à brancura das vestes
Só restaram perguntas
A fazer pra quem me guardava
e nunca mais voltou
Num tempo em que eu me deitava
E, sem medo nenhum dessa vida
Eu dormia até a próxima manhã.
Edson Ricardo Paiva.
Era somente o silêncio
De um tempo que se foi
Era noite
Todo mundo queria
E um dia eu também quis
Amanhecer distante dali
Porque pensei
Que poderia voltar lá
A qualquer instante
Percebia em meus ouvidos
O ruido mágico e único
Na paz do silêncio
Que de longe vem
Naquele mágico momento
Que o silêncio a tudo diz
E tudo faz sentido
Era o encanto do não saber
Que a brisa a soprar lá fora
Depois de ir embora, não volta
Era um pensar inocente
Que tudo aquilo nos pertencia
Era da gente
O silêncio em silêncio ficou
Pediu ao tempo que dissesse
Que a vida ao redor
Tem vontade própria
E nos convida a viver
Mas o viver da vida
Obedece
À sua própria vontade
E não a nossa.
Edson Ricardo Paiva.
"Se o anjo dissesse: ao deixar o Céu você vai trabalhar dia e noite para a pobreza, eu teria esperado por outro casal mais responsável."
O olhar dela anda comigo dia e noite,
sem eu vê-la,
sem eu conhecê-la.
Não tem rosto completo,
não tem história contada,
mas pesa como quem ficou.
É presença sem encontro,
companhia muda,
sombra que não larga.
Ela caminha nos meus passos,
vigia meus silêncios,
habita o que não aconteceu.
E mesmo sem ter existido de fato,
ela existe em mim.
Eu tenho uma amiga que coleciona amanheceres,
mesmo quando a noite insiste em não partir.
Ela costura esperança entre os próprios afazeres,
como quem aprendeu, na dor, a resistir.
Tem o coração maior que o próprio medo,
e um sorriso que desarma qualquer solidão.
Faz do silêncio um abrigo, do afeto um segredo,
e transforma tempestades em canção.
Se um dia o mundo esquecer de ser bonito,
ela ainda encontrará beleza pelo caminho.
Porque há pessoas que são luz sem fazer alarde,
dessas que iluminam a vida, devagarinho.
E, no fim, descubro sem nenhum engano:
ter uma amiga assim... já é um presente raro.
*Era outra noite no pub*
Eu ainda estava procurando um lugar que parecesse menos falso que os outros. Não necessariamente um lugar bonito. Beleza demais sempre me deixou desconfiado. Eu queria apenas um lugar onde ninguém precisasse fingir tanto.
Ela era uma das inúmeras profissionais que frequentavam o escritório. Já havíamos conversado algumas vezes. Coisas de trabalho. Horários. Processos. Café ruim. Aquele tipo de conversa que mantém duas pessoas civilizadas e completamente desconhecidas.
Naquela noite resolvemos sair.
Conhecer um pub.
Talvez conhecer um ao outro.
O segundo sempre dá mais trabalho.
Sentamos, pedimos alguma coisa e começamos pelo roteiro habitual dos primeiros encontros. Trabalho. Filmes. Música. Viagens. Relacionamentos. Pequenas biografias cuidadosamente editadas para não assustar ninguém.
As pessoas fazem isso.
Entregam uma versão resumida de si mesmas.
Como se fossem currículos emocionais.
Depois de algum tempo, a conversa cansou de ser educada.
Foi quando ela começou a falar de coisas que não cabiam no escritório.
Disse que crescera sentindo a falta de amor do pai. Não a falta física. A outra. A pior. Aquela em que o sujeito está presente, respira na mesma casa, ocupa a mesma cadeira e ainda assim parece ter feito um acordo com a própria ausência.
Depois veio o casamento.
Falido desde o começo.
Algumas relações não terminam. Apenas continuam mortas por falta de coragem dos vivos.
E havia o relacionamento mais recente.
Abuso emocional.
Ela não precisou usar muitas palavras.
Certas coisas aparecem no jeito como alguém segura o copo.
No intervalo antes de responder.
Na maneira de rir quando conta alguma coisa que ainda dói.
Eu ouvi.
Não porque soubesse o que dizer.
Eu quase nunca sei.
Também não acredito nessa obrigação moderna de oferecer uma frase bonita para cada ferida. Às vezes a melhor coisa que alguém pode fazer é não transformar a dor do outro em palestra.
Então fiquei ali.
Ouvindo.
Ao redor, o pub fazia seu trabalho habitual.
Gente bebendo para esquecer que precisava voltar para casa.
Casais se olhando como quem verifica se ainda existe alguma coisa ali.
Homens falando alto para parecerem importantes.
Mulheres rindo de coisas que provavelmente não tinham graça.
Garçons carregando copos.
Garrafas alinhadas.
Luzes baixas.
Música suficiente para impedir que o silêncio dissesse alguma coisa.
Era um lugar razoavelmente decadente.
Gostei.
A decadência, pelo menos, não costuma mentir.
Observei os rostos.
Todo mundo parecia estar tentando parecer alguma coisa.
Feliz.
Interessante.
Desejável.
Bem resolvido.
As imagens estavam por toda parte.
Nas paredes.
Nos copos.
Nas roupas.
Nas fotografias.
Nos telefones sobre as mesas.
Cada um carregava uma pequena propaganda de si mesmo.
Era curioso.
A espécie humana inventou espelhos e depois passou a acreditar neles.
Talvez seja por isso que eu goste tanto de observar pessoas quando elas não sabem que estão sendo observadas.
É quando a propaganda falha.
É quando aparece o sujeito.
Ou o que restou dele.
Ela continuou falando.
Eu continuei ouvindo.
Em algum momento percebi que aquela noite já não era sobre conhecer um pub.
Era sobre conhecer alguém além da pele.
E isso é perigoso.
A pele é uma excelente embalagem.
Esconde defeitos.
Esconde medos.
Esconde abandono.
Esconde pais ausentes.
Casamentos mortos.
Relacionamentos que transformaram carinho em controle.
Esconde quase tudo.
Até que alguém decide falar.
Então a embalagem começa a rasgar.
E você descobre que ninguém é exatamente aquilo que parece.
Nem eu.
Posso parecer um humano,
mas no fundo sou apenas notas inexoráveis,
hinos desconcertantes ao nascer do sol e muito silêncio
uma noção boba
um suspiro
uma emoção arrogante
eternidade em cativeiro, perpetuação irrepreensível
curvas, não uma única linha reta
uma contradição
uma contração tola, mas necessária
uma abstração
uma piada interna
uma risadinha sóbria
um enigma.
Talvez todos sejamos.
A diferença é que alguns aprenderam a esconder melhor.
Eu não tenho muita paciência para isso.
Nunca tive.
Talvez porque, depois de certa idade, você perceba que passar a vida inteira construindo uma imagem de si mesmo é uma maneira bastante sofisticada de morrer antes da hora.
Você começa tentando ser alguém.
Depois tenta parecer alguém.
Depois passa a defender essa aparência.
E, quando percebe, já não sabe mais onde termina o personagem e começa o sujeito.
Ela falava sobre o passado.
Eu pensava no meu.
Não havia muita diferença entre nós nesse ponto.
As histórias mudam.
A falta permanece.
Cada pessoa encontra uma maneira diferente de carregar aquilo que não recebeu.
Alguns bebem.
Alguns trabalham demais.
Alguns colecionam amantes.
Alguns colecionam dinheiro.
Alguns colecionam diplomas.
Alguns fazem discursos sobre felicidade.
Outros simplesmente ficam quietos.
Eu prefiro o silêncio.
Ele pelo menos não exige explicação.
Ficamos ali por algumas horas.
Duas pessoas tentando descobrir se havia alguma coisa além das apresentações.
Talvez houvesse.
Talvez não.
Não importa tanto.
Há encontros que não precisam terminar em romance para terem alguma importância.
Às vezes basta alguém enxergar você por alguns minutos sem pedir que você seja diferente.
Isso já é quase uma espécie de milagre.
Mas eu desconfio de milagres.
Eles costumam cobrar juros.
Quando saímos do pub, a noite continuava exatamente como antes.
A cidade não tinha aprendido nada.
As pessoas também não.
Os carros passavam.
As luzes continuavam acesas.
Alguém ria do outro lado da rua.
Alguém provavelmente chorava em algum apartamento.
Alguém estava começando um casamento.
Outro estava terminando.
Alguém dizia “eu te amo” sem saber o que aquilo significava.
Outro dizia “vai ficar tudo bem” sabendo perfeitamente que não ficaria.
E eu pensei que talvez essa fosse a grande piada.
A gente passa a vida procurando uma linha reta.
Não existe.
Existem curvas.
Desvios.
Contrações.
Recaídas.
Pequenos momentos de lucidez entre longos períodos de estupidez.
E, no meio disso tudo, chamamos a coisa de vida.
Talvez seja isso.
Uma contradição tentando respirar.
Uma emoção arrogante fingindo ter respostas.
Uma abstração andando por aí com documentos, contas, lembranças e alguma esperança mal escondida no bolso.
Uma piada interna que ninguém explicou.
Uma risadinha sóbria diante do absurdo.
Um enigma.
E talvez a parte mais amarga seja descobrir que não existe solução.
Só continuação.
A eternidade em cativeiro.
A perpetuação irrepreensível.
Você acorda.
Trabalha.
Ama mal.
É amado mal.
Perdoa quando consegue.
Machuca quando não consegue.
Bebe alguma coisa.
Escuta alguém contar uma história.
Conta a sua.
E segue.
Não porque encontrou sentido.
Mas porque, por alguma razão estúpida, ainda não acabou.
Talvez sejamos apenas isso.
Notas inexoráveis.
Alguns acordes desconcertantes ao nascer do sol.
Muito silêncio.
E uma vontade quase ridícula de continuar, mesmo sabendo que, no fim, ninguém saberá exatamente o que fomos.
Talvez nem nós.
E é aí que começa o verdadeiro problema.
Quando você finalmente fica sozinho, sem o pub, sem as imagens, sem os outros, sem a roupa social, sem a profissão, sem a história que conta sobre si mesmo, sem ninguém para confirmar que você existe...
quem sobra?
Talvez aquele seja o único encontro que realmente importa.
O resto é apenas barulho.
E talvez eu ainda esteja procurando um pub onde possa me encontrar.
antes de mim.
Naquela noite eu recebi uma ligação de um número que não existia.
Não era número privado. Não era desconhecido.
Simplesmente não existia.
Ainda assim, atendi.
- Alô?
Do outro lado, silêncio.
Depois uma voz.
A minha.
- Não vá dormir hoje.
Eu ri.
Não porque fosse engraçado. Ri porque algumas coisas assustam menos quando a gente finge que são ridículas.
- Quem é?
- Você.
- Isso não tem graça.
- Eu sei.
A ligação caiu.
Fiquei olhando para o telefone por alguns segundos, esperando alguma explicação aparecer na tela. Nada.
Joguei o celular na cama e tentei esquecer.
Cinco minutos depois, bateram na porta.
Três batidas.
Sempre três.
Levantei.
Não havia ninguém.
Só um envelope no chão.
Meu nome estava escrito à mão.
Dentro havia uma foto.
Era uma foto minha dormindo.
No verso, uma frase:
“Você tem oito horas.”
Eu deveria ter chamado alguém.
Não chamei.
Talvez porque, no fundo, uma parte de mim já soubesse que aquilo não tinha começado naquela noite.
Passei a madrugada tentando encontrar uma explicação.
Procurei a origem do número.
Nada.
Revirei mensagens antigas.
Nada.
Olhei as câmeras.
Às 02:13, alguém entrou.
Era eu.
A mesma roupa que eu estava usando.
O mesmo rosto.
A mesma cicatriz pequena perto da sobrancelha.
Eu parei o vídeo.
Voltei.
Assisti de novo.
Eu entrava em casa às 02:13.
Mas eu estava em casa.
Sentado na frente daquela tela.
O vídeo continuava.
Eu aparecia no corredor.
Parava diante da minha porta.
Olhava diretamente para a câmera.
E sorria.
Depois levantava a mão.
Três batidas.
A gravação terminava.
Eu olhei para a minha porta.
Três batidas vieram do outro lado.
Não abri.
Às 05:40, alguém bateu novamente.
Dessa vez, uma mulher falou meu nome.
Eu conhecia aquela voz.
Era impossível.
Ela tinha morrido há seis meses.
Fiquei parado no meio da sala.
Ela disse:
- Você prometeu que não faria isso de novo.
Não respondi.
- Eu sei que você está aí.
Meu corpo inteiro ficou frio.
- O que eu fiz?
Silêncio.
Depois:
- Ainda não fez.
Às 06:15, recebi outra mensagem.
Uma localização.
Um endereço que eu não reconhecia.
Abaixo, apenas:
“Se quiser saber por que todos estão tentando impedir você, venha sozinho.”
Fui.
Não sei por quê.
Talvez porque algumas perguntas sejam mais perigosas quando ficam sem resposta.
O lugar era uma casa abandonada.
Entrei.
Havia fotos nas paredes.
Centenas.
Todas minhas.
Eu criança.
Eu adolescente.
Eu adulto.
Eu dormindo.
Eu chorando.
Eu dirigindo.
Eu trabalhando.
Eu abraçando pessoas.
Eu terminando relacionamentos.
Eu sozinho.
E então encontrei uma foto que me fez parar.
Era eu, sentado naquela mesma casa.
Com cinquenta e poucos anos.
Ao meu lado havia uma mulher.
Não reconheci.
Atrás da foto estava escrito:
“Primeira tentativa.”
Outra foto.
Eu, mais velho.
Sozinho.
“Segunda tentativa.”
Outra.
Eu sorrindo.
Uma família ao meu redor.
“Terceira tentativa.”
E então uma última.
Eu, exatamente como estava naquela manhã.
Abaixo:
“Quarta tentativa.”
Foi quando ouvi passos.
Virei.
Um homem entrou.
Eu conhecia aquele rosto.
Era o homem do vídeo.
Era eu.
Só que mais velho.
Muito mais velho.
Ele fechou a porta.
- Finalmente.
- O que está acontecendo?
Ele sentou.
- Você vai me odiar.
- Quem é você?
Ele respirou fundo.
- Sou a única versão sua que conseguiu chegar até aqui.
- Até onde?
Ele olhou para o relógio.
06:59.
- Até antes da escolha.
Ele explicou tudo como se estivesse contando uma história que já tinha contado muitas vezes.
Disse que aquela noite acontecia repetidamente.
Sempre.
Eu recebia a ligação.
Recebia a foto.
Via as câmeras.
Ia até aquela casa.
Encontrava ele.
E então precisava escolher.
Existiam quatro possibilidades.
Em uma, eu permanecia exatamente como era.
Em outra, mudava tudo.
Na terceira, esquecia completamente aquela noite.
Na quarta...
Ele parou.
- Na quarta, você me mata.
Eu ri.
- Por que eu faria isso?
Ele olhou para mim.
- Porque eu sou a única coisa impedindo você de ter a vida que quer.
- Que vida?
Ele não respondeu.
Foi até uma parede.
Havia uma porta.
Uma porta que eu não tinha visto antes.
Ele colocou a mão na maçaneta.
- Você precisa escolher antes das oito.
- E se eu não escolher?
- Já escolheu.
- O quê?
Ele abriu a porta.
Do outro lado havia meu quarto.
O meu quarto.
Exatamente como estava naquela noite.
Minha cama.
Meu celular.
A janela.
O envelope.
Tudo.
Eu entrei.
Na cama havia alguém dormindo.
Eu.
Ele estava dormindo profundamente.
O homem mais velho apareceu atrás de mim.
- Essa é a primeira vez.
- Primeira vez o quê?
- A primeira vez que você conseguiu chegar até aqui sem lembrar.
Olhei para o homem na cama.
- Então quem é ele?
O velho ficou em silêncio.
- Você.
- Não.
- Sim.
- Mas eu estou aqui.
Ele sorriu.
- Esse é o problema.
O relógio marcou 07:59.
Uma sirene começou a tocar em algum lugar distante.
Eu olhei novamente para a cama.
O homem dormindo abriu os olhos.
Sentou.
Olhou diretamente para mim.
E falou:
- Não vá dormir hoje.
Eu senti o sangue desaparecer do rosto.
Era a mesma frase.
A mesma voz.
A minha voz.
O velho começou a chorar.
- Não...
- O quê?
- Dessa vez foi diferente.
- O que foi diferente?
Ele apontou para mim.
- Você nunca deveria ter me visto.
A luz apagou.
Por alguns segundos, não existiu absolutamente nada.
Então ouvi uma porta fechando.
Quando a luz voltou, o velho tinha desaparecido.
A casa estava vazia.
As fotos haviam sumido.
A porta também.
Só havia uma coisa sobre a mesa.
Meu celular.
Ele estava tocando.
Olhei para a tela.
Era uma chamada recebida.
O número não existia.
Atendi.
Do outro lado, silêncio.
Depois uma voz:
- Alô?
Era minha voz.
Mas dessa vez eu não falei nada.
A voz continuou:
- Quem é?
Eu reconheci a frase.
Era exatamente o que eu havia dito naquela noite.
Então percebi.
A história não estava se repetindo.
Eu estava dentro dela.
Eu não tinha recebido uma ligação do futuro.
Eu estava ligando para o passado.
E o homem que eu havia encontrado não era uma versão futura minha.
Era a versão que existia antes de mim.
A quarta tentativa.
A terceira.
A segunda.
A primeira.
Todas as vidas.
Todas as mortes.
Todos aqueles homens.
Não eram versões diferentes.
Eram pessoas diferentes que tinham recebido a mesma ligação.
Todas achando que eram eu.
Todas tentando descobrir quem começou aquilo.
Todas chegando àquela mesma casa.
Todas encontrando alguém mais velho esperando por elas.
Até que uma delas finalmente entendesse.
Não havia nenhum primeiro homem.
Não havia começo.
Só havia o próximo.
A ligação continuava.
Eu poderia desligar.
Poderia falar.
Poderia perguntar.
Mas alguma coisa me impediu.
Então fiz a única coisa que ainda não tinha feito.
Olhei para o relógio.
08:00.
E disse:
- Não vá dormir hoje.
A ligação caiu.
Fiquei parado.
Esperando.
Três batidas vieram da porta.
Eu não me mexi.
Mais três.
Depois ouvi minha própria voz do outro lado:
- Quem é?
Eu olhei para a porta.
E, pela primeira vez, entendi o que estava acontecendo.
Não havia alguém tentando entrar.
Havia alguém tentando sair.
E eu não sabia mais de qual lado da porta estava.
Fim.
Ou talvez só mais uma tentativa.
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