Eu sou uma Pessoa Timida
A moralidade moderna consiste em aceitar o modelo da própria época. Considero que uma forma da mais grosseira imoralidade é o facto de qualquer homem de cultura aceitar o modelo da sua época
Ela sorriu, então um dos cantos da boca ergueu-se fazendo subir também uma das sobrancelhas, enquanto o olho quase fechava, embora brilhasse mais intenso assim, por entre as pálpebras meio inchadas, quase invisível. Tinha um pouco de criança quando sorria desse jeito. E de demônio. Demônio astuto, pensou.
A angústia invade quer o inquieto, exclusivamente deslumbrado por aquilo que arde com uma luz vaga, quer o poeta cheio de amor pelos poemas que nunca escreveu o seu, quer a mulher apaixonada pelo amor, mas incapaz de devir por não saber escolher.
Mas é tempo de tornar aquela tarde de novembro, uma tarde clara e fresca, sossegada como a nossa casa.
Resisti à tentação de dizer que não, subiria também, não podia passar mais uma noite longa dela. Tentação de abraçá-la, esquecer tudo que havia passado, subir também. Mas alguma coisa me dizia que o meu lugar era embaixo, que eu era apenas uma testemunha, um espectador, o lado passivo do seu mistério.
Se você é bonito, pode ter um cérebro do tamanho de uma ervilha. Se você não é bonito, pode não ter um cérebro de ervilha, então depende da ervilha e da beleza. Do tamanho da beleza. E do da ervilha.
Da mesma maneira, deve ser considerado despreparado para algo mais do que uma liberdade limitada e qualificada o povo que não estiver disposto a cooperar ativamente com a lei e com as autoridades públicas na repressão aos malfeitores. Um povo que está mais disposto a esconder um criminoso do que a prendê-lo; um povo que, como os hindus, comete perjúrio para salvar o homem que o roubou, ao invés de se dar ao trabalho de depor contra ele e daí extrair sua vingança; um povo que, a exemplo de algumas nações da Europa até recentemente, quando vê um homem apunhalar outro em plena rua, passa para o outro lado, porque cuidar do assunto ê tarefa da polícia, e porque é mais seguro não interferir em assuntos que não lhe dizem respeito; um povo, enfim, que se revolta por uma execução, mas que não se choca por um assassinato — esse povo precisa de autoridades agressivas, melhor armadas do que quaisquer outras, uma vez que as primeiras e indispensáveis condições para uma vida civilizada não possuem outras garantias
Deus deu a todos uma porção de sementes
das mais belas flores,
e a diferença entre aqueles que viverão num lindo jardim
e aqueles que viverão em terreno triste e seco,
muitas vezes é apenas uma coisa chamada humildade
para levar as mãos à terra para semear o chão.
As ideias são sementes e o maior favor que se pode fazer a uma semente é enterrá-la... Um homem sem amigos é uma terra sem umidade, uma manhã sem orvalho, um céu sem nuvens.
Tudo ultimamente em mim tem sido uma intensa vontade de afagar, seja com as mãos, com um olhar, com palavras que escrevo... Me desapeguei de algumas coisas para alcançar outras, alçar novos voos. Meu comprometimento é com essências, não vivo de aparências, abandonei hábitos e pessoas pelo caminho, que me deixaram mais leve, mais livre para seguir meu coração... Hoje eu vivo para afagar, vivo para amar, e amo intensamente, porque viver assim é lindo!
Esse mistério todo é uma violência contra a minha inteligência. Sejamos diretos para não sermos idiotas. Paciência é dom de amor aquietado, pobre, pela metade. Calma, raciocínio e estratégia são dons de amor que pára para racionalizar. Amor que é amor não pára, não tem intervalo, atropela.”
Viver é uma caminhada e tanto, não há essa colher de chá de se poder selecionar onde descer. É preciso passar por tudo: pelo desânimo, pela desesperança, pela sensação de fracasso e fraqueza, até que se consiga chegar a uma praça arborizada onde se iniciam outras dezenas de ruas, outras tantas passagens, e seguimos caminhando, seguimos caminhando.
No fundo - ou no limite - para ver bem uma foto mais vale erguer a cabeça ou fechar os olhos. "A condição prévia para a imagem é a visão", dizia Janouche a Kafka e Kafka sorria e respondia: "Fotografam-se coisas para expulsá-las do espírito. Minhas histórias são uma maneira de fechar os olhos". A Fotografia deve ser silenciosa (há fotos tonitruantes, não gosto delas): não se trata de uma questão de "discrição", mas de música. A subjetividade absoluta só é atingida em um estado, um esforço de silêncio (fechar os olhos é fazer a imagem falar no silêncio). A foto me toca se a retiro do seu blábláblá costumeiro: "Tecnica", "Realidade", "Reportagem", "Arte" etc.: nada a dizer, fechar os olhos, deixar o detalhe remontar sozinho à consciência afetiva.
Às vezes, uma coisa que parece muito ruim pode ter consequências inesperadamente maravilhosas, acredita? É igualmente verdade dizer que nada acontece por acaso e dizer que só existe o acaso. Graça e desgraça são irmãs siamesas.
