Eu Nao tenho Culpa de estar te Amando
"O poder não corrompe. Ele apenas revela quem você sempre foi, mas escondia atrás da máscara da moralidade."
ENTEDIADA DO AMANHÃ
Estou prevendo o futuro
Sentada no meio-fio.
Não há um dia seguro
Em que o mar não seja rio.
Se algo me tira a previsibilidade,
Já prevejo.
O que não é-terno,
apedrejo.
Somos artes suicidas
Em um museu sem endereço.
E já não é a quem machuca,
Mas a mim que
Agradeço.
O caos me é hoje tedioso.
O que me tira paciência
Já não me trisca grandioso.
Eles dizem que tudo o que é bom
É trabalhoso.
— E concordo, realmente.
O esquecido é que
Ser trabalhoso é diferente de ser
Dificultoso.
Por isso o caos me faz sentir tão
Mera-mente.
A intensidade que tira o fôlego
Já não me encanta no refrão.
E enquanto respiro exausta
Entendo que na paz se sente melhor
A emoção.
Porque é possível entendê-la
Com clareza.
É possível ter binóculos para o que aprecia.
Porque fico entediada
Quando confundem maldade
Com braveza
Ou passividade com empatia.
Trabalhoso é o que você sabe que dá conta
E pode exigir muito, mas sempre evolui.
Dificultoso é quando você repete o esforço
E a faca aponta
Sem saber o quanto falta ou o quanto
Conclui.
Sim, não sou só eu:
Todo mundo está cansado há horas
Todos eles andaram léguas…
Todo mundo está com cataporas
De crianças que deram tréguas.
Porque criança não espera endereço
Criança pergunta ontem.
O pequeno que sempre sabe seu preço
Conta a história antes que contem.
Precisamos ser mais assim,
Quem somos em essência.
Acreditar no tim-tim por tim-tim,
Fadigar na ardência.
Estou entediada com uma bola
De cristal na frente.
Com dezesseis anos de idade
Isso seria atraente.
Mas de mãos dadas comigo
Estou prevendo o futuro
— Puxando-me do meio-fio.
Que tédio do que investigo!
Não há um dia em que o puro
Fuja do próprio
Feitio.
(Vanessa Brunt)
"Onde Cristo habita, não há espaço para o rancor ou o ódio. Sua presença é manifesta por meio do amor, da paz e da alegria."
Os seres humanos, quando intransigentes em seus pontos de vista, não aceitam aqueles outros que lhes são contrários.
África Não Se Morre
Em África, não se morre.
Não porque os corpos não tombem. Não porque os cemitérios estejam vazios. Mas porque nunca aceitamos a morte como um fim natural — aceitamos apenas como erro, injustiça ou conspiração.
Entre nós, ninguém morre simplesmente.
Se a doença vence, houve feitiço.
Se o acidente acontece, houve inveja.
Se a idade chega, houve abandono.
Se o coração para durante o sono, houve mistério.
Em África, a morte nunca é destino — é sempre julgamento.
Recusamo-nos a aceitar que a vida tem prazo. Precisamos de culpados porque admitir o destino seria reconhecer a nossa impotência diante do inevitável. Preferimos acusar o vizinho, o médico, o parente, o sistema, o invisível… qualquer coisa, menos o facto de que nascer já é começar a morrer.
Mas e se a morte não for tragédia?
E se for apenas cumprimento?
Acredito que cada existência já carrega consigo o seu ponto final. O dia, a hora, o lugar — traçados num mapa invisível. Pode-se fugir de um país, mudar de continente, esconder-se na tecnologia ou na medicina mais avançada. Se o destino escreveu Moçambique, será Moçambique. Se escreveu doença, será doença. Se escreveu silêncio durante o sono, será silêncio.
A morte não consulta opinião.
Ela não debate cultura.
Ela não negocia crenças.
Talvez o verdadeiro drama não seja morrer, mas aceitar que não temos controlo absoluto sobre o fim. E essa é a ferida do ser humano: queremos ser eternos num corpo que nasceu com data de validade.
Chamamos de feitiço o que não compreendemos.
Chamamos de injustiça o que não controlamos.
Chamamos de culpa aquilo que é condição humana.
Em África, não se morre — porque não permitimos que a morte seja apenas morte. Transformamo-la em tribunal, em mistério, em acusação.
Mas a verdade permanece nua: nascemos e morreremos. E talvez a sabedoria não esteja em procurar culpados, mas em viver com consciência de que cada respiração é provisória.
A morte é um ladrão, sim — mas não porque rouba.
É porque nos lembra que nunca fomos donos de nada.
"Se vc não fizer nada
Nada é igual à nada
Isso é um calculo simples
É um resultado simples
Aonde a prova real é vc não vê nada acontecer
Nada se move pra muito antes de um zero"
Sempre tranquilo e calmo, tia,
só a mente que não para; já que em mente vazia o diabo faz cambalhotas.
Cada ferida que se transformou em cicatriz é a prova de que a dor não venceu; gravou no coração uma história de superação.
DEDICADO A UMA OUVINTE…
A LUA é a prova de que a beleza não pede atenção, não precisa de bajulações frias e vazias.
Desde os tempos antigos, recorremos a ela quando lapsos de clareza batem a porta, frações momentâneas de euforia, desesperança, paixões, angústia, amor e ódio.
Quase sempre aparece, nós a olhamos e ela nos olha de volta, quase como que se alimentando da totalidade de nossas alegrias e tristezas.
Está sempre observando e ouvindo com muita atenção.
Todos que você ama, todos que conhece, todos que você já ouviu falar, todos que já existiram.
Cada caçador e saqueador, cada campeão e covarde, cada inventor e demolidor.
Cada rei e plebeu, cada mãe e pai, cada casal apaixonado.
Cada criança sonhadora e esperançosa.
Cada poeta, cada músico, cada dançarina, cada cozinheiro.
Cada santo e pecador.
Somos agraciados com sua beleza redundante, mesmo tão longe, porém tão perto, mesmo tão só, porém tão acolhida. Ela parte, porém sempre retorna, de um jeito ou de outro, nos céus de uma noite estrelada, ou no aconchego de nossos corações.
Ela retorna com a certeza, de que sempre vai estar aqui, até o fim…
(Se você tem uma lua na sua vida, não desperdice seu tempo com ela, divida suas dores, suas conquistas, suas paixões, seus medos e seu amor).
DEDICADO A UMA OUVINTE…
Amar alguém não significa abrir mão de si mesmo.
Porque quem abre mão da própria essência dificilmente terá capacidade de amar o outro de forma saudável.
Amar significa cuidar, respeitar, preservar e não se anular, doa o que doer.
O amor verdadeiro soma, não subtrai. Fortalece, não enfraquece.
A fome tem cheiro de vergonha. Ela não ronca na barriga, ela cospe na tua cara. É a matemática do desespero. É pesar um pacote de fralda de um lado e um pedaço de carne do outro, e perceber que o suor de trinta dias escorrendo na tua testa não te compra o direito de ser um ser humano. É devolver o leite pra prateleira, engolindo seco, torcendo pra ninguém ter visto a tua humilhação.
E quando deixamos de sonhar, de planejar, de nos importar com o amanhã… quando já não enxergamos mais a luz e tudo parece ter perdido o ânimo, o brilho e o sentido? Quando acordar pesa, respirar cansa e existir se torna um fardo silencioso? Como lutar contra as próprias sombras, contra medos que nos perseguem e traumas que nos aprisionam? Como ser aquele que vive os próprios sonhos e ainda ousa sonhar cada vez mais alto, se por dentro tudo está em ruínas? Como se sentir amado novamente, se as pessoas ao redor apenas criticam, julgam e diminuem? Como ser luz em um lugar onde todos parecem determinados a apagar a sua pequena chama? Como arrancar do rosto a máscara de um sorriso forçado, quando ele já virou armadura? Como aprender a amar, se tudo o que conheço é a dor, se nunca me ensinaram o que é amor, porque, no fundo, eu nunca me senti verdadeiramente amado?
