poeticos
ENTEDIADA DO AMANHÃ
Estou prevendo o futuro
Sentada no meio-fio.
Não há um dia seguro
Em que o mar não seja rio.
Se algo me tira a previsibilidade,
Já prevejo.
O que não é-terno,
apedrejo.
Somos artes suicidas
Em um museu sem endereço.
E já não é a quem machuca,
Mas a mim que
Agradeço.
O caos me é hoje tedioso.
O que me tira paciência
Já não me trisca grandioso.
Eles dizem que tudo o que é bom
É trabalhoso.
— E concordo, realmente.
O esquecido é que
Ser trabalhoso é diferente de ser
Dificultoso.
Por isso o caos me faz sentir tão
Mera-mente.
A intensidade que tira o fôlego
Já não me encanta no refrão.
E enquanto respiro exausta
Entendo que na paz se sente melhor
A emoção.
Porque é possível entendê-la
Com clareza.
É possível ter binóculos para o que aprecia.
Porque fico entediada
Quando confundem maldade
Com braveza
Ou passividade com empatia.
Trabalhoso é o que você sabe que dá conta
E pode exigir muito, mas sempre evolui.
Dificultoso é quando você repete o esforço
E a faca aponta
Sem saber o quanto falta ou o quanto
Conclui.
Sim, não sou só eu:
Todo mundo está cansado há horas
Todos eles andaram léguas…
Todo mundo está com cataporas
De crianças que deram tréguas.
Porque criança não espera endereço
Criança pergunta ontem.
O pequeno que sempre sabe seu preço
Conta a história antes que contem.
Precisamos ser mais assim,
Quem somos em essência.
Acreditar no tim-tim por tim-tim,
Fadigar na ardência.
Estou entediada com uma bola
De cristal na frente.
Com dezesseis anos de idade
Isso seria atraente.
Mas de mãos dadas comigo
Estou prevendo o futuro
— Puxando-me do meio-fio.
Que tédio do que investigo!
Não há um dia em que o puro
Fuja do próprio
Feitio.
(Vanessa Brunt)
Depois, dê pois.
Uma vida bem vivida é uma que sabe que liberdade é sobre legado.
E legado é sobre caráter.
Caráter não é sobre a cicatriz.
É sobre o que se faz depois dela.
(Vanessa Brunt)
NAS PASSAGENS
Você saberia hora de retornar se todo mundo for pr'outro lugar?
Quando todos olham, refutam a visão, você saberia manter posição?
Na cartada da manga, no pé do assoalho, você saberia o que faz agasalho?
Talvez não seja nem a hora de voltar.
Você saberia passar frio para passar?
Você saberia antes de saber?
Nem todo mundo sabe.
Pode ser?
Ao escovar a trança do autoconhecimento, seja dor ou seja cura, mas nunca contentamento.
Veja a hora, seja dura, só assim que há cimento.
Veja agora o que perdura e não é coisa de momento.
Porque você sabe quando já é hora.
Você não sorriria quando a bochecha cora?
E no dia de ir, no tanto que se esquece, você sabe agradecer (somente) a quem permanece?
Na constância, (r)exista.
O contrário não existe.
Ser feliz é ser verdade antes de ser alegre ou triste.
VANESSA BRUNT
A-COR-DAR MÃE
Meu renascimento.
Minha tatuagem.
Meu ressarcimento.
Minha ancoragem.
Meu porquê quando não.
Meu pulsor quando sim.
Quando falta-me chão,
meu céu, meu jardim.
Minha hora, oração.
Meu então, querubim.
Minha farta visão
quando cega de mim.
Filha, pedaço,
tempo sem fim,
que é feito de (a)braço,
inteiro e assim.
Na razão-emoção,
quando sim-salabim,
uma nova missão,
fazer casa em cupim.
E na vez de ser sorte
— o lembrete a florir,
é preparo, antevência,
para azar nem tossir.
Que é lugar não de espera,
mas de ser o meu manto,
entender primavera
enquanto adianto.
Minha marca diária,
meu pano que pinga,
a limpeza sumária,
uma sola que vinga.
É pedra com rosa,
é passagem sem rito,
é poema com prosa,
é lição por escrito.
É joelho exposto,
amor-tecer no atrito,
e no pressuposto
aumentar gabarito.
Meu renascimento.
Minha tatuagem.
Meu ressarcimento.
Minha ancoragem.
Enxergar menos beleza
onde não fica (e)vidente.
Quando faltam-me flores,
meu pedaço, semente.
Minha hora, oração.
Meu então, querubim.
Eis assim salvação,
Meu resgate de mim.
(Vanessa Brunt)
