Eu e Voce de Luiz Antonio Gasparetto
É inútil esperar soluções tentando conciliar o inconciliável , dividir o indivisível e fazendo omelete sem quebrar os ovos. Enquanto não houver humildade para trocar o que se quer pelo que se pode, não se chegará a milagre algum: a vida vai continuar mandando a conta e batendo nos pedestais até transformar em cacos as orgulhosas figuras posicionadas sobre eles.
Ainda que não sendo fácil aceitá-lo, a receita para a harmonização interna permanece inalterável: Não queiras mais do que precisas, nem pede além se já tens o necessário. Dá aos outros o que podes e não sofre com o que não podes. Dá a ti mesmo as soluções para o que surge e oferece-as aos outros com a consciência dos teus limites. E caso para eles não seja o bastante, busca auxílio no limite do indispensável.
O maior desejo? Nunca parar de pensar. E bem mais do que isso, partir do pensamento para a ação, perceber que continua errando e não desistir de tentar, sair da filosofia para a concretude da vida. Por mais que enxerguemos as coisas da forma correta, o pensamento ainda não é o bastante para levar o bem às pessoas, nem tornar o mundo minimamente melhor caso não se converta em atitudes e passos firmes na direção certa.
A negação do imponderável, apenas por desconhecê-lo, é própria de quem se retira da platéia aos cinco minutos do início do filme e propaga aos que estão comprando o ingresso que não o viu porque ele não presta.
Nada mais libertador do que ser protagonista da própria série, em vez de coadjuvante de tragicomédias de temporada permanente. Há que se saber a hora de abandonar os palcos mambembes, os enredos trágicos de sorrisos forçados onde personagens congelados encenam dramas que se repetem em moto-contínuo. A vida real só atinge sua plenitude quando descemos do palco.
O grande equívoco da humanidade diante do que desconhece é permanecer esperando pela resposta quando, em vez disso, deveria estar concentrada em se fazer a próxima pergunta.
O que pode nos acontecer de pior não é morrer antes de chegar aos 100 anos. O pior mesmo é atravessar um século inteiro e não aprender nada com isso.
Só se pode saber o quanto a solitude pode ser rica e plena após experimentar o convívio com os que têm muito menos do que o tanto mantido em nosso intimo para ser saboreado.
Um dos maiores enigmas do comportamento humano é entender porque muitos permanecem carentes e inseguros ainda que rodeados por pessoas e mergulhados nas muitas coisas que acumulam sem cessar. A resposta é que vêm desde sempre de uma solidão coletiva e das tantas posses sem significado, permanecendo em busca de cura para o incurável e suprimento que universo algum poderá suprir, já que o vazio se faz por dentro e não por fora.
O direito chama de “inimputáveis” aquelas pessoas que perdem a capacidade de fazer escolhas. Mas entende que quando se mostrarem lúcidas o bastante para fazê-las, devam ser igualmente responsáveis pelos resultados delas e tratadas em condição de igualdade com qualquer indivíduo no pleno exercício de seus direitos e deveres. Não lhes cabe, portanto, reclamar os bônus e se eximirem dos ônus por suas inconsequências.
Existe uma tendência para se confundir idade com grau de consciência, ignorando-se o fato de que tanto há jovens irresponsáveis ou concientes quando idosos responsáveis ou inconsequentes no pleno uso de suas faculdades. O que não se pode é tratar todo jovem como sujeito de deveres e todo idoso como passível apenas de direitos, quando ambos sabem o que estão fazendo e devam assumir as consequências na mesma proporção, isso sem contar o agravante da experiência.
O universo é tão infinito em sua complexidade que se torna extremamente simplório limitá-lo aos referenciais conhecidos ou restringi-lo ao palpável e visível, como tudo o que se afasta disso devesse ser relegado à área do impossível e do irreal;
Diante da parte imensurável que não se conhece, o inexplorado pode ser no máximo improvável - algo do que meramente ainda não se obteve as provas - o que não é a mesma coisa que "inexistente".
Em se tratando do incerto e do inusitado, a dúvida se apresenta como única alternativa inteligente. Reduzir-se toda a existência à microscópica dimensão cognitiva de nossa ciência não revela apenas excesso de pretensão: passa atestado de ignorância travestida de sapiência.
Conhecem a “síndrome da auto-reversão”, que costuma acometer os complexados? Sempre que presenciam um elogio feito a alguém, de imediato reagirão de forma agressiva como se uma ofensa tivesse sido dirigida a eles. A completa ausência de auto-estima de que são possuidores os induz a raciocinar por exclusão. Dessa forma, uma referência à inteligência de alguém, por exemplo, é o mesmo que dizer que todos os demais – incluindo ele – são burros.
Demonstrar respeito aos outros não é uma escolha, mas obrigação devida a todo indivíduo enquanto pessoa. Ninguém pode estar sujeito àquela falta de respeito que o exponha ou inferiorize, isso é fato. Mas há um outro tipo de respeito que nos brota na essência, queiramos ou não, e não se consegue oferecer gratuitamente quando o outro revela não dá-lo a si mesmo. Resta-nos, nesse caso, dedicar o obrigatório a todos, porquanto seres humanos, mas não desperdiçar aquele de caráter íntimo com quem inequivocamente não dá qualquer importância ao ato DE SE FAZER respeitar.
É comum se ver pais com dificuldade de entender que seu papel enquanto educador prático e teórico dos filhos é encerrado no momento em que estes atinjam o estágio de autocondução. A partir desse momento a atribuição é transferida à vida, e por mais que discordem das posições dos filhos cabe-lhes tão comente aceitar, nunca interferir. Entre pessoas adultas a abordagem correta é a do respeito, e a educação – caso tenha continuidade – será pelo exemplo, e não pela ação.
Passar pela existência não é o mesmo que evoluir. Este segundo conceito acontece quando trocamos a pergunta "O que vou fazer?" por algo como "Por que o estou fazendo?" e, ato contínuo, definimos prioridades para o próximo momento e retemos do passado apenas o que deu bons frutos.
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