Eu e Voce de Luiz Antonio Gasparetto
Ao retomar as rédeas dos meus espaços concentrei-me naqueles ritos que as pessoas cumprem religiosamente sem nunca se perguntar por que – senão aumentar-lhes o tempo envolvido em coisas inúteis e sem qualquer efeito prático – de forma a simplifica-las ou suprimi-las pelo parâmetro puro e simples da qualidade de vida. Com pessoas por perto, porém, agia exatamente como todas agem, pois toda burrice que se melhore apenas porque ninguém pensou nisso acaba virando esquisitice, excentricidade ou loucura para os verdadeiros idiotas.
Nem sempre me sinto absolutamente seguro em relação ao que quero, mas no que diz respeito ao que não quero jamais me perpassa o mais leve traço de dúvida.
Perdi anos de minha vida sofrendo com as idiotices que todo mundo dizia que precisava fazer para não ser tido como doido, até descobrir quão prazeroso pode ser fazê-las apenas com gente perto para que todos continuem pensando que eu sou normal.
Toda unanimidade não é apenas burra: quem a integra acredita disfarçar sua burrice pelo uso de uma suposta verdade coletiva que geralmente nada tem de inteligente! A rigor, é provável que todas as peças que compõem o todo, se somadas, não alcancem a inteligência de um único jumento!
Reúno incontáveis defeitos e ainda cometo muitos erros, mas falta de caráter e de humildade para reconhecê-los não é um deles.
É direito de todo indivíduo levantar a bandeira que quiser, como também é direito de outros recusarem-se a compartilhar trincheiras pelo simples fato de, pelo menos em tese, possuírem interesses comuns. Ninguém pode ser forçado a ocupar lugar na trincheira de outrem por ter voz como pessoa pública, possuir representatividade, ou ser formador de opinião apenas porque alguém quer reforçar a própria trincheira valendo-se de tal notoriedade, e acha que seu direito de cobrar posicionamentos é maior que o do outro de fazer suas próprias escolhas. Militância é uma decisão pessoal, e dar-lhe tratamento de obrigação é totalmente equivocado, pois que contraria o princípio da igualdade de direitos.
O bom senso nos diz que o ceticismo tem um limite, e este vai até o ponto em que a lógica não o contradiga. A negação pura e simples, a partir desse ponto, se contrapõe não apenas à lógica, mas às fronteiras aceitáveis da inteligência.
A aparente inexistência de vinculo com um crime não significa exatamente “falta de provas”, mas apenas que o criminoso pode ter sido esperto o bastante para apagar todos os seus rastros. E é quando o acusador devera se mostrar mais cientista que juiz para focar no “horizonte de eventos”, que afasta qualquer hipótese de não vinculação.
O vicio dos elementos acusatórios só ocorre quando o juiz forja um horizonte de eventos, que sabe ser inexistente, para retirar do réu as possibilidades de provar sua inocência.
Todo buscador incansável e libertário costuma ser visto como ameaça incômoda e permanente aos que têm coisas a esconder e o têm como intruso, sem atentar que este visa obter vantagens e o primeiro o faz para entender a si próprio a partir de seu contexto.
Pessoas que julgam outras sem sequer lhes entender as razões vivem atormentadas com o passado, em permanente defensiva no presente e em falsa ameaça no futuro.
Aqueles que não aprenderam a lidar com o passado arrastam seus traumas por toda uma existência, comportando-se como feras acuadas que precisam atacar antes para não enfrentar supostas ameaças que só existem em suas cabeças.
A melhor das suas intenções não diz coisa alguma para quem já está predisposto a não o aceitar. Daí que não há equívoco a corrigir nem culpa a se resgatar, já que a reação do outro só pertence a ele e não fica sob o seu controle.
Decepção é aquele sentimento dilacerante de perceber cada minuto dedicado a alguém transformado num inútil e descomunal desperdício de tempo.
Algumas pessoas acreditam que o amor, o trabalho ou até a fé podem ser razões fortes para se tornarem servis, incorporando a subserviência como meio de preservá-los. Pois eu digo a elas que se teu parceiro de vida, teu chefe ou teu deus te cobram isso, começa a pensar na solidão, no desemprego ou na agnose como uma dádiva do que tens de mais legítimo e inalienável na vida, que é o teu amor-próprio.
Não é sobre acreditar, é sobre a autenticidade da fonte; não se trata do conteúdo, mas do marketing usado.
A pior prisão não é estar atrás de uma porta fechada,mas acreditar que não temos mais portas para abrir.
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