Eu e Voce de Luiz Antonio Gasparetto

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Eu não tô mais esperando ela voltar. Eu tô esperando eu mesmo voltar pro meu corpo.

Eu me sinto um museu vivo de uma história que já faliu.

O algoritmo é o ex mais tóxico que eu já tive.

Hoje eu percebi que eu parei de cair. Não que eu esteja de pé, firme e forte, mas eu parei de despencar.

É como se eu tivesse achado um degrau no meio do poço e resolvido sentar ali por um tempo.

Eu virei um profissional em carregar esse luto sem deixar ele transbordar no meio da rua.

Hoje a cor que eu quero é o dourado dessa cerveja, que é a única coisa que brilha sem me cobrar um sorriso de volta.

Eu sou o único responsável por colorir o meu dia de novo. Ninguém vai vir com uma paleta de cores me resgatar.

Hoje eu preciso de uma bebida que não tenha história, que não tenha safra e que não me lembre de nenhum brinde que a gente deixou de fazer.

Eu me sinto um passageiro clandestino no trem da maturidade.

Eu continuo aqui, firme no balcão, batendo o cartão na minha própria dor.

Dá uma raiva danada perceber o quanto de energia eu gasto só pra parecer um vivente normal aos olhos dos outros.

Eu vivo o dia inteiro como um ator cansado que já decorou o texto, mas que não sente mais a peça.

Todo dia eu visto uma armadura que pesa mais que o meu próprio corpo.

Eu tô cansado de pagar o preço de manter essa farsa de ‘estou bem’.

Eu sou um especialista em sorrir enquanto sangro por dentro.

Para qualquer outra pessoa, é lixo; para mim, era a prova material de que o que eu vivi não foi um delírio da minha cabeça.

O soco no estômago é saber que, enquanto eu vou passar o dia evitando as redes sociais pra não ver foto de casal feliz, ela provavelmente vai estar ganhando flores...

Há um ano, a gente estava fazendo planos pro futuro; hoje, eu sou o cara que torce pra essa data passar logo, como quem espera uma tempestade forte passar debaixo de um telhado velho.

Hoje a gente bebe por essa liberdade que eu nunca pedi pra ter, mas que agora sou obrigado a carregar nas costas.