Estranho
Sei que é estranho dizer isso, mas às vezes — parece que — precisamos agir como se Deus não existisse.
O Prisma Velado
Um estranho tingido de nuances
tenta ocultar-se sob o peso das dores,
mas há uma claridade que vaza pelas frestas,
teimando em revelar suas cores.
Veste falas ásperas, molda controvérsias,
mentindo sobre a própria essência:
tem o olhar transbordando vida,
enquanto a boca impõe abstinência.
Cuidado, ele assusta.
É caminhar sobre lâminas de vidro;
basta um sopro, uma palavra mal posta,
para que o castelo caia, desvalido.
Inseguro, tropeça no próprio silêncio,
anseia pela escuta, mas recua no umbral.
Há um universo contido nesse peito,
que se veta o direito de ser real.
Brilha, pequena luz, rompe o casulo.
Esconder o sol não lhe faz sentido.
Seja agora, ou em um futuro mudo,
o amor reclama o que foi reprimido.
Essa hesitação cederá terreno
ao que pulsa e, doce, seduz;
uma voz que o retira do ermo
e o convoca, enfim, para a luz.
Não economize a alma, não se limite à razão.
Voe para além do que o medo condiz.
Busque o néctar, o mel, a entrega;
há doçura esperando quem se quer feliz.
O amor não pede licença nem explicação:
ele chega sem alarde, desarruma o porto,
e faz um belo estrago na solidão
dessa sua iludida arrumação.
Poesia de Islene Souza
Sempre que estamos felizes, temos a impressão que nunca mais seremos infeliz. É estranho isso, mas tente perceber como alguém ou nós mesmos reagimos em um momento de felicidade. Deixamos de lado qualquer lembrança do que seja a tristeza, apagamos, esquecemos ou simplesmente desligamos tudo que possa interferir nesse momento tão gostoso. A tristeza sempre se manifesta no mesmo lugar. É como um vicio incontrolável, e quando aparece, vem como uma velha e conhecida companheira. "Você de novo por aqui? Tá só de passagem ou pretende ficar um tempo?". É fácil conversar com a tristeza, mas a felicidade já não segue essa mesma equação. Não tem como dialogar com a felicidade. Por isso quando estamos felizes, buscamos sempre alguém pra desfrutar da nossa felicidade. O que importa então é entender que nenhuma felicidade é permanente, pois onde existe tristeza não vive a felicidade. E nenhuma tristeza tem domínio suficiente para impedir você de ser feliz. Uma anula a outra. É quase uma lei da física. Onde há luz não há trevas. Então não importa o momento que você está vivendo agora. O que deve permanecer é o entendimento daquilo que realmente vale muito pra você. Daquilo que faz você ficar bem. Se alguém te faz sofrer é porque não percebe que você tem um valor imenso, tipo do tamanho da lua. Talvez esse alguém esteja em uma fase nova, feita de ilusão e egoísmo, o que impede ele de enxergar que tudo o que você mais precisa é só de um abraço, daqueles carinhosos, feitos no silêncio, que te envolve e permite você fechar seus olhos e conseguir respirar. Que faz você esquecer por um só momento de tudo o que te lembre a tristeza. Então por mais que o que você sinta nesse momento seja um aperto enorme causado pela forma tão agressiva que essa tristeza te invade, você pode entender que existe uma felicidade preparada pra você. Sua tristeza anula sua capacidade de lembrar o que é ser feliz. Esteja preparada para receber sua felicidade, saiba que todo esse vazio que está dentro de você, que parece ser infinito de tão grande, é justamente pra poder ser recheado com sua felicidade. E vai ser tão mais infinita que irá transbordar pelos seus olhos e encher sua boca em um lindo sorriso. Você será feliz como o vôo delicado de uma linda borboleta em uma bela manhã de sol.
VAZIO ESTRANHO
Outra vez pensando apenas em caminhar
Me encontro confrontada
Com dúvidas sobre onde essa estrada
Vai me levar
Talvez haja pedras nesse caminho
E talvez eu caia
antes de entender por quê
Não chore
Ainda não é o fim do mundo
Se perder no meio do caminho
Encontrará a saída antes que o sol se vá
Todos nós em algum momento
Nos perdemos
E agora o que nos resta
Um vazio
Um vácuo
De quem ainda finge saber andar
"O estranho não sou eu; estranho é quem tenta moldar o nosso ser. Impondo o que acredita que devamos ser."
O verdadeiro estranho não é quem estende a mão para o bem, mas quem, mergulhado no mal, suspeita de toda luz que recebe.
Ser visto como "estranho" por fazer o bem é o maior elogio que um nobre pode receber de um ignorante.
"O verdadeiro estranho não é quem pratica a nobreza, mas sim aquele que, por ser mal, enxerga o mal em tudo o que é puro. A sua suspeita é a prova da sua ignorância; a minha bondade é a prova do meu poder."
O verdadeiro estranho não é quem chega com o bem, mas quem é tão mal que não consegue mais acreditar na bondade.
Não chame de "estranho" o amigo que você ainda não teve a coragem de conhecer por causa do seu preconceito.
O vento que batia
nos tijolinhos desnudos
produzia
um som estranho.
Num gargalhar tacanho,
sussuros por trás dos muros,
de arrepiar.
Pareciam almas penadas
caminhando pelas madrugadas
tentando se comunicar.
Será que há um lugar
para as almas condenadas?
De olhos fechados,eu tremia
enquanto minha mãe roncava.
Ela não se importava,
enquanto eu rezava.
Dizia que seu medo era dos vivos.
Do bicho papão que subia as escadas
para nos pegar.
Sua força e coragem me instigaram
a ser melhor,ter fé e acreditar.
"Que seja feita a vossa vontade"
e não a minha,nesse momento de dor.
Esta oração dolorosa vem carregada
de amor.E aceitação.
Que Jesus ampare e guie
seu espírito
nestes novos caminhos,
ficamos aqui
apenas memória e recordações
guardadas no coração.
Andréa
Envelhecer é estranho. Por dentro, sigo sendo a mesma.. meus sonhos, meus risos e até minhas inquietações continuam com a mesma voz. Mas o corpo, esse mensageiro do tempo, insiste em contar uma história que eu não sinto ter vivido tão depressa.
As pessoas que não me veem há anos se espantam com minhas marcas novas, esquecendo-se das que o tempo também gravou nelas. Às vezes dói esse choque nos olhos alheios, como se só eu tivesse atravessado os anos.
Envelhecer, para mim, é aprender a acolher essas mudanças sem perder a essência. É reconhecer que há beleza nos traços do caminho, mesmo quando a saudade do rosto de antes aperta. É um exercício diário de amor-próprio: olhar no espelho e enxergar não apenas rugas, mas histórias, resistências e memórias.
