Estava um Pouquinho Ocupado Desculpe me
Cegueira
Me perdi enquarto eu estava preso na rotina que encobria os meus olhos para não enxergar a saída que havia em meu coração.
O tempo não ensina: ele expõe. Apenas amplia aquilo que já estava inscrito no caráter e na coragem. Quem amadurece não é quem viveu muito, mas quem teve a lucidez de se olhar sem indulgência enquanto atravessava os dias.
Antes que o pecado entrasse na história humana, o propósito redentor de Deus já estava estabelecido.
Pensar diferente não é contrariar o que existe. É enxergar uma estrutura que estava diante de todos, compreender por que ela funciona e demonstrar, com método e evidência, que havia outro caminho possível.
O Reflexo Também Tem Uma Arma
A vidraça estava ali como todas as vidraças do mundo: limpa o bastante para fingir que era transparente e suja o bastante para esconder alguma coisa.
Parei diante dela.
Não porque quisesse me olhar.
Ninguém para diante de uma vidraça para se olhar. Isso é coisa de gente satisfeita, vendedor de roupa, sujeito que acabou de ganhar um emprego ou alguém que ainda acredita que o rosto tem alguma coisa a dizer.
Eu só estava passando.
Foi o reflexo que me fez parar.
Primeiro apareceu a minha silhueta.
Depois o rosto.
Depois alguma coisa que não combinava comigo.
A iluminação era ruim, o vidro tinha marcas, riscos, manchas e aquela sujeira fina que a cidade deposita sobre tudo como se cobrasse aluguel. Meu reflexo estava quebrado em vários pedaços.
O rosto num lugar.
O ombro em outro.
Um olho ligeiramente acima do outro.
A boca cortada por uma rachadura.
Parecia uma fotografia de família depois de uma discussão.
Fiquei olhando.
O reflexo também.
Aquilo começou a me irritar.
Não havia nada de especial em uma imagem quebrada. A cidade estava cheia delas. Pessoas quebradas também. Algumas usavam terno. Outras tinham diploma. Algumas tinham filhos. Outras tinham planos para o fim de semana.
A diferença é que as pessoas conseguem esconder melhor as rachaduras.
A vidraça não.
Ela não tinha autoestima.
Era uma vantagem.
Cheguei mais perto.
Foi então que percebi.
O reflexo não estava exatamente repetindo meus movimentos.
Minha cabeça inclinou um pouco.
A imagem demorou.
Um segundo.
Talvez menos.
O suficiente.
Pisquei.
Ele não.
Aquilo seria engraçado se não fosse tão desagradável.
Dei um passo para trás.
O reflexo continuou perto.
Foi aí que tive a impressão de que ele estava apontando alguma coisa para mim.
Não uma arma de verdade.
Seria mais simples se fosse.
Uma arma resolve a discussão.
O reflexo parecia apontar a própria verdade.
E isso é muito pior.
Fiquei olhando para aquele rosto dividido em pedaços.
Um rosto que eu conhecia.
Ou achava que conhecia.
Havia coisas ali que eu não lembrava de ter colocado.
Cansaço.
Rancor.
Pequenas derrotas cuidadosamente arquivadas.
Algumas pessoas que eu dizia ter esquecido.
Algumas decisões que eu chamava de necessidade porque covardia é uma palavra feia demais para certas ocasiões.
E havia também aquele velho sujeito que passava a vida dizendo que estava tudo bem.
O mentiroso profissional.
Eu.
O reflexo parecia saber.
Isso me incomodou.
A gente passa anos aperfeiçoando versões aceitáveis de si mesmo.
Aprende quando sorrir.
Quando apertar a mão.
Quando dizer “vamos ver”.
Quando dizer “não foi nada”.
Quando dizer “eu já superei”.
É um treinamento longo.
Quase uma carreira.
E então uma vidraça qualquer vem e estraga tudo.
Não há salário que pague isso.
Tentei olhar para o outro lado.
Uma rua.
Um carro.
Uma mulher atravessando.
Um cachorro urinando num poste.
A vida continuava oferecendo suas pequenas distrações.
O mundo é muito eficiente nisso.
Quando você começa a pensar demais, ele manda um cachorro mijar num poste.
Olhei para o cachorro.
Funcionou por três segundos.
Depois meu canto de olho voltou para a vidraça.
O reflexo continuava lá.
Esperando.
Não parecia zangado.
Isso seria fácil.
Parecia apenas decepcionado.
E não há nada mais ofensivo do que a decepção de alguém que não precisa dizer nada.
Fiquei imaginando quantas vezes eu havia passado diante daquela mesma superfície sem perceber.
Talvez todas as pessoas façam isso.
Talvez a cidade inteira seja construída de vidraças.
Portas de vidro.
Janelas.
Espelhos.
Telas de celulares.
Vitrines.
Carros estacionados.
Tudo refletindo alguma coisa.
Tudo devolvendo nossa cara em prestações.
E talvez seja por isso que ninguém olhe direito.
É mais confortável enxergar o preço de uma televisão na vitrine do que enxergar a própria expressão sobre ela.
Mais fácil admirar um carro do que perguntar quem está dirigindo.
Mais fácil procurar alguém bonito do outro lado do vidro do que descobrir quem está deste lado.
Afastei-me.
Desta vez o reflexo acompanhou.
Normal.
Finalmente.
Talvez eu tivesse imaginado tudo.
É uma explicação bastante útil.
A imaginação é o advogado de defesa dos culpados.
Fui embora.
Andei alguns metros.
Então olhei novamente.
Só pelo canto dos olhos.
Ele ainda estava lá.
Pequeno agora.
Fragmentado.
Quase irreconhecível.
Mas ainda apontando aquela coisa para mim.
A verdade.
Continuei andando.
Não olhei para trás.
Pelo menos não diretamente.
Porque algumas verdades não precisam que você as encare.
Elas sabem esperar.
E, quando você pensa que escapou, aparecem refletidas no vidro de um carro, numa janela escura, na tela apagada do telefone.
E ficam ali.
Sem disparar.
Sem gritar.
Sem pedir explicações.
Só apontando.
Até você descobrir que o sujeito do outro lado da vidraça não estava tentando matar você.
Estava apenas tentando impedir que você continuasse mentindo.
DUAS Xícaras de café vazias
O café estava cheio, embora ninguém parecesse ter tempo para estar ali. Eu estava sentado numa mesa na calçada, debaixo da cobertura, diante de três xícaras. Duas vazias. Uma ainda pela metade, mas fria. Não sei por que não pedi outra. Talvez porque três cafés já fossem suficientes para aquela manhã. Talvez porque eu estivesse esperando alguma coisa. A essa altura da vida, a gente aprende que quase sempre está esperando alguma coisa sem saber exatamente o quê. Dentro do café, duas televisões estavam ligadas. O proprietário sabia o que estava fazendo. Não havia necessidade de som alto. Bastava a imagem. Um programa qualquer de revista, com pessoas sorrindo e especialistas ensinando como viver. Como comer. Como dormir. Como trabalhar. Como emagrecer. Como envelhecer sem parecer velho. Como ser feliz em cinco passos. Como descobrir seu propósito. Como se reinventar. Como abandonar aquilo que não serve mais. Eu olhava para aquilo e pensava que finalmente tínhamos conseguido transformar a existência humana em manual de instruções. “Seja você mesmo”, dizia uma legenda. Achei engraçado. Passamos a vida inteira sendo treinados para ser outra coisa e depois alguém aparece na televisão mandando a gente ser nós mesmos. Primeiro dizem que você precisa vencer. Depois dizem que precisa produzir. Depois que precisa cuidar da aparência. Depois que precisa viajar. Depois que precisa encontrar alguém. Depois que precisa se encontrar. Parece que até para estar perdido existe um procedimento correto. Na calçada, a vida continuava sem obedecer à televisão. Pessoas caminhavam para seus afazeres. Algumas depressa. Outras devagar. Um homem falava sozinho ao telefone. Uma mulher ria enquanto digitava alguma coisa. Um sujeito caminhava com a cara fechada, como se tivesse acabado de descobrir que segunda-feira não era um acidente. O trânsito avançava lentamente. Dentro dos carros havia pequenas peças da humanidade. Um motorista cantava. Outro parecia discutir com alguém. Uma mulher olhava fixamente para frente. Um homem ria. Um casal estava no mesmo carro, mas não parecia estar no mesmo lugar. Ela gesticulava. Ele respondia. Ambos olhavam para os lados, para a frente, para os semáforos, para os outros carros. Menos um para o outro. Talvez fosse amor moderno. Ou apenas dois desconhecidos pagando prestações juntos. Um carro passou com crianças no banco traseiro. Gritavam, riam, brigavam por alguma coisa que provavelmente seria esquecida antes do próximo semáforo. Olhei para elas e pensei que talvez aquela fosse a última fase realmente honesta da vida. Crianças ainda não aprenderam a fingir que estão bem. Se estão felizes, fazem barulho. Se estão irritadas, fazem mais barulho. Depois crescemos. Aprendemos a sorrir quando queremos mandar alguém para o inferno. Aprendemos a dizer “está tudo bem” quando nada está. Aprendemos a chamar de maturidade aquilo que muitas vezes é apenas desistência. A televisão continuava oferecendo respostas. Na tela, alguém falava sobre mudanças. “Você precisa se transformar.” Outra pessoa explicava que nunca é tarde para recomeçar. Eu olhei para as duas xícaras vazias. É fácil falar em recomeços quando não se precisa carregar aquilo que ficou para trás. As pessoas gostam da ideia de mudança porque ela parece limpa. Só esquecem que mudar também significa perder versões antigas de nós mesmos. Algumas foram embora porque morreram. Outras porque nunca existiram de verdade. Foram apenas personagens que aprendemos a representar para sermos aceitos. Talvez ser dono de si seja justamente parar de representar. Não significa descobrir uma grande verdade escondida dentro da alma. Isso parece coisa de programa de televisão. Talvez seja algo bem menos interessante. Saber do que você gosta. Saber do que não suporta mais. Admitir que algumas pessoas não fazem falta. Reconhecer que alguns sonhos eram apenas vaidade. Aceitar que você mudou sem precisar pedir desculpas. E principalmente entender que ninguém virá entregar o manual que esqueceram de colocar junto com você quando nasceu. A televisão continuava ligada. O trânsito continuava lento. O casal continuava discutindo sem se olhar. As crianças continuavam gritando no banco traseiro. As pessoas continuavam caminhando para algum lugar. Todos pareciam saber exatamente o que estavam fazendo. Talvez fosse apenas aparência. Talvez todos estivessem tão perdidos quanto eu. A diferença é que alguns aprenderam a disfarçar melhor. Peguei a xícara fria e tomei o último gole. Estava horrível. Não reclamei. Algumas coisas na vida ficam frias porque demoramos demais para decidir se ainda as queremos. Paguei a conta. Levantei. As televisões continuaram ensinando o mundo a viver. E o mundo continuou sem aprender. Fiquei alguns segundos parado na calçada, vendo aquela gente passar. Então percebi uma coisa desagradável. Talvez o problema nunca tenha sido não saber quem somos. Talvez seja saber e não gostar muito do que encontramos. É mais fácil deixar alguém dizer quem devemos ser. Dá menos trabalho. E enquanto pensamos nisso, o café esfria, o trânsito continua, os carros passam, as crianças crescem e a vida, indiferente, não espera ninguém terminar de se encontrar
*O Céu e o Inferno Funcionam em Horário Comercial* - Naquela sexta-feira o bar estava cheio, como quase toda sexta-feira em que as pessoas precisam esquecer que passaram mais cinco dias fingindo que gostam da própria vida. Música baixa demais para ser ouvida e alta demais para permitir uma conversa decente. Um cantor sozinho, no fundo, brigava com o violão e com alguma música antiga que ninguém mais lembrava direito. Fumaça de cigarro subia entre as lâmpadas amareladas. Copos vazios ocupavam as mesas como pequenas provas de fracasso.
Eu estava no meu canto habitual do balcão. O lugar onde ninguém pergunta muita coisa e o barman já sabe que não precisa conversar comigo.
Foi então que dois casais se aproximaram. Sentaram perto demais. Não porque quisessem minha companhia. Apenas porque o bar estava cheio.
E quando quatro pessoas bebem juntas, em algum momento alguém decide que a verdade precisa ser dita.
Começaram falando de amor. Não sei por quê. Talvez fosse o álcool. Talvez fosse sexta-feira. Talvez as pessoas só consigam falar de amor quando já estão cansadas de praticá-lo.
A mulher dizia que no começo era diferente. Havia mensagens de madrugada. Promessas. Planos. Juras de que nunca deixariam a rotina destruir aquilo que tinham encontrado.
O homem riu.
Não foi uma risada engraçada. Foi aquela risada curta de quem já decidiu que o outro está exagerando.
Ela continuou.
Disse que no começo ele queria saber onde ela estava. Perguntava como tinha sido o dia. Queria ouvir seus problemas. Fazia planos para o fim de semana. Dizia que ela era diferente das outras.
Depois vieram as contas.
O trabalho.
O cansaço.
A televisão.
O celular.
A cama.
A obrigação de acordar cedo.
A vida.
Aquela velha assassina silenciosa.
Ela disse que o amor tinha desaparecido dentro da rotina.
Ele respondeu que aquilo era frescura.
Mimimi.
Romantismo hipócrita.
Disse que ninguém consegue viver de declaração de amor. Que a vida real era outra coisa. Que depois de alguns anos ninguém fica perguntando como foi seu dia.
Ela olhou para ele como se tivesse acabado de descobrir que dormia com um desconhecido.
Talvez tivesse.
O outro casal tentou amenizar.
Não funcionou.
A conversa ficou mais quente. Vieram acusações antigas. Coisas guardadas durante anos, esperando uma sexta-feira, quatro cervejas e um bar lotado para sair pela boca.
Eu continuei bebendo.
Não porque não tivesse opinião.
Eu tinha.
Tenho opiniões demais.
Esse é um dos meus problemas.
Fiquei pensando naquela história de amor que começou com promessas e terminou em planilhas, horários, boletos e silêncio.
Talvez o homem tivesse razão.
Talvez a mulher tivesse razão.
Talvez os dois estivessem errados.
O problema é que o amor costuma morrer muito antes de alguém perceber que ele morreu.
Não há funeral.
Não há certidão.
Ninguém aparece para dizer que acabou.
Ele simplesmente começa a ser substituído por pequenas coisas.
Uma resposta que não vem.
Um abraço que fica para depois.
Uma conversa que nunca acontece porque há alguma coisa mais importante na televisão.
Um beijo mecânico.
Um jantar em silêncio.
Uma cama dividida por dois corpos que já vivem em países diferentes.
E então alguém percebe.
Tarde demais.
Foi ali, ouvindo aquela mulher reclamar e aquele homem chamar tudo de frescura, que pensei em uma coisa bastante simples.
Nós passamos a vida procurando o Céu e tentando escapar do Inferno.
Como se houvesse uma porta em algum lugar.
Como se depois da morte alguém fosse entregar uma senha.
Como se Deus fosse um funcionário público sentado atrás de uma mesa cósmica conferindo documentos.
Talvez seja tudo muito mais simples.
Talvez o Céu e o Inferno não estejam esperando por nós.
Talvez já estejam aqui.
O Céu aparece quando conseguimos amar alguém sem transformar o amor em contrato.
Quando não fazemos carinho esperando receber carinho de volta.
Quando ajudamos sem guardar recibo.
Quando ouvimos sem preparar uma resposta.
Quando permanecemos ao lado de alguém não porque temos medo de ficar sozinhos, mas porque queremos estar ali.
Isso parece pouco.
Não é.
O mundo inteiro está cheio de gente fazendo negócios em nome do amor.
Eu te dou isso se você me der aquilo.
Eu faço isso por você, portanto você me deve aquilo.
Eu fui fiel, então você precisa ser fiel.
Eu trabalhei o dia inteiro, então você deve entender meu silêncio.
Eu pago as contas, portanto tenho direito a não prestar atenção em você.
Eu sou seu marido.
Eu sou sua mulher.
Eu sou sua família.
Eu sou seu.
É aí que começa a desgraça.
Porque amar alguém não deveria significar possuir alguém.
Mas nós gostamos de possuir.
Casas.
Carros.
Pessoas.
Opiniões.
Memórias.
Até os mortos nós queremos possuir.
Dizemos que alguém é nosso.
E depois reclamamos quando essa pessoa começa a respirar longe de nós.
O homem do bar dizia que aquilo era romantismo hipócrita.
Talvez fosse.
Mas existe uma hipocrisia ainda maior: fingir que uma relação continua viva apenas porque duas pessoas ainda dividem o mesmo endereço.
Há casamentos que são funerais com financiamento imobiliário.
Há relacionamentos que continuam apenas porque ninguém quer explicar aos outros que acabou.
Há pessoas que dormem juntas durante vinte anos e nunca mais se encontram.
E há outras que se encontram por uma hora e conseguem lembrar uma à outra que ainda estão vivas.
O Inferno talvez seja isso.
Não o fogo.
Não o demônio.
Não as correntes.
É olhar para alguém que um dia foi importante e perceber que você construiu uma muralha entre vocês, tijolo por tijolo, usando orgulho, ressentimento, silêncio e pequenas crueldades.
Depois sentar diante da muralha e perguntar por que ninguém mais consegue chegar até você.
O ódio também funciona assim.
Ele começa pequeno.
Uma mágoa.
Uma injustiça.
Uma palavra.
Depois cresce.
Você começa a dividir o mundo.
Os bons e os maus.
Os que merecem.
Os que não merecem.
Os que são como você.
Os outros.
E quando percebe, seu coração virou uma repartição pública.
Entrada proibida.
Documentação obrigatória.
Atendimento mediante agendamento.
O curioso é que quase ninguém percebe quando entra no Inferno.
As pessoas continuam trabalhando.
Pagando contas.
Postando fotografias felizes.
Comemorando aniversários.
Trocando presentes.
Dizendo “eu te amo”.
Tudo perfeitamente normal.
É por isso que o Inferno funciona tão bem.
Ele não precisa parecer Inferno.
Basta parecer rotina.
Olhei para o casal outra vez.
Ela estava chorando agora.
Ele olhava para o celular.
Aquilo me pareceu mais cruel que qualquer grito.
Porque existem momentos em que o desprezo é mais violento que a raiva.
A raiva ainda reconhece a existência do outro.
O desprezo simplesmente desliga a luz.
O cantor no fundo começou outra música.
Ninguém prestou atenção.
O barman recolheu alguns copos.
A fumaça continuava subindo.
A sexta-feira continuava funcionando.
O mundo não tinha parado para assistir ao fim daquele pequeno amor.
Nunca para.
É uma das coisas mais humilhantes sobre estar vivo.
Você pode estar destruindo alguém por dentro e, do lado de fora, o garçom continua servindo cerveja.
Talvez seja por isso que eu não acredito muito nessa conversa de esperar o Céu.
Se existe algum lugar melhor, talvez ele comece quando aprendemos a não transformar a vida dos outros em nosso campo de batalha.
Talvez comece quando paramos de cobrar amor como quem cobra uma dívida.
Talvez comece quando conseguimos dizer “eu errei” sem acrescentar um “mas você também”.
Talvez comece quando percebemos que algumas pessoas não precisam de uma solução.
Precisam apenas que alguém fique.
E talvez o Inferno já esteja funcionando quando transformamos toda relação em uma disputa para descobrir quem sofreu mais.
No fim, ninguém vence.
Só sobra alguém com razão e outro sozinho.
Terminei minha bebida.
Levantei.
Antes de sair, olhei mais uma vez para os quatro.
A discussão continuava.
Talvez continuasse até o fechamento.
Talvez até a manhã seguinte.
Talvez por mais vinte anos.
Não sei.
O que sei é que todos nós temos uma escolha pequena e diária.
Podemos amar.
Ou podemos negociar.
Podemos perdoar.
Ou podemos colecionar dívidas emocionais.
Podemos abrir a porta.
Ou construir outra parede.
O Céu não parece exigir muita coisa.
O Inferno também não.
Ambos são baratos.
Funcionam vinte e quatro horas.
E não precisam de religião, sacerdote ou julgamento final.
Basta olhar para a pessoa ao nosso lado.
Se ainda conseguimos amá-la sem exigir pagamento, talvez por alguns minutos estejamos no Céu.
Se precisamos odiá-la para justificar nossa própria existência, provavelmente já chegamos ao outro lugar.
E o pior é que ninguém precisa morrer para descobrir.
Basta continuar vivendo exatamente como está.
Isso costuma ser suficiente.
seus olhos.
Antes mesmo de entender o que estava acontecendo, eu já tinha encontrado alguma coisa nos olhos dela que não sabia explicar. Eu falava dos olhos porque era a maneira mais fácil de falar do que acontecia comigo quando olhava para ela. Pareciam ter profundidade suficiente para esconder tudo aquilo que eu não conseguia dizer. E talvez fosse exatamente por isso que eu gostasse tanto de mergulhar neles.
Porque havia dias em que o mundo parecia fundo demais.
As coisas lá fora tinham aquele peso que a gente tenta fingir que não sente. A vida seguia, as pessoas continuavam falando, os dias continuavam passando, mas existiam momentos em que tudo parecia difícil de levar. E então eu encontrava aqueles olhos.
Era como cair no mar sem ter medo de afundar.
Eu não precisava saber nadar. Não precisava saber para onde estava indo. Bastava entrar.
Talvez seja isso que algumas pessoas fazem com a gente. Elas não resolvem necessariamente aquilo que está quebrado, não apagam os problemas, não tornam o mundo mais fácil. Elas apenas conseguem fazer com que, por alguns instantes, a gente não precise lutar contra ele.
Ela era esse intervalo.
Eu podia passar horas tentando organizar dentro de mim aquilo que não tinha nome e, ainda assim, bastava olhar para ela para alguma coisa se aquietar. Havia um tipo de silêncio naqueles olhos que não era vazio. Era abrigo. Um lugar onde eu podia deixar todas as coisas que carregava sem precisar explicar por que elas pesavam tanto.
E talvez eu tenha amado também essa sensação.
A de ser recebido por alguém sem precisar chegar inteiro.
Eu acreditava que amar era isso: oferecer alguma coisa de si e perceber que, de alguma forma, aquilo também fazia o outro respirar melhor. Cada gesto pequeno parecia carregar uma energia que não precisava ser anunciada. Um cuidado aqui, uma presença ali, uma tentativa de estar perto quando o mundo ficava difícil. Como se amar fosse construir, aos poucos, um lugar onde dois poderiam descansar.
E eu queria ser esse lugar para ela também.
Talvez por isso a distância sempre tenha parecido tão cruel. Porque quando alguém se transforma em refúgio, a ausência deixa de ser simplesmente ausência. Ela começa a parecer uma porta fechada para um lugar onde você costumava conseguir respirar.
E ainda havia a saudade.
Aquela espécie de presença que continua existindo mesmo quando a pessoa não está. As lembranças permanecem vibrantes, ocupando espaços inesperados, aparecendo no meio de uma música, de uma noite, de um pensamento qualquer. Você percebe que algumas pessoas conseguem permanecer dentro da gente mesmo quando já não estão ao nosso lado.
Foi assim que ela ficou em mim.
Não como uma foto parada no passado, mas como uma paisagem que ainda aparece quando fecho os olhos.
E talvez seja por isso que aquela imagem do mar sempre tenha feito tanto sentido.
Porque eu não mergulhava apenas nos olhos dela.
Eu mergulhava naquilo que sentia quando estava ali.
Na tranquilidade que encontrava. Na versão de mim que aparecia quando não precisava me defender de nada. Na sensação de que, por alguns minutos, eu estava exatamente onde deveria estar.
Ao lado dela.
E talvez algumas pessoas sejam mesmo obra de alguma força que a gente não entende. Não necessariamente porque foram feitas para ficar para sempre, mas porque, em algum momento da nossa história, precisavam existir.
Ela existiu.
E me ensinou que existem olhos capazes de ser oceano.
Que existem abraços que parecem margem depois de muito tempo à deriva.
Que existe amor que não chega fazendo barulho, mas vai preenchendo os espaços vazios até a gente perceber que já não sabe exatamente onde termina a nossa solidão e começa a presença do outro.
Hoje, talvez eu entenda que mergulhar nos olhos dela nunca foi apenas sobre olhar.
Era sobre confiar.
Sobre fechar os olhos para o mundo por alguns segundos e acreditar que, se eu afundasse, alguém me encontraria.
E talvez seja essa a coisa mais bonita e mais dolorosa sobre amar alguém profundamente: às vezes, a pessoa se torna o mar onde você aprendeu a respirar.
E quando ela vai embora, você passa um tempo tentando descobrir como voltar a superfície.
Mas algumas profundidades não desaparecem.
A gente apenas aprende a carregá-las.
E eu ainda carrego aqueles olhos comigo.
Como quem um dia caiu no mar e, em vez de ter medo da profundidade, descobriu nela um lar.
Foi ao descobrir que eu estava quebrado que encontrei o que é inteiro. Foi ao questionar a realidade que encontrei a Verdade.
A Mulher da Mão Grande
No segundo ano primário, em 1955, eu estava muito mal na escola. Tinha muitas dificuldades com letras e números. Só notas baixas.
Naquela época — não sei se ainda é assim hoje — os alunos tinham que levar o boletim para casa, mostrar para os pais, recolher a assinatura e devolvê-lo para a professora. Era assim que os pais acompanhavam a vida escolar dos filhos.
No meu caso específico, quem cuidava dessa parte era minha irmã. Era ela quem assinava o boletim. Para piorar a situação, trabalhava no Grupo Escolar Carmela Dutra e me controlava no dia a dia também.
Num determinado mês, a coisa, que já estava ruim para o meu lado, ficou pior. Meu boletim vermelhou de vez.
Aí tive uma ideia brilhante.
Transformei tudo que era três em oito. Bem fácil. E os quatro viraram nove. Fácil também. Só que as notas continuaram vermelhas, infelizmente.
Esperei minha irmã ficar ocupada com os afazeres da casa e, no momento certo, pedi para ela assinar o boletim. Ela nem percebeu a besteira que eu tinha feito.
No dia seguinte, cheguei à classe e coloquei o boletim sobre a mesa da professora.
Depois de um tempo, ela me olhou, pegou o boletim e saiu da sala. Voltou acompanhada da diretora e da minha irmã.
Fui guinchado, literalmente, pelas orelhas. A diretora de um lado e minha querida irmã do outro. Levaram-me até a sala da diretora.
Depois de confessado o crime, veio o veredito.
A diretora, uma mulher com a mão maior que a minha cabeça, parecendo um pão caseiro, desferiu um tapa na minha cara com tanta força que, mesmo passados todos esses anos, ainda sinto o impacto da bofetada.
As lágrimas molharam o piso da sala.
Depois do castigo físico, veio o psicológico: tive que ficar grudado na parede, exposto para que as outras crianças me vissem.
Mas existe a lei do retorno. Ou pelo menos eu gosto de acreditar que existe.
Meu pai, um homem abrutalhado e pouco dado a conversas com os filhos, vez ou outra contava algumas histórias. A maioria delas era de fantasmas.
Naquele momento de sofrimento físico e psicológico, lembrei-me de uma delas.
Ele falava de uma "reza brava" que conhecia. Era tão perigosa que não podia ser rezada diante de um espelho. Podia dar um revertério e virar contra quem a rezasse.
Segundo ele, aquela oração espantava todos os tipos de assombração: mula-sem-cabeça, Saci-Pererê, Boitatá. Também matava cobra venenosa, curava cachorro louco, amansava cavalo xucro e mais um monte de coisas.
Naquele instante, tudo o que eu desejava era saber aquela reza.
Queria fulminar aquela mulher da mão grande e, de lambuja, a minha irmã também.
Mas o que fazer?
Eu não sabia a oração. Meu pai nunca a ensinou aos filhos.
Então tentei outras rezas domésticas, improvisadas mesmo, implorando às entidades que castigassem aquela mulher.
Nada.
Ela entrava e saía da sala, olhava para mim, ria da minha situação e comentava o caso com as outras professoras. E elas riam também.
Algumas até diziam que o castigo deveria ter sido maior.
O tempo passou.
Repeti de ano.
E eis que a lei do retorno resolveu trabalhar.
Aconteceu uma tragédia na cidade.
Os sinos da igreja ficaram mudos.
O padre desapareceu.
E eu nunca mais vi a mulher da mão grande.
A mulher da mão de pão caseiro.
Quando o pastor cai, não cai por fraqueza espiritual, mas porque ninguém percebeu que ele estava gritando em silêncio.
A cruz não expôs fraqueza,
expôs entrega.
Ele não estava sendo vencido,
Ele estava se entregando.
Levou sobre Si o peso que não era dEle,
carregou culpas que não cometeu,
sentiu o abandono
pra que você nunca mais precisasse se sentir só.
miriamleal
O filho pródigo estava perdido longe de casa. O irmão mais velho estava perdido dentro de casa.
O mais novo conhecia o peso do pecado. O mais velho conhecia o peso do orgulho.
Flávio estava certo! A camisa da seleção é do Bolsonaro! Fracassados inúteis! O único hexa será do PT! Lula rumo ao tetra!
Eu achava que tinha conquistado tudo.
Não porque tudo estava perfeito, mas porque eu ainda acreditava.
E acreditar, pra mim, sempre foi metade do caminho.
Havia planos que eu já chamava de vida,
sonhos que eu defendia como verdades, um futuro que eu protegia
como quem protege um lar.
Até que um dia
eu percebi.
Não foi de repente.
Foi um entendimento lento, cruel,
que foi se impondo:
nunca mais será a mesma coisa.
E essa frase pesa mais
quando não vem do medo, mas da lucidez.
Doeu aceitar.
Doeu soltar.
Doeu admitir que, mesmo dando tudo,
não foi o suficiente.
Eu não perdi apenas uma conquista,
perdi a versão de mim
que acordava acreditando.
Que insistia.
Que esperava sinais.
Passei a conviver com um vazio estranho:
Derrota,
Encerramento,
Frustração
E o mais difícil
não foi ver o sonho morrer, foi continuar vivendo
sem ele me guiando.
Hoje eu caminho diferente.
Com menos ilusão.
Com menos pressa.
Mas com uma verdade nova:
Algumas coisas que se quebram te quebra junto.
Algumas coisas se tornaram impossíveis e preciso parar
de perder tempo tentando salvá-las.
E talvez
isso também seja
uma forma silenciosa
de sobrevivência
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