Espaço
Coisas tem acontecido e não sei se tenho ficado para trás, ou se tenho deixado para trás... Pessoas antes interessantes, espetaculares, hoje são normais, outras que me manipulavam, hoje são irrelevantes.
O passado volta, o presente urge.
Continuo sendo inconstante. Continuo querendo todas as coisas.
Não dá para agradar todo mundo.
Não dá para abraçar o mundo.
Me sinto pequena, me sinto grande.
Crise dos 30, talvez. Mas tenho me tornado mais séria, mais introspectiva, mais exigente.
E em meio a essas exigências, tenho encontrado a melhor resposta de todos os tempos:
Tudo que procuro nos outros, encontro de melhor forma em mim mesma.
Encontro paz em mim, encontro sossego em mim, encontro paixões, amores, tormentas, chuvas, tempestades. Alvoreceres.
Preciso do meu hiato.
Aproveitando mais uma vez minha primavera, cuidando de meu jardim.
Esperando as borboletas. Esperando minhas flores. Esperando, esperando, esperando, vivendo, acontecendo, vivendo...
Mais do que atrito de epidermes, fricção de carnes, união de corpos, o amor é sobretudo interpenetração de mentes, comunhão de almas, no espaço e no tempo.
O deserto espiritual, do contrário que muitos acham, não é um espaço geográfico, é um espaço cronológico. O que determina se você vai sair ou não é o tempo. Neste local, existem aqueles que são provados, aprovados, se sentem abandonados. Mas a verdade é que o deserto é a pós-graduação do ministério. Lá as coisas mais loucas acontecem. Caminham rodeando o mesmo lugar, blasfemam vendo nitidamente o agir do Eterno, o fogo cai, a nuvem te guia, o diabo fala com você, e literalmente se vê as pegadas do Eterno junto as suas. Para quê pressa para sair? Suporte com paciência e tire proveito dos seus professores desérticos.
''Quem sabe mais tarde''. ''Ainda não estou pronto''.
Nós sabemos que são apenas desculpas, e que cria espaço para um adiamento que parece não ter fim. A verdade é que a atitude certa deve ser tomada quando não temos vontade. Não temos mais nada a perder, então é a hora de ganhar. E quanto mais cedo tentarmos, mais rápida será a vitória.
O interesse sabe se disfarçar de atenção. Mas quem cuida de verdade, respeita seu tempo e seu espaço.
Tudo que está fora do nosso mundo é alienígena. Assim como nosso mundo é alienígena para todo o resto.
O problema é que o espaço e o tempo têm um valor agregado e a aglomeração de pessoas para maximizar a receita é o nome do jogo.
A vida começa a atingir seu patamar ideal de qualidade quando reduzimos o espaço físico ao limite em que podemos arrumar e localizar cada objeto à noite sem necessidade de luz, e fora dele apenas ao que permite desfruta-la sem emprego de esforço ou dispêndio de tempo para o gerenciamento, com a certeza de que reunimos tudo o que precisávamos para sermos felizes.
De que modo entender sua posição no tabuleiro se ele não fosse todo dividido equitativamente entre casas pretas e brancas? E como imaginar o jogo sem se ter definidas as dimensões das casas que o compõem, se cada peça as desenhasse buscando supremacia no espaço sobre as outras ao longo de toda a disputa?
Toda grandeza depende da percepção de espaço e tempo. Para um fungo, uma laranja é seu universo.
Se esse fungo pudesse pensar e questionar, iria filosofar com outros de sua espécie se existiria vida fora de sua fruta. Todo o tempo desde que a fruta se formou, amadureceu, permitiu a existência de vida e depois apodreceu, desaparecendo, seriam uma eternidade na ótica do fungo estudioso, ao passo que aos olhos humanos seriam apenas dias. A eternidade de um pode ser o momento de outro? Teria sido o big bang apenas o desabrochar de uma flor?
E como uma semente de Dente de Leão, vagando pelo vácuo interestelar invés do vento, a vida busca uma forma de fazer sua mágica da auto replicação.
