Erasmo de Rotterdam Elogio a Loucura

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O amor que carrego no peito não espera datas.


Ele não vive apenas em dias marcados com flores ou presentes.
Ele pulsa — suave e firme — a cada segundo.


É no olhar que repousa com ternura.
No toque que não apenas encosta, mas conversa em silêncio.
No gesto que não precisa ser grandioso, porque é verdadeiro.


Amar é estar presente mesmo na ausência.
É escrever com os dedos palavras que só o coração entende.
É cantar desafinado, mas com alma — porque o sentimento é maior que a melodia.


É esperar sem pressa.
É cuidar sem prender.
É sentir sem exigir.


O amor vive na rotina, no café feito com atenção,
no abraço que diz “estou aqui”,
na saudade que não cobra, mas acaricia o pensamento.


Não é preciso ocasião para amar.
Basta estar inteiro.
Basta escolher — com carinho, com afeto, com entusiasmo, com dedicação —
caminhar junto, mesmo quando o mundo parece andar em direções opostas.


Que o amor seja sempre celebrado.
Não apenas em datas especiais,
mas em cada instante em que dois corações decidem se reconhecer.


Com todo meu coração,
Marco Arawak

A Ilusão da Perfeição: A Redescoberta do Valor Humano em um Mundo de Pressões Sociais


A opressão exercida pelas expectativas sociais, reforçada por mensagens e imagens incessantes de perfeição, somada à obsessão pela beleza exterior, juventude, etnia, riqueza, status social e fama, contribui para a fragmentação das relações humanas e para a erosão do sentido de valor interior.


A discriminação baseada na idade, o racismo, as diferenças econômicas, sociais, políticas e religiosas, assim como a comparação constante com os outros, podem produzir sentimentos de inadequação e desvalorização — como se fôssemos atores “cegos, surdos, mudos e irracionais”, colocados diante de obstáculos aparentemente intransponíveis.


O peso de corresponder a ideais irreais de beleza e sucesso ignora nossas qualidades interiores, nossas experiências e nossas conquistas. Em seu lugar, alimenta uma cultura de insatisfação permanente e fragiliza nossa percepção de valor.


O julgamento constante baseado na aparência e na posição social cria um ambiente tóxico, no qual a validação é buscada em fatores superficiais e passageiros, em detrimento de valores mais profundos e duradouros.


A sociedade frequentemente estabelece expectativas impossíveis de alcançar. E, pouco a pouco, podemos ser levados a acreditar que nosso valor depende da maneira como somos percebidos pelos outros.


Quando isso acontece, tornamo-nos mais vulneráveis à manipulação, à comparação permanente e à insatisfação crônica.


É fundamental reconhecer a influência nociva dessas pressões e buscar um caminho de aceitação de si mesmo e de valorização daquilo que verdadeiramente somos.


Aceitar nossas imperfeições não significa abandonar o desejo de crescer.


Significa compreender que crescimento não exige rejeição de quem somos.


O valor humano não pode ser reduzido a padrões superficiais de beleza, juventude, riqueza, status ou reconhecimento.


Quando compreendemos que nosso verdadeiro valor ultrapassa a aparência e a aprovação externa, abrimos espaço para uma vida mais autêntica, consciente e significativa.


Essa mudança de perspectiva favorece uma cultura de respeito e empatia, na qual as diferenças deixam de ser vistas como defeitos e passam a ser reconhecidas como parte da própria diversidade humana.


Todos carregamos limites, contradições, fragilidades e particularidades.


Reconhecer isso nos torna mais capazes de compreender o outro.


Quando deixamos de exigir perfeição de nós mesmos, também podemos aprender a exigir menos perfeição dos demais.


O respeito mútuo cresce quando abandonamos julgamentos superficiais e começamos a enxergar o valor humano que existe para além daquilo que pode ser visto, medido ou exibido.


Além disso, a aceitação das próprias imperfeições pode fortalecer nossa segurança interior e nossa capacidade de enfrentar as dificuldades da vida com mais coragem e serenidade.


Aceitar-se não significa permanecer imóvel.


Ao contrário.


Significa criar uma base mais saudável para crescer, aprender, mudar e explorar nosso potencial sem transformar a própria existência em uma competição permanente.


Valorizar autenticamente o ser humano em sua totalidade — com suas características, diferenças, limitações, capacidades e singularidades — contribui para criar ambientes nos quais o crescimento pessoal e coletivo possa acontecer.


Uma sociedade mais humana não nasce da eliminação das diferenças.


Nasce da capacidade de conviver com elas.


Precisamos romper com as amarras de uma perfeição imposta e aprender a reconhecer a diversidade e a singularidade de cada pessoa.


Precisamos também redefinir o próprio conceito de valor e sucesso.


Em um mundo que frequentemente estimula a competição e a comparação, torna-se essencial fortalecer uma cultura de colaboração, respeito e aceitação mútua.


Isso exige rever as narrativas que nos foram apresentadas como verdades absolutas e construir novos discursos que coloquem no centro aquilo que realmente nos conecta: humanidade, dignidade, cooperação e solidariedade.


O verdadeiro sucesso não precisa ser medido pela quantidade de pessoas que nos admiram.


Nem pela aparência que conseguimos sustentar.


Nem pela posição que ocupamos.


Talvez esteja, antes, na capacidade de viver de maneira coerente com aquilo que somos, sem precisar diminuir o outro para nos sentirmos maiores.


No fim, libertar-nos da ilusão da perfeição não significa abandonar a busca por excelência.


Significa compreender que excelência e perfeição não são a mesma coisa.


Podemos desejar evoluir sem desprezar quem somos hoje.


Podemos buscar beleza sem transformar a aparência em medida de valor.


Podemos buscar prosperidade sem confundir riqueza com dignidade.


Podemos conquistar reconhecimento sem depender dele para existir.


E podemos ser diferentes sem precisar ser superiores ou inferiores.


Por isso, é necessário questionar e transformar as estruturas que perpetuam desigualdade, exclusão e desumanização.


Precisamos recuperar a capacidade de enxergar pessoas antes de rótulos, histórias antes de julgamentos e humanidade antes de aparências.


Porque a verdadeira realização não nasce da tentativa impossível de parecer perfeito.


Ela nasce da liberdade de ser humano.


Com nossas qualidades.


Com nossas limitações.


Com nossas diferenças.


Com nossas imperfeições.


E, sobretudo, com a consciência de que o valor de uma pessoa jamais deveria depender daquilo que o mundo consegue enxergar nela.


Marco Arawak

A Casa Vazia


Existe uma casa dentro de cada ser humano. Ela não tem endereço, não aparece nos mapas e não pode ser construída por outra pessoa. É feita de memória, silêncio, desejo e consciência. É o lugar onde a nossa voz ainda é nossa. Quando somos capazes de habitá-la, conhecemos seus corredores, sabemos onde guardamos nossas alegrias, onde escondemos nossos medos, quais portas evitamos abrir e quais janelas deixamos voltadas para o mundo. No centro dessa casa existe uma chama pequena e silenciosa. É ela que nos diz: “Você está aqui.”


O problema começa quando deixamos a porta aberta por tempo demais. Lá fora, o mundo não pede licença. Ele chama, acende luzes, oferece promessas, produz urgências, entrega desejos prontos e mostra vidas cuidadosamente enquadradas. E nós saímos. Primeiro por curiosidade, depois por desejo, depois por hábito, até que um dia percebemos que estamos há tanto tempo do lado de fora que já não lembramos como era estar em casa.


Não fomos expulsos. Essa talvez seja a parte mais difícil de admitir. Nós mesmos fomos nos afastando. Trocamos o silêncio pelo ruído, a presença pela distração, a experiência pelo espetáculo e a própria voz pelo eco das vozes alheias. Começamos a conhecer a vida de pessoas que nunca encontramos, a acompanhar histórias que não são nossas e a reagir a acontecimentos que não podemos tocar, enquanto alguma coisa dentro de nós espera, em silêncio, para ser percebida.


Os espelhos se multiplicam. As telas iluminam rostos, as comparações entram pelas janelas e os sucessos alheios tornam-se medidas para a nossa própria existência. Sem perceber, começamos a perguntar menos “Quem sou eu?” e cada vez mais “Como estou sendo visto?”. Parece uma mudança pequena, mas é profunda. Quando o olhar dos outros se transforma no nosso principal espelho, começamos a construir a própria identidade do lado de fora. E uma casa construída pelo olhar alheio nunca permanece verdadeiramente nossa.


Então precisamos de mais: mais reconhecimento, mais aprovação, mais intensidade, mais alguma coisa que faça silêncio dentro de nós. Quanto mais procuramos, porém, menos encontramos. A casa permanece vazia não porque não exista nada dentro dela, mas porque ninguém está lá para perceber.


O abandono de si não acontece de uma só vez. Ele acontece em pequenas ausências: quando ignoramos aquilo que sentimos, quando dizemos “está tudo bem” sabendo que não está, quando seguimos uma direção apenas porque todos estão seguindo, quando confundimos desejo com necessidade, quando nos distraímos para não pensar ou quando falamos tanto que já não conseguimos ouvir a própria voz. A poeira se acumula, não sobre os móveis, mas sobre a memória de quem somos.


Chega então um momento em que o silêncio assusta. Depois de tanto ruído, ficar sozinho consigo mesmo pode parecer entrar em uma casa abandonada. Mas talvez o silêncio não seja vazio. Talvez seja apenas o espaço onde aquilo que foi abafado finalmente pode ser ouvido.


É ali que começa o retorno. E o retorno não exige grandes gestos. Não precisa de espetáculo, de uma nova vida ou de uma nova versão de nós mesmos. Começa pequeno: sentar, respirar, escutar, perguntar e permanecer tempo suficiente para ouvir a resposta. “O que está acontecendo dentro de mim?” Talvez ela venha baixa, talvez confusa, talvez acompanhada de coisas que preferíamos não encontrar. Não importa. A casa precisa ser reaberta.


Um cômodo de cada vez. Uma lembrança, um sentimento, uma verdade, uma escolha, uma janela. Até que a luz volte a entrar.


E então descobrimos algo essencial: voltar para si não significa abandonar o mundo. Pelo contrário. É somente quando sabemos onde estamos que podemos verdadeiramente encontrar alguém. É somente quando reconhecemos a nossa própria voz que conseguimos escutar outra pessoa sem desaparecer dentro dela. É somente quando conhecemos os nossos limites que conseguimos respeitar os limites do outro.


Uma casa habitada não é uma prisão. Tem portas, janelas e espaço para receber. Escuta o mundo, celebra, ama, aprende e acolhe, mas sabe quem possui as chaves. As paixões podem entrar sem incendiar a casa. As ideias podem entrar sem ocupar todos os cômodos. A opinião dos outros pode ser ouvida sem se transformar em sentença. O mundo pode atravessar nossas janelas sem se tornar proprietário da nossa existência.


Talvez maturidade seja isso: não fechar a porta para o mundo, mas deixar de viver permanentemente do lado de fora.


Precisamos sair. Precisamos experimentar, amar, errar, conhecer outras paisagens e encontrar outras pessoas. Mas precisamos também voltar. Voltar quando o mundo estiver barulhento demais. Voltar quando a aprovação já não bastar. Voltar quando percebermos que estamos vivendo para sustentar uma imagem que não reconhecemos. Voltar quando ninguém estiver olhando. Voltar simplesmente porque sentimos falta de nós mesmos.


Talvez essa seja a verdadeira casa: não o lugar onde nos escondemos do mundo, mas o lugar a partir do qual conseguimos habitá-lo sem nos abandonar.


No fim, não precisamos construir uma nova casa. Ela já existe. Talvez esteja apenas silenciosa. Talvez tenha algumas janelas fechadas. Talvez haja poeira sobre aquilo que um dia foi importante. Mas a chama ainda está lá, esperando.


E talvez ela não diga muita coisa. Talvez diga apenas: “Volte.”


Quando voltamos, percebemos que nunca estivemos realmente perdidos. Estávamos apenas longe demais para ouvir a nossa própria voz.


A porta sempre foi nossa. A casa sempre esteve lá. E a luz nunca deixou de esperar por nós.

A ONÇA DENTRO DE NÓS


Por: Marco Arawak


Há uma região em nós que não aparece nos espelhos.


É nela que permanecem as lembranças que o tempo não dissolveu, as perguntas que nunca terminamos de formular, os desejos que modificamos para caber nas expectativas alheias e os receios que, silenciosamente, participam de nossas escolhas.


Talvez conhecer essa região seja uma das tarefas mais difíceis da existência.


Porque olhar para dentro não significa simplesmente recordar. Significa interrogar a própria história.


Perguntar de onde vieram nossas certezas, quais experiências moldaram nossas convicções, por que determinadas situações despertam determinadas reações e até que ponto aquilo que chamamos de personalidade é, na verdade, uma construção feita de hábitos, circunstâncias e memórias.


É nesse território que encontramos a nossa autoanamnese.


Uma cartografia interior.


Um retorno às próprias origens para compreender os caminhos que nos trouxeram até aqui.


Quem fui antes de saber quem deveria ser?
O que escolhi por desejo e o que escolhi por necessidade?
Quais partes de mim nasceram de convicções e quais nasceram de adaptações?


Dentro de cada pessoa existe uma natureza que nem sempre se revela.


Há uma força silenciosa que observa antes de agir, percebe antes de responder e reconhece aquilo que muitas vezes tentamos ignorar.


É a onça dentro de nós.


Ela não precisa rugir para existir.


Move-se no silêncio das nossas percepções, atravessa nossas memórias e surge nos momentos em que algo essencial é ameaçado: nossa liberdade, nossos valores, nossos limites ou aquilo que profundamente reconhecemos como parte de nós.


Mas essa onça não representa apenas força.


Ela também representa consciência.


O instinto que observa.


A presença que não se precipita.


A capacidade de permanecer em silêncio antes de escolher um movimento.


Talvez por isso olhar para dentro exija coragem.


Porque podemos descobrir que aquilo que nos perturba nem sempre está no mundo exterior.


Às vezes, está naquilo que ainda não compreendemos em nós mesmos.


Há pensamentos que nos perseguem.


Há medos que condicionam escolhas.


Há padrões que se repetem porque jamais foram examinados.


E há partes de nossa própria história que permanecem à espera de serem reconhecidas.


Nem tudo aquilo que habita em nós precisa nos governar.


Pensar não significa necessariamente estar certo.


Sentir não significa necessariamente obedecer ao sentimento.


Ter medo não significa ser fraco.


E reconhecer uma parte difícil de nós não significa aceitá-la como destino.


A consciência começa justamente quando conseguimos observar aquilo que acontece dentro de nós sem sermos imediatamente dominados por isso.


Somos, ao mesmo tempo, experiência e observador.


Sentimos e podemos refletir sobre o que sentimos.


Pensamos e podemos questionar nossos próprios pensamentos.


Erramos e podemos compreender o erro.


É nessa distância entre o impulso e a escolha que surge uma das formas mais profundas de liberdade.


Também o passado precisa ser contemplado com honestidade.


Não para justificá-lo.


Não para condená-lo.


Mas para compreendê-lo.


A pessoa que fomos não possuía necessariamente os conhecimentos que possuímos hoje. Julgá-la apenas pelos olhos do presente pode transformar aprendizado em culpa.


O passado não pode ser refeito, mas pode ser compreendido.


E quando compreendemos aquilo que vivemos, nossa relação com a própria história começa a mudar.


A autoanamnese atravessa todas as dimensões da existência.


Está na família, onde recebemos histórias, valores e comportamentos que muitas vezes carregamos sem perceber.


Está nas amizades e nos afetos, onde descobrimos como confiamos, como estabelecemos limites e como nos relacionamos com o outro.


Está no conhecimento e no trabalho, onde nossas escolhas revelam aquilo que valorizamos e aquilo que desejamos construir.


Está nos erros, porque toda experiência pode se transformar em aprendizado.


Está nos sonhos, porque nem todo desejo que carregamos nasceu verdadeiramente em nós.


E está no futuro, porque nenhuma transformação consciente acontece sem alguma compreensão de quem somos hoje.


Por isso, talvez a pergunta mais profunda não seja simplesmente:


“Quem sou?”


Mas:


“O que está participando da construção de quem estou me tornando?”


Somos memória, mas não somos somente memória.


Somos consequência, mas também escolha.


Somos herança, mas também transformação.


Somos passado, mas ainda somos possibilidade.


A onça dentro de nós talvez seja essa parte primordial que nos lembra de permanecer atentos à própria existência.


Ela observa.


Espera.


Reconhece.


E nos ensina que força verdadeira nem sempre precisa fazer barulho.


Há momentos em que a maior demonstração de força é permanecer em silêncio.


Há momentos em que é preciso recuar.


Outros em que é necessário avançar.


E existem aqueles em que a verdadeira coragem consiste simplesmente em reconhecer o que acontece dentro de nós.


Conhecer-se não é domesticar a própria natureza.
É aprender a caminhar conscientemente com ela.


Talvez a maturidade seja justamente isso:


olhar para dentro sem medo de encontrar imperfeições;


compreender sem transformar compreensão em desculpa;


reconhecer nossas sombras sem permitir que elas ocupem todo o horizonte;


honrar nossa história sem permanecer prisioneiro dela;


e aceitar que ainda somos capazes de mudar.


A vida não é uma obra concluída.


Somos seres inacabados.


Cada experiência acrescenta uma camada.


Cada encontro desloca alguma perspectiva.


Cada perda modifica alguma medida de valor.


Cada descoberta reorganiza parte daquilo que acreditávamos saber.


Por isso, a autoanamnese não é uma resposta definitiva sobre quem somos.


É uma pergunta que aprendemos a fazer novamente.


De tempos em tempos, precisamos retornar ao silêncio e escutar aquilo que o ruído cotidiano impede de ouvir.


O que em mim é escolha?
O que é hábito?
O que é herança?
O que é medo?
O que é desejo?
E o que, finalmente, começa a ser liberdade?


Talvez a verdadeira autoanamnese seja esse retorno.


Não ao passado.


À consciência.


Entrar na própria floresta.


Reconhecer os rastros.


Perceber os movimentos.


E descobrir que, dentro de nós, existe uma natureza que não precisa ser temida nem negada, mas compreendida.


Porque conhecer a si mesmo não é encontrar uma identidade imóvel.


É perceber o próprio movimento.


É compreender de onde viemos sem nos aprisionarmos à origem.


É reconhecer aquilo que nos constitui sem permitir que isso determine tudo o que ainda podemos ser.


E talvez seja essa a grande lição da onça:


a força que realmente conhece a si mesma não precisa anunciar sua presença.


Ela simplesmente sabe quando observar.


Quando esperar.


Quando avançar.


E, sobretudo,


quando permanecer em silêncio.


Marco Arawak

A ONÇA DENTRO DE NÓS

Por: Marco Arawak

Há em cada ser humano uma região que não se revela inteiramente à própria consciência. É uma zona anterior às palavras, onde permanecem impressões que não sabemos quando adquirimos, medos que não lembramos ter aprendido, desejos cuja origem confundimos com liberdade e respostas que surgem em nós antes mesmo que tenhamos tempo de perguntar por quê.

Passamos a vida habitando esse território e, paradoxalmente, podemos permanecer estrangeiros dentro de nós mesmos.

Talvez uma das maiores ilusões humanas seja imaginar que nos conhecemos simplesmente porque carregamos conosco, desde sempre, o próprio nome, a própria história e a própria memória. Saber quem somos não é o mesmo que saber de onde vieram as forças que nos constituíram. Há uma diferença profunda entre ser e ter aprendido a ser. Entre aquilo que verdadeiramente escolhemos e aquilo que incorporamos para sobreviver, pertencer, agradar, proteger-nos ou simplesmente continuar caminhando.

A autoanamnese começa quando essa diferença deixa de ser uma abstração e transforma-se em pergunta.

Quem sou eu por trás daquilo que aprendi a ser?

Que parte das minhas convicções nasceu de uma escolha consciente e que parte delas foi herdada, absorvida, imposta ou construída como defesa? Quantas das minhas certezas resistiriam se eu tivesse coragem de investigar sua origem? E quantas das minhas reações pertencem realmente ao presente, quando talvez sejam apenas ecos de acontecimentos que o tempo levou, mas que a consciência ainda não elaborou?

É nesse ponto que entramos no território mais delicado da existência: o encontro entre aquilo que sentimos e aquilo que pensamos.

Antes de existir uma ideia, muitas vezes existe uma sensação. Antes de formularmos um julgamento, alguma coisa em nós já se aproximou ou recuou. O corpo percebe, a memória associa, o instinto responde. Só depois a razão chega, procurando compreender o acontecimento e, não raro, construir uma explicação para algo que já começou a nos mover.

O instinto possui uma inteligência própria. Ele não argumenta; reconhece. Não constrói teorias; responde a sinais. É a herança silenciosa de incontáveis experiências acumuladas no corpo e na memória, uma forma de percepção que frequentemente alcança o perigo, a oportunidade ou a mudança antes que a linguagem consiga traduzi-los.

É nesse sentido que a imagem da onça encontra sua força.

Ela não representa simplesmente a ferocidade que carregamos, tampouco uma natureza selvagem que precisaria ser vencida pela civilização. Representa uma dimensão primordial da existência: aquilo que percebe antes de explicar, que reage antes de justificar, que conhece determinados caminhos sem precisar transformá-los imediatamente em conceitos.

Mas justamente por possuir essa força, o instinto não pode ser confundido com verdade.

Aquilo que sentimos com intensidade não se torna verdadeiro apenas porque foi intenso. O medo pode ser um excelente guardião e, em determinadas circunstâncias, um péssimo intérprete. Uma experiência passada pode ensinar prudência, mas também pode deformar nossa percepção do presente. Uma ferida antiga pode continuar reagindo a acontecimentos que já não possuem a mesma natureza.

É nesse instante que a razão se torna necessária.

Não para destruir o instinto, mas para conversar com ele.

A verdadeira razão talvez não seja aquela que procura calar tudo aquilo que não consegue explicar, mas aquela que possui coragem suficiente para perguntar ao próprio impulso o que ele está tentando dizer. De onde veio esse medo? O que exatamente estou tentando proteger? Por que essa situação me ameaça tanto? Estou respondendo ao que está diante de mim ou ao que alguma experiência anterior me ensinou a esperar?

A pergunta inaugura uma distância.

E nessa distância começa a consciência.

Existe uma diferença decisiva entre sentir medo e ser governado pelo medo; entre sentir raiva e tornar-se instrumento dela; entre desejar alguma coisa e acreditar que todo desejo precisa transformar-se em ação. O impulso pode surgir sem nossa autorização. A escolha, porém, pode nascer justamente daquilo que fazemos depois de reconhecê-lo.

Talvez a liberdade humana resida nesse intervalo quase imperceptível entre o estímulo e a resposta.

É um espaço pequeno, mas nele cabe uma existência inteira.

Ali podemos interromper a automatização da própria vida. Podemos observar aquilo que se levanta dentro de nós sem imediatamente obedecer. Podemos reconhecer o impulso sem confundi-lo com destino. E, sobretudo, podemos descobrir que consciência não significa ausência de forças interiores, mas capacidade de estabelecer uma relação lúcida com elas.

Por isso, a maturidade não consiste em fazer com que a razão esteja sempre à frente do instinto. Seria uma pretensão impossível. Existem momentos em que o corpo saberá antes da mente; existem percepções que chegam sem pedir licença; existem respostas que pertencem a uma camada tão profunda da experiência que nenhum raciocínio poderia substituí-las inteiramente.

A maturidade está em aprender a voltar ao impulso.

Olhar novamente.

Interrogá-lo.

Compreendê-lo.

E então decidir.

A razão, quando verdadeiramente amadurece, deixa de ser uma tirana que pretende governar todos os movimentos interiores e passa a ser uma consciência de direção. Ela não elimina a espontaneidade; oferece-lhe contexto. Não destrói o desejo; investiga sua origem. Não nega o medo; procura distinguir proteção de aprisionamento.

Porque também a razão pode servir àquilo que deseja combater.

Podemos construir argumentos brilhantes para justificar escolhas que já havíamos decidido fazer. Podemos transformar orgulho em princípio, ressentimento em justiça, medo em prudência e conveniência em convicção. O pensamento, quando utilizado apenas para justificar aquilo que já queremos acreditar, deixa de ser instrumento de compreensão e torna-se advogado de nossas próprias ilusões.

Pensar muito não significa compreender profundamente.

Às vezes, pensar é apenas encontrar palavras sofisticadas para não olhar aquilo que nos incomoda.

A autoanamnese interrompe esse mecanismo porque nos obriga a retornar à origem. Ao revisitarmos nossa própria história, percebemos que quase nenhuma reação é absolutamente isolada. Há uma genealogia dos nossos medos, dos nossos desejos, das nossas recusas e até das nossas certezas. Aquilo que chamávamos simplesmente de personalidade pode conter antigas estratégias de proteção. Aquilo que interpretávamos como intuição pode carregar experiências mal elaboradas. Aquilo que acreditávamos ser uma escolha pode ter sido, em algum momento, apenas a alternativa que encontramos para continuar pertencendo.

Conhecer-se, então, não é acrescentar definições ao próprio nome.

É retirar camadas.

É distinguir a voz da experiência da voz do condicionamento. É reconhecer aquilo que herdamos sem necessariamente precisar perpetuá-lo. É compreender que algumas respostas foram úteis para quem fomos, mas talvez já não sejam necessárias para quem estamos nos tornando.

O passado não pode ser refeito.

Mas pode ser compreendido.

E existe uma diferença extraordinária entre essas duas coisas.

Compreender o passado não significa absolvê-lo de tudo nem transformar nossas escolhas anteriores em algo justificável. Significa devolvê-las ao contexto em que aconteceram. A pessoa que fomos possuía os conhecimentos, os medos, os recursos e as limitações daquele momento. Julgá-la exclusivamente com a consciência que adquirimos depois pode produzir culpa onde deveria existir aprendizado.

A memória, quando examinada com honestidade, deixa de ser apenas arquivo e transforma-se em matéria-prima para a consciência.

É assim que o instinto começa a mudar de estatuto dentro de nós.

Ele deixa de ser uma ordem.

Torna-se informação.

Essa talvez seja uma das maiores transformações produzidas pelo autoconhecimento. Não precisamos deixar de sentir; precisamos compreender o que sentimos. Não precisamos eliminar o impulso; precisamos impedir que ele permaneça invisível. Não precisamos expulsar a onça de dentro de nós; precisamos conhecê-la suficientemente para compreender quando sua força está protegendo nossa existência e quando está apenas repetindo uma ameaça que já não existe.

A razão, nesse encontro, não reina sobre o instinto como um soberano sobre um súdito. Ambos participam de uma realidade mais ampla.

O instinto nos ancora no presente imediato. A razão introduz distância. O instinto reconhece sinais; a razão compara possibilidades. O instinto percebe urgências; a razão considera consequências. Um nos aproxima da realidade concreta do momento; o outro nos permite imaginar aquilo que ainda não aconteceu.

Entre os dois nasce o discernimento.

E discernir talvez seja uma das formas mais elevadas de liberdade.

Nem todo medo merece obediência. Nem todo desejo exige satisfação. Nem toda provocação necessita de resposta. Nem toda oportunidade precisa ser perseguida. Nem toda certeza merece permanecer intacta.

A verdadeira força talvez não esteja em reagir com maior intensidade, mas em possuir liberdade suficiente para escolher quando reagir e quando não fazê-lo.

É por isso que dominar a si mesmo não deveria significar dominar a própria natureza. Uma natureza reprimida não se torna necessariamente uma natureza integrada; muitas vezes apenas aprende a esconder-se. Aquilo que negamos não desaparece. Pode mudar de forma, encontrar outras saídas, reaparecer em comportamentos que já não reconhecemos como seus.

A integração é mais difícil do que a repressão porque exige conhecimento.

Exige olhar para dentro sem transformar cada descoberta em condenação.

Exige reconhecer nossa agressividade sem glorificá-la; nossa fragilidade sem envergonhar-nos dela; nossos desejos sem transformá-los automaticamente em direitos; nossos medos sem permitir que eles decidam por nós.

Talvez seja esse o verdadeiro significado da onça dentro de nós.

Não um monstro a ser derrotado.

Não uma força a ser adorada.

Mas uma dimensão da própria natureza humana que precisa ser reconhecida, compreendida e integrada.

A onça não pergunta quem somos. Ela simplesmente existe.

Nós é que precisamos perguntar o que fazemos com aquilo que existe em nós.

E essa pergunta nos devolve à autoanamnese.

Porque investigar a própria história é perceber que somos feitos de camadas: memória e esquecimento, herança e ruptura, instinto e reflexão, necessidade e escolha. Somos consequência de acontecimentos que não escolhemos, mas também somos responsáveis pela maneira como continuamos a interpretá-los.

Não somos autores de tudo aquilo que nos aconteceu.

Mas podemos tornar-nos autores daquilo que fazemos com o que nos aconteceu.

Talvez essa seja a fronteira mais profunda entre condicionamento e liberdade.

Não escolhemos todos os impulsos que surgem.

Não escolhemos todas as marcas que recebemos.

Não escolhemos o primeiro movimento da consciência.

Mas podemos, pouco a pouco, aprender a escolher o segundo.

E talvez seja justamente nesse segundo movimento que comece a verdadeira autoria de uma vida.

Entre a sensação e o significado.

Entre o impulso e a decisão.

Entre aquilo que fomos ensinados a temer e aquilo que finalmente compreendemos.

Entre a onça que reage e o ser humano que observa sua própria reação.

É nesse intervalo que a existência deixa de ser apenas acontecimento e começa a tornar-se consciência.

Talvez conhecer a si mesmo nunca signifique chegar a uma resposta definitiva. Somos seres inacabados, atravessados continuamente por experiências que reorganizam nossa percepção, deslocam nossas certezas e revelam aspectos de nós que antes permaneciam ocultos. A identidade não é uma estátua concluída; é uma construção em movimento.

Por isso, a pergunta mais profunda talvez não seja apenas “quem sou?”, mas:

“O que, dentro de mim, está participando da construção de quem estou me tornando?”

Essa pergunta exige coragem porque retira de nós a comodidade de sermos apenas espectadores da própria história.

Ela nos devolve responsabilidade.

E, com a responsabilidade, a possibilidade de transformação.

A onça continuará dentro de nós. O instinto continuará surgindo antes de muitas explicações. A razão continuará tentando compreender aquilo que a experiência apresenta. O passado continuará deixando rastros. Nada disso precisa ser eliminado.

O que pode mudar é a relação que estabelecemos com tudo isso.

Quando aprendemos a reconhecer o impulso sem nos tornarmos seu instrumento, a memória sem sermos prisioneiros dela, a razão sem transformá-la em máscara e a própria natureza sem precisar negá-la, alguma coisa essencial se modifica.

Já não somos apenas aquilo que nos atravessou.

Começamos a participar conscientemente daquilo que nos tornamos.

E talvez seja essa a forma mais profunda de liberdade: não a liberdade de deixar de possuir uma natureza, mas a liberdade de conhecê-la; não a liberdade de nunca sentir medo, desejo ou raiva, mas a liberdade de não entregar automaticamente a eles o governo de nossa existência.

A onça permanece.

Mas agora sabemos que ela está dentro de nós.

E saber disso muda a maneira como caminhamos pela floresta.

Marco Arawak

Dicotomia

Autor: Marco Arawak

Há uma fronteira quase invisível entre aquilo que desejamos e aquilo que somos capazes de suportar. É justamente ali que o amor começa a nos dividir.

Porque amar parece simples quando visto de longe. Gostar, querer, estar perto, sentir falta. Quase uma matemática doméstica de presenças e ausências. Mas, quando se atravessa a superfície, o que parecia simples revela uma arquitetura muito mais antiga: o desejo de encontrar alguém sem perder a si mesmo.

Queremos companhia, mas também queremos espaço. Queremos atenção, mas nos incomodamos quando ela se transforma em vigilância. Queremos ser procurados, mas às vezes precisamos não ser encontrados. Pedimos sinceridade e, quando ela chega sem delicadeza, desejamos que algumas verdades permanecessem ocultas.

É assim que o contraditório começa nas pequenas coisas.

Dizemos que queremos alguém que nos conheça profundamente, mas tememos ser conhecidos por inteiro. Desejamos transparência, embora preservemos dentro de nós regiões que nem sequer sabemos explicar. Queremos segurança, mas frequentemente confundimos segurança com rotina e, depois de encontrá-la, sentimos falta da vertigem.

O raso não é necessariamente falso. Muitas vezes é apenas a superfície de algo que ainda não aprendemos a nomear.

Por trás do simples “fica comigo” pode existir o medo de ser abandonado. Por trás do “preciso de espaço”, a necessidade de preservar uma identidade ameaçada pela proximidade. Por trás de um silêncio, pode haver tanto indiferença quanto aquilo que nenhuma palavra consegue organizar.

O amor nos promete encontro, mas nos devolve à nossa própria solidão. Quanto mais profundamente nos entregamos, mais nítida se torna a consciência de que ninguém pode atravessar inteiramente o território de ninguém. Há sempre uma região inviolável, um lugar onde permanecemos irremediavelmente sós.

Queremos ser compreendidos sem sermos completamente decifrados. Queremos pertencer sem deixar de possuir a própria existência. Buscamos no outro uma morada, embora saibamos que nenhuma morada pode substituir aquilo que somos.

Queremos permanência, mas somos feitos de mudança.

Queremos certezas, mas nos apaixonamos justamente pelo que não conseguimos prever.

Queremos que o outro permaneça igual, enquanto nós mesmos exigimos o direito de mudar.

Queremos liberdade dentro do vínculo e vínculo dentro da liberdade.

Talvez amar seja conviver com essas pequenas incoerências até perceber que elas não são acidentes do sentimento, mas parte de sua própria estrutura.

Entregar-se é uma forma estranha de coragem. Não porque elimine o medo, mas porque o incorpora. O coração avança levando consigo tudo aquilo que a razão aconselharia abandonar.

E a razão, por sua vez, não é necessariamente a inimiga do sentimento. Ela é a consciência do preço. Sabe que toda entrega modifica quem entrega, que todo vínculo cria possibilidades de perda e que aquilo que nos pode transformar também pode nos desorganizar.

É curioso: às vezes queremos alguém que nos tire da solidão, mas não suportamos alguém que se torne indispensável. Queremos intensidade, mas reclamamos do excesso. Queremos profundidade, mas nem sempre estamos preparados para aquilo que encontramos quando alguém finalmente mergulha em nós.

Talvez porque a profundidade cobre um preço que a superfície não cobra.

Na superfície, queremos o abraço.

No fundo, queremos ser vistos.

Na superfície, queremos companhia.

No fundo, queremos reconhecimento.

Na superfície, queremos alguém que fique.

No fundo, queremos a certeza de que podemos continuar sendo nós mesmos enquanto alguém fica.

E talvez seja essa passagem do raso ao profundo que revele a verdadeira natureza da dicotomia.

Não escolher entre o amor e o medo, mas compreender que ambos podem nascer do mesmo lugar.

Amamos porque somos capazes de nos abrir. Tememos porque sabemos que aquilo que se abre também pode ser ferido.

Queremos o outro porque somos incompletos, mas precisamos permanecer inteiros para que o encontro não se transforme em desaparecimento.

Vivemos, assim, entre duas forças que não se anulam: a necessidade de permanecer e o impulso de partir; o desejo de fusão e a necessidade de contorno; a vontade de ser dois e o instinto de continuar sendo um.

Essa é a verdadeira dicotomia.

Não está apenas entre duas escolhas.

Está dentro da própria escolha.

Porque toda decisão carrega aquilo que recusamos, toda aproximação conserva alguma distância e toda entrega guarda, em algum lugar, a possibilidade da retirada.

Talvez amadurecer seja abandonar a ilusão de resolver essa contradição. Há conflitos que não pedem solução, pedem consciência.

O amor talvez seja justamente isso: não a ausência da distância, mas a coragem de habitá-la. Não a promessa de que o outro nos completará, mas a lucidez de saber que ninguém nos completa e, ainda assim, escolher compartilhar a incompletude.

Dois seres inteiros aproximando-se sem a pretensão de se tornarem um. Duas solidões que reconhecem uma à outra e compreendem que intimidade não é possuir o território do outro, mas ser recebido em sua fronteira.

Porque amar é permanecer diante do mistério sem exigir que ele deixe de ser mistério.

É sustentar o paradoxo: querer ficar e saber partir; entregar-se sem desaparecer; pertencer sem possuir; aproximar-se sem destruir a distância que torna possível o encontro.

Talvez seja essa a única forma possível de eternidade entre dois seres finitos: não vencer o tempo, não abolir a perda, não garantir o amanhã, mas fazer com que, por um instante, duas existências reconheçam uma na outra aquilo que jamais poderão possuir inteiramente.

E talvez seja aí, precisamente aí, que o amor deixa de ser promessa e se torna verdade.

Quando já não precisamos vencer a dicotomia para permanecer, porque compreendemos que a contradição não é a falha do amor.

É o lugar onde o amor revela sua profundidade.

E talvez sejamos nós mesmos assim: rasos naquilo que dizemos, profundos naquilo que calamos; contraditórios no que desejamos, coerentes apenas naquilo que ainda não conseguimos compreender.

No fim, amar talvez não seja encontrar uma resposta.

É ter coragem de permanecer inteiro diante da pergunta.

DICOTOMIA



Autor: Marco Arawak


Há uma fronteira quase invisível entre aquilo que desejamos e aquilo que somos capazes de suportar. É ali que o amor começa a nos dividir.


De longe, parece simples. Gostar, querer, aproximar-se, sentir falta. Uma pequena gramática de presenças e ausências. Mas basta atravessar a superfície para descobrir que, por baixo do gesto mais banal, existe quase sempre uma pergunta que não sabemos responder.


Queremos companhia, mas também espaço. Queremos atenção, mas tememos a vigilância. Pedimos sinceridade e, quando ela chega sem delicadeza, desejamos que certas verdades permanecessem intocadas.


Queremos ser procurados, mas nem sempre queremos ser encontrados.


É assim que o contraditório se instala, primeiro nas pequenas coisas, depois em tudo.


Dizemos que queremos alguém que nos conheça profundamente, mas tememos ser conhecidos por inteiro. Desejamos transparência, embora preservemos dentro de nós regiões que nem sequer sabemos explicar. Procuramos segurança e, quando a encontramos, às vezes sentimos falta daquilo que nos fazia tremer.


O raso não é o oposto do profundo. É apenas aquilo que ainda não foi atravessado.


Por trás de um simples “fica” pode existir o medo de ser deixado. Por trás de um “preciso de espaço”, a necessidade de não desaparecer dentro de alguém. Por trás de um silêncio pode haver indiferença, medo, cansaço ou uma verdade que ainda não encontrou linguagem.


O amor promete encontro, mas devolve cada um à própria solidão.


Quanto mais nos aproximamos, mais percebemos a distância que permanece. Ninguém atravessa inteiramente o território de ninguém. Há sempre uma região inviolável, um lugar onde continuamos estrangeiros até para aqueles que mais amamos.


E talvez seja justamente isso que nos assuste.


Queremos ser compreendidos sem sermos completamente decifrados. Queremos pertencer sem deixar de existir por conta própria. Procuramos no outro uma morada, embora saibamos que nenhuma morada pode substituir aquilo que somos.


Queremos permanência, mas somos feitos de mudança.


Queremos certezas, mas muitas vezes é o imprevisível que nos desperta.


Queremos liberdade dentro do vínculo e vínculo dentro da liberdade.


Queremos que o outro permaneça, mas não queremos permanecer os mesmos.


E talvez nenhuma dessas contradições seja um erro.


Talvez sejam apenas sinais de que amar não é possuir uma resposta, mas sustentar perguntas que não cabem numa resposta.


Entregar-se é uma forma estranha de coragem. Não porque elimine o medo, mas porque decide não obedecer inteiramente a ele.


A razão calcula o risco.


O desejo ignora a conta.


E, entre os dois, existimos nós.


A razão não é inimiga do sentimento. É a consciência do preço. Sabe que toda entrega modifica quem entrega, que todo vínculo abre possibilidades de perda e que aquilo que nos transforma também pode nos desorganizar.


Ainda assim, avançamos.


Às vezes queremos alguém que nos liberte da solidão, mas tememos torná-lo indispensável. Queremos intensidade, mas recuamos diante do excesso. Pedimos profundidade e, quando ela finalmente nos alcança, descobrimos que ser visto é também perder alguns esconderijos.


Na superfície, queremos o abraço.


No fundo, queremos ser reconhecidos.


Na superfície, queremos companhia.


No fundo, queremos que alguém compreenda a nossa solidão sem tentar ocupá-la.


Na superfície, queremos alguém que fique.


No fundo, queremos continuar sendo nós mesmos enquanto esse alguém permanece.


É nessa passagem do raso ao profundo que a dicotomia deixa de ser contradição e se revela condição.


Não está entre o amor e o medo.


Está no próprio amor.


Porque amamos justamente aquilo que pode nos atingir. Abrimos a porta sabendo que o mesmo gesto que permite a entrada também torna possível a ferida.


Queremos o outro porque somos incompletos, mas precisamos permanecer inteiros para que o encontro não se transforme em desaparecimento.


Vivemos entre forças que não se anulam: permanecer e partir, aproximar-se e preservar-se, entregar-se e guardar-se, ser dois sem deixar de ser um.


Essa é a verdadeira dicotomia.


Não escolher entre extremos, mas descobrir que ambos podem ser verdadeiros ao mesmo tempo.


Toda escolha carrega aquilo que recusamos. Toda aproximação conserva alguma distância. Toda entrega guarda, em algum lugar, a possibilidade da retirada.


Talvez amadurecer seja abandonar a necessidade de resolver aquilo que a própria existência insiste em manter aberto.


Há conflitos que não pedem solução.


Pedem consciência.


O amor talvez seja isso: não abolir a distância, mas aprender a habitá-la. Não esperar que o outro nos complete, mas reconhecer que ninguém nos completa e, ainda assim, escolher compartilhar a incompletude.


Dois seres inteiros aproximando-se sem a pretensão de se tornarem um.


Duas solidões que se reconhecem.


Não para se possuir.


Não para se salvar.


Mas para testemunhar, ainda que por um instante, aquilo que existe de mais inacessível em cada um.


Porque intimidade não é atravessar completamente o outro.


É chegar suficientemente perto sem destruir o mistério.


Amar é permanecer diante desse mistério sem exigir que ele deixe de ser mistério.


É querer ficar e saber partir.


É entregar-se sem desaparecer.


É pertencer sem possuir.


É aproximar-se sem destruir a distância que torna possível o encontro.


Talvez essa seja a única eternidade possível entre seres finitos: não vencer o tempo, não impedir a perda, não garantir o amanhã, mas fazer com que duas existências se reconheçam profundamente sem jamais poderem possuir-se por inteiro.


E talvez seja aí que o amor deixe de ser promessa e se torne verdade.


Quando já não precisamos vencer a dicotomia para permanecer.


Quando compreendemos que a contradição não é a falha do amor.


É a sua forma mais humana de existir.


Porque somos assim também: rasos naquilo que dizemos, profundos naquilo que calamos; contraditórios no que desejamos, lúcidos apenas depois de sentir.


No fim, talvez amar não seja encontrar uma resposta.


Talvez seja ter coragem de permanecer inteiro diante da pergunta: Será?

"Quem não consegue ver o que é precioso na vida nunca será feliz."

Inserida por biancavasconcelos

" É preciso perder para aprender a ganhar. Aqueles que somente ganham - ou somente ganhando querem viver - não sabertrão como portar-se nem como suportar-se, tempouco como encontrar suporte para os cortes que as perdas fazem acontecer".

Inserida por alvanices

Quando você séria, serei piração.

Inserida por poetaartificial

" Quando buscamos adaptar o mundo e as pessoas aos nossos padrões pessoais de realidade e verdade, sem estarmos alinhados com uma postura humilde, corremos o risco de cometer grandes equívocos. (...) As diferenças são um recurso divino, capazes de enriquecer a experiência do ser espiritual em direção à plenitude."

Inserida por Epena

A necessidade de cada um é o que diz o real valor das coisas.

Inserida por loveandrockets

O Extraordinário
Jota A e Danillo Souza Santos

Ele foi onde ninguém pisou
Curou quem o mundo esqueceu
Chorou lágrimas de um fiel
Moveu terra e céu

Entrou na história da humanidade
E foi um capítulo a parte
Antes e depois, princípio e fim
Pedra de esquina angular
O único e verdadeiro, último e primeiro

Pra pagar o preço pelos meus pecados
Foi traído, transpassado, crucificado
O rei despiu-se da glória
No corpo mortal, pra me fazer imortal
Sua glória transcende o que é natural
Seus olhos tem fogo, consomem o mal
E em sua coxa está escrito que ele é
Rei dos reis e Senhor dos senhores

Adorai o cordeiro de Deus, exaltai o cordeiro de Deus
Digno de abrir o livro e desatar os selos, só ele é, só ele é
Espírito Santo faz arder em mim a presença de Jesus,
Raiz de Davi, santo e tremendo, justo e fiel

Absoluto, exaltado, ele é Senhor
Leão imbatível, campeão de Judá
Revelação perfeita, santo de Israel
Em seu DNA tem os mistérios de Deus
Extraordinário, nele não há defeitos
Onipotente, indescritível, incomparável
Desejado das nações, príncipe do céu
Estrela da manhã, Emanuel

Adorai o cordeiro de Deus, exaltai o cordeiro de Deus
Digno de abrir o livro e desatar os selos, só Ele é, só Ele é
Espírito Santo faz arder em mim a presença de Jesus,
Raiz de Davi, santo e tremendo, justo e fiel (2x)

Inserida por danillosouzasantos

Armadura De Deus


"Todos os dias nós somos tentados,
pois o inimigo de nossas almas
está ao redor para nos destruir.
portanto, levante e reviste-se!"

Se revista da armadura do Deus Emanuel
Se revista da armadura do Deus que fez terra e céu
Se revista da armadura do Deus Emanuel
Se revista da armadura do Deus que fez terra e céu (BIS)

Ele vem... Jesus! Ele vem... (BIS)

Se revista da armadura do Deus Emanuel
Se revista da armadura do Deus que fez terra e céu
Se revista da armadura do Deus Emanuel
Se revista da armadura do Deus que fez terra e céu

Oh-oh-oh...

"1ª pedro 4:7 diz: Pois o tempo está próximo de tudo terminar;
Por isso, sabendo disso vigiai e orai, vigiai e orai"

Guerreiro, marche! (4x)

Esquerda, direita, jab, direto
Em cima, em baixo, empurre (2X)

Marche! (4x)
vai vai vai soldado,
Avante,avante

Primeiro round
é hora de vencer,
é hora de vencer.

Esquerda, direita, jab, direto
Em cima, em baixo, empurre (4x)

Segundo round
É hora de vencer

Esquerda, direita, jab, direto
Em cima, em baixo, empurre (3x)

Esquerda, direita, jab, direto
marche!

Nocaute!Nocaute!Nocaute!

Inserida por danillosouzasantos

Os dias sem ela são cinzentos, geralmente, eu costumo ficar chorando de saudades e me perguntando: “O que teria acontecido se eu não tivesse feito aquilo? A gente ainda taria junto?”. Mas a gente é assim, daqui a pouco tá junto de volta, como se nada tivesse acontecido. É estranho, nunca tive algo parecido com ninguém, ela é especial. Eu sei que sou orgulhoso demais, mas tem algo nela que… me faz ir correndo atrás, isso me deixa confuso. Ela me mudou de todos os jeitos, em tão pouco tempo, coloriu meu céu, secou minhas lágrimas muitas vezes, me deu colo, conselhos. E ah, o cafuné dela é o melhor. Ela é linda, linda, linda, de todo jeito, com cara de sono, com cara de assustada, de todo jeito mesmo. Eu amo ela de um jeito torto, errado e confuso. É realmente estranho a nossa relação, nunca vi algo parecido. Nós somo um tipo de “amorizade”, somos como nos filmes, brigamos, ficamos de mal, fazemos birras, sentimos saudades, rimos um da cara do outro e estamos se amando de novo. Confesso que eu perderia o chão sem ela, não vou falar que não ia conseguir viver sem ela, eu até conseguia, mas não ia viver direito. Espero um dia nunca perder ela, porque se eu perder, até eu sei, eu me perco também.

Inserida por inexplicar

Nada a fez desistir de uma atividade que, se de inicio foi um meio de vingar-se da vida, logo virou sua razão de ser.

Inserida por FernandaTR

Aprendi na Vila Militar, no 1o.GCan90AAé, unidade do Exército Brasileiro - Primeira Região Militar, que "Ordem dada, ordem cumprida" - duro de absorver, pois nem sempre pode ser assim. Os tempos mudaram. Novos tempos chegaram e missão dada, depois de bem emanada e pensada, deve ser cumprida, dentro do possível!

Inserida por ajotage

Procure ser um filtro, e não uma esponja.

Inserida por lobothais

Eu sonhei um sonho

Houve um tempo em que os homens foram gentis
Quando suas vozes eram macias
E suas palavras convidativas
Houve um tempo em que o amor era cego
E o mundo era uma canção
E a canção era entusiasmadora
Houve um tempo e tudo deu errado

Eu sonhei um sonho, dias atrás
Quando a esperança era grande e a vida valia a pena
Sonhei que o amor nunca morreria
Sonhei que Deus seria bondoso

Então eu era jovem e sem medo
E sonhos foram realizados, utilizados e desperdiçados
Não houve preço a ser pago
Nenhuma canção não cantada nenhum vinho não saboreado

Mas os tigres vêm à noite
Com suas vozes macias como o trovejar
Como se eles acabassem com sua esperança
Enquanto eles transformam seu sonho em desgraça

Ele dormiu um verão ao meu lado
Ele preencheu meus dias com infinitas maravilhas
Ele alcançou minha infância, com seus largos passos
Mas ele foi embora quando o outono chegou

E ainda sonhei que ele voltaria para mim
Que iríamos viver nossos anos, juntos
Mas há sonhos que não podem acontecer
E há tempestades não podemos resistir

Eu tive um sonho de como minha vida seria
Diferente deste inferno que estou vivendo
Agora é diferente do que parecia
Agora a vida matou o sonho que sonhei
O sonho, o sonho que sonhei

Inserida por loveandrockets

O instante de um raio de luz atravessando as trevas era para ela a criação cotidiana do mistério da vida.

Inserida por lightinthedark