Era
Disseram que ela era sensível demais...
Uma sensibilidade que aos olhos alheios era uma desvirtude, uma fraqueza.
- Sensível demais num mundo insensível.
- Vai sofrer menina! Disseram.
Ledo engano!
Não sabiam que em sua aparente vulnerabilidade, habitava ali uma fortaleza.
Sentimento sentido é o maior dos sentidos...
Ela diz:
Sinto, muito..., é bem verdade.
Sinto só, sinto junto, sinto até o não sentir...
Sintonizo aqui e ali
Sinto medo, sinto amor
Sinto até a flor
Da maior, a menor
Sensivel, sim senhor!
Caramba, como doía. Era como se ele tivesse fechado a
porta para nós e jogado a chave fora. Ele podia ter jogado
areia em meus olhos também, doeria do mesmo jeito.
Um velho amigo meu dizia que toda hora era hora, não existia essa história de deixar pra depois, e a todo instante ele gostava de me lembrar:
— Tem vontade de fazer? Faça.
Eu apenas sorria, com olhar pensativo.
— A vida é uma janela — ele dizia — precisamos libertar esse pássaro… deixar voar — o pássaro era nós — o mundo não vai parar só pra que você tenha tempo pra se decidir se quer fazer ou não.
Eram palavras muito sábias, disso eu sabia. Até que um dia, assistindo o pôr-do-sol da minha janela, observei um pequeno bem-te-vi que voou bem do meu lado me fazendo companhia. Ele ficou parado, quietinho, e parecia não ter medo de nada. Bem longe dali havia outros pássaros que pareciam brincar nos arbustos ramificados do quintal da minha casa, enquanto outros pareciam voar livremente pelo céu alaranjando que era substituído aos poucos pelas sombras do anoitecer. Isso me fez questionar porque aquele pequeno bem-te-vi não estaria fazendo o mesmo, voando, e ao invés disso ele apenas havia decidido ficar ali parado, observando, assim como eu estava antes, olhando pro sol se por. Ele estaria esperando? Pensei por um breve instante. Até que depois de algum tempo suas asas resolveram bater e segundos depois ele já estaria longe dos meus olhos desaparecendo no céu.
“É inevitável ficar parado, mas a qualquer momento ele teria que voar” — uma voz ecoou na minha cabeça.
Foi então que entendi o que havia acontecido ali, com o pássaro, que passou tanto tempo na minha janela esperando o tempo certo pra voar que quando determinou fazer isso já aprecia ser tarde, quando o dia já estaria finalizando no horizonte. E isso me fez pensar nas escolhas, no tempo perdido. Das vezes que ficamos na nossa janela decidindo… esperando. Mas esperando o quê?
— E se eu tiver medo de voar? — Lembrei-me daquela conversa com meu amigo
— O medo é uma reação do nosso corpo que nos faz ficar atentos aos riscos — ele parecia ao certo o que dizia — sem o medo, poderíamos fazer várias escolhas, até aquelas que não perecem ser a melhor pra decidirmos os nossos caminhos.
“Então é normal sentir medo” — pensei com um ar reconfortante enquanto continuava a olhar pro outro lado da minha janela, que já estava escuro.
“Toda hora era hora, não existi essa história de deixar pra depois”
Aquele pensamento me fez correr pra abrir a porta com a decisão de voar, mesmo que já fosse tarde, como havia feito aquele pássaro outro dia. A liberdade parecia existir lá fora, longe daquela porta ou da minha velha janela que eu ficava dia-a-dia a observar, e decerto haveria um céu na qual eu pudesse ir bem longe… então fui, sem esperar, porque certamente meu amigo haveria voado muito durante a sua vida sem ter deixado nada pra fazer depois.
Às vezes, eu ficava presa às outras pessoas por muito tempo, porque era mais fácil do que ficar dentro de mim.
Era ao mesmo tempo estranho e injusto, um exemplo real da arbitrariedade lamentável da existência, que você tenha nascido em uma época específica e ficado preso lá, querendo ou não. Isso lhe deu uma vantagem indecente em relação ao passado e fez de você um palhaço em relação ao futuro.
A AMIGA
Não sei se te digo ou se não,
Que contigo eu espanto a solidão.
No início, era só amiga; depois, o remédio pro meu coração.
Tempo ao Tempo.
O Relógio Abstrato.
Ao final dos anos 80, a Rádio Relógio do Rio Janeiro era a referência da hora certa. Os relógios dos incautos, como eu, eram
acertados pela audição daquela Rádio. Cada segundo era marcado por um som característico, enquanto o locutor, em tom mais alto, anunciava os “patrocinadores da hora certa”. Lembro-me do mais famoso: “Galeria Silvestre – a galeria da luz”. E assim, ia ele navegando entre os segundos, as propagandas e o emblemático: “você sabia?”. Tudo isso ao som insistente de cada segundo, martelando a passagem do tempo que se perdeu e, pior, o prestes a se perder no próximo segundo.
Instantes antes do final do ciclo, ou seja, o minuto, o som ficava mais intenso e o locutor vaticinava: “seis horas e três minutos”.
Antes, porém, não satisfeito, o locutor alardeava: “cada minuto é um milagre que não se repete”.
Devo confessar: aquela ameaça me impressionava. Estava eu perdendo o meu tempo? O que fazer com ele? O tempo é um milagre? Como melhor aproveitá-lo?
Até hoje não sei as repostas, mas pouco importa, muitas coisas mudaram, por exemplo: a Rádio Relógio não mais existe, mas, mesmo se ainda existisse, seu locutor não mais me amedrontaria. Descobri que ele somente gastava o seu tempo e o de seus ouvintes. Penso hoje: que insana rotina.
Os tempos também mudaram. Hoje, os relógios digitais, silenciosos e enigmáticos, friamente estão a dizer: “não tenho nada a ver com isso”; “não tenho o que falar” e “o tempo não é nenhum milagre”.
Nesse novo tempo, sem tempo para o tempo, estamos cada vez mais sem tempo: tempo para a reflexão; para ouvir e falar; rir e chorar; aprender e ensinar. Em resumo: para viver.
Confesso: vejo, hoje, os relógios com a indiferença do meu tempo; sem medo, mas, antagonicamente, com a pretensa paciência e sabedoria do locutor da Radio Relógio: “cada minuto é um milagre que não se repete”.
Pois bem, caro leitor: se assim entender, viva o seu tempo em cada tempo, com tempo para você e para tudo que faça a vida valer a pena, muito mais além do óbvio, pois, certamente, para muitos, a vida
continua sendo um milagre que não se repete.
No entanto, caso não entenda assim, não se preocupe: nem tudo está perdido; há uma saída, acabo de descobrir um relógio que não marca horas e muito menos o tempo, um relógio abstrato, simples, fácil, prático e eficiente, basta querer usá-lo.
Flavio Rabello.
Ah doce garota achará, que despir-se era...
Ter de ti suas vestes tiradas.
A vida lhe mostrou,
que ficará nua estando vestida,
que mostrar-se,
é abrir o peito,
é transcender o lógico,
é desarmar-se,
é entrega-se ao inserto...
E assim despida pela alma,
terá em suas mãos...
Um pássaro, preso em uma gaiola...
Que canta a triste canção,
de não saber sobre liberdade
de não saber o prazer de ter o vento,
batendo em suas assas...
Pobre pássaro,
que não sabe se um dia terá essa tal liberdade...
Garota,
essa canção do triste pássaro lhe soa familiar?
Seu despir-se é esse cantar...
Não vista-se...
O que de mais lindo tens está em seu despir,
antes mesmo de ser tocada.
O DIVISOR DE ÁGUAS
Decidiu fugir da dúvida,
Pois vivia uma vida dividida e seu coração não era todo do amor.
A partir de agora o amor tem com ele uma dívida.
( Autor: Poeta Alexsandre Soares de Lima)
Hoje eu extinto
Já nem me lembro como era no começo
Quando sabia tudo o que me esperava
E acreditava ser alguém especial
E parecia que aquela vida era mais uma viagem
Se algum momento fomos todos dinossauros
Hoje restamos só poeira espacial
Vestida de palavras
Era uma vez... (e toda vez, nas difusas da imaginação,
começa assim) um quarto, e ele guardava um espelho grande que se agarrava à parede revelando as verdades.
Do lado impertinente e absoluto, descansado sobre a cômoda, um relógio quieto, mas veloz.
Sobre a cama, derramando intensidade, um vestido vermelho
que o tempo do relógio desbotou, mas o espelho mostrava que ele tinha ainda encanto guardado em lembranças.
Hesitante, perambulando pelo quarto, a mulher ia, de um
lado, ao outro, querendo enganar o relógio, fingindo sua aparente angústia ao espelho que apreciava o vestido, e ele se incumbia de carregar sonhos.
Frente ao espelho descortinou sua nudez, sua brancura. Abriu a lateral do criado-mudo e retirou um pote de creme. Espalhou sobre sua pele para acetinar o trincado do tempo a disfarçar e enganar o espelho por minutos naquele dia.
Recolheu o vestido sobre a cama e se cobriu dele. VERMELHO corajoso ajustado em seu corpo, abraçando os parágrafos de suas curvas, sem brigar por espaço.
Olhou para o relógio, o tempo, ele sim, brigava com ela,
apertava sua alma, não a largava nem um minuto sozinha para decidir e refletir.
Enérgicas são as horas, mostram o compasso.
Ela se mirou vestida ao espelho, olhou o pote abandonado sobre a mesa de cabeceira.
Abriu a porta e saiu do seu mundo, pôs na bolsa a sua
fantasia e decidiu acima das horas, dos segundos e minutos e não enganou a si mesma.
Lembrou-se de alguma frase, riu, saboreou, se revestiu dele,
Fernando Pessoa:
“Mas eu não tenho problemas, tenho só mistérios.”
Livro Pó de Anjo
Autora: Rosana Fleury
PENSAMENTOS IDÊNTICOS
Você já pensou ou escreveu algo que você considerava que era totalmente original
e depois descobriu que outra pessoa já tinha dito algo muito semelhante,
inclusive usando as mesmas palavras?
Pois bem. Este fenômeno é muito comum,
e para quem é escritor, às vezes dá uma dor de cabeça danada,
pois às vezes surgem até acusações de plágio.
Eu que tenho sido vítima de atribuições incorretas de autoria há muito tempo
(se o leitor não sabe, já atribuiram meus poemas a Chaplin, Bob Marley, Shakespeare, Marta Medeiros, Clarice Lispector, Freud, e Frida Kahlo, entre outros),
sei da importância de dar a César o que é de César,
mas no que diz respeito ao fenômeno dos pensamentos idênticos
isto é bem complicado de se fazer.
Eu identifiquei ao menos 04 pensamentos que escrevi
que tiveram não apenas um, mas vários outros pensadores que chegaram ao mesmo ponto,
e de forma assustadoramente idêntica.
Só não é mais assustador porque sei que alguns deles escreveram em outros idiomas,
então não usaram exatamente as mesmas palavras, mas vamos lá:
1. AMBIÇÃO
A ambição universal do homem é colher o que nunca plantou.
(Adam Smith)
Original em inglês: The universal ambition of man is to reap what he never planted.
A pior ambição do ser humano é desejar colher pela vida inteira
os frutos daquilo que ele nunca plantou.
(Augusto Branco)
2. INDIGNAÇÃO
Quando perdemos a capacidade de nos indignarmos com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados.
(Vladimir Herzog)
Aquele que perde a capacidade de se indignar diante da injustiça, perdeu sua humanidade.
(José Eduardo Cardoso)
Quando eu perder a capacidade de indignar-me ante a hipocrisia e as injustiças deste mundo, enterre-me: por certo que já estou morto.
(Augusto Branco)
3. DINHEIRO
A gente paga pra nascer, paga pra morar
Paga pra perder, a gente paga pra ganhar
Paga pra viver, paga pra sonhar
A gente paga pra morrer e o filho paga pra enterrar.
(Projota)
Ter que pagar pra nascer,
Ter que pagar pra viver, ter que pagar pra morrer
Ter que pagar pra nascer,
Ter que pagar pra viver, ter que pagar pra morrer
Pare o mundo que eu quero descer
(Raul Seixas)
O ser humano é o único animal que paga pra nascer,
paga pra viver, paga pra morrer,
e que ainda acredita que a felicidade é ter dinheiro.
(Augusto Branco)
4. AMAR
Onde você não pode mais amar, você deve passar.
(Friedrich Nietzche)
Orignal em alemão: Wo man nicht mehr lieben kann, da soll man vorübergehen.
Onde quer que você não possa amar, não demore.
(Eleonora Duse)
Original em italiano: Dovunque tu non puoi amare, non tardare.
Onde não puderes amar, não te demores.
(Augusto Branco)
Esta última frase também foi atribuida à Frida Kahlo, mas não encontrei nada que confirmasse que ela realmente disse algo semelhante.
Você conhece mais pensamentos idênticos?
Eu começarei a catalogar tudo que eu encontrar semelhante ao que já escrevi. ;)
Eu fico triste.
Com essas suas atitudes eu percebi que era meu jeito tão diferente assim do seu conceito. É o que existe em mim, que vejo que pra vc é defeito! No mundo de iguais, eu sou diferente, muito diferente! Sonhei. Conquistei. Cheguei aqui, choro, mas em paz eu vou dormir, mesmo triste em saber que a pessoa que eu amo, NUNCA é recíproca a mim. Tem certos dias que é melhor a gente nem sair de casa. Odeio ter que conviver com pessoas fúteis, amarguras, que só te põem pra baixo. Eu não beijo uma pessoas que não me interessa, para mim beijo é uma questão de demonstrar afeto e, eu sinto mais do que afeto, tipo de Amor por você. As pessoas estão acostumadas com o estilo de vida atual, onde a moda é pegar geral, mas eu não sou assim..., mesmo não parecendo. E não sinto nenhum tipo de inveja de quem é, e também não critico, mas eu não sou assim. Ah Jorge, mas mesmo você casado e falando isso? É, eu não tive culpa de me apaixonar por você. Quando você vai perceber? Eu não sou como o resto. Eu sou tipo uma obra de arte, me olhando de longe sou muito estranho, de perto sou mais estranho ainda, daí alguém chega e me explica, então você chega a conclusão de que EU SOU DEFINITIVAMENTE ESTRANHO! Mas sabe? Eu gosto e prefiro ser assim. Eu adoraria dizer "Esse é quem sou!" mas Queria que você fosse um pouco mais atenciosa, um pouco mais romântica, um pouco menos desligada. E juntando todos os "poucos", vira muito. Muito para eu aguentar. E você sabe, sou fraco. Não consigo suportar "muito".
Jorge Ramalho.
Já fizemos coisas rude mas nunca violar e roubar, bater sim mas não era bater qualquer pessoa, os carrascos eram os faltadores de respeito, a coisa fica feia se alguém de fora bate alguém do bairro, qualquer membro do grupo ou um familiar de uns dos membros do grupo....
Fazíamos da Kamaningã uma fortaleza, um autêntico tanque de Guerra que era fácil entrar mas bastante difícil sair. Não foi fácil viver aqueles momentos de bastante turbulência mas graças a Deus passou.
Na aquela altura fazer parte de um grupo de delinquência era moda e como na Kamaningã já existia Os Kebra Osso, era suposto normativo criarmos os Mini Kebra Osso, depois de um tempo achamos que tínhamos pernas e calibres suficientes para andarmos sozinhos, com ajuda do Tio K " Comi todas, claramente" criamos A Gang Kebra.
