Era
O Gilles Villeneuve usava um capacete muito pequeno que lhe comprimia o cérebro. Depois era só metê-lo na cabeça e sair por aí fazendo asneiras.
A tolerância não era o que deve ser: a virtude revolucionária que consiste na convivência com os diferentes para que se possa melhor lutar contra os antagônicos.
E tudo era novo, tão novo que nenhuma saudade morava em mim.
Nota: Trecho do poema A varanda do antigamente.
...MaisQualquer que tivesse sido o crime dele [Mineirinho], uma bala bastava. O resto era vontade de matar, era prepotência.
Você cresceu. Parou de perguntar pra sua mãe se era pra lavar o cabelo e entendeu o momento certo. Parou de pedir pra ela ajeitar seu material escolar pro dia seguinte e aprendeu a corrigir seus próprios deveres de casa. Aprendeu a mexer no computador assim como aprendeu a se viciar nele. Você deixou de precisar que os amigos dos seus pais tenham filhos para que você seja amiga deles, você aprendeu a fazer suas próprias amizades. Além disso, você aprendeu a ver quem são seus amigos verdadeiros e quais são os falsos, aproveitadores. Você aprendeu que o preconceito é algo ridículo e começou a formar sua própria opinião. Você caiu várias vezes por estar correndo, mas aprendeu que o remédio faz aquela dor sarar. Você chorou quando caiu, você chorou quando seu corpo estava todo machucado, mas mesmo assim você continuou a brincar. Você cresceu garota, você cresceu e aprendeu a cuidar de seus próprios problemas. Você aprendeu tudo isso e agora vai deixar que um garoto acabe com toda tua força e felicidade que veio conquistando até aqui? Limpe a maquiagem e sorria, você merece muito mais do que garotos infantis.
MANIA DE EXPLICAÇÃO
Era uma menina que gostava de inventar uma explicação para cada coisa.
Explicação é uma frase que se acha mais importante do que a palavra.
Ela achava o mundo do lado de fora um pouquinho complicado.
Se cada um simplificasse as coisas, o mundo podia ser mais fácil, ela pensava.
Então tentava simplificar o mundo dentro da sua cabeça.
Simplificar é quando em vez de pensar em 4/8 a pessoa pensa logo em 1/2.
Um meio, quando é escrito em números sempre quer dizer "metade", mas quando é escrito em letras pode também querer dizer "um jeito".
Existem vários jeitos de entender o mundo.
Ela tentava explicar de um jeito que o mundo ficasse mais bonito.
Essa menina pensa que é filósofa, as pessoas falavam.
Filósofo é quem, em vez de ver televisão, prefere ficar pensando pensamentos.
De tanto que a menina explicava, as pessoas às vezes se irritavam,
irritação é um alarme de carro que dispara bem no meio do seu peito,
reclamavam, e iam embora, deixando a menina lá, explicando, sozinha.
Solidão é uma ilha com saudade de barco.
Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança pra acontecer de novo e não consegue.
Lembrança é quando, mesmo sem autorização, o seu pensamento reapresenta um capítulo.
Autorização é quando a coisa é tão importante que só dizer "eu deixo", é pouco.
Pouco é menos da metade.
Muito é quando os dedos da mão não são suficientes.
Desespero são dez milhões de fogareiros acesos dentro da sua cabeça.
Angústia é um nó muito apertado bem no meio sossego.
Preocupação é uma cola que não deixa o que não aconteceu ainda sair do seu pensamento.
Ainda é quando a vontade está no meio do caminho.
Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele.
Cismar é quando o desejo quer aquilo apesar de tudo.
Apesar é uma dificuldade que não é grande o suficiente.
Dificuldade é a parte que vem antes do sucesso.
Sucesso é quando você faz o que sabe fazer só que todo mundo percebe.
Antes é uma lagarta que ainda não virou borboleta.
Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa.
Certeza é quando a idéia cansa de procurar e pára.
Intuição é quando o seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido.
Pressentimento é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista.
Vaidade é um espelho em todos os lugares ao mesmo tempo.
Vergonha é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora.
Ansiedade é quando faltam cinco minutos sempre para o que quer que seja.
Indiferença é quando os minutos não se interessam por nada especialmente.
Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento.
Sentimento é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado.
Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes.
Tristeza é uma mão gigante que aperta o seu coração.
Alegria é um bloco de carnaval que não liga se não é fevereiro.
Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma.
Amizade é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros.
Decepção é quando você risca em algo ou em alguém um xis preto ou vermelho.
Desilusão é quando anoitece em você contra a vontade do dia.
Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia.
Perdão é quando o natal acontece em maio, por exemplo.
Exemplo é quando a explicação não vai direto ao assunto.
Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo.
Beijo é um carimbo que serve pra mostrar que a gente gosta daquilo.
Gostar é quando acontece uma festa de aniversário no seu peito.
Amor é um gostar que não diminui de um aniversário pro outro. Não. Amor é um exagero... Também não. É um desadoro... Uma batelada? Um enxame, um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego?
Talvez porque não tivesse sentido, talvez porque não houvesse explicação, esse negócio de amor ela não sabia explicar, a menina.
[Perguntado se admitia que Senna era o melhor piloto da F1]
Senna é o melhor piloto? Porra nenhuma! Melhor é o Prost, que é tetracampeão.
É estranho entrar no msn e não falar com uma pessoa que antes era a primeira janela que você abria e passava o dia falando com ela.
Era cruel o que fazia consigo própria: aproveitar que estava em carne viva para se conhecer melhor, já que a ferida estava aberta.
Só Deus perdoaria o que eu era porque só Ele sabia do que me fizera e para o quê. Eu me deixava, pois, ser matéria d’Ele. Ser matéria de Deus era a minha única bondade.
A ERA DE EROS
À você que tanto deseja saber a minha idade por desdém, por desprezo ou, simplesmente, curiosidade posso te dizer:
Tenho a idade do sol que todo dia penetra a sua janela a ti incomodar, mas que é luz e é vida;
Que sou anterior a terra, pois minha alma transcende o tempo e é essência do teu ser;
Que tenho a idade das estrelas, cada estrela que mirar no céu
Verá o brilho do meu olhar;
Que sou a criadora do vento que te alivia nos dias de calor, acaricia a tua pele e afaga os teus cabelos num leve sussurrar:
Que nasci a milhares de anos atrás e em algum lugar do passado fui o teu presente;
Que tenho a idade da rocha, que imóvel, muitas vezes, te viu chorar e , em silêncio, acolheu tuas lágrimas;
Que tenho a idade do amor que renova , multiplica e dividi todo o teu ser; ser que somado ao meu e explosão de paixão;
Mas se, mesmo assim, alguém persistir em perguntar, de dentro da minha tumba direi, através do vento a murmurar: tenho a idade da eternidade!
Não era amor; era vontade, era momento, era brisa suave que dá no rosto e logo passa. Não queria para sempre; queria apenas aquela noite poder olhar nos olhos e aproveitar o que inesperado me reservava. Sabe, não sou fã de contos de fadas e não acredito que o amor verdadeiro um dia vá aparecer em um cavalo branco. Acho que o amor aparece na sua vida todos os dias; em um olhar sincero no metro ou até mesmo no toque de mãos daquele cara bonitinho do seu trabalho. Foi amor, foi momento, passou.
Para os olhos, a previsão era de chuva. Mas, da fé, nasceu um arco-íris! O choro dura uma noite, sim, mas a alegria, ah, essa vem pela manhã. E por mais que demore, sempre amanhece!
Era o que ele estudava. "A estrutura, quer dizer, a estrutura", ele repetia e abria a mão branquíssima ao esboçar o gesto redondo. Eu ficava olhando seu gesto impreciso porque uma bolha de sabão é mesmo imprecisa, nem sólida nem líquida, nem realidade nem sonho. Película e oco. "A estrutura da bolha de sabão, compreende?" Não o compreendia. Não tinha importância. Importante era o quintal da minha meninice com seus verdes canudos de mamoeiro, quando cortava os mais tenros, que sopravam as bolas maiores, mais perfeitas. Uma de cada vez. Amor calculado, porque na afobação o sopro desencadeava o processo e um delírio de cachos escorriam pelo canudo e vinham rebentar na minha boca, a espuma descendo pelo queixo. Molhando o peito. Então eu jogava longe canudo e caneca. Para recomeçar no dia seguinte, sim, as bolhas de sabão. Mas e a estrutura? "A estrutura", ele insistia. E seu gesto delgado de envolvimento e fuga parecia tocar mas guardava distância, cuidado,cuidadinho, ô! a paciência. A paixão.
No escuro eu sentia essa paixão contornando sutilíssima meu corpo. Estou me espiritualizando, eu disse e ele riu fazendo fremir os dedos-asas, a mão distendida imitando libélula na superfície da água mas sem se comprometer com o fundo, divagações à flor da pele, ô! amor de ritual sem sangue. Sem grito. Amor de transparências e membranas, condenado à ruptura.
Ainda fechei a janela para retê-la, mas com sua superfície que refletia tudo ela avançou cega contra o vidro. Milhares de olhos e não enxergava. Deixou um círculo de espuma.
Nota: Trecho do conto A estrutura da bolha de sabão.
...MaisOlhei para o céu e vi uma estrelinha. Percebi que aquela estrelinha era ela: a minha amada, a minha garota, a minha Medson.
[Para a vida inteira.]
E eu que imaginava que ser adulto era deixar de fazer as coisas de criança. Ô dó!!! Como criança se engana.
"Não era isso, não tinha nada que ser assim...
Passei a olhar ele sem que saiba,
E a desejá-lo sem que percebas.
Ai, meu Deus do céu, isso parece até, que acho pouco
O castigo que mereço. Que anseio é este, que me domina?
Que me revira os pensamentos? E me dá vontade de ousar
E arriscar o pouco que temos... Na verdade, nada.
Nada Deus... Só olhares, só o som de uma voz,
Quem vive um amor, ou uma paixão assim? Por que,
Parece falta de opção querer tanto aquilo, ou melhor
Aquele a quem não podemos ter? Esse sentimento
Guardado, me dá um nó na garganta, me dá uma falta
De ar... Isto não é bom. As coisas não vão bem,
Tudo o que eu queria era que eu fosse dele, e que ele
Fosse meu, parece tão difícil fazer um pedido desses
Para o próprio Deus... E tudo começou porque quando
Ele me Olhou, eu olhei também... E uma cumplicidade
Dessas do tipo sem querer... Que culpa tenho eu?
E tão Pouco ele também?! Não foi nada de mais, não foi
Nada de mais, foi só o lindo olhar que ele tem,
Que me fez todo este mal...
Todos os dias o olho, mas saudades é pouco meu bem...
Saudades de alguém que não pode ser meu."
O meu rio de contos
De belezas naturais,
Era o mais bonito
De todos mananciais,
Hoje agonizando
Em coliformes fecais...
Trecho do poema . Água Preta - o rio
Da minha infância.
Continuação
O contra o encontro a contração
A era o eros a erosão
A fera a fúria o furacão
O como o cosmo a comunhão
O pré a prece a procissão
O pós o póstumo a possessão
A cor a corte a curtição
Amor a morte a continuação
