Ele
O destino pode dar voltas, mas ele sempre vai estacionar no mesmo lugar. Ainda vou te provar que, em cada detalhe, eu sempre fui o amor que você tanto procurava.
Deus não une apenas pessoas, Ele une propósitos. E o meu propósito ficou claro no momento em que te conheci.
Entre tantas orações, a que Ele escolheu atender com mais carinho foi o meu desejo de encontrar alguém como você.
Engraçado como alguns acreditam em um Deus que vê tudo, mas agem como se Ele fosse cego para as maldades que cometem em nome d'Ele.
Dizem ao oprimido que o seu sofrimento é uma provação divina; assim, ele para de questionar as mãos humanas que realmente criam a sua miséria.
Para o narcisista religioso, o 'Espírito Santo' é apenas o nome que ele dá à sua própria intuição e vontade.
Nada é mais perigoso que o narcisista que se sente ungido: ele não comete erros, apenas 'cumpre propósitos'.
O amor nunca morre de morte natural. Ele sobrevive em silêncio, esperando um detalhe bobo para despertar de novo.
Ame não porque é fácil. Entenda o próximo não porque ele merece. Faça isso porque esta é a única bagagem que o tempo não corrói, a traça não destrói e a morte não consegue confiscar.
O diabo não inventou o mal; ele apenas sugeriu que os homens usassem o nome de Deus para governar os outros.
Sabe aquela história de que o tempo cura tudo? É mentira. O tempo não cura; ele apenas anestesia a carne para que a gente consiga andar sem mancar tanto.
Foram três anos, quatro meses e dezenove dias. Eu sei a contagem exata porque, no início, cada amanhecer sem o som da sua respiração do meu lado parecia uma pequena cordilheira que eu precisava escalar descalço. O nosso término não teve gritos, pratos quebrados ou traições escandalosas. Foi pior. Foi aquele silêncio resignado de duas pessoas que se amam profundamente, mas que entenderam, no meio do caminho, que as suas rotas futuras não cruzariam o mesmo mapa. Ela precisava partir para buscar os seus sonhos longe; eu precisava continuar aqui, cuidando do meu trabalho simples e das minhas obrigações diárias. Nos abraçamos no portão da antiga estação, o perfume do creme do lindo cabelo crespo dela grudou na minha jaqueta de jeans e, quando ela soltou a minha mão, levou consigo metade do meu oxigênio.
Os primeiros meses foram um borrão de sobrevivência. Eu via o rosto dela no reflexo das poças de água na rua, no letreiro do armazém, no sotaque das canções que tocavam no rádio de pilha. Tentei sair, conversar com outras pessoas, mas qualquer conversa parecia vazia. Eu voltava para a minha casa pequena e o silêncio dos cômodos me socava o estômago. Chorei até a minha garganta queimar, até não sobrar uma lágrima no reservatório da minha alma. Achei, de verdade, que morreria de saudade. Que o meu coração simplesmente pararia de bater por falta de motivo.
Mas a vida é teimosa. Ela continua acontecendo mesmo quando a gente quer que o mundo pare.
Devagar, quase sem perceber, a dor lancinante virou uma pontada crônica. Aprendi a guardar as fotos dela numa caixa de sapatos no fundo da gaveta e, mais tarde, no fundo da mente. Voltei a rir de bobagens na calçada. Voltei a focar na minha rotina, cuidei do jardim na frente de casa, adotei um cachorro vira-lata que me pedia atenção nos dias mais cinzentos. Aprendi a cozinhar para um só, a lavar a louça ouvindo o silêncio, sem achar que isso era uma derrota. Eu superei. Se alguém me perguntar hoje se eu estou bem, a resposta é um sim sincero e calmo. Eu simplesmente juntei os meus cacos e continuei a caminhar, aceitando a minha vida pacata.
Contudo, superar não significa esquecer.
Ontem à noite, uma chuva fina começou a cair e o vento trouxe um cheiro de terra molhada misturado com algo doce. Meu peito deu um nó instantâneo. Não foi uma recaída, foi uma constatação convicta. Eu posso viver mais cinquenta anos, envelhecer nesta mesma casa humilde, conhecer alguém legal e dividir os dias de forma tranquila. Sei que a vida segue e que sou forte o suficiente para ser feliz de novo. Mas ela sempre será o meu grande amor. Aquela cicatriz bonita que a gente olha com carinho, sabendo que foi ali que a vida nos marcou de verdade.
Eu superei o fim, segui em frente e arrumei a minha bagunça com a certeza de quem sabe quem é. Mas uma parte de mim, aquela mais pura e bonita, vai morar para sempre naquele abraço de despedida, congelada no tempo, amando-a em silêncio para todo o sempre.
O amor de verdade não nasce pronto; ele é o único sobrevivente de todas as tempestades que decidimos enfrentar juntos. Neste Dia dos Namorados, enquanto o mundo celebra os sorrisos fáceis e os jantares perfeitos, minha mente viaja para o avesso da nossa história, para as noites em que o silêncio pesava e o cansaço quase nos fez soltar as mãos. É muito fácil amar o sol, mas nós dois aprendemos o milagre de caminhar sob o temporal.Nossa maior vitória não foi a ausência de cicatrizes, mas a coragem de olhar para cada uma delas e enxergar um recomeço. Houve momentos em que o orgulho tentou ditar as regras, em que a distância parecia um abismo intransponível e o cansaço do cotidiano ameaçou apagar o brilho dos nossos primeiros dias. Contudo, o verdadeiro aprendizado veio quando entendemos que permanecer é uma escolha diária, um exercício de desarmar o peito e acolher a vulnerabilidade do outro.Superar não significa esquecer as falhas, mas ressignificar o choro. Lembro com nitidez daquela madrugada em que o mundo desabava lá fora e, em vez de defesas, encontramos o abraço. Ali, naquele exato instante de fragilidade absoluta, percebi que você não era apenas meu par, mas o meu porto mais seguro. Descobri que o afeto real reside nos gestos miúdos: no café preparado sem pressa, no olhar que decifra o medo antes mesmo de a palavra existir, na paciência mútua que cura as dores antigas.Hoje, quando olho nos teus olhos, não vejo a ilusão intocável dos romances de ficção, mas a beleza crua de uma construção humana, feita de perdão, lealdade e entrega. Sobrevivemos aos dias nublados e colhemos a calmaria que só o respeito mútuo consegue semear. Obrigado por não desistir quando o caminho ficou íngreme e por me mostrar que a felicidade habita na simplicidade de pertencer a alguém que também escolhe nos proteger. Meu coração encontrou morada eterna em você.
O seu valor não diminui quando o seu brilho cansa; você é o próprio sol, e até ele se recolhe sem pedir desculpas para ninguém antes de voltar a governar o céu.
