Ela
Quando a lei se arma contra a palavra, ela deixa de proteger a praça pública para fortificar o calabouço.
O jurista que conhece a lei, mas não reconhece quem sofreu para que ela existisse, conhece o Direito e ignora sua história.
Prender uma pessoa pode proteger a sociedade; compreender por que ela se tornou perigosa pode proteger a sociedade futura.
A dúvida não destrói o sagrado; ela apenas impede que alguém transforme sua interpretação do sagrado em instrumento contra a liberdade alheia.
Se a verdade for divina, ela não precisará da nossa crença para existir nem temerá nossa dúvida para permanecer verdadeira.
Quando uma crença exige autoridade científica sem evidência científica, ela abandona o terreno da fé e entra no da disputa epistemológica.
A censura pode apagar uma palavra; o algoritmo pode simplesmente impedir que ela encontre um ouvido.
O futuro da publicidade será determinado menos pelo que ela consegue dizer do que pelo que consegue saber.
Explicar biologicamente uma experiência religiosa não prova que ela seja falsa; tampouco prova que seja sobrenatural. O intervalo entre essas conclusões é território agnóstico.
Quando uma teoria científica é tratada como dogma, ela deixa de obedecer ao espírito que tornou a ciência possível: a disposição de admitir que novas evidências podem exigir revisão.
Uma sociedade pode ter fé, ciência e agnosticismo; o que ela não precisa ter é pseudociência apresentada como ciência e certeza apresentada como conhecimento.
Quando uma afirmação religiosa sobre o mundo físico pode ser testada, ela entra no território da ciência; quando não pode, sua avaliação exige outra linguagem epistemológica.
