Do nada
NORMA X MARILYN
Nada me fará entender porque
Possivelmente, provavelmente
Antes que se faça breve e claro,
Tênue e frágil, soluçará angustiado
A frustração inoportuna
De estar explícita a solidão;
Mas não é bem assim,
Direi que a noite está em mim
E solitude é a atitude de querer achar-se só;
Mas não achar-se, como se chama
Esta chama morna,
Norma Jeane explicaria
A beleza de um desencanto
Com um sorriso encantador;
Nem é tão complicado se sábado é sábado
Segunda é sábado, Norma era segunda,
Marilyn domingo, o que era belo, era belo,
O que era lindo, era lindo
Mas no fundo do seu olhar
Algo inquisitivo questionaria:
"Que dia é amanhã?"
PROCISSÃO
Quando eu não tiver nada ainda terei as palavras
Terei o silencio e a virtude de saber não possuir
E as minhas palavras dar-se-ão as mãos
Numa ciranda a cantar poemas a edificar a solidão
E a minha solidão povoa,
Pavão, pavoa, encantos, penas e cantos
Leitos, lagoas, embarcação, canoas
Uma procissão, uma novena,
Meu verso vai de Tóquio a Cartagena
Porque minhalma não é pequena,
Minha estrofe é forte e minha verdade serena
E o meu silencio não dói; não dói quando passa a tarde
Quando passa o rio, quando passa o vento,
O meu silencio só dói quando passa o sentimento
Nada era verdade quando a verdade era nada;
Matou o gato, o periquito, o cachorro,
Matou a namorada
Nada era verdade ainda;
Matou a galinha, o coelho, matou a vizinha...
A realidade se media pela quantia
E tudo se multiplicava por nada;
Matou o que era verde e o que não era
que era estático e o que se movia
Mas a verdade não aparecia
Matou o concunhado, o vigário a messalina,
E quando era sábado sem a contrição,
Sem chave de coxas na cintura,
Sem a loucura daquela língua e aqueles lábios,
Achava-se sábio...
Mataria o anão, o filósofo, o prefeito;
Mas por mais que matasse, não mataria o prazer
O prazer de matar, talvez matar não fosse solução,
Talvez a solução fosse morrer
Morreria num sábado ensolarado, numa segunda Chuvosa
Ou numa quinta; numa quinta serena...
Missa de sétimo dia e novena...
Um edifício, trigésimo andar...
Um voo onde sua alma alcançasse mais fácil o céu
E somente seu corpo se esfacelasse
No solo duro da realidade
Porque a verdade era nada, nada era verdade...
nada é puramente poesia
entre uma rima e uma estrofe
existe a despedida, a dor, o tempo
o sentimento, o ressentir e a morte
O OLHAR DE DEUS
Dentro de um universo há milhões de universos
e nada é tão claro, nada tão complexo,
Caetano nos diria num sorriso: se não fosse tão explicito...
num olhar de uma criança,
a anta bebendo no rio
ante a ameaça de um crocodilo...
tudo é desafio nesse poema de morte,
algo que comporte a vida
e se a vida é uma estrofe
e cada um de nós somos um universo,
o que seria a poesia
o rio mata a sede da anta, a anta alimenta o rio,
e ante todos os desafios o olhar da criança
é o olhar de Deus harmonizando o universo
quando não tenho nada,
tenho tudo de que preciso,
quando preciso de tudo, nada tenho;
mas o que me levará
a tal necessidade de existir;
quando só o fato de existir
já me traz tantas necessidades...
entra pelas minhas narinas,
motivo de rimas lindas, carnificinas
e antes de mais nada, nada
sonho tanto com quase nada,
um guaraná, uma empada, o azul do céu,
satélites, andorinhas,estrelas, meteoros
misseis antas espaciais; porcos neons
o azul é o nada; e do passado a namorada
de tudo o que eu sabia;
um dia meu olhar se encontrará sozinho
a contemplar a estrela que é só uma ilusão mais nada,
assim como teus seios rijos
a espetar o ser latente na essência deste velho,
e o que é verdade entre o fogo e a água;
entre o que se bebe e o que se derrama,
nada se explica assim com tanta exatidão
que a ilusão se despe
e só nos resta a lógica fria e óbvia do nada
Sei o que podemos e o que deve ser feito, mas antes, bem antes... pense, somente pense; nada é mais certo que o amanhã, mas então quando ele chega já não existe mais; é uma ilusão, existe o agora, mas agora... essa ansiedade turva seus horizontes, beleza vai muito além que o superficial, o que vem depois do depois depõe sobre o sorriso ou a lágrima e nada do que se diga se sobrepõe ao que fica calado...
as vezes penso que sou triste,
as vezes não penso em nada,
as vezes tenho saudade do que nunca tive,
mas era tudo o que eu tinha
quando eu não tinha nada...
agora nem tenho essa ilusão...
SOBRE AS ESTRELAS CADENTES
E A CADÊNCIA DAS ESTRELAS NO TEU OLHAR
Eu sei que não existe nada
além do que eu sei que não existe.
NADA e TUDO são profundamente opostos e abrangentes. Mas não significa que o NADA seja algo infinitamente vazio, ou que o TUDO seja algo absolutamente completo. TUDO e NADA são relativos, e diante do TUDO e do NADA absolutos, ambos são absolutamente nada.
Nada é para sempre.
Nem a luz, nem as trevas.
Nem as guerras, nem mesmo a paz.
Tudo nessa vida é passageiro.
A própria vida é tão passageira, tão fugaz...
Tão tênue como uma luz distante, oriunda de uma estrela moribunda.
Estamos em meio a uma agressiva tempestade.
Mas uma hora essa tempestade também há de passar e ceder espaço à bonança.
O que hoje nos apavora se tornará um doloroso aprendizado.
Nunca esqueceremos, mas vamos superar, pode apostar.
No fim, tudo vai ficar bem, vocês vão ver.
A vida é assim, acreditar ou descrer.
Entre ser ou não ser, seja mais você.
Mas nada cai do céu,
É preciso correr atrás, ganhar créditos,
Na moral e no respeito, querer mais.
Conquistar seus méritos.
Entender que uma trajetória não se faz
Sem derrota e vitória.
É preciso fazer por merecer a sua glória,
Afinal, de vento em popa
Ou aos trancos e barrancos,
Essa é a sua história.
