Dizer Adeus com Vontade de Ficar
“O que mais mata é o cotidiano que não diz adeus: ele rouba aos poucos o que você amava e deixa só a falta, intacta e infinita.”
A ROSA AZUL SOBRE O MÁRMORE DEFINE...
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Quando me disseste adeus, ou talvez nem o tenhas dito, algo em mim compreendeu antes das palavras, como as árvores compreendem o inverno antes da primeira folha tombar.
Ainda me recordo.
Recordo-me não dos grandes acontecimentos, mas das pequenas eternidades. A curva silenciosa do teu olhar. A luz repousando sobre teus cabelos. A delicadeza com que atravessavas as horas sem saber que alguém te transformava em destino.
Tudo permanece.
Permanece como permanece a chuva na memória de um rio seco.
Meu peito tornou-se uma antiga ruína. Pedra sobre pedra. Pó sobre pó. Uma catedral abandonada onde o vento recita os nomes que já não ouso pronunciar.
Carrego a dor como Demóstenes carregava suas pedras. Dia após dia. Noite após noite. Aprendendo a falar através das feridas, aprendendo a respirar através dos escombros.
E quando a noite desce pesada, mais pesada que o próprio céu, vejo os vultos.
Eles dançam entre as sombras. Riem. Zombam.
Zombam do amor que ainda guardo, como corvos em torno de uma chama que se recusa a morrer.
Tu nunca os viste.
Talvez porque teus olhos pertenciam à luz.
Mas eu os vejo.
Vejo-os passar pelos corredores da alma, arrastando correntes de ausência, erguendo seus cálices de esquecimento.
E mesmo assim, contra tudo, eu continuo.
Sobre uma pedra de mármore rosado, limpa como a pureza daqueles dias, deixo uma única rosa azul.
Não uma rosa para teus cabelos.
Os cabelos pertencem ao tempo.
Mas uma rosa para tua alma, porque as almas florescem mesmo quando os jardins desaparecem.
Foi essa rosa que sonhei oferecer-te.
Uma flor impossível. Uma flor feita de esperança, de lágrimas, de estrelas que morreram há milênios e continuam iluminando a noite.
Mas já eras de outros olhos.
Outras mãos recolhiam teu riso. Outros horizontes guardavam teus passos.
E eu compreendi, com a serenidade dolorosa dos que amam de verdade, que nem toda rosa nasce para ser colhida.
Algumas nascem apenas para perfumar a distância.
Por isso permaneço aqui.
Vigiando o sereno.
Com o sereno peito.
Enquanto a madrugada deposita suas lágrimas sobre a relva silenciosa.
E então descubro algo estranho, algo que faz doer e consolar ao mesmo tempo.
O amor não morreu.
Transformou-se.
Já não pede. Já não reclama. Já não espera retorno.
Apenas existe.
Como uma estrela distante. Como um sino esquecido numa cidade antiga. Como uma rosa azul repousando sobre o mármore.
E quando um dia o tempo apagar meu nome, quando o vento dispersar minhas últimas cinzas, talvez reste apenas isso:
A beleza de ter amado.
Porque há dores que nos destroem. Mas há dores tão profundas, tão puras, que acabam transformando-se em luz.
E a rosa que não pude colocar em teus cabelos floresceu, por fim, na eternidade silenciosa do meu coração.
"Alguns amores não permanecem ao nosso lado, mas permanecem para sempre dentro de nós, convertendo a própria saudade em uma forma superior de beleza."
Então alma, não desespere,
Se um adeus doeu demais,
Pois quem crê no Cordeiro vivo,
Vai viver em paz, e muito mais.
A ciência do nosso adeus era um mistério que eu tentei resolver, mas a única fórmula que preciso é a do perdão. É uma pena a distância, mas é uma honra a oportunidade de reescrever o destino. Eu me desligo das estatísticas da dor e me ligo à força indomável de quem decide reconstruir a ponte.
Toda paixão verdadeira carrega em si uma despedida, um adeus escondido entre beijos, porque só o que é intensoousa ser eterno.
O Cardápio e o Juízo
Por Marcio Melo
Adeus a este mundo que chama de normal
O ódio que impera sobre o sangue dos inocentes.
Eu não caibo aqui,
Pois prefiro o meu mundo interior,
Onde a música e a poesia dançam abraçadas,
E a primavera não morre nunca.
Mas todo dia o cardápio é servido:
Mulheres, crianças, homens,
Partes colhidas das guerras, da fome, da miséria,
Montadas com sofisticação
Pra o mundo comer sem culpa.
Então eu acredito em Deus de novo.
Não por medo,
Mas por esperança.
Porque haverá um tribunal divino,
Um juízo final
Que há de consertar o que quebramos.
A natureza, as espécies,
Toda a criação profanada.
E nesse dia, salvos ou não,
Quem destruiu será queimado como palha seca,
Pulverizado da existência.
Porque justiça sem conserto não é justiça.
Até lá, eu fico no meu mundo.
Até lá, eu escrevo.
Porque alguém precisa dizer
Que o banquete da crueldade
Um dia acaba.
Entre o Toque e o Adeus
Sentir você tão perto.
Sentir o calor da sua pele.
Sentir o leve tremor das suas mãos.
Sentir o desejo que transborda do teu olhar.
Diz-me,
como isso não pode ser paixão?
Ou amor...
quem sabe.
Poderia ser uma cor,
qualquer uma,
desde que deixasse de ser
esse mundo em branco e preto.
Poderíamos criar um vermelho
que existisse apenas para nós.
Então você me beija,
me toca,
e, logo depois,
diz que não posso ser sua.
Se é assim,
por que continua alimentando
o que sabe que não pode florescer?
Eu te amo
para além do teu corpo.
Mas você...
Será que ama apenas o meu?
Eternamente jovem, disse o espelho mudo,
Enquanto a alma contava invernos e adeus.
Sou a flor que não murcha, mas que vê tudo
O que amou ser poeira sob céus.
O tempo me esqueceu, cruel e distraído;
Guardo um coração febril, sem ter ruga;
Mas cada beijo antigo, já partido,
É uma lágrima seca que me inunda.
Dramático fardo amar a ti, mortal,
Com este peito insone que não finda;
Sou o verso que fica após o final,
A dor que persiste, bela e infinda.
Ó meu ex-amor, o eco doce de um adeus.
Ainda sinto o frio em certas manhãs vazias,
Um véu de fumaça que paira entre os meus
Pensamentos, tecendo as velhas melancolias.
Tu foste a forja cruel que me moldou, é certo.
Em cada cicatriz, levo um pouco do que fui.
Transformaste-me em alguém que hoje me é incerto,
Um novo ser nascido da dor que me construiu.
Agradeço, sim, a pessoa que agora sou,
Mais forte, mais ciente, mas também mais calada.
Em cada passo novo, a ausência que restou,
Uma canção de ninar que a alma tem guardada.
Obrigado por ter me transformado, mas a que custo?
Nesta jornada fria, onde o brilho se apagou.
Sou a estrela que renasceu, porém, com certo susto,
Pois a chama que tu foste jamais me abandonou.
Eu sou o paradoxo do teu partir e do meu vir,
Uma obra de arte triste, pintada em tons pastéis.
Eu sou agora o silêncio que aprendi a seguir,
Um jardim de lembranças sob chuvas e sob céus.
Adeus, meu ex-amor. Guardo as memórias boas, mas sigo em frente com a certeza de que nossos caminhos agora seguem direções diferentes.
Obrigado por tudo o que vivemos, mas hoje escolho a mim. Adeus e que você encontre a sua felicidade.
Não é um adeus amargo, é apenas a minha liberdade batendo na porta. Me perdi em você, mas finalmente me encontrei.
Certas histórias precisam terminar para que a nossa própria vida possa continuar. Adeus ao que fomos.
A parte mais difícil de te ver partir não foi o adeus, mas perceber que eu ainda guardo um lugar à mesa para alguém que já esqueceu o caminho de casa.
Quando o tempo finalmente engolir o nosso adeus, a saudade vai tatuar no avesso da sua alma que fomos o único milagre que o tempo não soube explicar.
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