Feliz Dia da Mulher: frases para homenagear mulheres incríveis
25 de março mundo real de batedores de carteira trombadinha.
Gente trabalhadora vem de outros paises buscar pouco de dignidade.
Polícia e fiscais fazem batidas contantes de mercadorias ilegais depois vendem para outros ambulante ou em suas proprias lojas.
A prostituição no meio dia nos edifício do centro pois não tem mais o treme treme... foi demolido.
Shopping da vinte cinco produtos chineses legais e ilegais.
Comida vendida na rua sem higiene igual a india ou pior.
Tem gente vem fora do estado de São Paulo para comprar vem ônibus clandestinos, e também de fora do pais do mesmo jeito clandestinos. Preço barato.
Outros vem pelos terminais de onibus.
Fazem contrate da feirinha da madrugada renda da famílias estão ali produto baixos e de boa qualidade.
Muitas vezes povo vai de carro ou taxi e tem gente se aproveita desta condição rouba as mercadorias.
Os eletrônicos são expostos atrativos.
Ate camelos perfumes falso cheios de agua. Logo ali perto carne porco exposta calçada e peixes e mariscos no sol escaldate.
O contraste com maquina de carne e suco gelado barado rápido ate os mosquitos gostam.
As ruas cheias dão contraste com policiais e metro cheio. Os ônibus são outra aventura.
No vigésimo nono dia minha jornada começou. Era março de 89 quando o Primogênito chegou. Dediquei-me com abrigo, educação e amor. Hoje colho frutos em forma de orgulho, honra e louvor.
A nossa vida
É tipo um jogo
Se eu perder
Eu recomeço de novo
O zero é nosso marco
Que foi marcada
Ao marco das lágrimas
Do que adianta sorrir
Se a alma
anda marcada
Uma piada engraçada
Mal sabe eles
A situação que eu tava.
DESENCARNAÇÃO DE ALLAN KARDEC.
Em 31 de março de 1869, vítima de um aneurisma, o gigante tombou na Terra para ser abraçado no Plano Espiritual. Sua missão estava cumprida. As obras que pretendia publicar viriam pela psicografia de Fernando de Lacerda, em Portugal, Amália Domingos Sóler, na Espanha, Wera Krijanoswski, na Rússia e, principalmente, no Brasil, por intermédio da pena iluminada de uma Zilda Gama, Yvonne Pereira, Francisco Cândido Xavier e, ainda entre nós, Divaldo Pereira Franco, entre outros médiuns não menos extraordinários da materialização, como Ana Prado, do Pará e Peixotinho (Francisco Peixoto Lins), do Ceará, entre outros. Desde então, o Espiritismo vem desmontando o Materialismo, que tantos prejuízos tem causado à Humanidade, mas que tem seus dias contados.
OBS. DEMASIADO EXTENSO, LEIAMOS:
LIVRO: OBRAS PÓSTUMAS.
Livre
Sinto-me como um pássaro.
Livre.
Voando em qualquer direção
Meu caminho é sem marco
Sem apelo
Viajo apenas para voar
Não há paisagem e nem cores
Só o rumor da solidão
Não me sinto sozinha, mas desencontrada.
Tenho um referencial para voltar
Apesar de não querer chegar
Vivo sonhando sem rumo certo
Batendo minhas asas
Até cansar
Pouso, então, e descanso
Junto com minha solidão.
As chuvas de março ainda
não vieram para lavar
e o coração renovar,
Guerras sempre deixam
lições para aprender,
E se eleger adversar,
o faça sem abrir frestas
para o inimigo externo
no território nunca entrar.
A paz nunca é perfeita,
e por menor que seja,
Cabe a gente preservar
como a Quaresmeira
que resiste o que passa
ao redor para a floração
neste tempo não faltar,
Espero contar contigo
para o melhor preservar.
Nós merecemos manter
o que é nosso intocado,
o amor no coração
e o olhar esperançado,
Para ninguém jamais
colocar aprisionado
o que nos move adiante
fazendo cada passo
resiliente e imparável.
A ventania traz a notícia
no Médio Vale do Itajaí
da memória de Marco Pola,
és a melhor contradição
que com cada fibra dialoga
entre a existência amorosa
e o mistério que enamora.
De prontidão para escrever
a poesia onde há vales
e cavalos coincidentes,
declaramos afinidades
com reverências subliminares,
impulsos e intensidades
que nos são inerentes.
No inverno aqui em Rodeio,
onde nos antevejo
nas ruas vazias descritas
no outono do poeta,
e ainda em vocal silêncio,
reverencio e por ti espero
como quem espera um
milagre com o céu aberto.
[Nos nossos corações nunca
nem por um instante fomos ausentes,
porque nunca nos apagamos
diariamente das nossas mentes.]
O Acúmulo do Instante
Autoria: Marco Arawak
Cada instante desperdiçado desgasta sua essência como areia escorrendo pelos dedos, você vive lampejos e chama isso de plenitude, finge estar presente, mas quem se entrega só ao “agora” se fragmenta e entrega ao vazio tudo o que poderia ser sólido.
O tempo não espera, o tempo corrói.
Nos jogamos em picos de emoção, confundindo a explosão do fósforo com a profundidade do sol, brilho não é substância, intensidade sem propósito é incêndio que consome a própria casa. Nem tudo que acelera é progresso, nem tudo que brilha é diamante, pode ser uma lembrança de uma longínqua estrela que deixou existiu, só resta o brilho.
Sentir intensamente não é viver, o que importa é o fio invisível que costura seus atos e transforma segundos em legado. Nossas faíscas queimam a pele, mas congelam a alma, morrem no frio da própria futilidade.
O tédio, a dúvida, o vazio, não são inimigos, são mestres. Ignorá-los é desperdiçar força, direção e percepção, quem vive só do efêmero tropeça no futuro antes mesmo de alcançá-lo.
Laços frágeis se desfazem como fumaça, planos evaporam, projetos desmoronam no silêncio quando não há disciplina. Como árvores que se enraízam no escuro para resistir às tempestades, a vida só ganha peso quando você aceita o desconforto e cultiva consciência.
O acúmulo do instante rasga identidade, destrói memória, assassina oportunidades, o que você chama de vida é resíduo de segundos jogados ao lixo.
Somos talvez ingênuos, incapazes de perceber que, enquanto o universo se constrói com calma de milênios, nós nos destruímos em faíscas de um segundo.
Cada ação deve construir algo, cada escolha deve deixar cicatriz na eternidade. Sem isso, você não vive, apenas se dissolve no nada que chamou de “agora”.
Viver exige coragem, sangue e atenção, é atravessar calmaria e tempestade com a mesma intenção, transformar impulso em destino, transformar o instante em você.
O instante só vale quando gera efeito, deixa rastro, produz história, como rios que cortam pedra silenciosa ao longo de eras, nossas escolhas só moldam o destino se tiverem profundidade e continuidade.
Observe, perceba, respire. Não se perca. Não se apague.
Cada segundo negligenciado é peso invisível que se acumula até quebrar suas costas, o preço é implacável, inexorável.
Como a gravidade mantém mundos em órbita, a consequência de cada ato se soma agora, o instante não é refúgio, é banco de réus, é julgamento, é teste final.
Você passa ou se perde. Nada volta. Nada espera.
Cada segundo entregue ao vazio é ferida que não cicatriza, cada escolha sem construção é buraco negro no futuro, e você terá que atravessá-lo sozinho. Como pedras rolando ladeira abaixo, suas decisões soltas ganham velocidade e impacto, levando tudo ao colapso.
Você quer o brilho que cega ou o legado que ilumina?
Quer ser o consumidor do tempo ou o ferreiro da eternidade?
Vai viver de faíscas ou forjar o fogo que queima para sempre?
A grandeza exige firmeza, exige ser temperado pelo fogo e pelo gelo, o instante só tem poder quando se conecta ao todo, deixa você inteiro, faz você presente.
Não há mais desculpas, não há atalhos, não existe botão de retorno.
Se você não constrói, se desintegra, se não sente com propósito, se apaga na escuridão.
Pois o instante cobra, e ele sempre recebe em dia, com a sua própria vida. Sempre. Implacavelmente.
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Frutos Humanos
Marco Arawak
Se a gente fosse explicar as pessoas como frutas, ia economizar muita terapia.
Ou pelo menos ia deixar o sofrimento mais organizado por categoria.
A banana é perfeita. Presente, fácil, resolve tudo, não complica.
Ou seja… completamente ignorada.
Porque se não te dá ansiedade, você nem reconhece como interesse.
A maçã é padrãozinho. Bonita, alinhada, parece saudável emocionalmente.
Você morde e descobre que já estava machucada faz três relacionamentos… só bem administrada.
A pera é madura, tranquila, sabe o que quer.
Basicamente tudo que você vive postando que procura…
e tudo que você ignora porque “não sentiu química”.
Química, no seu caso, é trauma com boa comunicação.
A uva é golpe silencioso.
Você pega uma achando que é leve… quando vê já está emocionalmente comprometido com um cacho inteiro de problema que ninguém combinou.
A cereja então… aparece pouco, fala pouco, some do nada.
Você cria uma história inteira.
A pessoa só mandou um “kkkk” e você já estava escolhendo nome de filho.
A manga é intensidade. Chega doce, quente, envolvente.
Você sabe que vai dar trabalho.
Mas vai mesmo assim, com a autoconfiança de quem claramente nunca aprende.
O morango é lindo. Perfeito. Instagramável.
Dura menos que promessa de “vamos ver no que dá”.
A melancia é animada, social, divertida.
Mas na intimidade… às vezes é só água gelada ocupando espaço emocional.
O melão é o primo que ninguém chamou mas apareceu.
Não é ruim… mas você também não lembra por que está ali.
O abacaxi tem fama de difícil que vale a pena.
Na prática, às vezes é só difícil mesmo e você está insistindo porque já investiu tempo demais pra admitir que errou.
O maracujá parece equilibrado. Vibe zen.
Três minutos sem resposta e já está escrevendo um roteiro completo de abandono.
O limão não tem filtro. Fala tudo.
Machuca? Machuca.
Mas pelo menos não te deixa meses tentando entender o que quis dizer com “depois a gente vê”.
O coco é fechado. Muito fechado.
Quando finalmente se abre… você já está emocionalmente em outro estado, com outra pessoa e outro trauma.
O kiwi é o diferentão.
Você julga, ignora… depois descobre que era bom e fica com cara de quem perdeu promoção por preconceito.
A tangerina é envolvente. Cheiro forte, presença marcante.
Mas dá trabalho, faz bagunça e deixa rastro.
Inclusive na sua paz.
A goiaba é sincera. Simples, direta, cheia de caroço.
Não é perfeita… mas também não te faz perder tempo fingindo que é.
A laranja é sociável. Fácil de gostar, fácil de dividir.
Mas sempre tem uma amarga pra te lembrar que você confia demais no básico.
E o abacate…
o abacate não é pra qualquer um.
Tem gente que prova e fala “não tem gosto”.
Claro que não tem… você também não tem maturidade pra sentir.
No fim, ninguém é só uma fruta.
Tem dia que a pessoa está madura, no outro está verde… e ainda assim quer ser tratada como sobremesa premium.
O problema nunca foi o tipo de fruta.
É você ignorar as boas, correr atrás das complicadas e depois abrir o Instagram pra postar “ninguém presta”.
E sejamos sinceros…
você não quer algo diferente.
Você quer o mesmo erro…
só que com uma casca nova pra não parecer repetição.
Pequenos no Mundo, Grandes na Busca
_Marco Arawak_
A gente é criado acreditando que o mundo tem um manual de instruções escondido em algum lugar.
Embora a nossa vida inteira seja, no fundo, uma longa prova de que esse manual simplesmente não existe.
A gente passa anos tentando construir certezas, guardando-as como "moedas velhas em cofre", convencidos de que, quanto mais acumulamos, mais seguros estaremos.
Mas a vida, essa arquiteta implacável, nos mostra o contrário.
Os planos podem desmoronar. Pessoas, às vezes, seguem outros fluxos sem aviso prévio.
É nesse momento de ruptura que a gente descobre: "ter dúvida não é um defeito, mas sim a gente sendo gente, desarmado".
Omedo de não saber não é uma falha de caráter. É o estado mais honesto da nossa existência.
"Aprender a viver é aceitar que a gente não vai ter o mapa".
Por mais que a nossa mente ansiosa busque atalhos, a verdade é que a incerteza "não é um problema para ser resolvido, é o cenário". Não se luta contra o palco onde a peça acontece; a gente apenas aprende a caminhar nele.
A gente sofre porque tenta empurrar sentimentos gigantes dentro de caixas pequenas. Mas, diante da dor de uma perda ou da intensidade de uma saudade, a única saída é "lidar com o mistério".
Entender que, longe de ser falta de inteligência, essa incapacidade de explicar tudo é, na verdade, o que dá "profundidade para essa confusão".
Se tudo fosse óbvio, onde estaria a beleza?
Cansa querer ter a palavra final. Cansa carregar o peso de ser o dono da verdade.
Quando a gente finalmente se permite o "alívio de soltar a corda", a vida ganha uma leveza nova. Isso não significa desistir da busca. Pelo contrário.
A vida vale o esforço justamente porque "o enigma nunca termina".
→ ser pequeno demais para caber o mundo, mas grande o suficiente para querer continuar perguntando.
No fim das contas, a nossa condição é essa.
E, apesar de todo o desconhecido, é nessa pergunta constante que a gente se define.
É uma viagem, no mínimo, interessante.
NÃO SOU O MUNDO — SOU O QUE ELE ME PERMITE SER
Por Marco Arawak
A Terra não é cenário. É a condição de tudo o que acontece. Antes de qualquer pensamento, existe aquilo que sustenta. Antes de qualquer palavra, existe aquilo que torna possível existir.
Nada em mim começou inteiramente em mim. Meu corpo é feito de coisas antigas: água que já foi nuvem, minerais que atravessaram montanhas, elementos forjados muito antes que meu nome existisse. Sou um encontro provisório de matérias que já pertenciam ao mundo antes de pertencerem a mim.
Não sou origem. Sou continuidade.
A Terra não me acolhe por escolha. Ela simplesmente existe. E, enquanto suas condições permitem, eu existo com ela. O chão não me sustenta por cuidado; sustenta porque é chão. Se deixa de existir sob meus pés, eu caio. Sem intenção. Sem julgamento.
A água não me protege. Ela corre. Quando está limpa, sustenta a vida; quando está contaminada, pode carregar essa alteração para dentro dos sistemas dos quais dependemos. O ar não se oferece. Ele está. E quando deixa de estar em condições que permitam a vida, não há filosofia capaz de substituí-lo.
Nada na natureza precisa me explicar o sentido da vida. Sua função não é me oferecer respostas. Basta que suas condições tornem a vida possível.
Não vivo em um mundo que foi criado para me refletir. Vivo em um mundo que me antecede e continuará depois de mim.
Minha história não é o centro da história da Terra. É uma passagem. Sou um instante dentro de algo muito maior, um acontecimento breve em um processo que não começou comigo e não terminará comigo.
E, ainda assim, existo.
Não como dono.
Como parte.
Cada respiração revela uma dependência. Cada passo pressupõe um chão. Cada alimento carrega uma cadeia de vida, matéria, água, energia e trabalho. Cada dia é uma experiência de equilíbrio que não controlamos inteiramente.
Nada em nós é garantido.
A Terra não é boa nem má. Não cuida de nós como uma consciência materna, nem nos pune como um juiz. Ela simplesmente segue suas leis e seus ciclos.
Mas nós sentimos.
Nós tememos.
Nós lembramos.
Nós escolhemos.
E é exatamente aí que algo muda.
A natureza não precisa ter intenção para produzir consequências. E nós não precisamos controlar o planeta para interferir profundamente nele.
A vida acontece enquanto suas condições permitem.
Dentro dessa fragilidade, construímos cidades, cultivamos alimentos, inventamos máquinas, criamos culturas, amamos, lembramos e sonhamos. Somos capazes de transformar o mundo porque dependemos dele. Essa é uma das grandes contradições da nossa existência: temos poder suficiente para modificar aquilo que não podemos substituir.
Somos forma por um tempo.
E toda forma, cedo ou tarde, muda.
O corpo retorna aos ciclos da matéria. A água continua circulando. Os elementos permanecem em movimento. Aquilo que chamamos de fim, muitas vezes, é apenas uma transformação dentro de processos muito maiores que nós.
Mas a nossa experiência individual é finita.
Eu posso desaparecer.
Você pode desaparecer.
Uma geração pode desaparecer.
E é justamente porque somos passageiros que nossas escolhas importam enquanto estamos aqui.
Existir é frágil. Não porque a vida não tenha valor, mas porque ela não vem acompanhada de nenhuma garantia de permanência.
O mundo não foi feito para mim.
Eu fui feito dentro dele.
E o modo como escolho viver dentro dele não é neutro.
Tudo o que faço interfere em alguma coisa: aquilo que extraio, consumo, desperdiço, transformo, descarto ou preservo. Nem tudo retorna diretamente para mim, nem tudo retorna da mesma maneira, mas quase nada simplesmente deixa de existir porque decidi chamar de “lixo”.
O que descartamos continua fazendo parte do mundo.
O que degradamos pode alterar os sistemas dos quais dependemos.
O que destruímos pode levar décadas, séculos ou gerações para se recompor — quando ainda pode se recompor.
Por isso, a natureza não precisa pedir admiração.
Precisa que reconheçamos limites.
Não precisa dos nossos discursos.
Precisa das nossas escolhas.
Não somos espectadores de um planeta externo a nós. Somos participantes de sistemas dos quais dependemos a cada instante.
Talvez esse seja o erro mais profundo da nossa época: imaginar que estar no mundo significa estar separado dele.
Não estou fora da natureza observando-a.
Estou dentro dela.
Meu corpo não é estrangeiro ao planeta. Minha água veio de ciclos anteriores. Meu alimento depende de solos, chuva, luz, organismos e trabalho. Minha respiração depende de uma atmosfera que não produzi.
Não carrego a Terra dentro de mim como símbolo.
Dependo dela como condição.
Se ela sustenta as condições necessárias à vida, eu existo.
Se essas condições se degradam, minha existência também se torna mais vulnerável.
Isso não é metáfora.
É condição material.
A natureza do planeta não é apenas uma ideia, um símbolo ou um consolo espiritual. É a base física sobre a qual a vida acontece.
Compreender isso não deveria nos tornar maiores.
Deveria nos tornar responsáveis.
Porque não estou aqui para dominar o mundo.
Estou aqui dentro dele.
E aquilo que me sustenta também sustenta milhões de outras formas de vida.
Talvez, portanto, a pergunta não seja “o que o mundo pode me dar?”.
Talvez seja:
“O que a minha presença deixa no mundo?”
Depois de mim, o que permanece?
Uma marca?
Uma ferida?
Uma construção?
Uma memória?
Um cuidado?
Uma possibilidade?
Não posso impedir que o mundo continue sem mim.
Mas posso escolher a maneira como participo dele enquanto estou aqui.
Posso consumir sem transformar tudo em descarte.
Posso construir sem considerar tudo ao redor como matéria disponível.
Posso usar sem esquecer que aquilo que uso veio de algum lugar.
Posso existir sem precisar transformar minha existência em domínio.
Porque não sou o mundo.
Não sou seu proprietário.
Não sou seu centro.
Sou uma pequena parte de uma realidade muito maior que me antecedeu, me sustenta e continuará existindo quando meu nome já não estiver sendo pronunciado.
E talvez essa consciência não seja uma diminuição.
Talvez seja uma libertação.
Não preciso ser o centro para ter valor.
Não preciso possuir a Terra para pertencer a ela.
Não preciso durar para sempre para que minha passagem tenha significado.
Sou apenas algo que acontece dentro deste mundo.
Breve.
Frágil.
Consciente.
E enquanto aconteço, posso escolher.
Posso cuidar.
Posso limitar.
Posso preservar.
Posso reparar.
Posso, ao menos, tentar não transformar em ruína aquilo que tornou possível a minha presença.
Talvez seja essa uma das formas mais silenciosas de responsabilidade humana:
saber que o mundo não existe para nós e, ainda assim, compreender que somos responsáveis pela maneira como existimos dentro dele.
Não sou o mundo.
Sou o que ele me permite ser.
E aquilo que eu fizer com essa possibilidade também fará parte do mundo.
Marco Arawak
A ONÇA DENTRO DE NÓS
Por: Marco Arawak
Há uma região em nós que não aparece nos espelhos.
É nela que permanecem as lembranças que o tempo não dissolveu, as perguntas que nunca terminamos de formular, os desejos que modificamos para caber nas expectativas alheias e os receios que, silenciosamente, participam de nossas escolhas.
Talvez conhecer essa região seja uma das tarefas mais difíceis da existência.
Porque olhar para dentro não significa simplesmente recordar. Significa interrogar a própria história.
Perguntar de onde vieram nossas certezas, quais experiências moldaram nossas convicções, por que determinadas situações despertam determinadas reações e até que ponto aquilo que chamamos de personalidade é, na verdade, uma construção feita de hábitos, circunstâncias e memórias.
É nesse território que encontramos a nossa autoanamnese.
Uma cartografia interior.
Um retorno às próprias origens para compreender os caminhos que nos trouxeram até aqui.
Quem fui antes de saber quem deveria ser?
O que escolhi por desejo e o que escolhi por necessidade?
Quais partes de mim nasceram de convicções e quais nasceram de adaptações?
Dentro de cada pessoa existe uma natureza que nem sempre se revela.
Há uma força silenciosa que observa antes de agir, percebe antes de responder e reconhece aquilo que muitas vezes tentamos ignorar.
É a onça dentro de nós.
Ela não precisa rugir para existir.
Move-se no silêncio das nossas percepções, atravessa nossas memórias e surge nos momentos em que algo essencial é ameaçado: nossa liberdade, nossos valores, nossos limites ou aquilo que profundamente reconhecemos como parte de nós.
Mas essa onça não representa apenas força.
Ela também representa consciência.
O instinto que observa.
A presença que não se precipita.
A capacidade de permanecer em silêncio antes de escolher um movimento.
Talvez por isso olhar para dentro exija coragem.
Porque podemos descobrir que aquilo que nos perturba nem sempre está no mundo exterior.
Às vezes, está naquilo que ainda não compreendemos em nós mesmos.
Há pensamentos que nos perseguem.
Há medos que condicionam escolhas.
Há padrões que se repetem porque jamais foram examinados.
E há partes de nossa própria história que permanecem à espera de serem reconhecidas.
Nem tudo aquilo que habita em nós precisa nos governar.
Pensar não significa necessariamente estar certo.
Sentir não significa necessariamente obedecer ao sentimento.
Ter medo não significa ser fraco.
E reconhecer uma parte difícil de nós não significa aceitá-la como destino.
A consciência começa justamente quando conseguimos observar aquilo que acontece dentro de nós sem sermos imediatamente dominados por isso.
Somos, ao mesmo tempo, experiência e observador.
Sentimos e podemos refletir sobre o que sentimos.
Pensamos e podemos questionar nossos próprios pensamentos.
Erramos e podemos compreender o erro.
É nessa distância entre o impulso e a escolha que surge uma das formas mais profundas de liberdade.
Também o passado precisa ser contemplado com honestidade.
Não para justificá-lo.
Não para condená-lo.
Mas para compreendê-lo.
A pessoa que fomos não possuía necessariamente os conhecimentos que possuímos hoje. Julgá-la apenas pelos olhos do presente pode transformar aprendizado em culpa.
O passado não pode ser refeito, mas pode ser compreendido.
E quando compreendemos aquilo que vivemos, nossa relação com a própria história começa a mudar.
A autoanamnese atravessa todas as dimensões da existência.
Está na família, onde recebemos histórias, valores e comportamentos que muitas vezes carregamos sem perceber.
Está nas amizades e nos afetos, onde descobrimos como confiamos, como estabelecemos limites e como nos relacionamos com o outro.
Está no conhecimento e no trabalho, onde nossas escolhas revelam aquilo que valorizamos e aquilo que desejamos construir.
Está nos erros, porque toda experiência pode se transformar em aprendizado.
Está nos sonhos, porque nem todo desejo que carregamos nasceu verdadeiramente em nós.
E está no futuro, porque nenhuma transformação consciente acontece sem alguma compreensão de quem somos hoje.
Por isso, talvez a pergunta mais profunda não seja simplesmente:
“Quem sou?”
Mas:
“O que está participando da construção de quem estou me tornando?”
Somos memória, mas não somos somente memória.
Somos consequência, mas também escolha.
Somos herança, mas também transformação.
Somos passado, mas ainda somos possibilidade.
A onça dentro de nós talvez seja essa parte primordial que nos lembra de permanecer atentos à própria existência.
Ela observa.
Espera.
Reconhece.
E nos ensina que força verdadeira nem sempre precisa fazer barulho.
Há momentos em que a maior demonstração de força é permanecer em silêncio.
Há momentos em que é preciso recuar.
Outros em que é necessário avançar.
E existem aqueles em que a verdadeira coragem consiste simplesmente em reconhecer o que acontece dentro de nós.
Conhecer-se não é domesticar a própria natureza.
É aprender a caminhar conscientemente com ela.
Talvez a maturidade seja justamente isso:
olhar para dentro sem medo de encontrar imperfeições;
compreender sem transformar compreensão em desculpa;
reconhecer nossas sombras sem permitir que elas ocupem todo o horizonte;
honrar nossa história sem permanecer prisioneiro dela;
e aceitar que ainda somos capazes de mudar.
A vida não é uma obra concluída.
Somos seres inacabados.
Cada experiência acrescenta uma camada.
Cada encontro desloca alguma perspectiva.
Cada perda modifica alguma medida de valor.
Cada descoberta reorganiza parte daquilo que acreditávamos saber.
Por isso, a autoanamnese não é uma resposta definitiva sobre quem somos.
É uma pergunta que aprendemos a fazer novamente.
De tempos em tempos, precisamos retornar ao silêncio e escutar aquilo que o ruído cotidiano impede de ouvir.
O que em mim é escolha?
O que é hábito?
O que é herança?
O que é medo?
O que é desejo?
E o que, finalmente, começa a ser liberdade?
Talvez a verdadeira autoanamnese seja esse retorno.
Não ao passado.
À consciência.
Entrar na própria floresta.
Reconhecer os rastros.
Perceber os movimentos.
E descobrir que, dentro de nós, existe uma natureza que não precisa ser temida nem negada, mas compreendida.
Porque conhecer a si mesmo não é encontrar uma identidade imóvel.
É perceber o próprio movimento.
É compreender de onde viemos sem nos aprisionarmos à origem.
É reconhecer aquilo que nos constitui sem permitir que isso determine tudo o que ainda podemos ser.
E talvez seja essa a grande lição da onça:
a força que realmente conhece a si mesma não precisa anunciar sua presença.
Ela simplesmente sabe quando observar.
Quando esperar.
Quando avançar.
E, sobretudo,
quando permanecer em silêncio.
Marco Arawak
A ONÇA DENTRO DE NÓS
Por: Marco Arawak
Há em cada ser humano uma região que não se revela inteiramente à própria consciência. É uma zona anterior às palavras, onde permanecem impressões que não sabemos quando adquirimos, medos que não lembramos ter aprendido, desejos cuja origem confundimos com liberdade e respostas que surgem em nós antes mesmo que tenhamos tempo de perguntar por quê.
Passamos a vida habitando esse território e, paradoxalmente, podemos permanecer estrangeiros dentro de nós mesmos.
Talvez uma das maiores ilusões humanas seja imaginar que nos conhecemos simplesmente porque carregamos conosco, desde sempre, o próprio nome, a própria história e a própria memória. Saber quem somos não é o mesmo que saber de onde vieram as forças que nos constituíram. Há uma diferença profunda entre ser e ter aprendido a ser. Entre aquilo que verdadeiramente escolhemos e aquilo que incorporamos para sobreviver, pertencer, agradar, proteger-nos ou simplesmente continuar caminhando.
A autoanamnese começa quando essa diferença deixa de ser uma abstração e transforma-se em pergunta.
Quem sou eu por trás daquilo que aprendi a ser?
Que parte das minhas convicções nasceu de uma escolha consciente e que parte delas foi herdada, absorvida, imposta ou construída como defesa? Quantas das minhas certezas resistiriam se eu tivesse coragem de investigar sua origem? E quantas das minhas reações pertencem realmente ao presente, quando talvez sejam apenas ecos de acontecimentos que o tempo levou, mas que a consciência ainda não elaborou?
É nesse ponto que entramos no território mais delicado da existência: o encontro entre aquilo que sentimos e aquilo que pensamos.
Antes de existir uma ideia, muitas vezes existe uma sensação. Antes de formularmos um julgamento, alguma coisa em nós já se aproximou ou recuou. O corpo percebe, a memória associa, o instinto responde. Só depois a razão chega, procurando compreender o acontecimento e, não raro, construir uma explicação para algo que já começou a nos mover.
O instinto possui uma inteligência própria. Ele não argumenta; reconhece. Não constrói teorias; responde a sinais. É a herança silenciosa de incontáveis experiências acumuladas no corpo e na memória, uma forma de percepção que frequentemente alcança o perigo, a oportunidade ou a mudança antes que a linguagem consiga traduzi-los.
É nesse sentido que a imagem da onça encontra sua força.
Ela não representa simplesmente a ferocidade que carregamos, tampouco uma natureza selvagem que precisaria ser vencida pela civilização. Representa uma dimensão primordial da existência: aquilo que percebe antes de explicar, que reage antes de justificar, que conhece determinados caminhos sem precisar transformá-los imediatamente em conceitos.
Mas justamente por possuir essa força, o instinto não pode ser confundido com verdade.
Aquilo que sentimos com intensidade não se torna verdadeiro apenas porque foi intenso. O medo pode ser um excelente guardião e, em determinadas circunstâncias, um péssimo intérprete. Uma experiência passada pode ensinar prudência, mas também pode deformar nossa percepção do presente. Uma ferida antiga pode continuar reagindo a acontecimentos que já não possuem a mesma natureza.
É nesse instante que a razão se torna necessária.
Não para destruir o instinto, mas para conversar com ele.
A verdadeira razão talvez não seja aquela que procura calar tudo aquilo que não consegue explicar, mas aquela que possui coragem suficiente para perguntar ao próprio impulso o que ele está tentando dizer. De onde veio esse medo? O que exatamente estou tentando proteger? Por que essa situação me ameaça tanto? Estou respondendo ao que está diante de mim ou ao que alguma experiência anterior me ensinou a esperar?
A pergunta inaugura uma distância.
E nessa distância começa a consciência.
Existe uma diferença decisiva entre sentir medo e ser governado pelo medo; entre sentir raiva e tornar-se instrumento dela; entre desejar alguma coisa e acreditar que todo desejo precisa transformar-se em ação. O impulso pode surgir sem nossa autorização. A escolha, porém, pode nascer justamente daquilo que fazemos depois de reconhecê-lo.
Talvez a liberdade humana resida nesse intervalo quase imperceptível entre o estímulo e a resposta.
É um espaço pequeno, mas nele cabe uma existência inteira.
Ali podemos interromper a automatização da própria vida. Podemos observar aquilo que se levanta dentro de nós sem imediatamente obedecer. Podemos reconhecer o impulso sem confundi-lo com destino. E, sobretudo, podemos descobrir que consciência não significa ausência de forças interiores, mas capacidade de estabelecer uma relação lúcida com elas.
Por isso, a maturidade não consiste em fazer com que a razão esteja sempre à frente do instinto. Seria uma pretensão impossível. Existem momentos em que o corpo saberá antes da mente; existem percepções que chegam sem pedir licença; existem respostas que pertencem a uma camada tão profunda da experiência que nenhum raciocínio poderia substituí-las inteiramente.
A maturidade está em aprender a voltar ao impulso.
Olhar novamente.
Interrogá-lo.
Compreendê-lo.
E então decidir.
A razão, quando verdadeiramente amadurece, deixa de ser uma tirana que pretende governar todos os movimentos interiores e passa a ser uma consciência de direção. Ela não elimina a espontaneidade; oferece-lhe contexto. Não destrói o desejo; investiga sua origem. Não nega o medo; procura distinguir proteção de aprisionamento.
Porque também a razão pode servir àquilo que deseja combater.
Podemos construir argumentos brilhantes para justificar escolhas que já havíamos decidido fazer. Podemos transformar orgulho em princípio, ressentimento em justiça, medo em prudência e conveniência em convicção. O pensamento, quando utilizado apenas para justificar aquilo que já queremos acreditar, deixa de ser instrumento de compreensão e torna-se advogado de nossas próprias ilusões.
Pensar muito não significa compreender profundamente.
Às vezes, pensar é apenas encontrar palavras sofisticadas para não olhar aquilo que nos incomoda.
A autoanamnese interrompe esse mecanismo porque nos obriga a retornar à origem. Ao revisitarmos nossa própria história, percebemos que quase nenhuma reação é absolutamente isolada. Há uma genealogia dos nossos medos, dos nossos desejos, das nossas recusas e até das nossas certezas. Aquilo que chamávamos simplesmente de personalidade pode conter antigas estratégias de proteção. Aquilo que interpretávamos como intuição pode carregar experiências mal elaboradas. Aquilo que acreditávamos ser uma escolha pode ter sido, em algum momento, apenas a alternativa que encontramos para continuar pertencendo.
Conhecer-se, então, não é acrescentar definições ao próprio nome.
É retirar camadas.
É distinguir a voz da experiência da voz do condicionamento. É reconhecer aquilo que herdamos sem necessariamente precisar perpetuá-lo. É compreender que algumas respostas foram úteis para quem fomos, mas talvez já não sejam necessárias para quem estamos nos tornando.
O passado não pode ser refeito.
Mas pode ser compreendido.
E existe uma diferença extraordinária entre essas duas coisas.
Compreender o passado não significa absolvê-lo de tudo nem transformar nossas escolhas anteriores em algo justificável. Significa devolvê-las ao contexto em que aconteceram. A pessoa que fomos possuía os conhecimentos, os medos, os recursos e as limitações daquele momento. Julgá-la exclusivamente com a consciência que adquirimos depois pode produzir culpa onde deveria existir aprendizado.
A memória, quando examinada com honestidade, deixa de ser apenas arquivo e transforma-se em matéria-prima para a consciência.
É assim que o instinto começa a mudar de estatuto dentro de nós.
Ele deixa de ser uma ordem.
Torna-se informação.
Essa talvez seja uma das maiores transformações produzidas pelo autoconhecimento. Não precisamos deixar de sentir; precisamos compreender o que sentimos. Não precisamos eliminar o impulso; precisamos impedir que ele permaneça invisível. Não precisamos expulsar a onça de dentro de nós; precisamos conhecê-la suficientemente para compreender quando sua força está protegendo nossa existência e quando está apenas repetindo uma ameaça que já não existe.
A razão, nesse encontro, não reina sobre o instinto como um soberano sobre um súdito. Ambos participam de uma realidade mais ampla.
O instinto nos ancora no presente imediato. A razão introduz distância. O instinto reconhece sinais; a razão compara possibilidades. O instinto percebe urgências; a razão considera consequências. Um nos aproxima da realidade concreta do momento; o outro nos permite imaginar aquilo que ainda não aconteceu.
Entre os dois nasce o discernimento.
E discernir talvez seja uma das formas mais elevadas de liberdade.
Nem todo medo merece obediência. Nem todo desejo exige satisfação. Nem toda provocação necessita de resposta. Nem toda oportunidade precisa ser perseguida. Nem toda certeza merece permanecer intacta.
A verdadeira força talvez não esteja em reagir com maior intensidade, mas em possuir liberdade suficiente para escolher quando reagir e quando não fazê-lo.
É por isso que dominar a si mesmo não deveria significar dominar a própria natureza. Uma natureza reprimida não se torna necessariamente uma natureza integrada; muitas vezes apenas aprende a esconder-se. Aquilo que negamos não desaparece. Pode mudar de forma, encontrar outras saídas, reaparecer em comportamentos que já não reconhecemos como seus.
A integração é mais difícil do que a repressão porque exige conhecimento.
Exige olhar para dentro sem transformar cada descoberta em condenação.
Exige reconhecer nossa agressividade sem glorificá-la; nossa fragilidade sem envergonhar-nos dela; nossos desejos sem transformá-los automaticamente em direitos; nossos medos sem permitir que eles decidam por nós.
Talvez seja esse o verdadeiro significado da onça dentro de nós.
Não um monstro a ser derrotado.
Não uma força a ser adorada.
Mas uma dimensão da própria natureza humana que precisa ser reconhecida, compreendida e integrada.
A onça não pergunta quem somos. Ela simplesmente existe.
Nós é que precisamos perguntar o que fazemos com aquilo que existe em nós.
E essa pergunta nos devolve à autoanamnese.
Porque investigar a própria história é perceber que somos feitos de camadas: memória e esquecimento, herança e ruptura, instinto e reflexão, necessidade e escolha. Somos consequência de acontecimentos que não escolhemos, mas também somos responsáveis pela maneira como continuamos a interpretá-los.
Não somos autores de tudo aquilo que nos aconteceu.
Mas podemos tornar-nos autores daquilo que fazemos com o que nos aconteceu.
Talvez essa seja a fronteira mais profunda entre condicionamento e liberdade.
Não escolhemos todos os impulsos que surgem.
Não escolhemos todas as marcas que recebemos.
Não escolhemos o primeiro movimento da consciência.
Mas podemos, pouco a pouco, aprender a escolher o segundo.
E talvez seja justamente nesse segundo movimento que comece a verdadeira autoria de uma vida.
Entre a sensação e o significado.
Entre o impulso e a decisão.
Entre aquilo que fomos ensinados a temer e aquilo que finalmente compreendemos.
Entre a onça que reage e o ser humano que observa sua própria reação.
É nesse intervalo que a existência deixa de ser apenas acontecimento e começa a tornar-se consciência.
Talvez conhecer a si mesmo nunca signifique chegar a uma resposta definitiva. Somos seres inacabados, atravessados continuamente por experiências que reorganizam nossa percepção, deslocam nossas certezas e revelam aspectos de nós que antes permaneciam ocultos. A identidade não é uma estátua concluída; é uma construção em movimento.
Por isso, a pergunta mais profunda talvez não seja apenas “quem sou?”, mas:
“O que, dentro de mim, está participando da construção de quem estou me tornando?”
Essa pergunta exige coragem porque retira de nós a comodidade de sermos apenas espectadores da própria história.
Ela nos devolve responsabilidade.
E, com a responsabilidade, a possibilidade de transformação.
A onça continuará dentro de nós. O instinto continuará surgindo antes de muitas explicações. A razão continuará tentando compreender aquilo que a experiência apresenta. O passado continuará deixando rastros. Nada disso precisa ser eliminado.
O que pode mudar é a relação que estabelecemos com tudo isso.
Quando aprendemos a reconhecer o impulso sem nos tornarmos seu instrumento, a memória sem sermos prisioneiros dela, a razão sem transformá-la em máscara e a própria natureza sem precisar negá-la, alguma coisa essencial se modifica.
Já não somos apenas aquilo que nos atravessou.
Começamos a participar conscientemente daquilo que nos tornamos.
E talvez seja essa a forma mais profunda de liberdade: não a liberdade de deixar de possuir uma natureza, mas a liberdade de conhecê-la; não a liberdade de nunca sentir medo, desejo ou raiva, mas a liberdade de não entregar automaticamente a eles o governo de nossa existência.
A onça permanece.
Mas agora sabemos que ela está dentro de nós.
E saber disso muda a maneira como caminhamos pela floresta.
Marco Arawak
Vamos repensar?
Marco Aurélio — “A nossa vida é aquilo que os nossos pensamentos fazem dela.”
“A vida é influenciada pelos nossos pensamentos, mas nem todo pensamento merece governar nossa vida. Uma mente sem discernimento torna-se refém dos próprios pensamentos; uma mente consciente transforma pensamentos em escolhas.”
Carlos Eduardo Balcarse
Em 10 de março eu fiz um e-mail e encaminhei as amigas mais chegadas e o título do e-mail foi: "2012, acaba logo", nesse e-mail eu relatava a dificuldade de enfrentar 4 episódios tristes. Foram 4 situações que tiraram a minha energia, alegria e paz de espírito, adoeci emocionalmente, fiquei sem forças. Ao mesmo tempo me fingia de forte, colocava um sorriso no rosto de "não é nada demais" ou como no outro episódio que eu chorei por dentro para passar tranquilidade e força a quem estava ao meu redor. Eu fiquei arrebentada física e emocionalmente, os poucos amigos souberam de tudo, das histórias que pareciam surreais, vindas em cascata, uma atrás da outra. Naquele dia eu já tinha desistido deste ano, um ano par, historicamente feliz. É lógico que levei um monte de puxão de orelha porque minhas amigas não passam a mão na minha cabeça e internalizei que o ano mal havia começado para tanto pessimismo. Porém a minha filosofia de vida do momento era "Afasta de mim esse cálice". O tempo passou e mais fatos negativos continuaram a acontecer e mesmo que eu aceitasse o sofrimento como vontade divina era tudo sem entendimento de propósito, a única coisa que me consolava era a fodofilosofia que consistia em tentar enxergar que apesar de tudo tinham pessoas em situações muito piores do que a minha. Eu me imaginava na festa de fim de ano, o esperado dia 31/12/2012, à meia-noite, com uma taça de espumante na mão, ao som de fogos de artifícios e eu dizendo em alto e bom som "2012, já vais tarde!". Depois vieram mais frustrações, pequenos percalços multiplicados pela minha sensibilidade e por fim o falecimento do meu amado vô João Assis que estava super bem na sexta até as 18h enganando todo mundo, a 'melhora da morte'. O que mais me chamou a atenção foi o testemunho de vida de pessoas tão próximas-não-parentes, de uma igreja lotada com uma missa particular e de corpo presente. O meu avô era um evangelizador nato, um homem de muita fé, um Mariano de carteirinha, talvez a única herança genética recebida por mim tenha sido a arte de falar só. Tem o ensinamento do terço, do terço não, do Rosário. Tem o ensinamento de rezar antes de comer, o meu avô era incapaz de botar 1 dedo de pão na boca sem agradecer. Eu por várias vezes pegava "no olho" quando eu insistia em tratar meu avô como velho, eu dizia: paizinho, lembra de mim? e ele me dava a ficha completa das minhas peraltices de menina até os dias atuais, ou quando eu falava ALTO, quase GRITANDO, e ele dizia, fala baixo, eu não estou surdo, ou quando eu insistia em ler algo e ele dizia: já li, diga-se de passagem que antes da cegueira irreversível em um olho ele enxergava mais longe e melhor do que eu. Quando eu era adolescente eu tinha um grande orgulho do vovô, o orgulho dele pedalar de bicicleta pra lá e pra cá. No hospital era elogiado por não ter ruga, uma enfermeira brincando ou não, perguntou se o papai era pai dele, porque o meu pai tem mais rugas que o meu avô. Aos 90 anos, meu avô veio com uma novidade, queria casar, viúvo por duas vezes, queria subir ao altar e não queria menina nova não, queria alguém da idade dele, poderia ser 5 anos a mais o 5 anos a menos, mamãe alcoviteira como sempre já arrumou a vizinha de prédio, chegaram até a conversar no dia do meu aniversário mas não passou disso. O meu avô roubava cena onde ia, e assim foi no dia do meu ex-casamento em que ele foi extremamente elogiado pelo padre como exemplo a ser seguido. No caixão estava de terno, com a bata de Ministro da Eucaristia, a medalhinha do Apostolado da Oração e o terço, fisionomia pomposa de homem elegante e parecia estar dormindo.
O meu cálice aquele que eu estava rejeitando, hoje teve um propósito, diante de mais uma dor eu percebi o quanto me curei de mágoas e ressentimentos, diante de mais uma dor nocauteei meu orgulho, pisoteei no meu ego e esmurrei a arrogância. Diante de mais uma dor eu percebi que apesar de sangrando, meu coração estava puro e contraditoriamente limpo. Diante de mais uma dor senti o amor do meu avô por mim, esse amor que ficará para sempre, esse amor que hoje machuca com a saudade, com o choro, com a dor de cabeça, mas que amanhã será apenas amor fortalecido de boas lembranças, esse amor que não tem botão de on e off, que vai eternizar, que vai sempre existir no meu coração. Paizinho eu sempre vou te amar.
Marco repuxou os lábios num sorriso de dentes amarelados, se voltou para mim e me envolveu em seu abraço apertado e reconfortante, quente.
-O que está fazendo? –falei com dificuldade por ele me apertar.
-Te abraçando... –respondeu ele com ...as mãos gélidas ainda em minhas costas, seus braços me envolviam me prendendo, nem que eu quisesse não saberia sair dali. –te olhando...
Seus olhos brilhavam, sua boca estava entreaberta, eu sabia o que ele queria fazer. Olhei para cima e vi que estávamos sob um arco de árvores grandes, parecia uma pequena floresta na calçada. O luar estava lindo, a lua ainda estava escondida. Disfarcei olhando para o ambiente cinza e sinistro. Tive medo. Não tinha ninguém a nossa volta, tão pouco ouvíamos barulho de carros ou qualquer coisa.
Percebi a cabeça de Marco se recostar no meu pescoço. Senti-o aspirar todo o meu perfume de uma só vez.
-Doce...
Era o mesmo Marco de antes...
Era estranho saber que acabou, que não mais voltaria aquele lugar todas as manhãs.
Era só uma tentativa, errônea, de perpetuar o que já nos era eterno.
E o amanhã?
Sobre o Código Florestal penso que deveria ser um marco para a preservação da saúde do nosso ambiente, com uma visão estratégica para os próximos 50 ou 100 anos, algo que se harmonizasse com a produção agropecuária de uma forma limpa e sustentável... Mas o que vejo é totalmente diferente disso!
A fantástica biodiversidade e os ricos biomas brasileiros, já tão maltratados, continuarão vulneráveis...
Cinquenta anos...
E lá se foi fevereiro e também o março,
que nos presenteou com o carnaval...
Resolvi falar dos meus cinquenta anos
que poderíam ser cinquenta motivos de felicidade,
ou quem sabe cinquenta anos de liberdade,
pois afinal nem cheguei a provar a tal ditadura.
Tentei me sentir como no espelho,
mas meu espírito, eternamente jovem,
desfez meus cabelos e minhas lentes.
Confio nos que nasceram agora,
ignorando aquelas frases costumeiras de que:
- no meu tempo...
Porém tem coisas do "meu tempo" que gostaria de mostrar
aos jovens de hoje, mas também gostaria muito
de ser jovem (a carcaça)
para fazer o que eles fazem hoje,
sem a ingenuidade de tempos atrás.
Também confesso entristecida,
que tenho visto coisas demais nesta vida
que não esperava conhecer.
E por aí, o rosário é grande.
O coração já está no ponto,
no ponto de ser substituído
e a preguiça então,
das caminhadas que eu hoje não faço...
mas uma coisa tenho certeza,
sou bem melhor do que antes,
bem aqui por dentro de mim.
O novo
Sábado, 17 de Março de 2012
E o outono anuncia sua chegada. Dia nublado, vento frio, fina garoa. Moletom, meias, edredom, chá. Ele ainda nem acabou e já sinto saudades dele: o verão.
A mudança das estações é algo natural e que temos que aceitar. Embora não goste muito, tenho que me adaptar a nova estação. Na vida também é assim. As mudanças são naturais e inevitáveis. Sinto que o outono se aproxima, não só pelo arrepio causado pelo vento, pelas janelas fechadas ao entardecer, mas sinto o outono se aproximar na minha vida também. O outono é uma oportunidade da natureza para chegarmos ao inverno de maneira gradual. Mas só de pensar que tenho que enfrentar o inverno em breve, fico desejando pular as estações e chegar logo à primavera. Mas isso é impossível e antinatural.
As plantas e os animais vivem seus ciclos. Nós também.
Sentir o coração mais acelerado pode ser um sinal do corpo tentando se aquecer, mas também pode ser um sinal de que uma grande e irremediável mudança está porvir.
O outono anuncia: “O inverno logo vem... aproveite a oportunidade para se preparar. Se esconder embaixo do edredom não vai evitar sua chegada”.
Então é isso. Vou levantar do sofá, esquecer o chocolate, abrir a janela e enfrentar o outono. E que venham as mudanças. E que venha o inverno.
