Devagar
Chovia devagar, como se o céu quisesse tocar a memória sem machucá-la. Sobre a mesa da varanda, uma flor de plástico enfrentava a chuva com sua beleza imóvel: perfeita por fora, incapaz de sentir por dentro. Ao lado dela, havia uma ampulheta de sal, derramando grãos úmidos como se o tempo, naquela tarde, tivesse aprendido a se dissolver.
Dentro de casa, o espelho como um portal devolvia mais do que um reflexo. Quem o olhasse com calma via passagens para versões antigas de si mesmo, para ausências ainda acesas, para afetos que nunca souberam ir embora. E, acima do telhado, a estrela parecia vigiar tudo em silêncio, como uma testemunha paciente das coisas que só o coração entende.
Então veio a compreensão: viver é isso. Ser, ao mesmo tempo, chuva e permanência, delicadeza e artifício. Somos também um mar em que a água é doce, vasto e contraditório, onde a dor e a ternura se misturam sem pedir explicação, e mesmo assim fazem sentido. Porque a alma humana floresce quando aceita o impossível e aprende, com humildade, a morar no mistério.
Às vezes imagino um relógio que anda para trás. Os ponteiros giram devagar, desfazendo os dias, trazendo de volta momentos que já se foram. As palavras duras que disse voltam para dentro da boca. As lágrimas que caíram secam e desaparecem. O tempo, que costuma correr sem piedade, de repente obedece ao meu desejo mais secreto: voltar.
Nesse relógio invertido, eu poderia consertar erros, abraçar quem perdi, dizer “eu te amo” antes que fosse tarde. Poderia viver de novo as risadas simples, os cafés tranquilos, os sonhos que deixei dormir. Mas será que eu realmente mudaria tudo? Ou será que, no fundo, esses erros e dores são o que me trouxeram até aqui?
O relógio que anda para trás nos faz sonhar com uma segunda chance. Ele revela o quanto carregamos arrependimento no peito. No entanto, talvez a verdadeira sabedoria esteja em aceitar que o tempo só anda para frente. Os ponteiros não voltam. O que podemos fazer é olhar para trás com carinho, aprender com o que ficou e viver o agora com mais presença e menos pressa.
O desgosto é um silêncio pesado dentro da alma. Não grita, mas corrói devagar. É o choque entre o que esperávamos e o que a vida entregou, uma ferida que não sangra por fora, mas exige do coração uma força que ele nem sempre estava pronto para dar. O desgosto não é apenas um sentimento — é um peso que o corpo inteiro aprende a carregar.
Querido Agosto, Chegue devagar.
Traga-me dias tranquilos, que não cobrem muito de mim.
Pois quero pouco.
Quero abrir cadernos com folhas em branco, ouvir o som da chuva contra a janela,sentir o abraço do calor da lareira e o perfume das bebidas quentes.
Quero apenas existir inteira e silenciosa, sem precisar justificar meus passos lentos.
Quero que seja simples e que baste.
Exaustão
Hoje o mundo pesa mais do que meus ombros suportam.
As cores se apagaram devagar,
como um céu que esqueceu de amanhecer.
Nada me chama,
nada me prende,
nada me move.
Os sonhos tão barulhentos antes
agora sussurram de longe,
como se não fossem mais meus.
Caminho por dentro de mim
e encontro salas vazias,
ecos cansados,
silêncios que gritam.
Tanto faz diz a minha alma exausta.
Tanto faz se fico, se luto, se tento.
O sentido escorreu por entre os dedos
e eu não tive forças para segurar.
Não é que eu não sinta
é que sentir virou peso.
E eu…
eu só queria descansar
de mim mesma,
do mundo,
de tudo.
"Não importa o quão devagar você vá, desde que não pare. O mais importante é que você continue avançando no seu próprio caminho."
– BangChan (Christopher Banhg)
Tem um tipo de silêncio que abraça. Ele chega devagar, como quem senta ao nosso lado sem pedir licença, mas também sem invadir. É aquele silêncio confortável, de quem não precisa preencher tudo com palavras porque a presença já basta. Esse silêncio é casa. É descanso. É paz.
Mas existe um outro. E esse… esse não avisa quando muda de forma.
De repente, o que antes era aconchego vira ausência. O que era pausa vira distância. E a gente começa a perceber que o silêncio já não acolhe, ele pesa. Ele cria um espaço estranho entre duas pessoas que antes se encontravam até no olhar. Agora não. Agora o olhar passa, escorrega, evita. E ninguém fala nada. E esse nada vai crescendo, como mato em terreno abandonado.
A verdade, meio dura, meio inevitável, é que o amor não respira bem dentro desse silêncio constante. Amor precisa de ar. E o ar dele é a conversa, mesmo quando ela é imperfeita, atravessada, meio sem jeito. Porque falar é se mostrar. E se mostrar é manter a ponte de pé.
Quando o silêncio vira regra, a gente começa a imaginar coisas. A mente, que já não é muito confiável, vira roteirista de tragédia. Um atraso vira desinteresse. Um cansaço vira frieza. Um dia ruim vira falta de amor. E ninguém confirma nada, porque ninguém fala nada. E assim, o que poderia ser resolvido com uma frase simples, vira um abismo inteiro.
Eu penso que amar também é ter coragem de quebrar o silêncio. Mesmo com a voz trêmula. Mesmo sem saber exatamente quais palavras usar. Porque o risco de falar errado ainda é menor do que o risco de não falar nada.
O silêncio, quando prolongado, não protege o amor. Ele desgasta. Ele cria versões diferentes da mesma história dentro de cada cabeça. E quando a gente vê, já não está brigando com a pessoa, está brigando com a ideia que criou dela.
E talvez o amor não acabe de uma vez. Ele vai ficando baixo, como uma música esquecida tocando no fundo, até que ninguém mais escuta.
No fim, não é sobre nunca ficar em silêncio. É sobre não morar nele.
Porque amor que é vivo mesmo… faz barulho. Nem que seja um sussurro dizendo “ei, eu ainda tô aqui”.
Agora me conta, você também já sentiu esse tipo de silêncio que afasta aos poucos? E se quiser mergulhar em mais reflexões assim, passa no link da descrição do meu perfil e vem conhecer meus e-books. Eu te espero lá.
Redemoinho
O homem nasce menino
na planície verde e monótona,
onde o tempo mastiga devagar
os ossos das horas.
Tudo é pacato.
Tudo é árido.
O horizonte não traz ameaças.
Então chega o dia
em que ele se confronta com o furacão.
O tufão do Atlântico e do Pacífico,
carregado de cores, ruídos, promessas,
vidas demais até para mil existências.
O giro tempestuoso desloca o mundo.
Arranca o que era chão.
Semeia o que já nasce morto.
Nada permanece.
As coisas não amadurecem,
apenas surgem
e se dissolvem
sem parto
e sem luto.
O homem-menino abre os braços.
Quer o clarão,
quer o excesso,
quer o impossível.
E o redemoinho o aceita.
Engole seus sonhos frágeis,
mistura artefatos, rostos, desejos
em uma nuvem de poeira disforme.
Agora é homem.
O menino ficou para trás
como um retrato esquecido na estante,
como letras gravadas na velha árvore.
Está no olho do furacão.
Silêncio dentro.
Caos ao redor.
Já não acompanha o giro.
A mudança o ultrapassa
como um trem que não para em nenhuma estação.
Olha ao longe
as pradarias de onde veio.
Vinhas imaginárias.
Um tempo sem gritos.
Um tempo sem pressa.
Mas descer já não é gesto.
É amputação.
Ele tornou-se o próprio vento
que o desfaz.
A cada segundo
um pouco menos sólido,
um pouco mais vapor.
Ao homem sempre restará
esse vício antigo:
abandonar o simples
e, tarde demais,
implorar pela simplicidade.
À espera
O tempo passa devagar
na longa espera de quem lança o impossível sobre o amanhã.
Já não se vê a vida acontecer,
e os pássaros persistem no vento, indiferentes.
De tanto esperar, o presente começa a rarear.
O instante desfaz-se em promessas.
E o futuro, tantas vezes sonhado,
ocupa o lugar daquilo que ainda respira.
Encontros
Convoco-te a viver:
não passe pela vida a correr.
Ande devagar...
De qualquer maneira, você lá vai chegar.
Há tantas coisas bonitas para serem vistas...
Há tanta cor por aí...
Há tanto amor e esperança.
Viva como se pra sempre você fosse criança.
Vocês vão se encontrar...
Um ao outro... e cada um a si mesmo.
... reconheçam seus espaços interiores.
Voltem-se para si mesmos com portas e janelas abertas.
Essa é a coisa mais certa.
Encontre-se.
Abrace com força o lado que é a favor da vida.
Viva a sua vida com toda a força envolvida.
Seja colo que acolhe... alegria que contagia.
Deixe-se encontrar.
Perca a ansiedade das manhãs.
Silencie esse mar de ruídos.
Traição
Ela desceu as escadas bem devagar... queria correr... pra bem longe de seu triste presente... mas só conseguia descer bem devagar... queria tempo pra se arrepender e voltar?
Tinha sido tão abandonada... e nem sabia bem por quê. Enfado? Mas ela sempre dizia: "Amor, tudo pode ser renovado."
Não... claro ela sabia, não é tudo sempre perfeito, mas pra tudo há jeito... havia o afeto, havia os dias calmos, havia a cumplicidade construída nos anos que passaram juntos. Passaram juntos mesmo?
Agora ela só estava mesmo era cheia de dúvidas. Estava acompanhada e completamente abandonada desde quando?
Como não tinha visto os sinais? A troca de senha do celular... alguns contornos tão inúteis... aqueles silêncios cortantes... como era possível o amor que ela havia acreditado ser todo seu não ser todo seu...
Achou que o melhor seria compartilhar com alguém sua dor... e suas dúvidas... pensou: 'onde encontro alguém que também foi sempre abandonado?'
Mas seu mundo tinha caído... não ia conseguir no meio dos escombros encontrar nada..
E desceu devagar... bem devagar os onze andares.
Térreo. Entrou no elevador... apertou todos os andares... queria tempo pra se arrepender... não queria voltar... mas só conhecia o caminho de casa...
... Definitivamente... ia voltar... mas bem... bem devagar... talvez no caminho encontrasse forças pra se arrepender e de novo descer... e da vida dele desaparecer.
Talvez.
Agosto chega devagar,
trazendo novos ventos pelo caminho.
É tempo de renovar sonhos,
de encontrar força mesmo sozinho.
Um mês de páginas abertas,
de histórias para escrever.
Cada manhã traz consigo
uma nova chance de viver.
Helaine machado
Fiel
Fiel a mim,
sou bom em renascer devagar,
ao mesmo tempo que colho os frutos com uma velocidade extrema.
Arrebol de Bronze
O ar ao seu redor parece queimar devagar,
Um calor denso que desacelera o tempo.
Sua pele chama o toque sem precisar falar,
E cada curva sua é um convite ao perigo.
Há um fogo quieto que nasce no olhar,
Desce pelo pescoço, incendeia o peito.
Você sabe o poder que tem ao caminhar,
Dominando a noite de um jeito perfeito.
Sinta a respiração pesada, a pele que arde,
A vontade urgente de se entregar ao momento.
Quando a noite esquentar e já for muito tarde,
Você vai ouvir meu sinal no seu pensamento.
Graves impulsos que a pele deseja,
Intenso desejo que a noite consome,
Nos olhos a chama que a mente corteja,
Húmido toque que chama meu nome.
Os nossos segredos que o fogo mantém.
Feche os olhos agora, sinta o arrepio arder...
Pois no ritmo quente de cada suspiro seu,
Sempre haverá uma lembrança do meu ser.
Bom dia!
Tem manhãs que chegam devagar, como quem abre a janela sem fazer barulho e deixa a luz entrar aos poucos.
Talvez a vida não tenha mudado durante a noite. Talvez as perguntas ainda estejam aí, sobre a mesa, esperando respostas.
Mas existe alguma coisa bonita em recomeçar o dia mesmo assim.
Preparar o café, arrumar a casa por dentro e por fora, respirar fundo e seguir.
Que Deus visite os seus pensamentos nesta manhã e coloque serenidade onde o coração anda cansado.
E que, entre uma tarefa e outra, você perceba: a vida também se revela nas pequenas delicadezas.
Edna de Andrade
