Devagar
Âmbar
Então vem, caminha comigo devagar,
No brilho âmbar da alma que insiste em rimar.
Ansiedade é fera, mas eu aprendi
a domar,
Transformei o caos em verso pra poder respirar.
Sorri.
Conversei.
Fingi normalidade.
Enquanto por dentro,
as paredes desabavam devagar.
Tem gente que acha
que a morte sempre faz barulho.
Mas às vezes ela chega mansa,
senta no peito
e apaga a pessoa aos poucos,
como luz de casa atrasada.
E o pior?
Você continua vivo depois dela.
Carregando os restos.
Aprendendo a respirar
com os pulmões cheios de ausência.
Mas existe uma coisa irritantemente nossa, humana..
sobre sobreviver:
mesmo quebrada,
a alma insiste.
Insiste em escrever.
Em sentir.
Em levantar da cama
mesmo sem acreditar muito no amanhã.
Talvez porque,
lá no fundo,
até as ruínas sonham
em virar lar outra vez.
O Eclipse Vermelho
A lua vestiu-se de vermelho
e mergulhou devagar na escuridão,
como quem guarda no próprio silêncio
uma antiga transformação.
Por um instante, cessou o brilho,
o céu perdeu sua direção...
e aquilo que parecia vazio
podia ser outra dimensão.
Há mudanças que chegam caladas,
sem anúncio, sem explicação,
fundem antigas partes quebradas
numa nova forma de inteireza e chão.
Quando a sombra deixou o céu,
a lua voltou a respirar...
não era outra, nem deixou de ser ela,
apenas aprendera a se transformar.
E talvez todo eclipse seja assim:
um breve mergulho no que não se vê,
até que o que estava disperso em nós
encontre um lugar onde possa florescer.
Do medo
Medo...
Esconde tudo em tudo o que é lugar onde não possa encontrar...
anda devagar, com medo de chegar,
não joga... assim, não corre o risco de não ganhar...
não dorme, com medo do que vai encontrar quando acordar...
não vive, com medo de ver a hora de a morte se aproximar...
Não se olha no espelho...
com medo do que seus olhos possam lhe revelar.
E a vida a passar...
e o medo tudo a paralisar.
Chovia devagar, como se o céu quisesse tocar a memória sem machucá-la. Sobre a mesa da varanda, uma flor de plástico enfrentava a chuva com sua beleza imóvel: perfeita por fora, incapaz de sentir por dentro. Ao lado dela, havia uma ampulheta de sal, derramando grãos úmidos como se o tempo, naquela tarde, tivesse aprendido a se dissolver.
Dentro de casa, o espelho como um portal devolvia mais do que um reflexo. Quem o olhasse com calma via passagens para versões antigas de si mesmo, para ausências ainda acesas, para afetos que nunca souberam ir embora. E, acima do telhado, a estrela parecia vigiar tudo em silêncio, como uma testemunha paciente das coisas que só o coração entende.
Então veio a compreensão: viver é isso. Ser, ao mesmo tempo, chuva e permanência, delicadeza e artifício. Somos também um mar em que a água é doce, vasto e contraditório, onde a dor e a ternura se misturam sem pedir explicação, e mesmo assim fazem sentido. Porque a alma humana floresce quando aceita o impossível e aprende, com humildade, a morar no mistério.
Às vezes imagino um relógio que anda para trás. Os ponteiros giram devagar, desfazendo os dias, trazendo de volta momentos que já se foram. As palavras duras que disse voltam para dentro da boca. As lágrimas que caíram secam e desaparecem. O tempo, que costuma correr sem piedade, de repente obedece ao meu desejo mais secreto: voltar.
Nesse relógio invertido, eu poderia consertar erros, abraçar quem perdi, dizer “eu te amo” antes que fosse tarde. Poderia viver de novo as risadas simples, os cafés tranquilos, os sonhos que deixei dormir. Mas será que eu realmente mudaria tudo? Ou será que, no fundo, esses erros e dores são o que me trouxeram até aqui?
O relógio que anda para trás nos faz sonhar com uma segunda chance. Ele revela o quanto carregamos arrependimento no peito. No entanto, talvez a verdadeira sabedoria esteja em aceitar que o tempo só anda para frente. Os ponteiros não voltam. O que podemos fazer é olhar para trás com carinho, aprender com o que ficou e viver o agora com mais presença e menos pressa.
O desgosto é um silêncio pesado dentro da alma. Não grita, mas corrói devagar. É o choque entre o que esperávamos e o que a vida entregou, uma ferida que não sangra por fora, mas exige do coração uma força que ele nem sempre estava pronto para dar. O desgosto não é apenas um sentimento — é um peso que o corpo inteiro aprende a carregar.
Exaustão
Hoje o mundo pesa mais do que meus ombros suportam.
As cores se apagaram devagar,
como um céu que esqueceu de amanhecer.
Nada me chama,
nada me prende,
nada me move.
Os sonhos tão barulhentos antes
agora sussurram de longe,
como se não fossem mais meus.
Caminho por dentro de mim
e encontro salas vazias,
ecos cansados,
silêncios que gritam.
Tanto faz diz a minha alma exausta.
Tanto faz se fico, se luto, se tento.
O sentido escorreu por entre os dedos
e eu não tive forças para segurar.
Não é que eu não sinta
é que sentir virou peso.
E eu…
eu só queria descansar
de mim mesma,
do mundo,
de tudo.
Tem um tipo de silêncio que abraça. Ele chega devagar, como quem senta ao nosso lado sem pedir licença, mas também sem invadir. É aquele silêncio confortável, de quem não precisa preencher tudo com palavras porque a presença já basta. Esse silêncio é casa. É descanso. É paz.
Mas existe um outro. E esse… esse não avisa quando muda de forma.
De repente, o que antes era aconchego vira ausência. O que era pausa vira distância. E a gente começa a perceber que o silêncio já não acolhe, ele pesa. Ele cria um espaço estranho entre duas pessoas que antes se encontravam até no olhar. Agora não. Agora o olhar passa, escorrega, evita. E ninguém fala nada. E esse nada vai crescendo, como mato em terreno abandonado.
A verdade, meio dura, meio inevitável, é que o amor não respira bem dentro desse silêncio constante. Amor precisa de ar. E o ar dele é a conversa, mesmo quando ela é imperfeita, atravessada, meio sem jeito. Porque falar é se mostrar. E se mostrar é manter a ponte de pé.
Quando o silêncio vira regra, a gente começa a imaginar coisas. A mente, que já não é muito confiável, vira roteirista de tragédia. Um atraso vira desinteresse. Um cansaço vira frieza. Um dia ruim vira falta de amor. E ninguém confirma nada, porque ninguém fala nada. E assim, o que poderia ser resolvido com uma frase simples, vira um abismo inteiro.
Eu penso que amar também é ter coragem de quebrar o silêncio. Mesmo com a voz trêmula. Mesmo sem saber exatamente quais palavras usar. Porque o risco de falar errado ainda é menor do que o risco de não falar nada.
O silêncio, quando prolongado, não protege o amor. Ele desgasta. Ele cria versões diferentes da mesma história dentro de cada cabeça. E quando a gente vê, já não está brigando com a pessoa, está brigando com a ideia que criou dela.
E talvez o amor não acabe de uma vez. Ele vai ficando baixo, como uma música esquecida tocando no fundo, até que ninguém mais escuta.
No fim, não é sobre nunca ficar em silêncio. É sobre não morar nele.
Porque amor que é vivo mesmo… faz barulho. Nem que seja um sussurro dizendo “ei, eu ainda tô aqui”.
Agora me conta, você também já sentiu esse tipo de silêncio que afasta aos poucos? E se quiser mergulhar em mais reflexões assim, passa no link da descrição do meu perfil e vem conhecer meus e-books. Eu te espero lá.
Redemoinho
O homem nasce menino
na planície verde e monótona,
onde o tempo mastiga devagar
os ossos das horas.
Tudo é pacato.
Tudo é árido.
O horizonte não traz ameaças.
Então chega o dia
em que ele se confronta com o furacão.
O tufão do Atlântico e do Pacífico,
carregado de cores, ruídos, promessas,
vidas demais até para mil existências.
O giro tempestuoso desloca o mundo.
Arranca o que era chão.
Semeia o que já nasce morto.
Nada permanece.
As coisas não amadurecem,
apenas surgem
e se dissolvem
sem parto
e sem luto.
O homem-menino abre os braços.
Quer o clarão,
quer o excesso,
quer o impossível.
E o redemoinho o aceita.
Engole seus sonhos frágeis,
mistura artefatos, rostos, desejos
em uma nuvem de poeira disforme.
Agora é homem.
O menino ficou para trás
como um retrato esquecido na estante,
como letras gravadas na velha árvore.
Está no olho do furacão.
Silêncio dentro.
Caos ao redor.
Já não acompanha o giro.
A mudança o ultrapassa
como um trem que não para em nenhuma estação.
Olha ao longe
as pradarias de onde veio.
Vinhas imaginárias.
Um tempo sem gritos.
Um tempo sem pressa.
Mas descer já não é gesto.
É amputação.
Ele tornou-se o próprio vento
que o desfaz.
A cada segundo
um pouco menos sólido,
um pouco mais vapor.
Ao homem sempre restará
esse vício antigo:
abandonar o simples
e, tarde demais,
implorar pela simplicidade.
Encontros
Convoco-te a viver:
não passe pela vida a correr.
Ande devagar...
De qualquer maneira, você lá vai chegar.
Há tantas coisas bonitas para serem vistas...
Há tanta cor por aí...
Há tanto amor e esperança.
Viva como se pra sempre você fosse criança.
Vocês vão se encontrar...
Um ao outro... e cada um a si mesmo.
... reconheçam seus espaços interiores.
Voltem-se para si mesmos com portas e janelas abertas.
Essa é a coisa mais certa.
Encontre-se.
Abrace com força o lado que é a favor da vida.
Viva a sua vida com toda a força envolvida.
Seja colo que acolhe... alegria que contagia.
Deixe-se encontrar.
Perca a ansiedade das manhãs.
Silencie esse mar de ruídos.
Traição
Ela desceu as escadas bem devagar... queria correr... pra bem longe de seu triste presente... mas só conseguia descer bem devagar... queria tempo pra se arrepender e voltar?
Tinha sido tão abandonada... e nem sabia bem por quê. Enfado? Mas ela sempre dizia: "Amor, tudo pode ser renovado."
Não... claro ela sabia, não é tudo sempre perfeito, mas pra tudo há jeito... havia o afeto, havia os dias calmos, havia a cumplicidade construída nos anos que passaram juntos. Passaram juntos mesmo?
Agora ela só estava mesmo era cheia de dúvidas. Estava acompanhada e completamente abandonada desde quando?
Como não tinha visto os sinais? A troca de senha do celular... alguns contornos tão inúteis... aqueles silêncios cortantes... como era possível o amor que ela havia acreditado ser todo seu não ser todo seu...
Achou que o melhor seria compartilhar com alguém sua dor... e suas dúvidas... pensou: 'onde encontro alguém que também foi sempre abandonado?'
Mas seu mundo tinha caído... não ia conseguir no meio dos escombros encontrar nada..
E desceu devagar... bem devagar os onze andares.
Térreo. Entrou no elevador... apertou todos os andares... queria tempo pra se arrepender... não queria voltar... mas só conhecia o caminho de casa...
... Definitivamente... ia voltar... mas bem... bem devagar... talvez no caminho encontrasse forças pra se arrepender e de novo descer... e da vida dele desaparecer.
Talvez.
Fiel
Fiel a mim,
sou bom em renascer devagar,
ao mesmo tempo que colho os frutos com uma velocidade extrema.
Arrebol de Bronze
O ar ao seu redor parece queimar devagar,
Um calor denso que desacelera o tempo.
Sua pele chama o toque sem precisar falar,
E cada curva sua é um convite ao perigo.
Há um fogo quieto que nasce no olhar,
Desce pelo pescoço, incendeia o peito.
Você sabe o poder que tem ao caminhar,
Dominando a noite de um jeito perfeito.
Sinta a respiração pesada, a pele que arde,
A vontade urgente de se entregar ao momento.
Quando a noite esquentar e já for muito tarde,
Você vai ouvir meu sinal no seu pensamento.
Graves impulsos que a pele deseja,
Intenso desejo que a noite consome,
Nos olhos a chama que a mente corteja,
Húmido toque que chama meu nome.
Os nossos segredos que o fogo mantém.
Feche os olhos agora, sinta o arrepio arder...
Pois no ritmo quente de cada suspiro seu,
Sempre haverá uma lembrança do meu ser.
Bom dia!
Tem manhãs que chegam devagar, como quem abre a janela sem fazer barulho e deixa a luz entrar aos poucos.
Talvez a vida não tenha mudado durante a noite. Talvez as perguntas ainda estejam aí, sobre a mesa, esperando respostas.
Mas existe alguma coisa bonita em recomeçar o dia mesmo assim.
Preparar o café, arrumar a casa por dentro e por fora, respirar fundo e seguir.
Que Deus visite os seus pensamentos nesta manhã e coloque serenidade onde o coração anda cansado.
E que, entre uma tarefa e outra, você perceba: a vida também se revela nas pequenas delicadezas.
Edna de Andrade
Te conhecer foi como ouvir uma canção inédita, dessas que entram devagar, mas tomam conta da alma num segundo.
E quanto mais eu te descobria,
mais notas surgiam —
um solo de ternura,
um compasso de paz,
um silêncio bonito que só existe
quando dois corações se entendem.
Hoje, quando penso em nós,
é como deixar essa música
tocar no repeat:
não canso, não enjoa,
porque foi você quem virou
a minha melodia favorita da vida.
P.silva3
Pedido à Mesa
Cheguei devagar,
no cheiro do café passado,
mesa simples, bolo em fatias iguais.
O tempo pedia calma naquele instante, e eu só queria falar
com o coração em paz.
Entre xícaras e silêncios que sabem ouvir, confessei que sua filha mudou meu viver, que meus dias agora caminham pensando nela,
e que não é capricho
— é vontade sincera.
Não levei promessas maiores que o dia, apenas a intenção clara de estar e cuidar.
Um sentimento que cresce na calma vivida e se prova no jeito constante de amar.
No fim, deixei o pedido repousar na mesa, como quem entrega verdade sem pressa.
Se a senhora confiar, sigo com devoção, querendo um namoro
que nasça com sua bênção.
Eu digo que tô bem
como quem fecha a porta devagar.
Por dentro,
tudo faz barulho.
Não é dor,
é cansaço de existir acesa.
Queria um lugar sem nome,
onde eu pudesse cair
sem ninguém me pedir força.
Se eu ficar em silêncio,
talvez eu me encontre.
Onde o Tempo Para
O teu olhar é um rio que corre devagar,
leva comigo segredos que eu nem sabia ter.
Cada gesto teu é poema silencioso,
que insiste em me encontrar mesmo sem querer.
Teu riso é música que não se explica,
ecoando dentro do peito, leve e inteiro.
É brisa que bagunça os cabelos
e deixa o mundo mais bonito por inteiro.
No toque da tua mão, o tempo para,
e tudo que era incerto se faz certo.
És promessa de paz e tempestade,
mistério doce que me prende e me solta.
Se o amor tivesse cheiro, teria teu nome,
seria feito de instantes como este:
olhos que se encontram sem pressa,
e um coração que finalmente sabe onde repousar.
Carrego um vazio
Aprendi a ficar só como quem aprende a respirar devagar,
não por falta de ar,
mas por medo de se afogar no excesso.
Já houve alguém, é verdade,
alguém que cabia no meu silêncio
e o chamava de casa.
Hoje, carrego um vazio que não grita,
ele apenas existe.
É um espaço onde as palavras moram sem som,
onde sentir demais virou um cansaço bonito,
dói, mas às vezes descanso nele
como quem aceita a própria sombra.
Talvez eu tenha feito
da solidão um abrigo,
não por desprezo ao amor,
mas por respeito ao estrago
que ele sabe fazer.
Porque perder alguém
não é sobre despedidas,
é sobre as partes de nós
que nunca voltam.
Então fico assim:
Intenso demais para passar ileso,
profundo demais para tocar sem cair.
Amar, para mim, sempre foi transbordar
— e nem todo transbordo salva,
alguns apenas ensinam
a nadar sozinho.
