Despedida de Emprego
Tenho uma coleção de despedidas que nunca foram ditas. Elas ficam dobradas em gavetas, amassadas, cheias de pó emocional. Quando as revisito, sinto o gosto metálico do adeus e vejo que o maior ato é não mais guardá-las como se fossem provas de culpa.
Há uma beleza discreta nas despedidas sem motivo. Elas são como portais que não explicam viagem. Saímos de algo e carregamos somente um pedaço. Esse pedaço nos protege do vento intenso. E com ele seguimos, aprendendo a ser pequeno e inteiro.
Meu coração ignora a lógica das despedidas, ele insiste na espera mesmo quando a ausência já virou poeira.
Existe uma versão minha que ainda acredita em recomeços. Mesmo depois de tantas despedidas. Mesmo quando tudo me sugere o contrário. É ela que impede meu coração de se fechar por inteiro. É ela que ainda me convence a tentar mais uma vez.
Algumas despedidas não terminam quando a porta se fecha; continuam acontecendo dentro de nós por anos, em silêncio, como um inverno que se recusa a partir.
A vida nos ensina, com delicada brutalidade, que toda permanência é apenas uma despedida cuja data ainda desconhecemos.
ZÉ VOLANTE E MERCEDINHA (A DESPEDIDA)
Após conseguir minha habilitação, muitas viagens realizei nesta vida, mas existe uma que chamo de despedida. Não havia entregas, e a 1313 na garagem permanecia. Era um dia, como tantos outros, de idas e vindas.
A família reunida com os amigos que nos visitavam todos os dias. Era sagrado esse encontro em todas as vindas. Meu pai, Zé Volante, contando as viagens de um jeito que só ele sabia, não perdia um detalhe, pelo contrário, acrescentava e sorria.
À tardinha, seu cochilo era certo, e todos já sabiam que horas depois ele voltaria. A gente ficava aguardando pra saber que nova história Zé Volante contaria. Fiquei desconfiado do aceno do meu pai naquele dia, sentindo no fundo do coração um sentimento de despedida.
Muitas horas se passaram, e Zé Volante não aparecia. Alguns já perguntava se ele ainda dormia. Minha mãe foi procurar saber o que acontecia. Houve gritos e muito desespero, e eu nada entendia. Minha mãe pediu chorando: “Acorde Zé Volante!” Mas, por mais que eu suplicasse, ele não acordaria.
Ele fez a viagem que todos nós faremos um dia. Naquele aceno, meu pai de mim se despedia. Os olhos mostram o que o coração sentiria. Caminhando lento, ele, pela última vez, me ensinou que nessa viagem não tem correria. O destino tá traçado, e a encomenda é a nossa vida.
TÁ NA SALA
Tá na sala o povo chegando,
Pra última despedida,
Uns trazendo no silêncio
As lembranças desta vida.
Eu, deitado, observo tudo,
Sem poder dar mais um pulo,
Pois já terminou minha lida.
Tem gente que fica calada,
Relembrando o que passou,
Revendo antigas histórias,
Tudo aquilo que viveu.
Outros dão boas gargalhadas
Das minhas velhas presepadas,
Das peripécias que aprontou.
Um lamenta a minha perda,
Diz que eu era bom amigo,
Outro fala: “É muito triste,
Nunca pensei nesse perigo.”
E entre um suspiro e outro,
Vão lembrando do meu rosto
E do tempo que esteve comigo.
Tem conversa sobre o presente,
Sobre a vida e a situação,
Enquanto alguém, bem baixinho,
Puxa outra recordação.
“Ele fez isso certa vez...”
E começa outra história
No meio da reunião.
Uns contam contos do falecido,
Que eu jamais pude imaginar;
Cada qual tem sua lembrança,
Cada qual tem seu contar.
E eu escuto em silêncio,
Percebendo que, no tempo,
Já não posso mais falar.
Chegam amigos e parentes,
Para os meus confortar,
Dão abraços apertados,
Tentando amenizar.
Mas, olhando aquela cena,
Descubro, sem mais problema,
Que não posso mais voltar.
Observo todos na sala,
Cada gesto, cada olhar,
E começo a compreender
O que é enfim descansar.
A conversa continua,
Mas minha voz ficou na rua,
Não tenho mais como falar.
Foi então que eu percebi
Que a vida tinha passado;
Eu estava ali presente,
Mas já não era mais lembrado
Como alguém que estava vivo.
Eu era apenas o motivo
De todos terem chegado.
Tá na sala a despedida,
Tá no rosto a emoção,
Tá no canto de um amigo,
Tá no abraço de um irmão.
E entre lágrimas e risadas,
Vão fechando as minhas estradas
Sem nenhuma explicação.
Quando o talude se fecha,
E termina a derradeira passagem,
Pela porta saio sozinho,
Sem bagagem, sem viagem.
Não levo ouro nem dinheiro,
Nem relógio, nem roteiro:
Só aquilo que fui na passagem.
A última porta se fecha,
E o silêncio toma o lugar.
Deixo a sala, deixo a casa,
Deixo o mundo e seu falar.
E sigo, sem mais demora,
Meu destino vida afora,
Para onde ninguém pode voltar.
Tá na sala!
Foi assim que eu compreendi:
Enquanto vocês se despediam,
Eu também me despedia de mim.
O nascimento é o "bem-vindo" a um novo mundo.
A morte é a "despedida" do mundo que ficou para trás.
E a vida é a passagem entre mundos, onde cada momento vivido é parte de algo maior no universo.
A mulher das tatuagens
ela entrou no bar
como quem já conhecia
todos os tipos de despedida.
pele clara,
tatuagens espalhadas pelo corpo
como pequenas revoltas
que ela decidiu não explicar.
bebia devagar
e olhava para o nada
com a tranquilidade de quem
já tinha aprendido
que algumas pessoas
só ficam enquanto é conveniente.
havia flores no braço,
um pássaro perto do ombro,
algumas palavras que eu não consegui ler.
talvez fossem nomes.
talvez fossem erros.
ela sorriu uma vez
e foi o suficiente
para fazer o bar parecer menos miserável.
eu pensei em dizer alguma coisa bonita,
mas coisas bonitas
quase sempre soam ridículas
quando você está diante
de alguém que já sofreu o bastante.
então fiquei quieto.
ela acendeu um cigarro,
olhou pela janela
e disse:
— algumas marcas a gente escolhe.
não perguntei pelas outras.
naquela noite
ela foi embora sozinha,
levando consigo
aquela coleção de desenhos,
silêncios e pequenas cicatrizes
que faziam dela
mais humana que qualquer santo.
e eu fiquei ali,
bebendo o resto do meu copo,
pensando que talvez
a beleza nunca tenha sido
sobre aquilo que uma mulher
carrega na pele,
mas sobre tudo aquilo
que ela conseguiu sobreviver
sem precisar contar.
A água de um rio é sempre despedida e nascimento: aquilo que tocamos já pertence ao passado, enquanto aquilo que se aproxima ainda não recebeu nossas mãos.
A vida é um amontoado de despedidas, onde ninguém sabe qual é a derradeira.
A vida, em essência, é uma sucessão de chegadas e partidas.
Um amontoado de despedidas silenciosas que se acumulam, quase sempre sem aviso.
Nunca sabemos qual abraço será o último, qual conversa não se repetirá, nem qual olhar se prenderá eternamente na memória.
Talvez seja justamente essa incerteza que valorize o instante — a consciência de que ele é frágil, transitório, irrepetível.
Por isso, a vida nos convida a viver cada encontro com reverência, cada presença com gratidão e cada despedida com a delicadeza de quem entende que até a separação faz parte do milagre de existir.
No fim, não é a derradeira despedida que mais importa, mas sim a intensidade dos encontros que a antecedem.
Se pudéssemos ao menos mensurar a agonia das Ligeiras e Inesperadas Despedidas, certamente aproveitaríamos um pouquinho mais a companhia uns dos outros.
Talvez demorássemos menos para dizer “eu te amo”, “senti sua falta”, “fica mais um pouco”.
Talvez deixássemos de economizar abraços, de adiar encontros, de acreditar que haverá sempre um amanhã disponível para aquilo que hoje nos parece tão pouco urgente.
A vida, porém, tem essa maneira estranha, silenciosa e até cruel de nos ensinar que algumas Despedidas não fazem anúncio.
Não batem à porta, não pedem licença, não nos concedem o privilégio de uma última conversa.
Às vezes, a pessoa parte enquanto ainda estamos distraídos com coisas tão pequenas, preocupados com problemas que, depois, descobrimos que nunca foram realmente importantes.
E é justamente isso que assusta: perceber que muitos dos nossos “depois” podem nunca mais chegar.
“Depois eu ligo.”
“Depois a gente se encontra.”
“Depois conversamos com calma.”
“Depois eu digo o quanto você é importante para mim.”
Mas a vida não assina contratos com o tempo.
Não nos garante reencontros, segundas chances ou despedidas dignas da importância dos que partem.
Talvez por isso devêssemos olhar com mais atenção para aqueles que caminham ao nosso lado.
Escutar um pouco mais…
Julgar um pouco menos.
Perdoar enquanto há tempo.
Celebrar presenças sem esperar que se transformem em saudade para que finalmente compreendamos o seu valor.
Porque, no fim, não são os grandes acontecimentos que necessariamente permanecem em nossa memória.
São os detalhes: uma conversa qualquer, uma risada inesperada, um café compartilhado, uma mensagem recebida num dia difícil, um abraço que parecia comum e que, mais tarde, se tornaria inesquecível.
A saudade é uma espécie de arqueóloga do afeto: vasculha o passado procurando vestígios daquilo que não soubemos valorizar enquanto estava presente.
E talvez a grande sabedoria esteja justamente em não esperar pela ausência para reconhecer a presença.
Que a gente aprenda, enquanto ainda há tempo, a estar inteiro onde o coração estiver.
A olhar nos olhos.
A demonstrar.
A agradecer.
A permanecer um pouquinho mais quando alguém precisar de nós.
Porque algumas Despedidas duram apenas alguns segundos, mas podem deixar uma eternidade inteira de profundos silêncios.
E, se não podemos impedir que as pessoas partam, podemos ao menos fazer com que, enquanto estiverem conosco, saibam o quanto são amadas.
Talvez seja essa a maneira mais bonita de vencer, ainda que por instantes, a dolorosa impermanência da vida: fazer do tempo que temos juntos um lugar onde ninguém precise duvidar do próprio valor.
Sem despedida
não me cobre uma despedida.
basta que eu suma da tua vida
sem deixar marcas,
sem barulho,
sem cena.
despedida é abandono que dói,
é palavra que corta,
é porta que bate.
eu prefiro ir
como quem nunca esteve,
do que ficar na tua memória,
como quem faz doer na hora de ir.
(Saul Beleza)
3189 📜 Saudade, para Mim e em qualquer circunstância, é exemplo de Despedida, boa ou nem tanto. Nos últimos dois anos certas Saudades, em Mim, 'dilaceram' meu pensamento e parecem aviso, alerta. Tenho tentado fugir dessa sensação. Tentado, sem conseguir!
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