De Repente Nao mais que Derepente

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Uma fealdade e uma velhice confessada são, a meu ver, menos velhas e menos feias do que outras disfarçadas e esticadas.

Deve respeitar-se o casamento enquanto é um purgatório, e dissolvê-lo quando se tornar num inferno.

Verdade num tempo, erro num outro.

Quem nasceu para obedecer, obedecerá mesmo no trono.

Os maiores males infiltram-se na vida dos homens sob a ilusória aparência do bem.

A verdadeira inteligência consiste em dar valor à dos outros.

Todo aquele que contribui com uma pedra para a edificação das ideias, todo aquele que denuncia um abuso, todo aquele que marca os maus, para que não abusem, esse passa sempre por ser imoral.

Se o poeta fosse casto nos seus costumes, os seus versos também o seriam. A pena é a língua da alma: como forem os conceitos que nela se conceberem, assim serão os seus escritos.

Aqueles que gastam mal o seu tempo são os primeiros a queixar-se da sua brevidade.

As lágrimas dos velhos são tão terríveis como as das crianças são naturais.

Esqueço sempre, mas o corpo lembra:
em breve
será dezembro.

A dificuldade atrai o homem de caráter, porque é abraçando-a que ele se realiza.

Todos os dias vão em direção à morte, o último chega a ela.

O sonho é o alívio das misérias dos que as têm acordados.

O ciúme nunca está isento de certa espécie de inveja, e frequentemente se confundem essas duas paixões.

Mudai os tempos, os lugares, as opiniões e circunstâncias, e os grandes heróis se tornarão pequenos e insignificantes homens.

Um império fundado pelas armas tem de se manter pelas armas.

O talento é um título de responsabilidade.

É uma infelicidade que existam tão poucos intervalos entre o tempo em que somos demasiado novos e o tempo em que somos demasiado velhos.

As Palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade
ANDRADE, E., Antologia Breve, 1972