Coleção pessoal de RosangelaCalza
A noite engole o dia
Cai uma chuva fininha.
O dia vira noitinha.
Tudo lá fora vagarosamente escurece.
O dia entre sombras desaparece.
O verde da relva seca umedece.
Torna-se cinza na cortina da noite que pouco a pouco desce.
Passa o tempo escuro.
No passado a noite fica.
Chega a luz – novo futuro.
O abraço que tanto quero
Falta que faz o abraço
Acho que sei o que quer saber.
Sei também de tantas coisas que ainda irão acontecer...
E não tenho nenhuma ideia do que o futuro irá trazer.
Ouço lá fora pedidos de socorro.
Aperto meus ouvidos...
Quero ser zero sentidos.
Quero não me dar conta
Que o mundo sofre demais da conta.
Quero não ver a tristeza dos teus olhos.
Quero não conhecer os abismos.
Quero fugir dos sismos.
Quero a segurança da estrada florida...
Das árvores ladeando...
Do perfume da vida.
Chega de manhãs desalinhadas...
De dias que parecem que não vão dar em nada.
Chega de chuva demais.
Chega de falta de chuva que seca os cafezais.
Quero tomar meu café.
Quero de novo o teu cafuné...
Teu abraço... sem medo... cheio de fé.
Quando ao normal vamos voltar?
Quando de novo o abraço vai ser a coisa mais fácil de se encontrar?
Borboletas
Borboletas num sobrevoo…
Sobre as flores.
Desamores.
Desapegos.
Dias sem medo.
Solidão.
Dor no coração.
Um vento brando sopra…
A melancolia toma conta…
Tudo mudo no fim das contas.
Sem rumo
Ando sem rumo.
Milhares pelas estradas.
A vida desses corações é pura solidão.
Ninguém pra estender a mão.
Um pesadelo.
Travo uma luta interna diariamente: sigo em frente?
Na clássica maneira de sonhar com dias melhores… sigo.
Engano-me?
Quem me poderá dizer?
Nem sei se haverá novo amanhecer.
Angústia da solidão
Travo como um rio a aungústia da solidão.
Luto eternamente com o desapego.
Jogo-me no ar.
Sinto-o vibrar.
Venci o medo…
Da dor dos pés que correm descalços…
dos percalços…
Na falsidade me alço.
Disfarço bem… muito bem.
Muros
Muros… quero construí-los.
Densas nuvens – para tudo ao meu redor escurecer… e tudo esconder.
Quero bloquear tudo o que vem de fora.
Aqui dentro minha alma chora.
Uma ilha me acena.
Quero sair de cena.
Até a eternidade dormir.
Ah! Tudo isso me faria tanto sorrir.
Sentimento contido
Meu coração bate descompassado.
De novo estás do meu lado.
O sol que brilha no céu.
Dos meus olhos foi tirado o véu.
Sussurro o sentimento contido na essência.
As sombras… restos de pura inocência.
Poetizo-me.
É o amor.
Completa está toda a minha carência.
Estou tão aqui
Estou aqui.
Sempre estou aqui.
Minha estrada é completamente visível a qualquer um.
Meus passos são tão previsíveis.
Não sou do tipo que vai jogando migalhas pra ser encontrada.
Estou na estrada… aberta a encontros.
Sinalizo quando vou virar uma esquina.
Não me escondo atrás de paredes invisíveis…
Nem mesmo atrás de muros de tijolos.
Sou tão previsível.
Fácil de encontrar.
Como a luz do dia sou visível.
Quase tocável.
Sou também extremamente reconhecível.
Nada de máscaras.
Nada de meia-palavras.
Estou sempre aqui.
E nunca pra brincadeira.
Estou para valer…
… e sempre inteira.
Ardente paixão
Uma ardente paixão.
Sentimentos explodem em meu coração.
Lá fora brumas se juntam como um denso véu.
Escuro e triste está o meu céu.
Chuva virá.
As flores do jardim irá regar.
A terra molhar.
Em meu rosto lágrimas minha visão irão mais embaçar...
Distância
Sou antítese do não ser…
Sou e não quero ser.
Procuro-me sem querer me achar…
Encontro-me sem me procurar.
Sou fluxo até transbordar.
Ando pelo caminho sem nenhum passo dar.
Dou passos pelo caminho sem em frente continuar.
Sou finitude trajada de ser.
E há vezes em que nem consigo me descrever.
Adormeceu o dia
A suave mão da noite
fechou as pálpebras do dia.
O dia silenciosamente adormeceu.
A noite seguiu seu rumo.
O doce brilho da lua refletiu no mar sereno.
O brilho das estrelas foi pleno.
As ondas do mar num ir e vir eterno…
Seguiu a noite e a seguiu o dia.
Natureza bela que se refaz e se refaz na mais completa harmonia.
Foi-se a noite… chegou mais um dia.
A tua paz
Busco a paz do teu olhar.
No teu abraço quero me guardar.
Contigo aprendi o que é o verdadeiro amar.
Tuas mãos as minhas a segurar.
Sinto a tua força a me sustentar.
Teu passo a me guiar.
É tão mais fácil caminhar se estás o caminho a me apontar.
Vivo o que vier.
Se junto contigo estiver.
Quem poderá?
Titubeio.
As palavras já não se fazem mais.
Tudo está coberto por uma luz fraca.
Os passos vão para frente, voltam para trás.
Desencontros… descompassos.
O pulso palpita,
A alma grita.
Não há mais saídas.
O espelho reflete um corpo
alquebrado.
Olhos estatelados.
Não há mais dúvidas.
Sobraram apenas as certezas.
A calamidade da certeza me assombra.
Um corpo sem sombras.
Uma mente sem dúvidas.
Quem me poderá desanuviar a mente?
Quem me ensinará a ver a verdade em quem mente?
Desista
Nego-me a mim mesmo.
Caminho a esmo…
Afasto a cortina.
Um fresta aparece.
Tudo tão claro lá fora a mim me parece.
Aqui dentro tudo está preso em uma teia de indefinições.
Não sei mais ao certo os limites.
Pergunto-me: por que insisto?
Alçapões?
Lua
Lua que passeia pelos céus.
Conhece da noite o mistério.
Reflete no enorme oceano
um brilho que dissimula sua beleza.
Não entendo por que razão não deixa aparecer toda a sua beleza.
Esconde-se timidamente por detrás de nuvens.
Desaparece, por um instante, por detrás dos montes.
Chega o dia.
Já pode ela disfarçar no brilho do sol
o que na escuridão da noite não conseguia
Te amarei
Falha a minha voz.
Fraqueja meu passo.
Da dança não sei mais o passo.
Olhos marejados.
O sol que não brilha mais.
Que falta você me faz.
Volta.
Esquece o mal que causei.
Lembra que sempre falei: não importa o que acontecer… sempre te amarei.
Fracasso
O céu se encobriu de novo.
A luz que brilhava se foi.
Partiste.
Tudo ficou tão triste.
Um aperto no peito.
Olhos marejados.
Uma tristeza infinita.
Meu coração desolado.
O ar fica escasso.
Tua ausência maltrata e eu…
sinto-me um eterno fracasso.
Sigo
Sigo.
Meus sonhos persigo.
Sigo serena.
Na bagagem só o que vale a pena.
Meu corpo é frágil.
Tenho de tomar cuidado.
Massageio meus pés de quando em quando.
O que me incomoda pelo caminho vou largando.
Quero chegar ao fim da jornada
só com o que vale a pena.
Quero no fim só o peso de uma pena.
Tua mão
Sigo caminhando.
Passos leves.
Não tenho mais a arrogância de quem tem muito…
Nem a ansiedade de que quem pouco tem.
Sigo leve.
Miro um ponto à minha frente.
Nascente ou poente…
Não sei…
Só sei que há luz.
Em paz.
Aperto tua mão.
Tão suave ela me conduz .
Experiência
Acabou não sendo como querias…
E acabou…
Mas não deves pensar que fracassaste.
Fracassado terias se não tivesses feito.
Se tivesses deixado os braços cruzados.
Se tivesses deixado passar como se não existisse.
Fizeste.
Não saiu como querias…
Mas agora tens a experiência…
Sabes de algo que do contrário não saberias.
