Coleção pessoal de PensadorRS

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Olimpíadas da decadência

Na modalidade da violência
O Brasil conquistou o ouro
Com famílias desesperadas
Acerca do tempo vindouro

Se tratando de desigualdade
No pódio também tem lugar
Uns têm muito, outros nada
E pouco adianta se queixar

Pro preconceito há medalha
De cor que dá para escolher
É mais fácil apontar defeito
Que outro humano acolher

Mas a solução é o jeitinho
Popular na nossa cultura
Mascarando o que ocorre
Dentro da realidade dura

Que comecem os Jogos
É época de comemoração
Palmas para a decadência
Que assola a nossa nação.

Momento de glória

Deve haver um instante inesquecível
Que recompense toda a sua trajetória
Discorra sobre quando o impossível
Sucumbiu ao seu momento de glória

É quando a vida lhe olha nos olhos, sorri
E você, sem ponderar, beija a boca dela
O necessário para a felicidade está ali
Com o céu colorido ao estilo aquarela

Nada melhor que cumprir o seu dever
Em uma atividade feita sem obrigação
Saboreando o doce gosto de vencer

Uma alma entregue verdadeiramente
É premiada ao desfrutar de emoção
Que será rememorada eternamente.

Toda a riqueza material não vale tanto quanto uma mente tranquila.

Os monstros são os homens no pesadelo da vida real.

Boa parte dos conflitos da humanidade se resolveria se assuntos íntimos permanecessem entre quatro paredes.

Sobre a admiração

Você conhece alguém bacana
Que em outro município reside
Acha aquela presença incrível
Mas a localização não coincide

Então troca ideia com a pessoa
Por tempo suficiente a admirá-la
Porque é quase desconhecida
E você não tem por que criticá-la

Valorizam o momento partilhado
Até cada um seguir sua direção
E com certeza você irá recordar
Aquela companheira de ocasião

Assim declarou Millôr Fernandes
À principal revista que a Abril tem
Como são admiráveis as pessoas
Que nós não conhecemos bem.

Não existe final feliz se tratando de amor. Na melhor das hipóteses, o casal ficará junto até que um morra e deixe o outro com saudade.

Sutis detalhes

Outro dia o termômetro estava negativo
Faz 10 graus agora e até parece verão
Porque a sensação terrível já passou
E um simples alívio virou a solução

O pobre menino caminhava descalço
Até um par de tênis lhe ser entregue
Ele não machuca mais os seus pés
E se divertir sem temer consegue

Faltou energia elétrica no bairro todo
O que causou a preocupação geral
Estava complicado de se localizar
E na volta da luz a festa foi total

Depois de uma viagem de semanas
Ao chegar, parece nova a moradia
A mobília antiga se faz reluzente
E o próprio lar é razão à alegria

A diferença está nos detalhes sutis
Não deixe de perceber a beleza deles
Como esta estrofe é desigual às outras
Captou, né? Se não, observe mais vezes.

O cúmulo do individualismo é evitar um relacionamento para não ter que dividir a cama com outra pessoa.

Quem é alviazul de verdade terá uma razão para viver enquanto o Esportivo existir, o que dispensa maiores explicações e a racionalidade que cabe a assuntos de menor importância.

Não escrevo para viver, mas vivo para escrever.

Yin-yang

Estivemos juntos durante horas
Em uma conexão rara de se ver
Yin complementando meu yang
Causa natural para se envolver

Então ela decidiu sumir do mapa
Retornando após duas semanas
Como se nada tivesse acontecido
Desfilando com suas Havaianas

Mal se desculpou, estava serena
Autointitula-se dona de si mesma
Rejeitando o relacionamento sério
Fã de estrangeirismos com trema

Que complicada a delicada dama
Embora não a ache inconquistável
É uma jovem zelosa, diferenciada
Arrebatada por coragem indomável

Os livros que ela lê eu já li todos
A residência dela deve ser logo ali
Possivelmente já passei na frente
Com uma mente dispersa, de guri

Atiçarei a vaidosa com uma pena
Tirando-a da sua zona de conforto
Ela, sem dúvida, virá perfumada
Para o nosso inevitável confronto.

Pessoas com a autoestima baixa temem o espelho sem sequer cogitarem a possível aparição de uma figura sobrenatural.

Pior que associar uma música romântica a alguém é não ter a quem associá-la.

Quem necessita de pouco desfruta da abundância.

Tatuado com açoite

Passam os carros, passam os anos
Uma mesma vida com outros planos
Crescimento alheio às megalópoles
Impaciente com as conversas moles

Mesma rua da infância sem crianças
Não há brinquedos, novas andanças
Habitante do arquipélago da lacuna
Que nos jornais não renderia coluna

O pessimismo é fruto da observação
Fecham-se os olhos, cai outra noite
Continua sendo perdoável ter razão
Ainda que esteja tatuado com açoite

Supera e se recolhe à sua caverna
Existe tranquilidade mesmo sazonal
Não alimenta crença na vida eterna
Otimismo deveras querer ser imortal.

Um par, para dar certo, precisa de um ímpar.

Infere-se a qualidade de um local, e dos frequentadores dele, com uma rápida observação da higiene dos banheiros.

Precisamos cometer pequenos erros para que catástrofes sejam evitadas.

Cabeças robotizadas

Errei a jornada e parei no morro
Mas qual seria o caminho certo?
Frequentando os mesmos locais
Desconhecendo o real de perto

Selva de pedra, tu és selvagem
Dás alimento aos gananciosos
Quem lhe conhece, quer fugir
A cachoeiras e tempos ociosos

A engrenagem tem sustentação
Que depende da conformidade
É sabido que indagar desagrada
As pretensões da alta entidade

Todas as cabeças robotizadas
Podem, pasmem, perder lugar
Para os robôs, estas criações
Que na teoria não irão pensar

Trocando seis por meia dúzia
O poder central vê vantagem
Porque o criticismo ausente
Irá perpetuar a sua linhagem.