Coleção pessoal de testeteste123
Ó meu ex-amor, meu caos e minha calmaria,
A ti não resta rancor, mas uma estranha gratidão.
Eu era a argila mole, entregue à tua alquimia,
E o teu adeus forjou a minha reconstrução.
Teu nome ainda ecoa, um sussurro na memória,
Mas já não é tormenta, é a marca que me fez.
A vida que findou, de luto e velha história,
Foi o solo onde floresceu a minha nova vez.
Obrigado por ter me transformado, sem querer,
Nesta alma de aço polido que hoje se levanta.
Eu sou a prova viva de que a dor pode vencer
E que a maior ferida é o que mais nos implanta.
Não sou mais quem te amava, a sombra submissa e frágil,
Sou a força que nasceu quando a ponte se quebrou.
O teu abandono, duro, frio e indizivelmente ágil,
Foi o preço que paguei pela pessoa que eu sou agora.
Fica o passado à deriva, a saudade que se esvai.
Eu sou o teu legado, a obra que a dor lapidou.
Vai em paz. Eu brilho sozinho, e isso me basta.
Fui destruído por ti, mas a ti, muito obrigado.
O Homem Magro
A paixão cessou,
mas o homem magro
continua sentado
ao pé da cama —
seco e puro,
como o ar
que respiro.
Cuneiforme
Falar,
falar,
murmurar…
Filosofar!
Justificar!
Nada!
Escrita,
Desde cuneiforme ,
A dor em símbolos !
Pode chorar,
pode esguelhar —
o amor perdido…
está perdido.
E o errante,
com sua ladainha,
( escrita ou falada)
percorre a história da humanidade
como se fosse sua!
Continuar a ser fonte é confiar em Deus. É crer que a bondade, semeada com sinceridade, jamais se perde... mesmo que o reconhecimento falhe.
O tempo, com sua justiça silenciosa, sempre traz a lição.
Um dia, o sedento lembrará da água que ignorou... não por castigo, mas porque o vazio da alma sempre clama pela fonte que lhe faltou.
Quem despreza a água que o saciou revela apenas a seca do próprio interior.
A ausência de gratidão mostra a imaturidade de quem ainda não aprendeu o valor do gesto puro, do amor sem interesse.
Ode a Clarice
Me ensina
a perder-me nas esquinas invisíveis,
atravessar portas que não existem,
explorar mundos
que cabem apenas
no silêncio do meu passo
Ode a CL
Antes que o mapa encurte,
antes que a próxima “viagem”
imponha um itinerário
que não ultrapasse
a rua paralela
à minha antessala…
O destino ambicioso do Poeta
Ele nasce para Ser,
vive para Escrever,
morre para ser lido,
renasce sem nunca ver
e torna-se eterno sem nunca saber...
Ele nasce com o verbo latejando nas veias,
a alma em chamas de dizer o indizível,
vive entre o gozo e o abismo das palavras,
sangra no papel como quem se oferece ao tempo.
Morre quando a tinta seca,
mas o eco de sua febre permanece.
Renasce em cada olhar que o lê,
sem jamais saber que ainda pulsa
na carne do silêncio dos outros...
Ele vem ao mundo com um sopro de eternidade,
vive escrevendo para compreender
o próprio mistério.
Morre deixando rastros de si em cada verso,
renasce no coração de quem o lê,
e permanece, suave e invisível,
no murmúrio das páginas que o guardam...
✍©️@MiriamDaCosta
Good Girl
Se não correr,
se não fizer,
se não se formar,
se não casar,
se não enriquecer,
se não tiver filhos —
pelo menos dois,
se não for bem-sucedida,
se não me aplaudirem…
Good Girl!
A vida passou —
e levou a dúvida junto.
Dizem que não tenho sentimentos,
que não me importo com ninguém,
que vivo num vazio imenso,
que o amor não me faz bem.
Águia ferida sou eu — e mais ninguém.
Alguém me viu voar,
com asas largas a balançar,
carregando um coração ferido,
porque sentir também é sofrer.
Águia ferida sou eu — e mais ninguém.
O galo não é despertador, é poesia,
Cantando o início de mais um lindo dia.
E o cheiro... ah, o cheiro! Café em brasa,
Se misturando ao perfume que mora na casa.
O bolo de milho, de receita guardada,
Era a ponte doce da vida adoçada.
Mas nada, nada superava o calor
Do abraço da Vó, feito de puro amor.
No colo macio, o tempo parava,
Tudo de ruim ali se apagava.
Saudade que pulsa, lembrança que fica,
Daquele tempo onde a vida era rica.
No som que acorda, o galo em seu ofício,
E o vapor do café, fresco e propício.
Mas o coração bate forte, a memória voa,
Pois o cheiro do bolo de milho ecoa.
A Vó, de avental, mãos que fizeram magia,
Transformava o milho em pura alegria.
Não era só bolo, era história contada,
Com a manteiga derretendo, a infância guardada.
E no fim de tudo, a fatia na mão,
O abraço apertado, o mais puro perdão.
Saudade que arde, mas também conforta,
Pois o sabor da Vó jamais se transporta,
Ele vive em mim, em cada despertar,
No cheiro de café e no galo a cantar.
Galo a cantar, cheiro de café no ar,
O aroma do bolo de milho a nos chamar.
Na mesa simples, o afeto está,
Lembrança de vó, saudade a apertar.
Um tempo de criança que não volta mais,
Mas vive no gosto que a alma refaz.
Cada mordida, um abraço, um acalento,
Doce memória em todo momento.
Quer que eu tente escrever um poema um pouco maior ou com foco em outro detalhe dessa lembrança, como o abraço da avó?
A Menina e o Cachorro
Uma criança brinca com um cachorro
no meio da praça.
Na Praça do Patriarca,
foi lá que eu vi.
Entre cinco e seis anos de idade,
tinha a criança.
Igualmente jovem era o animal.
A garota abraça, beija,
se desmancha em carinhos...
O cachorro retribui lambendo animado
o rosto da menina.
Os dois caem,
rolam no chão.
A menina ora por cima do cão,
ora por baixo.
Alguns pedestres param,
observam, riem, tiram fotos,
maravilhados com a beleza da cena.
Outros, apressados,
submersos em seus problemas,
incapazes de enxergar o mundo à sua volta,
passam sem nada perceber.
Uma mulher se aproxima,
afaga a cabeça do cachorro.
A menina se levanta,
fica de pé, imóvel, séria.
Em sua seriedade,
o esboço de um sorriso enigmático,
quase imperceptível,
me fez lembrar Mona Lisa.
Com o olhar fixo na mulher
acariciando o pequeno animal,
a menina parecia esperar sua vez
de também receber carinho.
A mulher, no entanto, se levanta,
faz um último carinho no cão, arruma a blusa,
ignora a criança e vai embora,
diluindo o sorriso de Mona Lisa da menina,
que a acompanha com o olhar desapontado.
E eu, que a tudo assistia, pensei:
— Infelizmente é assim que nós estamos agora!
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Nascida em meio à pandemia, em 2020, esta crônica em versos descreve uma cena real: uma garotinha em situação de rua e seu cachorro, na Praça do Patriarca, em São Paulo.
