Coleção pessoal de testeteste123
Sexta-feira à noite sempre carrega um peso diferente. Não é cansaço, é lembrança. O ar fica mais lento, como se o tempo também estivesse cansado de correr. E depois do Natal esse peso parece maior, como se as luzes ainda acesas não conseguissem esconder o silêncio que ficou.
Lá fora, o chão ainda guarda o cheiro das folhas molhadas. Um cheiro de fim, mas também de recomeço. A chuva já passou, mas deixou marcas, pequenas poças refletindo luzes tímidas, como sentimentos que insistem em não desaparecer. Caminhar por essa noite é como andar por dentro de mim mesmo, desviando de memórias que ainda doem ao toque.
O café é forte, quase amargo, do jeito que combina com pensamentos profundos. O vapor sobe devagar, aquecendo as mãos enquanto o coração permanece frio. Cada gole é uma tentativa de ficar acordado, não para o mundo, mas para o que sinto. Porque dormir, nessa noite, parece perigoso demais. Dormir é dar espaço para você voltar nos sonhos.
A sexta-feira deveria ser leve, mas comigo ela sempre chega carregada de saudade. Ainda mais depois do Natal, quando tudo tenta parecer completo e o vazio fica mais evidente. Talvez porque o silêncio fique mais alto quando todos parecem ter alguém. Talvez porque o amor, quando vai embora, deixa ecos justamente nas noites que deveriam ser felizes.
O vento passa suave, espalhando o cheiro de terra molhada, e por um instante penso que você também sentiria isso. Imagino você do outro lado da cidade, talvez rindo, talvez pensando em nada, enquanto eu penso demais. Sempre pensei demais quando se tratava de você
Essa noite é bonita de um jeito triste. Romântica sem promessas. Intensa sem toques.
Sexta-feira à noite não pede explicações, apenas sentimentos. E o meu está aqui, sentado à mesa, entre folhas molhadas e café forte, numa sexta-feira depois do Natal, esperando algo que talvez nunca volte, mas que ainda insiste em morar no peito.
Porque algumas noites não são feitas para esquecer. São feitas para sentir.
— Cyrox
Hoje eu nasci para a esperança. Ela se revelou para mim como uma besta abismal, embrenhando-se entre as sombras da floresta. Eu estava em uma clareira confortável demais, segura demais, pequena demais, sufocante demais, embora luminosa. Ali, ao redor, escutava as folhas quebrando no chão. Eram passos vagantes, circundantes, tateando a luz do lugar. A fera pulou em mim, e eu caí monumentalmente como o império de uma era inteira. Morri naquela clareira do conhecido, o animal se me assemelhou, reconheci que eu era a própria fera, e renasci para algo maior que eu, algo ainda em mim mesmo. Esperancei-me. Fui, assim, explorar o breu da floresta, porque queria viver deliberadamente.
