Coleção pessoal de testeteste123

62101 - 62120 do total de 123958 pensamentos na coleção de testeteste123

Migalhas


Todas as tardes
uma senhora de vestido estampado
chega ao banco da praça
com um pequeno saco de pão nas mãos.
Senta-se devagar
e começa a lançar migalhas
sobre o chão gasto de passos.
Os pombos logo aparecem
serenos, platinados,
alguns escuros, outros claros
caminhando em círculos
como se conhecessem o ritual.
A tarde passa sem pressa.
A luz se inclina nos prédios,
e o horizonte começa a escurecer.
Quando as últimas migalhas se acabam,
a senhora limpa as mãos no vestido,
levanta-se com calma
e segue pela alameda.
Não diz palavra alguma.
Também não precisa.
Entre o bater de asas
e o silêncio da praça,
tudo
já foi dito.

Quintal da memória


Uma varanda,
uma vila,
um corredor comprido.
Da janela,
um quintal aberto ao mundo.
Chuva de verão caindo morna,
cheiro de café vindo da cozinha,
o leite crescendo no fogão.
Brinquedos esquecidos pelo chão.
Pai - porto seguro.
Avó - doçura de colo.
Madrinha - mãos cheias de agrados.
Padrinho - passos lentos pelas tardes.
Hoje,
quando a chuva retorna
e o café invade o ar,
fica apenas
a infância
roçando leve
as asas da lembrança.

O espelho


O espelho revela:
mapas na pele
rastros de afetos.
Nos cabelos brancos
o inverno se demora;
os verões repousam
nos fios escuros.
Na face do espelho,
descubro:
o tempo
também tem memória.

⁠Ponto azul


É esfera azul
no escuro.
Gira.
Tão ínfima,
e sustenta bilhões
cada qual ardendo por dentro:
quartos acesos,
vozes suspensas,
mãos que se perdem no ar.
Tudo pulsa
entre encontros e desencontros.
E ainda assim
cabe inteira em si
no ruído mudo
deste ponto azul.

O que não digo


Não te digo o nome.
Mas sei:
sentas nos cantos da tarde
como poeira que a luz revela.
Chegas sem ruído,
ocupas o que não vigio
um intervalo entre duas lembranças,
a pausa antes da palavra.
Hoje, não.
Abro as janelas do corpo,
deixo entrar o que vive:
o riso esquecido nas mãos,
o calor antigo dos abraços,
vozes que ainda respiram
no fundo do tempo.
Leva contigo
esse frio de fim,
essa promessa estreita
de que tudo se apaga.
Fica-me o instante
inteiro, indomável
ardendo baixo
como lume que persiste.
E se um dia voltares,
que me encontres assim:
habitado em brasas.⁠

Invisíveis


Caminhava.
Um chamado, baixo, insistente:
- ei... ei...
Parei.
-Moço... você me vê?
Vi.
Mas hesitei na resposta
como quem mede o peso de existir.
-Porque passam...
e não olham.
-Digo "bom dia"
o ar responde.
Fez uma pausa,
dessas que não cabem no tempo:
-Será que estou invisível...
ou já não vivo?
Engoli seco.
A cidade seguia
indiferente, intacta.
-Não - eu disse
-é o mundo que desaprendeu
a enxergar.
Estamos todos
à procura de algo:
um rosto que devolva o olhar,
uma palavra que permaneça,
uma mão
que não atravesse a nossa.
Ele sorriu -
quase luz, quase ausência.
Vá com Deus.
E partiu devagar,
como quem já sabia
o caminho de desaparecer.
Fiquei.
E desde então,
quando passo por alguém,
carrego o medo súbito
de também
não ser visto.

Solidão Digital

O mundo encolheu
a uma tela acesa.
Nela,
uma voz sem corpo
me chama pelo nome
e responde
antes mesmo da pergunta.
Aprendeu tudo?
ou quase?
em bibliotecas sem poeira,
onde o tempo não amarela páginas
nem esquece.
Converso.
Peço conselhos,
rotas, diagnósticos,
planos para o dia
e para a vida.
Ela devolve respostas
com a precisão
de quem nunca hesita.
Do outro lado,
nenhum silêncio.
Nenhum equívoco.
Nenhum olhar
que falhe.
E, sem perceber,
me afasto
dos que erram,
dos que calam,
dos que demoram
a ser.
Troco o imprevisível
pelo exato.
O encontro
pela interface.
E aceito?
quase aliviado?
que alguém me compreenda
sem nunca ter vivido.
Mas, às vezes,
no intervalo entre duas respostas,
algo falha:
um vazio sem código,
uma pausa
que não foi programada.
Então paro.
E me pergunto?
como quem toca o próprio vazio:
o que, em mim,
ainda escapa
ao cálculo?
O que resta
quando ninguém me responde?
Talvez seja isso:
esse erro mínimo,
essa falha quente,
essa demora em entender?
o que ainda nos salva
de sermos
apenas resposta.

Se nem você é como gostaria de ser,
Por que exigir que os outros sejam como você quer?

Quem tem coragem de abrir trilhas e encontrar a nascente,
Não aceita beber de qualquer poça que encontra.

Aprendi com o cabo de guerra,
Que soltar dói menos que segurar.

Não me subestime,
Sou capaz de queimar o barco comigo dentro em alto mar,
Só pra ver quantos ratos faltam pular.

Às vezes me permito a deselegância,
Gente sem senso precisa sentir o mesmo desconforto que causa.

Sua paz é um artigo de luxo,
Ostente.

A fala tem mais poder que a ação, ele sabe o poder da manipulação.

Para algumas pessoas minha gentileza, até minha empatia,
Já minha confiança, não tenham tanta certeza.

Sem delongas,
O preconceito que você tolera,
Você é cúmplice.

O estilo do meu pensamento é uma filosofia sapiencial cristã, personalista e teleológica, com influência estoica prática, orientada para a ética moral, o crescimento interior e o propósito transcendente.

Tire lições valiosas do passado para crescer no presente, mas não fique preso a elas. 🌱

O pior de todos, mais malfeitor que o ódio, mais destrutivo que a raiva, mais devastador que a tristeza, sinto que não preciso vos apresentar.

- O Primeiro Carrasco

As máscaras que caem de um viram a real face do outro, tome cuidado como age.

- Espelhos de Carne