Coleção pessoal de testeteste123

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PARA
OS RIOS AMAZÔNICOS.


PARA ONDE
VOCÊS VÃO TÃO ARRUMADOS.

ENTRE
AS PERNAS DELA
TODOS
OS POEMAS

O AMOR DENTRO DO AQUÁRIO
COMO UM PEIXE.
NADANDO TODO DOURADO
E VERDE.

Uma oração sem objetivo é como uma flecha sem arco;
Um objetivo sem oração é como um arco sem flecha.
Ella Wheeler Wilcox

A verdade é que tudo o que mais ansiara era não esboçar fingimentos em meu rosto e finalmente expressar verdade.
Em outro universo eu havia te esquecido a ti e á dor que deixaste ao ires embora, já não pensava em ti e nos teus doces olhos.
Nesse universo eu não oraria a Deus e a todas as entidades que me enchesse com a tua presença.
Eu queria acreditar e nas tuas palavras vazias e fingir costume.
Nós não somos iguais.

Eu não quero mais chorar ou lamentar-me por ti
Tenho outro "amor" que me espera
Um amor simples e fácil,
doce e ao mesmo tempo amargo,
pois não tem o teu gosto.


Se o destino não houvesse de ser tão cruel
E o tempo perdoasse quem ama
O verdadeiro e mais puro amor serias tu

*O GATO, OS MORTOS E A ÚLTIMA PÁGINA*
A sala estava do jeito que eu havia deixado.
Não era exatamente bagunça. Bagunça pressupõe algum critério. Aquilo era apenas o resultado de anos deixando as coisas para depois.
Havia caixas de livros encostadas na parede desde a última mudança. Algumas ainda fechadas. Outras abertas. Uma delas tinha o canto rasgado e deixava escapar algumas lombadas, como se os livros estivessem tentando fugir.
No canto da sala havia uma vitrola do final dos anos setenta. Pesada, de madeira escura, com a tampa transparente já marcada pelo tempo. Ao lado dela, uma coleção de vinis que eu vinha carregando de uma casa para outra havia mais tempo do que gostaria de admitir.
Um disco girava.
Eu não estava prestando muita atenção à música.
Talvez fosse esse o motivo de ela ainda estar tocando.
A música servia melhor quando não exigia nada da gente.
Na mesa havia uma xícara de café com whisky irlandês.
Não era um hábito.
Era uma negociação.
O café me mantinha acordado.
O whisky fazia parecer menos estúpido o fato de eu estar acordado.
A televisão permanecia ligada.
Passava um filme antigo.
Muito antigo.
Um daqueles filmes em que as pessoas ainda tinham tempo para ficar em silêncio antes de dizer alguma coisa importante.
Eu gostava disso.
Hoje ninguém tem tempo para silêncio.
Há mensagens.


Notificações.
Contas.
Reuniões.
Senhas.
Aplicativos.
Até a tristeza precisa ser rápida.
Talvez por isso eu ainda gostasse dos livros.
Eles não têm pressa.
Podem deixar um homem sofrer por quatrocentas páginas sem pedir que ele melhore no capítulo seguinte.
Fiquei olhando para as caixas.
Uma delas estava aberta.
Eu não lembrava de ter deixado daquele jeito.
Aproximei-me.
Havia um romance.
Um livro de história.
Um drama.
Um livro que eu tinha comprado e não lembrava por quê.
E outro que eu lembrava perfeitamente por que tinha comprado, mas já não sabia por que ainda conservava.
Foi aí que percebi uma coisa desagradável.
Os livros sobrevivem aos motivos pelos quais foram comprados.
Talvez as pessoas também.
Fiquei algum tempo parado diante daquela caixa.
Depois puxei um dos livros.
A poeira subiu.
E minha memória resolveu trabalhar.
O que foi uma péssima ideia.
Frida Kahlo apareceu primeiro.
Não como retrato.
Como ferida.
Frida.


Ferida.
Uma palavra puxando outra.
Sal.
Salitre.
Saudade.
Uma palavra quase igual a outra, mas com uma letra de diferença.
É curioso como uma letra pode mudar uma vida.
Pensei naquilo e comecei a lembrar de outras coisas.
Pimenta do campo.
Sertão.
Terra seca.
Estrada.
Distância.
Não sei por que certas palavras ficam guardadas enquanto outras desaparecem.
Talvez a memória não seja um arquivo.
Talvez seja um bêbado escolhendo o que levar para casa.
Peguei outro livro.
Jonas.
O Leviatã.
Um homem dentro de um peixe.
Fiquei olhando para a página.
Um homem entra dentro de um peixe e sai de lá com uma missão.
Eu entro dentro de mim mesmo e saio com azia.
Fechei o livro.
Depois pensei em Moisés.
A arca.
Os animais.
Dois de cada.
Ou sete.
A memória não sabe mais.


Ela altera as coisas para poder continuar funcionando.
Pandora apareceu depois.
Sempre a caixa.
Os homens gostam de caixas.
Guardam documentos.
Fotografias.
Cartas.
Remédios.
Armas.
Livros.
Coisas que não querem esquecer.
Coisas que não conseguem jogar fora.
Às vezes guardam mortos.
Eu olhei para as caixas espalhadas pela sala.
Foi quando percebi que talvez tivesse feito a mesma coisa.
Passei anos guardando pessoas dentro de objetos.
Uma fotografia.
Um livro.
Uma música.
Uma rua.
Um cheiro.
Um disco.
Meu pai apareceu assim.
Não numa fotografia.
Num pensamento.
Estava entre os mortos da minha memória como se nunca tivesse saído de lá.
Isso me incomodou.
Não porque eu não quisesse lembrar.
Mas porque algumas lembranças não pedem licença.
Elas simplesmente entram.
E sentam.


Peguei outro livro.
Hamlet.
Depois Hamnet.
A palavra ficou na minha cabeça.
Hamnet.
O menino que morreu cedo demais.
Um nome pequeno para uma ausência enorme.
Pensei nele durante algum tempo.
Talvez todos nós sejamos um pouco Hamnet.
Filhos de alguma coisa que não conseguimos terminar.
Pais de alguma coisa que não conseguimos salvar.
Ou apenas homens que chegaram tarde demais para algumas coisas.
A garganta apertou.
Eu bebi o café.
Ainda estava quente.
O whisky já tinha desaparecido.
Foi então que percebi que eu estava cansado.
Não fisicamente.
Era outro tipo de cansaço.
Aquele que aparece quando a pessoa começa a perceber que passou boa parte da vida tentando compreender coisas que não foram feitas para serem compreendidas.
Peguei outro livro.
Odisseu.
Hades.
Agamenon.
Tirésias.
Os mortos conversando com os vivos.
Aquilo me pareceu familiar.
Meu pai continuava ali.
Não dizia nada.
Talvez soubesse que eu já tinha perguntado demais.


Olhei para ele dentro da minha cabeça.
Queria dizer alguma coisa.
Não disse.
Há conversas que só funcionam depois que uma das pessoas morre.
Talvez porque finalmente desapareça a expectativa de resposta.
Sentei novamente.
A música continuava girando na vitrola.
A agulha fazia aquele ruído pequeno entre uma passagem e outra.
Era um som antigo.
Um som de coisa que ainda precisava de matéria para existir.
Hoje apertamos um botão e a música aparece.
Naquela vitrola, era preciso colocar o disco.
Levantar a tampa.
Baixar a agulha.
Esperar.
Talvez a espera também tenha sido uma tecnologia que perdemos.
A televisão mostrava o filme.
Um homem falava.
Uma mulher chorava.
O homem parecia culpado.
As pessoas daqueles filmes tinham uma quantidade impressionante de tempo para sofrer.
Nós não.
Hoje precisamos sofrer entre uma reunião e outra.
A vida moderna não eliminou a dor.
Apenas organizou a agenda dela.
Ri sozinho.
Foi então que pensei na Casa Verde.
Machado de Assis.
Bacamarte.
A razão tentando medir a loucura.
O homem que decidiu descobrir quem era louco e acabou colocando quase todo mundo dentro da instituição.


Talvez a diferença entre loucura e normalidade seja apenas uma questão de votação.
Alguns recebem diagnóstico.
Outros recebem cargo.
Alguns falam sozinhos.
Outros têm microfone.
A loucura não desapareceu.
Aprendeu a usar gravata.
Olhei para os livros.
Eu já não sabia se estava lendo ou apenas lembrando.
Napoleão apareceu.
Depois Alexandre.
Depois César.
Depois Jesus.
Depois Moisés.
Depois Pandora.
Depois meu pai.
Tudo misturado.
A história inteira parecia ter entrado naquela sala sem pedir autorização.
O problema dos mortos é esse.
Eles não precisam de espaço físico.
Cabem todos dentro de uma cabeça.
Fui até a janela.
Lá fora havia uma noite tranquila.
A casa estava cercada por aquele silêncio de bairro que aparece quando as pessoas finalmente fecham as portas e param de fingir que têm algum controle sobre a própria vida.
Olhei para o céu.
Pensei em Deus.
Nunca tive muita sorte com essa questão.
Há homens que encontram Deus numa igreja.
Outros encontram numa doença.
Alguns encontram no fundo de uma garrafa.


Eu sempre encontrei perguntas.
Talvez Deus seja apenas o nome que damos ao que não conseguimos suportar não compreender.
Voltei para a sala.
O gato entrou pela porta.
Sem cerimônia.
Não perguntou o que eu estava fazendo.
Não perguntou por que havia livros espalhados.
Não quis saber quem era Hamlet.
Passou pela vitrola.
Cheirou uma caixa.
Ignorou um livro.
Parou diante de mim.
Olhou.
Depois continuou andando.
Aquilo me pareceu uma atitude muito inteligente.
Um gato não precisa saber quem foi Napoleão.
Não precisa saber quantos animais entraram na arca.
Não precisa resolver o problema de Deus.
Não precisa compreender a morte.
Precisa de comida.
Água.
Um lugar razoavelmente quente.
E talvez alguma paz.
Nós complicamos tudo.
Inventamos religiões.
Filosofias.
Sistemas.
Teorias.
Construímos universidades para tentar explicar aquilo que um gato resolve dormindo.
Fui até a cozinha.


Coloquei comida no prato.
Chamei.
Ele apareceu.
Comeu.
Sem agradecer.
Como deve ser.
Depois desapareceu.
Procurei pela casa.
Encontrei-o na minha cama.
Já havia tomado posse.
Não discuti.
Naquela altura da vida, eu já tinha perdido discussões mais importantes.
Apaguei a luz.
A sala ficou escura.
A vitrola continuava girando.
A música havia terminado.
O disco permanecia dando voltas.
Fui até ela e desliguei.
O silêncio entrou no lugar da música.
Foi então que tudo pareceu voltar para o lugar.
Os livros voltaram a ser livros.
As caixas voltaram a ser caixas.
Os mortos voltaram para dentro das páginas.
Frida voltou para sua ferida.
Jonas para o Leviatã.
Odisseu para o Hades.
Hamlet para sua dúvida.
Hamnet para sua morte.
Fabiano para a seca.
Severino para sua cova.
Bacamarte para a Casa Verde.


Meu pai voltou para onde quer que os mortos permaneçam quando ninguém está pensando neles.
E eu fiquei ali.
Sentado.
Um homem numa sala.
Nada mais.
Pensei que talvez essa fosse a parte que mais incomodava.
Passamos a vida tentando ser alguma coisa.
Inteligente.
Forte.
Bom.
Importante.
Amado.
Lembrado.
No fim, continuamos sendo apenas um corpo sentado numa sala escura, esperando a próxima coisa acontecer.
O gato se aproximou.
Deitou-se ao meu lado.
Senti a respiração dele.
Regular.
Pequena.
Sem preocupação alguma com o destino da humanidade.
Não perguntou quantos anos eu tinha.
Não quis saber o que eu havia feito da minha vida.
Não perguntou se eu acreditava em Deus.
Não quis saber se eu estava louco.
Não perguntou se eu tinha amado o suficiente.
Apenas ficou.
Foi aí que percebi uma coisa.
Talvez eu tivesse passado tempo demais procurando respostas em homens mortos.
Nos livros.
Nas religiões.


Na filosofia.
Na memória.
E talvez a resposta estivesse naquela coisa simples que eu sempre considerei pequena demais para ser levada a sério.
Uma presença.
Alguém ficando.
Não para resolver.
Não para explicar.
Apenas para não ir embora naquele instante.
Fiquei olhando para o teto.
Pensei que talvez esse fosse o nosso maior erro.
Queremos a resposta inteira.
O livro inteiro.
A história inteira.
Queremos saber o começo antes de começar e o fim antes de continuar.
Queremos compreender o amor antes de amar.
Queremos compreender a morte antes de morrer.
Queremos saber para onde estamos indo antes de dar o próximo passo.
Talvez não exista essa informação.
Talvez exista apenas a próxima página.
O próximo gole.
A próxima noite.
O próximo corpo ao nosso lado.
Senti o gato se aproximar mais.
Fechei os olhos.
Por alguns segundos, não havia Napoleão.
Não havia Moisés.
Não havia Pandora.
Não havia César.
Não havia Jesus.
Não havia Hamlet.


Não havia meu pai.
Não havia Casa Verde.
Não havia Sertão.
Não havia Hades.
Não havia Deus.
Havia apenas o quarto.
O gato.
Meu corpo.
E o silêncio.
Dessa vez, o silêncio não pareceu vazio.
Pareceu suficiente.
Talvez seja isso que a velhice ensina quando finalmente perde a paciência com as próprias perguntas.
Nem tudo precisa de resposta.
Algumas coisas precisam apenas de companhia.
O gato respirava ao meu lado.
A casa permanecia quieta.
As caixas continuavam esperando.
Os livros continuavam fechados.
A vitrola estava parada.
E eu pensei que talvez a última página não fosse o fim.
Talvez fosse apenas o lugar onde finalmente paramos de escrever perguntas.
Então dormi.
Sem descobrir o nome da tristeza.
Sem descobrir o nome de Deus.
Sem descobrir o que seria de mim.
Mas com um gato ao lado.
Para uma vida inteira, talvez isso seja pouco.
Ou talvez seja exatamente o bastante.

Hoje, perdi-me no teu toque de novo
Durante míseros minutos pareceu que nada havia mudado
míseros minutos apenas.


Nossos lábios sentiram-se por mais uma ultima vez,
tu o desejaste.
Eu apenas senti o medo de ser o ultimo.


E repetia aquela noite e seus míseros minutos
Mesmo correndo o risco de no próximo amanhecer sermos apenas um quase que acabou por falhar.

COLORIR A VIDA.




VOCÊ É BONITA.

Etaristas já estão mortos interiormente, aguardando o funeral da própria casca desprezível.




Envelhecer bem e conscientemente é para fortes!

O que são míseros 10 meses entre 7 doces anos de pura desgraça?


Bem eu havia prometido
E bem é o que ando a tentar cumprir
Oh Deus nem imaginas o quanto.


Nestes anos todos ansiei
Ansiei ser normal mas eu esqueci
Eu nunca vou o ser de nenhuma das duas formas


E agora pergunto-me
Com o coração ferido , magoado
e que anseia uma solução,
Valerá a pena?


No final das contas tudo isto é apenas um ciclo.
Um ciclo que roda de solução em solução
Embora todas elas acabem por serem igualmente problemas que se juntam á minha desgraça.


Agora cá estou eu ,
eu e ela,
apenas.


Quem havia prometido companhia não acompanhou
e coitada seja eu de acreditar que alguma haverá de ter companhia.


No fim o ciclo sempre vive a sua rotina
Um:"prometo"
Seguido de um :"não consigo mais "
Tudo por culpa minha por escolher acreditar ser um ser vivo digno de amor,
mas um amor simples, puro , reciproco e sem problemas que se juntos aos solitários meus.


Enfim, um ciclo que se juntou á minha desgraçada ilusão.

" Somos lembranças de alguém e memórias próprias de nós mesmos. "

"Por Medo; o receio da solidão muitas vezes nos molda a aceitar dinâmicas tóxicas ou migalhas de afeto."


—By Coelhinha

"Amar sem se abandonar é o maior ato de coragem. Permanecer em si, mesmo acompanhada."


—By Coelhinha

A Supernova


A chama queima!
Queima cada vez mais intensamente.
Que sensação mais gostosa e assustadora,
Ser capaz de atrocidades jamais pensadas


A chama cresce, as labaredas ganham corpo,
O calor vai aumentando até ficar insuportável!
Ah! E se ela se libertasse de vez?
Seria um espetáculo e tanto, não acham?
Coitada da víitima... Coitado?!
Terá a oportunidade de sentir toda a chama.


A chama queima de dentro, e queimará fora!
Liberdade! ela chama, deseja sair,
E sairá, meus amigos, oh!, ela sairá!
O sangue? Evaporará pelo bem do todo


Ética? Quem se importa, não é mesmo?
Consumiu tudo, desde a compaixão até...
Não sei dizer...
O fogo quando escapar consumirá toda a floresta!
Que se dane a fauna e a flora, nada disso importa!


Que se rompam as barreiras!
Que se rompam os laços; as famílias!
Quem estiver no espaço conseguirá,
Conseguirá apreciar a libertação!
Olhem que maravilha!

"QUEM NÃO FOR DESPACHADO (ESPERTO) DURANTE A VIDA, NO DECORRER DA VIDA PODERÁ SER DESPACHADO (LUDIBRIADO) E PAGAR CARO POR ESSA OMISSÃO" Ademar de Borba

Dias leves


Uma leve nostalgia...
dos dias do passado,
dias passados,
dias azuis da cor do mar...
dias isolados – ilhas –,
separados só pra olhar o azul da cor do mar
olhar azul... olhar o azul, azul da cor do mar.
Nostalgia leve...
dos dias leves
dias em que o conhecido era leve
tudo esbarrava em mim de leve;
nostalgia de dias em que eu seguia leve...
sem lembranças...
carregando apenas esperanças.
Hoje procuro um farol na tempestade.
Não diferencio mais verdades de inverdades...
Vivo um tempo de escuridão e incertezas...
Sinto-me uma eterna presa.
A noite não parece ter fim.
O frio invade meu coração...
Só queria o aconchego de dias que tão longe vão.

Não é egoísmo pensar em si.


Às vezes, passamos tanto tempo nos colocando em segundo lugar, fazendo pelos outros, compreendendo, ajudando e abrindo mão das nossas próprias necessidades… que esquecemos de nós.


E então percebemos algo importante: nem todo mundo vai fazer por nós aquilo que fazemos por eles. Não necessariamente por falta de amor, mas porque cada pessoa está ocupada vivendo a própria história, cuidando das próprias necessidades e fazendo suas escolhas.


Por isso, cuidar de si não é deixar de amar o outro. É simplesmente parar de se abandonar em nome dele.


Você também merece a mesma atenção, cuidado e consideração que oferece ao mundo.

*Aquilo que o tempo não consegue levar.*


O bar tinha apenas três mesas ocupadas. Um casal discutia em voz baixa no canto, um homem dormia abraçado ao copo como se aquilo fosse uma espécie de documento de identidade, e eu estava no lugar de sempre, perto do balcão, ouvindo uma música antiga sair do junkbox com aquele som cansado de quem também já viveu mais do que deveria.
O dono do bar limpava um copo que nunca parecia ficar limpo. Talvez fosse uma mania. Talvez fosse uma forma de passar o tempo sem precisar pensar nele.
Pedi outra dose.
Não porque precisava beber. Isso seria uma explicação simples demais. Às vezes a gente não procura o álcool. Procura um intervalo. Um lugar onde ninguém pergunte quem você se tornou depois de tantos anos tentando ser alguém.
Fiquei olhando aquelas pessoas espalhadas pelo salão e pensei que todo bar é uma pequena sala de espera.
Cada mesa tem alguém negociando consigo mesmo.
Tem gente tentando esquecer uma conversa que nunca teve coragem de iniciar. Tem gente comemorando uma vitória que já perdeu o sentido. Tem gente rindo alto apenas para não ouvir o próprio silêncio.
Eu conheço bem esse tipo de gente.
Conheço porque já sentei em todas essas cadeiras.
Existe uma despedida que acontece sem barulho. Ela não chega anunciada. Não leva malas. Não deixa bilhete em cima da mesa.
Ela apenas começa a diminuir alguma coisa dentro da gente.
Um dia você percebe que já não ri como antes. Que alguns sonhos perderam a força. Que aquela vontade quase irresponsável de mudar tudo foi substituída por uma lista de desculpas bem organizadas.
É assim que a vida costuma vencer.
Não destruindo.
Adaptando.


Ela não precisa arrancar sua coragem. Basta oferecer conforto suficiente para que você mesmo entregue.
A tragédia não está nos cabelos brancos, nas rugas ou nos anos acumulados.
A tragédia é quando alguém olha para dentro e percebe que virou exatamente aquilo que prometeu nunca ser.
Uma pessoa aceitável.
Uma pessoa que aprendeu a engolir a própria indignação para manter a mesa organizada, o emprego seguro e a fotografia da família sem rachaduras.
Aos poucos, a tempestade vira previsão do tempo.
E depois a culpa vai para os anos.
Como se o calendário tivesse assinado os contratos por nós.
Mas a verdade é menos bonita.
Foram pequenas escolhas. Pequenas desistências. Pequenas covardias guardadas como se fossem maturidade.
O homem do canto pediu mais uma bebida. O casal foi embora sem se despedir. A música mudou no junkbox.
Eu continuei ali.
Pensando que talvez o maior perigo da vida não seja perder tudo.
Talvez seja conservar tudo e perder a si mesmo no processo.
Porque o tempo realmente leva algumas coisas.
Leva a juventude.
Leva a força.
Leva o corpo devagar, sem pedir permissão.
Mas existe uma parte que ele não consegue tocar.
A parte que ainda deseja.
A parte que ainda se revolta.
A parte que ainda é capaz de errar por vontade própria.
Essa parte não morre com o tempo.
Morre quando a gente abandona.
Então eu levantei o copo, não como uma celebração, mas como um aviso para mim mesmo.
Ainda havia alguma coisa ali.
Alguma coisa imperfeita.


Alguma coisa que não tinha aceitado completamente a derrota.
E talvez seja isso que mantém alguns de nós de pé.
Não a esperança.
A esperança é uma palavra muito bonita para uma noite tão cansada.
Talvez seja apenas a recusa silenciosa de entregar tudo.
Porque no fim das contas, o tempo leva apenas o corpo.
O resto...somos nós que deixamos para trás.

*O CÉU E O INFERNO FUNCIONAM EM HORÁRIO COMERCIAL*


A sexta-feira chegou ao bar como sempre chegava.
Cheia.
Gente demais tentando parecer feliz por algumas horas. Homens soltando risadas mais altas do que sentiam. Mulheres olhando para o celular enquanto fingiam prestar atenção na conversa. Garrafas sendo abertas como se dentro delas existisse alguma resposta que a semana inteira não conseguiu entregar.
O bar estava lotado.
A música vinha baixa demais para criar clima e alta demais para permitir uma conversa honesta. No fundo, um cantor sozinho brigava com um violão velho e com uma canção que parecia ter envelhecido junto com as pessoas que ainda lembravam dela.
A fumaça dos cigarros subia devagar entre as lâmpadas amareladas. Copos vazios ocupavam as mesas como pequenos relatórios de derrotas particulares.
Eu estava no centro do balcão já que o canto estava ocupado.
O lugar onde ninguém pergunta muito e onde o barman já aprendeu que meu silêncio não precisa de explicação.
Eu gosto desse lugar.
Não porque seja confortável.
Mas porque ninguém espera nada de você quando está sentado diante de um balcão.
Foi quando chegaram os quatro.
Dois casais.
Sentaram perto demais de mim, a mesa atrás de meu banco, porque o bar estava cheio. Não era amizade. Não era interesse. Era apenas falta de espaço.
Mas existe uma coisa curiosa sobre bares.
As pessoas entram pensando que vão beber apenas álcool.
Depois de algumas horas, começam a beber lembranças.
E algumas lembranças descem queimando mais do que qualquer bebida.
No começo, falavam baixo.
Falavam de coisas comuns.


Trabalho.
Viagens.
Conhecidos.
Até que alguém mencionou amor.
Não sei por que as pessoas gostam de falar sobre amor quando estão cansadas dele.
Talvez porque seja mais fácil discutir aquilo que já não conseguem sentir.


A mulher começou dizendo que no começo era diferente.


Sempre começa assim.


“Antes era diferente.”


Essa frase aparece em quase todos os relacionamentos que estão morrendo.


Ela contou que, no início, ele mandava mensagens de madrugada.


Perguntava onde ela estava.


Queria saber como tinha sido o dia dela.


Escutava problemas que hoje ele considera reclamações.


Fazia planos.


Dizia que ela era diferente.


Ele ouviu sorrindo.


Aquele sorriso curto de quem já decidiu que o outro está exagerando.


Depois falou:


— Você está romantizando tudo.


Foi uma frase simples.


Mas algumas frases simples carregam uma crueldade silenciosa.


Ela continuou.


Disse que depois vieram as contas.


O trabalho.


O cansaço.


A televisão.


O celular.


A rotina.


Aquela velha máquina que transforma pessoas apaixonadas em colegas de apartamento.


Ele respondeu que era assim mesmo.


Que ninguém consegue viver de declarações.


Que a vida real não era filme.


Que depois de alguns anos ninguém fica perguntando todos os dias como foi o dia de alguém.


Talvez ele estivesse certo.


Talvez ela também.


O problema é que muitas vezes duas pessoas podem estar certas e ainda assim conseguirem destruir alguma coisa.


Eu continuei bebendo.


Não porque não tivesse opinião.


Tenho opiniões demais.


Esse sempre foi um dos meus problemas.


Fiquei olhando para os dois e pensando em como algumas histórias terminam muito antes de alguém admitir o fim.


O amor raramente morre com uma grande tragédia.


Ele não faz barulho.


Não chama testemunhas.


Não deixa um corpo no chão.


Ele vai desaparecendo aos poucos.


Primeiro vem uma conversa que fica para amanhã.


Depois um abraço que fica para depois.


Depois um beijo que vira hábito.


Depois o silêncio.


Até que um dia duas pessoas acordam na mesma cama e percebem que estão dividindo apenas o colchão.


O resto cada uma carrega sozinha.


O outro casal tentou mudar de assunto.


Não conseguiu.


Quando quatro pessoas bebem o suficiente, sempre aparece alguma verdade guardada.


Vieram acusações antigas.


Pequenas feridas acumuladas.


Coisas que ficaram anos esperando uma oportunidade para sair.


E sexta-feira à noite, em um bar cheio, costuma ser uma excelente oportunidade.


Fiquei pensando naquela velha busca humana pelo Céu.


Essa necessidade de acreditar que existe algum lugar onde tudo finalmente fará sentido.


Talvez exista.


Talvez não.


Nunca tive muita certeza sobre essas coisas.


Mas olhando para aquela mesa, percebi uma coisa:


Talvez o Céu e o Inferno não sejam lugares para onde vamos.


Talvez sejam lugares que construímos enquanto estamos aqui.


O Céu aparece em coisas pequenas.


Quando alguém escuta de verdade.


Quando alguém fica mesmo tendo motivos para ir embora.


Quando alguém pede desculpas sem colocar uma defesa depois da frase.


Quando alguém ama sem transformar carinho em moeda de troca.


Parece pouco.


Mas quase tudo que importa na vida parece pouco antes de desaparecer.


O problema é que nós transformamos amor em contrato.


Eu faço isso por você.


Então você me deve aquilo.


Eu trabalhei.


Então tenho direito ao meu silêncio.


Eu pago as contas.


Então não preciso prestar atenção.


Eu fiquei.


Então você me pertence.


Talvez seja aí que começa o erro.


Porque amar alguém não deveria significar possuir alguém.


Mas nós gostamos de possuir.


Casas.


Objetos.


Memórias.


Pessoas.


Até sentimentos antigos nós tentamos prender.


Depois ficamos surpresos quando alguém tenta respirar longe daquilo que chamamos de amor.


O homem daquela mesa dizia que aquilo era exagero.


Talvez fosse.


Mas existe uma coisa ainda mais triste:


fingir que uma relação continua viva apenas porque duas pessoas ainda dividem o mesmo endereço.


Existem casamentos que continuam apenas porque terminar parece mais difícil do que continuar sofrendo.


Existem pessoas que passam vinte anos juntas e já não sabem mais quem está deitado ao lado.


E existem encontros de uma hora que conseguem lembrar alguém de que ainda está vivo.


O Inferno talvez não seja fogo.


Nem demônio.


Nem castigo.


Talvez seja olhar para alguém que um dia significou tudo e perceber que você ajudou a construir a distância entre vocês.


Tijolo por tijolo.


Com orgulho.


Com silêncio.


Com pequenas crueldades justificadas.


Até que a parede ficou alta demais.


Depois você senta diante dela e pergunta por que ninguém mais consegue chegar perto.


O ódio funciona do mesmo jeito.


Começa pequeno.


Uma mágoa.


Uma palavra.


Uma injustiça.


Depois cresce.


Você começa a separar o mundo.


Os bons.


Os maus.


Os que merecem.


Os que não merecem.


Até que o coração vira uma repartição pública.


Entrada proibida.


Documentos exigidos.


Atendimento somente com agendamento.


O curioso é que quase ninguém percebe quando chega ao Inferno.


Porque ele não parece Inferno.


Ele parece rotina.


As pessoas continuam trabalhando.


Pagando contas.


Postando fotos felizes.


Comprando presentes.


Dizendo “eu te amo”.


Tudo funcionando normalmente.


Talvez seja por isso que ele seja tão eficiente.


O Inferno não precisa de fogo.


Basta parecer normal.


Olhei novamente para aquela mesa.


Ela chorava.


Ele olhava o celular.


Aquilo me pareceu mais violento do que uma discussão.


Porque a raiva ainda reconhece o outro.


O desprezo não.


O desprezo apaga.


O cantor começou outra música.


Ninguém percebeu.


O barman recolheu copos.


A fumaça continuou subindo.


A sexta-feira continuou acontecendo.


O mundo não para quando alguém está destruindo outra pessoa por dentro.


Essa é uma das coisas mais duras sobre estar vivo.


Você pode estar quebrando alguém.


E do lado de fora alguém continua servindo cerveja.


Terminei minha bebida.


Fiquei alguns segundos olhando para aquela cena.


Não sabia quem estava certo.


Talvez ninguém.


Talvez os dois.


Mas pensei que todos nós recebemos pequenas escolhas todos os dias.


Abrir uma porta.


Ou construir uma parede.


Perdoar.


Ou guardar uma dívida emocional.


Amar.


Ou negociar.


O Céu talvez não seja tão distante quanto imaginamos.


Talvez ele apareça quando deixamos de tratar pessoas como propriedades.


E o Inferno talvez já esteja funcionando quando precisamos destruir alguém para provar que estamos certos.


No fim, quase ninguém perde uma guerra contra o outro.


Perde contra aquilo que se tornou.


Saí do bar.


A música ficou para trás.


As vozes ficaram para trás.


A sexta-feira continuou cheia.


Como sempre.


E pensei que talvez o Céu e o Inferno realmente funcionem em horário comercial.


Não precisam de julgamento final.


Não precisam de grandes sinais.


Às vezes basta olhar para quem está ao nosso lado.


Se ainda conseguimos amar sem cobrar pagamento, talvez por alguns minutos tenhamos encontrado o Céu.


Se precisamos odiar para continuar existindo, talvez já tenhamos chegado ao outro lugar.


E o pior de tudo:


não precisamos morrer para descobrir.


Basta continuar vivendo exatamente como estamos.