Coleção pessoal de pensador

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⁠Dificilmente o surpreendia o fato de que nos últimos tempos levava os outros tão pouco em conta; essa consideração tinha sido, antes, o seu orgulho.

⁠Certamente não entendiam mais suas palavras, embora para ele elas parecessem claras, mais claras que antes, talvez porque o ouvido havia se acostumado.

⁠Se não me contivesse, por causa dos meus pais, teria pedido demissão há muito tempo; teria me postado diante do chefe e dito o que penso do fundo do coração. Ele iria cair da sua banca! Também, é estranho o modo como toma assento nela e fala de cima para baixo com o funcionário – que além do mais precisa se aproximar bastante por causa da surdez do chefe.

⁠Que profissão cansativa eu escolhi. Entra dia, sai dia – viajando. A excitação comercial é muito maior que na própria sede da firma e além disso me é imposta essa canseira de viajar, a preocupação com a troca de trens, as refeições irregulares e ruins, um convívio humano que muda sempre, jamais perdura, nunca se torna caloroso. O diabo carregue tudo isso!

⁠O que o mundo exigia de gente pobre, eles cumpriam até o ponto extremo.

⁠Era ele um animal, já que a música o comovia tanto? Era como se lhe abrisse o caminho para o alimento almejado e desconhecido.

⁠Por que Gregor estava condenado a servir numa firma em que à mínima omissão se levantava logo a máxima suspeita?

⁠Como é que uma coisa assim pode acometer um homem? Ainda ontem à noite estava tudo bem comigo, meus pais sabem disso, ou melhor: já ontem à noite eu tive um pequeno prenúncio. Eles deviam ter notado isso em mim.

⁠Ao nosso amor mundano

Não creio que o universo tenha conspirado a nosso favor (nem contra)

Nem penso que a lua ou as estrelas tiveram algo com isso, que se anotaram em seu caderno algo não foi sobre nós

Não estava escrito previamente, a gente mesmo que foi escrevendo, borrando, escrevendo de novo, esquecendo, lembrando

Eu não estava pronto quando você chegou em minha vida, nem você estava pronto para mim

Não sei nem dizer se foi no melhor momento, a sua visita chegou quando minha casa e vida não estavam tão arrumadas como eu gostaria

Não acho que as pessoas que amamos antes eram “as pessoas erradas” e você sim, a única certa

Você vive encontrando outras pessoas certas pelo caminho, inclusive, mesmo que depois você mude de ideia

Assim falando pode parecer um pouco sem glamour, sem nada tão sacro, nosso amor mundano

Não sei se em outras vidas te amei, não sei éramos uma formiga e outra uma capivara

Só sei que nessa vida, nosso amor não é a luz no fim do túnel

É um vaga-lume no caminho

E isso é tanto que nenhuma transcendência nos faz inveja

Que um amor assim de pés descalços dança muito melhor no instante que na eternidade

⁠Coleciono não saberes, mas até estes eu perco, de maneira que, vez por outra, encontro um saberzinho, porque tem coisa que a gente só encontra quando deixa de procurar.

⁠Com a voz embargada, entre a tristeza e a alegria, eu digo sim, quero continuar, com todos os riscos, quero ver mais um dia abrir de novo e meu coração também.
Porque, se a vida se transforma o tempo todo, talvez o único jeito de manter-se minimamente saudável seja também continuar em movimento:
todo amor que posso experimentar é contingente.

⁠A escrita, portanto, não é neutra; nela também há as marcas de quem a faz e é feito por ela.

⁠Quando pensamos em algo novo, ou estranho, e inquietante, muitas vezes esquecemos que há determinadas sensações de estranhamento que não vêm de algo que é inédito, mas justamente do que nos é familiar de alguma forma ainda não bem elaborada. Nem tudo que é familiar é automaticamente agradável ou confortável.

⁠Aprendi diversos tipos e uma só regra: fazer pão é como se apaixonar. É preciso sentir os ingredientes. A cócega que a farinha provoca na palma da mão, o deslizar da manteiga, o fermento que é fino mas pesa um pouco e gruda nas linhas das mãos. Depois, dedicar atenção à sova, ao amassar vigoroso. O repouso da massa aproxima os cozinheiros dos escritores. Assim como um texto precisa descansar as palavras por um tempo antes de ser apreciado por olhos alheios, a massa pálida do pão precisa ficar só para se fazer magia. Estufada, com o dobro do tamanho e uma textura areada está quase pronta. Dependendo do forno, dá para fazer até dois tipos de milagre ao mesmo tempo.

⁠Nunca conheceu as estrelas quem ouviu a razão.

⁠Sem um abismo de vez em quando, graça alguma tem a vida, amor.

⁠Gosto de amor fácil. Que saiba: percepção requer envolvimento, juízo bom é pouco, assunto importa. Prefiro amor aparente. Em que feriados são inventados, atos falem delícias, exista perfeito acolhimento de convites ao silêncio. Quero amor sem ornatos. Com fomes primitivas, espantos ofertados de vez em quando, ventos deslinhavador de certezas. Espero amor visível. Capaz de transtornos em relógios, desperdiçar-se em fantasias, cair em precipícios, domesticar vendavais. No entanto, terei o desconhecido, inesperado, arrebatador amor que é teu. Sorte minha.

⁠Pessoas são galáxias e, perdão pelo óbvio ululante, galáxias têm estrelas. Acontece que também têm outros corpos celestes, matéria escura, buracos, planetas, poeira, gás cósmico.
Tudo coexistindo, de modo perfeitamente confuso, orgulhosamente caótico.
Tipo gente.
Que de vez em quando ri de nervoso, fala o que não pensou, silencia o que deveria ser dito, hiperventila de medo, vai embora porque não sabe existir quando a vida faz o que sabe fazer de melhor: gargalhar dos nossos planos cheios de certezas.

⁠Eu sofro quando ela sofre, e eu sou feliz quando ela é feliz. Eu não consigo distinguir onde eu termino e ela começa.

⁠Você quer saber qual é o meu problema? Você. Você é o meu problema. Minha vida era perfeita até eu te conhecer. Mas se tornou uma bagunça desde que você entrou na minha vida.