Coleção pessoal de pensador
Fogo Fátuo
Enquanto caminhávamos
parei um pouco dentro de mim
e me invadiu tua brusca mocidade.
Algo em ti pungiu-me:
a teu lado, as casas,
o ar, o amigo apodreciam e
tu, sozinho, ileso pairavas no momento.
VENDO
1. dores antigas
2. quase mortes
3. falsas epifanias
4. medo de escuro
5. medo do fim do amor
6. sorte no jogo
7. sustos
8. panturrilhas inchadas
9. ressacas
10. azias
11. unhas quebradas
12. cacos
COMPRO
1. tempo
2. malas feitas
3. remédio para dores que ainda não vieram
4. apagador de memórias ruins
5. virgindades perdidas
6. secador de lágrimas
7. sinal verde
8. paliativo para tristezas da alma
9. fotografia que se mexa
10. máquina de gravar sonhos
11. decodificador de pensamentos
12. hd de memória interna
adivinhações
I
coisas muito fáceis de perder e difíceis de ganhar
cabelo
sono
confiança
dinheiro
você
II
o peso da saudade?
uma pluma
uma bigorna
os 74 quilos do seu corpo
III
o que há por trás de um sorriso?
saliva
um verde no dente
razão escondida
hoje é sexta
a lembrança de você
IV
que cara teria o amor?
do cachorro quando me vê com a guia nas mãos
do surfista olhando o mar
das pintas nas mãos dadas do casal de velhinhos
da criança olhando o espetáculo circense
V
quanto tempo a gente leva para desapaixonar-se?
segundos
tempo de conhecer um novo amor
a eternidade
citação
não vou falar de nós
vou falar da última conversa que tive no elevador
bom dia
o tempo vai virar
imagina no verão
vou falar dos agapantos brancos e lilases
que só dão flor em novembro
e morrem rápido
vou falar da nova receita que inventei
com quinoa e passas
aprendi a gostar de passas
não largo mais no canto do prato
para você
vou falar de uma raça nova de cachorro que vi
atravessando a rua para não pisar na sua calçada
um pelo meio desgrenhado
seu cabelo depois do banho
vou falar da poesia que li no livro que ganhei de aniversário
pela idade que você não testemunhou
no jantar que você não foi
e falava sobre uma boa ideia para um poema
quase te achei uma boa ideia
você, uma frase que encontrei num caderno antigo
que achei que tivesse escrito
naqueles dias de tantas horas
e tantos beijos
mas era uma citação
que não era minha
não existem feridas
que não cicatrizem
mas a marca funda
de um olhar amargo
dói como a dor
de um bicho esmagado
Essa sensação
que a porta vai abrir
e que o seu abraço
derramado no meu
abraço derramado
vai molhar o piso
Estatística
Escrever poemas não vale
um corpo caído no asfalto.
Sinais de sangue no sapato.
Riso apagado no ato.
Escrever poemas não vale
a memória dos inimigos da
horda jogados na caldeira
dos silêncios.
Escrever poemas não vale
a noite incômoda e feroz
dos que dormem cobertos
de luas e estrelas.
Escrever poemas não vale
um único segundo de um
dia inteiro penando
injustiças…
Escrever poemas não vale
a primeira sílaba da palavra
morte – derradeira dormida
do corpo e da alma.
Não vale o poema. Não
vale o silêncio sob o manto
dormente das milícias.
Não vale a outra face
navalhadano tapa. Não
vale a pele do mapa.
Não vale a trapaça
da dor, ferida aberta
na couraça.
