Coleção pessoal de nildinha_freitas_1
RECOMEÇO
Eu cansei de escrever poemas e rimas falando de dor, de sofrimento e de tudo aquilo que me machuca, que fere.
Eu cansei, eu cansei, eu cansei de falar daquilo que dói.
Fui aprendendo que é preciso escrever e falar sobre a alegria da vida, sobre o silêncio que habita a minha casa neste momento e que também habita a minha mente, e sobre a possibilidade de pensar em tudo e, ao mesmo tempo, em nada.
Eu cansei de escrever sobre o que ficou para trás, para trás na minha estrada.
É melhor olhar o horizonte, escrever sobre o dia e sobre a hora exata que está em minhas mãos. Olhar para a frente, sabe? E dizer que eu nasci para falar das coisas que fazem vibrar de alegria o coração e das coisas que me fazem ser quem sou: poeta.
Nildinha Freitas
DESCONECTADA
Com o passar do tempo, eu entendi que tudo o que eu quero é ser totalmente desconectada.
Estou falando dessa conexão de redes, de pessoas, de gente que eu nem conheço, que não sabe quem eu sou, que nem entende que eu sou um mundo inteiro dentro de mim, às vezes cheio de nada, às vezes cheio de amor.
Está todo mundo dizendo: "Estou conectado". Está todo mundo vivendo em um mundo não real, distanciado.
Às vezes, eu só quero ficar sem me conectar, desconectada dessa coisa ilusória que criaram por aí dizendo que é vida.
E eu estou falando que não quero essa conexão que tanta gente diz que tem e na qual, até pouco tempo atrás, eu também acreditava. Uma conexão que parece aproximar, mas que está fazendo tanta gente esquecer de se conectar de verdade com outro alguém.
As pessoas falam tanto que estão o tempo todo juntas, mas, mesmo do mesmo lado, na cama, não se olham, não se beijam, não se tocam mais.
Se esquecem todos os dias. Esquecem que, na hora em que der uma pane nesse sistema todo, nesse sistema que doutrina, só quem ainda conectou o coração com o outro é que ficará de pé.
Essa é a nossa sina.
Nildinha Freitas
Junho
A verdade é que todo dia é recomeço, não importa se o ano está no fim ou só no começo.
Toda hora é hora de reconstruir, de redescobrir a rota, de olhar a estrada e contemplar o caminho que já percorreu. Olhar para trás e agradecer por ter atravessado.
Hoje é o dia primeiro, do mês que corta o ano ao meio, mas o que importa mesmo é saber que temos muito tempo pela frente, porque a estrada da felicidade a gente constrói diariamente.
Nildinha Freitas
Invisibilidade Relacional
Fala-se muito em caridade, em fazer o bem, não é? Pensa-se tanto em ser bondoso e ajudar, mas, às vezes, a maior caridade de que precisamos é a benevolência conosco, com a gente mesmo.
Muitas vezes as pessoas, por terem suas próprias histórias, não conseguem nos tratar como seres humanos, com o respeito que merecemos. Aos poucos, elas nos matam. Vão nos matando, e, uma hora, a gente vai olhar no espelho e ver que já morreu há tempo.
É o profundo impacto que o esgotamento emocional causa na nossa mente, gerado, principalmente, por essa invisibilidade relacional. É esse tornar-se invisível dentro das próprias relações, como se você simplesmente não tivesse voz.
Acredito, mas não queria acreditar, que, muitas vezes, aqueles para quem mais fazemos, a quem mais oferecemos e a quem fazemos o nosso maior bem são os que fazem de conta que não somos nada e que não existimos. Nos tornam invisíveis: sem voz, sem espaço, sem vez, sem escuta.
Não que a gente faça algo esperando em troca. Nunca fiz; pelo menos, acho que não. Mas o mínimo de que se precisa na vida é ser respeitado no lugar que se chama lar, que se chama casa, que se chama seu.
Nildinha Freitas
Muitas foram as lutas que lutei até aqui. Muitos foram os processos que tive que carregar sobre as minhas costas e os medos que, no silêncio, gritavam dentro da minha cabeça. Houve dias em que tudo parecia frio, vazio e solitário, mas em nenhum deles pensei em desistir, morrer ou partir. Sempre tive fé e acreditei, pois ninguém é o milagre que sou sem um propósito. O meu: aprender e evoluir!
Nildinha Freitas
Meu lugar
Sentei muitas vezes num lugar que não era meu.
Não porque eu quisesse roubar o lugar do outro;
é que aquele não era o meu lugar.
Sentei como quem senta apenas por sentar.
Plantei muitas vezes em terrenos que não dariam frutos,
mesmo sendo meus.
Não que eu tivesse plantado errado.
Plantei tudo certo.
É que a terra não era boa
e, por isso, não frutifiquei.
Mas juro, eu tentei.
— Nildinha Freitas
É que o amor se esconde nas curvas de sua alma nua e bela. É que o amor mora dentro dos seus olhos negros que parecem o céu de estrelas. É que o amor fala comigo por meio do seu sorriso, e eu vou sentindo você nos detalhes mais simples e amando cada dia mais.
Nildinha Freitas
Há quem pense que morrer é o fim; eu não penso assim!
A morte é uma porta de passagem que se abre para o mundo que escolhemos enquanto vivos estivemos sobre esta terra.
Morrer é apenas passar, passar desta para melhor, ou para pior, quem sabe?!
Nildinha Freitas
Amar é ser livre!
Ninguém disse que o amor é submissão, prisão ou um modo de se escravizar. Nunca foi dito isso. O amor é um modo de se libertar; é um jeito de ser livre em um mundo acorrentado por ideias prescritas, estabelecidas por uma sociedade que grita. O que ela grita é: "Eu não quero laços, eu não quero estar próximo, eu não quero me prender".
O amor não é uma corrente; ao contrário, é a chave que liberta, que abre e que nos deixa livres para podermos voar como um pássaro em dia de sol, que voa sem saber para onde vai, mas que já está indo.
Nildinha Freitas
Eu preciso escrever um poema
Eu preciso de um poema.
Eu preciso escrever um poema de versos brancos,
que não se preocupe com rimas.
Eu preciso escrever um poema
que fale de amor sem dizer “eu te amo”.
Eu preciso de um poema.
Eu preciso escrever um poema
que não tenha travas,
que não tenha nada que me feche os olhos.
Eu preciso escrever um poema
que faça com que você enxergue
e que eu também possa enxergar.
E que eu possa ver o amor
nas coisas simples e banais do dia a dia.
Eu preciso escrever um poema
que não rime com nada,
só com alegria.
— Nildinha Freitas
Todos os dias aprendo a recomeçar! O passado é página que não dá para refazer; com ele, é só aprender!
O agora, esse tempo que tenho em minhas mãos, com ele é só construção. E o futuro, esse que vislumbro à minha frente, para ele vou melhorar e fazer diferente.
Nildinha Freitas
Durante muito tempo em minha vida,
eu fui grito,
mas aprendi a usar o não dito,
o não falar,
o não precisar gritar.
Eu aprendi que não dizer
fala bem mais
que uma, duas, três palavras e meia, ditas ou escritas.
O silêncio é a extensão da fala,
e não perde nada quem também cala.
Nildinha Freitas
Nunca estive preparada para partidas ou despedidas inesperadas. Ninguém me ensinou que alguém pode ir embora antes do fim, ou decretar um fim no meio da estrada. Ninguém nunca me falou nada.
Despedidas e separações são cortes profundos na alma, e eu nunca estarei preparada. Haverá lágrimas e haverá saudade, porque tudo o que sou é amor ao eterno. Mas finais felizes nem sempre serão um 'para sempre'.
Rótulos.
Desde que me reconheço como ser humano, fui rotulada por pessoas que sempre quiseram me pressionar a me calar, a me deixar em um lugar que nunca foi e nem será meu. Recebi o rótulo de complicada demais, de difícil de lidar; daquela que fala mais do que deveria e que se cala quando poderia falar.
Hoje, sou grata por todas as vezes que me rotularam, que tentaram me fazer desistir da minha autenticidade humana. Só o fizeram porque temiam a mulher que sei que sou! Aprendi a respeitar todo mundo, mas não aceito o desrespeito de ninguém; este é o motivo de tantos rótulos pairando sobre mim.
Escolha amar e viver coisas boas. Continue sendo feliz e se amando neste mundo cheio de fantasias temporais.
Nildinha Freitas
Quem não lê acaba sendo engolido pela névoa do desconhecimento, engolido e lido pelos que leem o mundo. A leitura deve ser de prazer e levar à cura. Mas ninguém lê só palavras. É necessário ler as pessoas sem julgar o final da história antes do fim.
Nildinha Freitas
Inteiramente Inteira
Essa sou eu:
uma confusão o tempo todo
dentro de mim mesma!
Certezas? Quase nenhuma.
Às vezes sã,
às vezes insana.
Essa sou eu: menina, mulher!
Aquela que cala,
aquela que canta,
aquela que grita,
mas que ninguém ouve.
Aquela que escuta, de vez em quando,
a voz do próprio coração,
e que encanta quase todo mundo,
ou não.
Essa sou eu:
meio século de histórias contadas e contidas,
de sonhos regados a vinho,
poesias, música,
arte de rua e de amores.
Fui podada, eu bem sei!
Impedida também fui,
mas hoje eu sou livre, livre, livre
feito galho saindo pelos lados da árvore
fincada no chão,
cujas raízes entraram no inferno adentro
só para poder alcançar o meu céu.
Essa sou eu,
razão batendo o tempo todo na minha cara
e palpitando um coração que ama sem medo.
Essa sou eu,
um baú de mil segredos,
com milhares de histórias para contar.
Histórias que nem lembro.
Vou escrevendo, escrevendo, escrevendo e,
de vez em quando,
eu canto, eu canto.
Essa sou eu:
uma mulher inteiramente inteira
e despida.
Nildinha Freitas
De tanto ouvir que eu não conseguiria, quase acreditei; mas, como gosto de teimar, segui minha teimosia.
Nildinha Freitas
