Coleção pessoal de miguel_chiyo_tomas
Carta II — O Calabouço: O mergulho no abismo
Após aquele grande evento no tribunal da desgraça, eis que, por decisão comum — dos lordes e dos plebeus — lançaram-me num calabouço onde a fome era silêncio; a sede, solidão; o sorriso, miséria; o sonho, pesadelo; e a moldura, um vazio.
Ali, a luz do sol não encontrava lugar para me oferecer claridade. Tudo era escuro naquele espaço, sem qualquer iluminação.
Crânios espalhados por todos os cantos da caverna pareciam dialogar com as campas, e nada se ouvia senão o sussurro dos espíritos que queriam roubar-me a alma. Um monte de ossos amontoados formava uma grande muralha, cercando o calabouço para que nenhum prisioneiro pudesse escapar.
Alimentava-me de ratos, pois negavam-me comida; e não tinha como nem onde cozê-los, porque não havia fogo nem cozinha.
A escuridão causava-me frio; a terra era feita de pedras com pontas afiadas, tão bruscas que partiam-me os ossos. Não conseguia dormir confortavelmente. A sede enxugava a saliva das minhas glândulas; a minha garganta tornara-se seca como o deserto. A língua já não conseguia provar o paladar, como se tivesse perdido tal faculdade.
E, se subsisti por tanto tempo, não foi por coragem, mas pela necessidade de fazer-vos chegar uma carta completa antes do meu último suspiro.
As minhas pernas paralisaram; eu não podia mover-me. Os meus olhos nada conseguiam enxergar senão o desespero que se espalhava na escuridão do tédio. Os meus ouvidos enclausuraram-se no grito do medo e na surdez do tempo.
As palavras desapareceram da minha boca como memórias de quem sofre de amnésia.
Abandonaram-me ali, e não lhes interessava a dimensão do meu sofrimento. No intuito de sobreviver, ingeria a minha própria urina para manter-me vivo. Pensei tratar-se de um pesadelo, mas nem sequer pude fingir delírio.
Cheguei a devorar os dedos das minhas próprias mãos para redigir-vos esta carta com sangue, pois não havia caneta tampouco tinta que eu pudesse usar.
Às vezes, a sociedade censura-nos por pensarmos e agirmos de modo diferente do que ela espera. E, na ânsia de garantir que todos cumpram o que dita, aqueles que a desafiam acabam por tornar-se vítimas.
É preciso morrer para voltar a viver; desfazer-se do que fomos para poder renascer. Não basta ser corajoso: para permanecer firme nas próprias ideologias, crenças e convicções, é preciso estar disposto a dar a própria vida.
Ali percebi que o pior cárcere não é o calabouço, mas a consciência de viver entre homens injustos.
Talvez ainda possamos construir um mundo em que a todos seja permitido falar sem sofrer perseguições ou censuras. Mas, enquanto os homens não aprenderem a conviver com pensamentos diferentes, a paz permanecerá impossível.
"Todo ser humano nasce virgem, pois a vida é a nossa virgindade, quando a perdemos é eternamente. Não volta mais. Não há segunda chance. Não há outra oportunidade."
PERGUNTAS — PARTE 1
Quem...
1. Quem melhor compreenderia a ilusão do amor senão aquele que foi consumido pela dor e descobriu que amar é apenas vestir a carência com poesia?
2. Quem reconheceria a falsidade da paz senão aquele que sentiu a guerra pulsar nos ossos e percebeu que o conflito é a única constante da existência?
3. Quem enxergaria o fracasso da amizade senão aquele que atravessou a desilusão e concluiu que todo laço é interesse disfarçado de afeto?
4. Quem definiria a confiança senão aquele que sentiu a lâmina da traição cravada pelas mesmas mãos que antes o acolhiam?
5. Quem compreenderia o absurdo da companhia senão aquele que encontrou na solidão a forma mais lúcida de existir?
6. Quem entenderia o peso do desejo senão aquele que, ao renunciar, percebeu que a vontade é um ciclo inútil que se alimenta de si mesmo?
7. Quem interpretaria a verdade senão aquele que viveu da mentira e descobriu que o silêncio vale mais do que qualquer discurso?
8. Quem conheceria a fome senão aquele que foi ignorado até pelo pão mais simples?
9. Quem compreenderia o racismo senão aquele que o praticou e viu, no próprio ódio, o reflexo cru da condição humana?
CARTA I: A Condenação
Eis que a multidão estava tão agitada como as ondas do mar, e exclamavam — homens e mulheres, jovens e idosos — com tom azedo:
— Heeee! Heeee! Matem-no! Matem-no!
— Deem-no de comida aos cães!
— Rebelde! Rebelde! Rebelde! Rebelde!
Então condenaram-me por agir indiferente à multidão. Apedrejavam-me antes mesmo que eu lhes revelasse os seus pecados. Queriam silenciar-me antes que o karma e a justiça testemunhassem por mim.
Houve alguns que se ofereciam como escravos às mãos que tiranizavam a nação; outros reduziam-se a servos daqueles que dissipavam os poucos fragmentos de dignidade ainda existentes entre nós. Por recusar servi-los e por negar-me a participar das suas práticas imundas, sentiram-se confrontados pela minha posição.
Antes que me lançassem à masmorra, arrastaram-me com cordas diante de nomes pomposos. E, no cemitério da minha esperança, apenas tumbas se formavam.
As crianças riam; os velhos zombavam de mim. E os meus próximos… esqueceram que eu existia. Diante deles fui visto como vento: invisível, intangível. Aliás, o vento ainda é perceptível; infelizmente, para mim, ninguém me percebia. A minha presença, para eles, reduzia-se a números, diminuindo pouco a pouco, até que não restasse unidade alguma.
Fui abandonado e entregue pelos meus próprios amigos, vizinhos e parentes, que também vociferavam pela minha sentença ao lado da multidão:
— Condenai-o! Condenai-o!
— Enforquem-no! Enforquem-no!
— Joguem-no ao calabouço! Joguem-no ao calabouço!
Uns até debochavam, dizendo:
— Não és tu o herói? Então por que não ages contra nós? Onde está a tua coragem?
E soltavam gargalhadas em tom agudo:
Hahahahaha! Hahahahaha! Hahahahaha!
Outros cuspiam-me no rosto, enquanto os opressores falavam:
— Não sabes tu que não deves ir contra as leis da sociedade?
Então respondi-lhes:
— De que servem as leis se não visam proteger os fracos dos poderosos? De qualquer maneira, este julgamento não busca a verdade; apenas ratifica a culpa de quem é vítima.
Eles insistiram:
— Todos estamos subordinados às normas da sociedade. O que te dá o direito de desobedecê-las?
E eu respondi:
— Seja qual for a resposta — satisfatória ou não — o resultado será o mesmo: condenação. A lei está ao vosso serviço, não vós ao serviço dela.
Novamente perguntaram:
— Quem pode estar acima das normas? Por acaso não são elas que nos orientam?
Então respondi-lhes:
— As normas não podem estar acima da vida. Somos nós que as criamos; nunca elas que nos criam. Somos nós que as instituímos para que nos orientem.
Furiosos com a minha resposta, disseram:
— Desgraçado! Como te atreves a desrespeitar-nos? Já que não queres submeter-te, far-te-emos arrepender deste dia.
A multidão, cega e incauta de esclarecimento, apoiava veementemente os opressores. Não conseguiam distinguir o certo do errado; o puro do impuro; o joio do trigo; a tartaruga do cágado; o leopardo do guepardo.
E eu olhava para eles como um bando de jumentos sem direção. Então perguntei-lhes:
— Se a lei não condenasse os mais vulneráveis,
vós temeríeis as tropas que vos deviam proteger?
Não ousaríeis confrontar o que vos oprime?
Não teríeis o direito de exigir que vos tratassem com justiça?
Não protestaríeis contra aqueles que vos governam?
Os lordes, temendo que tais perguntas despertassem o povo e que, conscientes da verdade, pudessem rebelar-se, imediatamente ordenaram que me conduzissem à prisão de Kakanda, para que, dentro de dois dias, se realizasse o meu julgamento.
Durante esse intervalo, não comi nem bebi.
Dois dias depois daquela agitação diante dos lordes, organizaram um banquete para celebrar o meu julgamento e rir-se do meu atrevimento. Estavam presentes homens de todas as classes — nobres e plebeus — reunidos para assistir ao meu juízo.
"E, enquanto brindavam à minha sentença, eu era conduzido às trevas do calabouço."
In Cartas de Um Condenado. ✍️
Poesia Cantada — Corrupção do Gênero Humano
Desde o nomadismo até o sedentarismo //
O homem foi escravo do seu próprio fetichismo //
Mudou de paisagem, mas não de abismo //
Saiu da caverna, mas levou consigo o cinismo //
Criou o pauperismo, progressismo, vários ismos //
Cada nova doutrina só mudou o mecanismo //
Mudaram os nomes, não mudou o organismo //
Toda civilização foi só cadáver com verniz fino //
Mais tarde as “cracias” dominaram o expansionismo //
E cada império chamou saque de heroísmo //
Cada rei chamou massacre de patriotismo //
Cada Estado chamou medo de civismo //
Ergueu governos frágeis sob despotismo //
Povos ajoelhados sob autoritarismo //
Veio a monarquia, pariu o imperialismo //
E o trono foi apenas a cadeira do egoísmo //
Surgiram preconceitos, conceberam tribalismo //
Estereótipos raciais deram forma ao racismo //
O Holocausto só mostrou com requinte e formalismo //
Que o homem é laboratório do próprio sadismo //
— Miguel Chiyo Tomás
" O tempo pode afetar as relações e fazer com que as pessoas percam o valor ou a admiração que tinham umas pelas outras. É como se a convivência prolongada pudesse desgastar a apreciação mútua, e as pessoas acabassem se afastando como a correnteza de um rio."
"Afinal, com a convivência pelo tempo, há pessoas que perdem o valor que antes tinham e, não obstante, vão-se como a correnteza."
"Um professor que se encanta com a falha dos seus colegas tem menos neurónios para ensinar uma turma de mentes que funcionam."
"Cartas de Um Condenado"
Prólogo — O Condenado fala pela primeira vez
Condenaram-me apesar da minha inocência; e, na inópia dos incorruptíveis, os inescrupulosos vangloriavam-se de sua afluência. Tiraram-me a liberdade, indiferentes à verdade. Fustigaram-me diante da multidão que suplicava a minha execução. Lançaram-me ao calabouço e, sob a sombra do meu silêncio, despiram-me da minha intrepidez, enquanto eu escrevia o meu último suspiro numa carta.
Atormentavam-me o espírito com correntes tenebrosas; ataram-me à desgraça da minha vergonha e entoaram canções horrorosas. Foram eles que me incriminaram por pura cobiça.
Houve quem recuasse; poucos, porém, ousaram agir para que eu saísse em liberdade.
Escrevo-vos com a última gota do meu fôlego, com o resto do suor da força que ainda me sobra; sem esperança de voltar a aquecer-me ao sol, sem certeza de tornar a ver o mar.
Escrevo com medo de deixar de respirar e de que, com o tempo, os vossos rostos se apaguem da minha memória, e eu já não consiga recordá-los.
E, se alguém vos perguntar de quem é esta carta, respondei-lhes:
é de um Condenado.
Cujo paradeiro hoje é desconhecido; cujo espírito vagueia, importunado pelo grito dos ímpios; cuja alma procura descanso na sofrência dos justos. Não procurem o resto da minha sobrevivência: os ratos já o roeram, as baratas devoraram os meus olhos; os vermes encheram-se nas minhas fossas nasais, e os insetos consumiram as minhas entranhas.
Se vos escrevo, não é por tendência, mas por agonia; se penso, é por sobrevivência; se me movo, é por sacrifício. Redijo para que, caso alguém encontre esta carta, conheça quem foi o homem que habitou esta masmorra e por que foi trazido para cá.
Quando o barulho dos tolos não consegue discernir o ritmo da dança, tendem a perseguir a música dos sábios.
Não houve quem me visitasse, quem chorasse, quem perguntasse por mim ou quem desejasse ver-me pela última vez. Como a relva da terra fui pisado; esmagaram-me como a uma formiga e recusaram-me o direito ao oxigénio. Roubaram-me o direito à liberdade e entregaram-me, indecorosamente, a uma morte apoquente.
