Carta V — O Silêncio de Deus:... Miguel Chiyo Tomás

Carta V — O Silêncio de Deus:
Confronto com o divino e o mal


Na moldura do vazio pintei o nome de Deus.


Chamei por Ele, e não me respondeu. Gritei desesperadamente, como quem está num avião em queda: clamei, clamei, clamei… mas a resposta foi silêncio total.


Deus é cúmplice ou redentor? Foi esta a questão que me fiz.


Pois quem assiste à maldade e a tolera pratica-a indiretamente da mesma maneira.


Cada palavra que eu exprimia transformava-se em julgamento, como se tudo o que suplicasse fosse motivo de pura rejeição. Onde estás, Senhor? Dez anos já se passaram, mas a tua presença continua indetectável e imperceptível. Por que permites que os reis desta terra prevaleçam sobre os justos? Que provas de amor precisas para que o mal se torne defunto?


Somos apenas carne; a qualquer momento iremos apodrecer. E, como uma flor murcha, também haveremos de perecer.


Os que te confrontam perecem; mas por que os reis da terra até hoje permanecem?
Houve silêncio total no céu, como se nele já não habitasse ninguém. E eu, na angústia do meu pavor, caí em tristeza. A escuridão daquele lugar parecia um eclipse.

Enterrei-me nas tumbas do meu desespero. Aflito e com medo, destruí os pedaços de esperança que ainda preservava comigo. Se ainda restassem lágrimas nos meus olhos, nada me consolaria mais do que derramá-las por desgosto. Em situações em que Deus é necessário, há ausência, há silêncio. Nos momentos menos tristes da vida, confirma-se a sua presença.


"Afinal, quem é o carrasco: aquele que provoca o sofrimento ou aquele que o observa e nada faz?"


"Pois onde não há luz, não há sombra."


Não é o crime que existe por causa da lei; caso contrário, já teria desaparecido depois da criação dela.


Ao contrário: "só existe lei porque existe crime, sendo este anterior à lei."


De igual modo, parece que só existe o mal porque existe Deus — porque Deus é anterior ao mal. Eles não coexistem da mesma maneira. O conflito espiritual sempre pressupôs antagonismos:


"O bem (a luz) e o mal (as trevas). E nós herdámo-los de quem nos criou."


Todavia, por que temos de pagar por tudo o que nos foi entregue de mal? Por que os justos sofrem nas mãos dos iníquos? Quem sustenta a maldade dentro de nós: aquele que nos criou ou aquele que nos tenta dominar?


E mesmo assim não houve respostas.


O céu assombrou-se com as minhas perguntas e retirou-se da minha face. Deus abandonou-me no vale da morte, enquanto anjos entoavam salmos de glória. Chorei, chorei, chorei… mas não caíram lágrimas, tampouco sangue. Já se haviam esgotado.


"E, enquanto rogava a Deus por uma saída, traçava-se o meu destino para a morte."