Coleção pessoal de marinhoguzman
A fotografia é como a vida da gente. Tem que ser boa de ver, boa de viver, boa para contar e mostrar para todo mundo.
Podem existir diferenças entre conformistas e conformados, mas o que se nota hoje em dia são conformistas conformados com a situação em que se encontram.
Mercê da impossibilidade total ou parcial, e da grande dificuldade em superar obstáculos, estamos todos deixando como está, para ver como é que fica.
E por falar em conformismo conformado, não há como comparar o vigor da juventude com a debilidade da velhice, ainda que muitos queiram colocar na balança a experiência.
A defesa intransigente e o otimismo irreal em avaliar certas vantagens da experiência, tornam uns velhos muito chatos.
Nem sempre quem desiste sai perdendo…
Os politicamente corretos que me perdoem mas cansei de nadar contra a maré, de ouvir e falar de corrupção, de defender a minha praia, o meu bairro e a minha cidade.
Perdi todas as lutas em que me meti, inclusive no difícil mister de participar da administração do condomínio onde vivi. Menos por parte dos maus elementos, mais pela falta de união dos bons, aqueles que conhecem as regras mas temem impô-las, ou lavam as mãos como Pilatos.
Virei a página! Não me convidem para associações, reuniões nem conselhos.
Não peçam a minha opinião e nem venham colocar as suas queixas como problemas que também seriam meus.
Tive que me virar sozinho mudando de endereços, colocando janelas à prova de som, esquecendo dos cachorros que latem dia e noite e do porteiro mal educado que bebe em serviço.
A lista é grande, cansativa e nem merece ser lembrada.
Agora eu só quero ser feliz!
Pancreatite I
Nos primeiros dias de 1.992 sofri uma crise aguda de pancreatite desencadeada pela bebedeira na noite do Ano Novo.
Fazia mais de dez anos que eu bebia muito mais do que o socialmente aceito e se meus amigos perdoavam os meus vexames, o pâncreas não perdoou e se incumbiu de me dar um grande susto com uma crise hemorrágica necrosante, que me enviou a uma estada forçada de setenta e cinco dias no Hospital Albert Einstein em São Paulo.
Minha salvação foi mais que perícia dos médicos, segundo eles mesmos, foi um milagre operado pela providência, que muitos acreditaram Divina.
O aviso serviu e passei vinte e cinco anos e sete meses sem colocar uma gota de álcool na boca o que me gerou uma economia de muitos milhares de reais.
No limiar dos meus setenta anos e com tempo suficiente para repensar a vida e muito mais, resolvi que era hora de voltar a beber, agora socialmente, como vejo uns poucos amigos dos que me restaram praticarem.
Pensada e deliberadamente fui até a geladeira e peguei na prateleira das cervejas da Amanda uma latinha.
Munido de um copo, despejei a metade e vim para a frente do computador, pronto para uma das mais desafiantes experiências dos últimos vinte e cinco anos.
De gole em gole saboreei todo o copo e fiquei surpreso com a similitude com a minha Brahma sem álcool e nenhum resquício de mal estar ou tontura.
Chamei a Amanda, recém chegada em casa e contei a ela minha aventura. Mais do que depressa ela falou:- mas você em certeza que pegou a cerveja com álcool? Minha única certeza é jamais confiar nas minhas certezas e fui ver o resto da cerveja na geladeira e era 100%...sem álcool!
Não fiquei por aí….aguarde o final, ou seria, o recomeço da minha história com o álcool.
O dia a dia...mais um dia...
Na nossa idade temos o privilegio de fazer o que queremos e não fazer o que não podemos.
Eu sei lá o que eu quero...
A frase pode ser boa ou representar grande parcela dos indivíduos.
Mas não é o meu caso pois eu sei o que não quero.
Dizem que a idade trás sabedoria e humildade.
Mas também pode ser a percepção de que se não conseguimos todos os resultados lutando muito, não conseguiremos agora que não há tanta força,tanto tempo, nem tanta razão.
Então sabendo o que não quero, sabendo o que possivelmente não vou conseguir, fica claro que eu sei o que eu quero.
Quero descobrir motivos para continuar não mais por ideais nem ideias,mas para ter, como num livro, ou numa novela, um final que não precisa agradar os espectadores mas é o final desejado pelo autor.
O texto não exaure a frase mas dá uma resposta rápida, como devem ser todas as respostas quando se sabe do tema.
A gente pode não conseguir o que quer, mas deve aproveitar o que tem.
Aos que se perguntam como podemos ter tantos canalhas, ladrões e corruptos na política eu respondo que numa democracia, os representantes têm a cara da maioria que os elegeu.
A punição pode ajudar, mas não é suficiente para transformar uma pessoa ruim, porque a maldade está muitas vezes enraizada no sofrimento que não podemos ver a partir do exterior.
Para transformar o mal, devemos curar o sofrimento, e isso só é possível com a compreensão e atingindo o coração.
Da fábula Histoire de le Roi Malhereux.
Pagando bem, que mal tem?
O problema é que está faltando grana para pagar bem.
Tem gente já usando as frases:
Pagando que mal tem?
Faz no cartão?
Divide em três?
Tem desconto para pagar em dinheiro?
Aceita ticket?
Não sei em que mundo vivem os otimistas.
Mas não é no das notícias nos jornais, revistas e televisões nem nos índices de criminalidade.
Certamente não conversam com os jovens com os quais eu converso, de 14 a 25 anos, que deixaram a escola sem saber de fato ler, escrever, calcular e raciocinar, estão sem emprego, a mercê da criminalidade ou bandeando para ela.
Meus amigos otimistas são da classe média, empregados ou aposentados e com casa própria.
Meus amigos realistas estão mudos, calados e encalacrados, esperando dias melhores.
Antigamente era um por todos e todos por um, agora, salve-se quem puder.
Destino.
Tenho mais fotos antigas do que qualquer um que eu conheça.
Ou quem eu conheço não fica por aí falando e mostrando fotos antigas….sei lá….
De vez em quando escolho uma das caixas no armário e dou uma olhada.
Já vi tantas vezes essas fotos, mas algumas vezes ainda passa um filminho rápido.
O que faria naquela gaiola uma jaguatirica fotografada em viagem à Bahia?
Aliás, viagem que terminou em Belo Horizonte por desentendimento com os parceiros.
A foto da jaguatirica remete a um filme de meio século, onde eu com 18 anos pensava descobrir o Brasil acabei descobrindo que parceiros não são amigos e que muitas viagens acabam antes que a gente chegue ao destino.
É fácil escrever difícil.
Sou viciado em escrever e como qualquer vício isso não pode ser coisa boa.
Pensar que posso parar quando quiser faz parte da mentira.
Meu problema deve ser a leitura. Basta que eu leia qualquer coisa e isso inclui notícia ruim, o que mais tem, me dá uma vontade louca de escrever.
Pode ser em relação ao fato, pode ser uma palavra qualquer do texto, ou até da ligação do fato com uma lembrança que só eu consigo a tal da ligação.
Pá! Aqui estou eu catando as letras no meio de tantas teclas.
E se as palavras vãos e juntando com facilidade nem sempre o resultado final é coerente ou o que eu desejaria.
Mas da escrita para a leitura, não consigo ler mais que algumas linhas quando quem escreve usa palavras rebuscadas, daquelas que você até sabe que existem mas não tem certeza do se trata e assim como eu não gosto imagino que a maioria prefere ler um texto leve, com palavras fáceis, poucas e boas ideias, nada de querer explicar muito um monte de coisas.
É fácil escrever difícil, difícil é escrever fácil.
Milagres não existem para serem entendidos, a fé serve para suportar as dúvidas e a esperança para garantir o otimismo.
Nenhuma opinião vale mais do que a outra quando o assunto depende exclusivamente da sorte e antes que o resultado seja conhecido.
