Coleção pessoal de LEandRO_ALissON

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AUTOCONHECIMENTO E EDUCAÇÃO

Todos aqui já tiveram acessos de tristeza ou desespero de origem desconhecida. Todo mundo já teve isso. Ora, se existe algo na tua própria alma que você não sabe de onde veio, existe, portanto, um conteúdo que é estranho a você. Ou seja, a tua alma é tão conhecida quanto uma cidade onde você acaba de desembarcar pela primeira vez. Você está perdido dentro de si mesmo. A tua alma é o instrumento pelo qual você conhece o mundo, mas se você a desconhece dessa maneira, quantos metros você espera avançar no caminho do conhecimento antes de ter limpado as lentes com as quais você vai olhar para este mundo? Uma certa limpidez de alma, um certo conhecimento do indivíduo por si mesmo, de modo que ele saiba de onde vêm suas emoções, de onde vêm seus desejos e o que o compõe efetivamente por dentro, são condições sine qua non da verdadeira educação. Não existe educação sem o efetivo autoconhecimento. Mas se num curso universitário de filosofia você levantar esse problema, dirão: 'Se você quer autoconhecimento que vá procurar um padre ou um psicanalista, pois nós estamos aqui para estudar filosofia'. Mas que raio de filosofia é essa que não se preocupa em saber se a alma do sujeito está habilitada para ela? Que raio de ensino é esse que não cumpre a condição da maturidade que Aristóteles e Platão colocam como condição básica para o estudo da filosofia? O que eu quero dizer é que ao longo dos tempos a noção de educação foi sendo perdida. Ela é conservada hoje apenas em núcleos muito limitados, em grupos de pessoas que sabem e continuam cultivando o seu verdadeiro sentido. Mas o ensino de massas, público e privado, não está dando às pessoas senão um grosseiro simulacro de educação.

"O que o mundo hoje espera de um católico é que ele respeite todas as religiões, exceto a sua própria."

Toda economia, toda sociedade, é um acordo entre aptos e ineptos. Os primeiros agregam valor. Os segundos os apoiam em troca do usufruto de parte do valor agregado.

No Brasil, os ineptos não apenas a todos governam como se dão a culpar os aptos porque a coisa toda não funciona.

"Será que a discordância [por exemplo na filosofia e na ciência] serve algum propósito construtivo? É evidente que pode e deve fazê-lo. Pois dá a cada participante de uma controvérsia um incentivo para alargar e aprofundar o conhecimento ao procurar razões convincentes. Lidar com a discordância com base em razões é claramente um estímulo à investigação e evita que nos rendamos demasiado facilmente à nossa inclinação inicial para identificar as nossas opções com a verdade incontestável das coisas."

"A vocação é sempre o resultado de um sacrifício; e a filosófica nasce do sacrifício mais implacável, porque não se vê. O sacrifício está oculto no filósofo, enquanto se desdobra em toda a sua beleza no sacerdote, no herói, no poeta, no homem de estado, no artista; sacrifício que, não sendo visível, não é entendido pelos demais, que, em ocasiões facilmente recordáveis, acabam com a própria vida do filósofo, pois perceber o resultado do sacrifício sem ter visto o sacrifício é um espetáculo dificilmente suportável para os homens e, mesmo contando com a maior generosidade, sempre surge contra o filósofo esse pensamento: 'se tivesse sido outra coisa!'. Ortega mostra a pureza de sua vocação filosófica porque, tendo podido ser tantas coisas, foi uma só. Mas todo o resto que pôde ser permanecerá vivo e reconhecível."

O discurso ideológico é, no fundo, nada mais que retórica – o tipo de pensamento que não é voltado para o conhecimento, mas para a ação imediata. A persuasão retórica é absolutamente indispensável à ação prática, na esfera privada como na vida pública. Querer eliminá-la é tão utópico – e tão ideológico – quanto querer suprimir o mercado.

O mal não está na mera existência do pensamento ideológico, nem mesmo na sua onipresença na vida social. O mal aparece quando as esferas de atividade que deveriam ser orientadas por formas de pensamento mais exigentes e mais voltadas à descoberta da verdade se deixam infectar de ideologismo, como acontece, no Brasil, com a quase totalidade do que se produz sob o rótulo de 'ciências sociais'.

O Brasil já não é um circo; já não é uma simples zorra e esculhambação à larga. O Brasil é o bordel do Belzebu, um continente-palafita a se equilibrar com malabarismos de macaco sobre o pântano escuro da sem-noção cósmica.

“Não sabemos até que ponto a palavra pode dar conta dos mistérios que nos cercam, presentes não só na fé mas na vida e na arte. Como poderíamos literalmente descrevê-los sem diminuí-los, em vez de concebê-los sob maior claridade? Por isso devemos fazer todo o possível para evitar que a palavra, em sua literalidade, deixe de ser instrumento de revelação, e se reduza a um indicador imediatista da realidade, como se a conhecêssemos por inteiro, e os seus mistérios não se constituíssem em alimentos incorporados a nós mesmos e convertidos em nossa verdadeira identidade.”

A verdade JAMAIS coincide com o discurso pronto de um partido, facção ou moda. Mesmo quando este tem alguma razão, é só em partes cuidadosamente selecionadas da realidade. Coerência ideológica é um compromisso de não acertar nunca.

Um mundo coerente só existe aos olhos de Deus, porque Ele sabe a solução de todas as contradições. Para os seres humanos, buscar a verdade é aceitar contradições insolúveis.

A franqueza genuína não está na minúcia dos detalhes escandalosos, mas no julgamento equilibrado e justo que um homem faz de si mesmo no conjunto, porque daí nasce o julgamento equilibrado e justo que fará dos seus semelhantes.

Quando todos os argumentos de um lado e do outro me parecem igualmente persuasivos, há duas conclusões possíveis: (a) a solução do problema escapa à minha compreensão; (b) ela não existe, ao menos por enquanto. Isto basta para acalmar ao menos provisoriamente a minha inquietação, por dois motivos: (a) Por que raios deveria eu saber a solução de todos os problemas? (b) Por que raios todos os problemas deveriam ter alguma solução?

"'influência dos astros' é um fenômeno objetivo que existe ou não existe. 'Astrologia' é um conjunto inabarcável de idéias, práticas, mitos, especulações, fantasias, tradições culturais, intuições, tudo misturado numa mixórdia indeslindável que NINGUÉM poderá jamais reduzir a uma teoria unificada passível de ser discutida. Por que sei isso? Porque estudei os dois assuntos e sei que são dois — coisa que os palpiteiros 'científicos' não percebem nem mesmo em sonhos.

Uma coisa que me deslumbra diariamente é ver o número de pessoas que acreditam possuir a solução completa e definitiva de problemas que a mim me parecem insolúveis. Quase todas elas se sentem confiantes e tranqüilas pela simples razão de que, deslumbradas com a solução, não chegaram a perceber que há um problema.

A questão da influência dos astros sobre a vida humana é um caso típico. Às vezes parece que existe, às vezes parece que não. Li não menos de trezentos livros a respeito, e até hoje não cheguei a qualquer conclusão que seja. O restante da população brasileira já chegou a conclusões definitivas sem ter lido nenhum.

Em todos os casos, mais vale uma ignorância consciente do que um falso conhecimento. 'Sei que não sei' é uma certeza tão valiosa quanto 'Sei que sei'.

A Bíblia diz para você buscar Deus e ao mesmo tempo recomenda que não gaste cérebro com problemas que estão acima da sua capacidade. Nenhum ser humano escapará da tensão entre esses dois pólos.

Alguma vez na vida você já experimentou argumentar de maneira séria, coerente, culta e responsável CONTRA alguma das suas crenças mais arraigadas? Se nunca fez isso, então não saltou ainda da esfera das escolhas afetivas para a da responsabilidade intelectual. Não estou recomendando que faça esse exercício, que só deve ser praticado sob a orientação de um professor habilitado e honesto e que, by the way, nem passei ainda aos meus alunos mais velhos do COF. Só estou dizendo que, sem uma longa prática da contradição, você não entende nem mesmo as suas próprias idéias, as quais são, então, apenas crenças habituais. Ninguém deveria, é claro, obter um diploma de filosofia ou de ciências sem ter passado por essa experiência. Nada é mais emburrecedor do que certezas científicas não dialetizadas.

Se você é burro, não desanime. Todos nascemos burros, inclusive os gênios. Só o que não pode é dizer, como um amigo do Pedro aos dez anos de idade:
— Sou burro com muito orgulho.

Pela primeira vez examinei a mim mesmo com o propósito seriamente prático. E ali encontrei o que me assustou: um bestiário de luxúrias, um hospício de ambições, um canteiro de medos, um harém de ódios mimados.

Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens. (1 Coríntios 15:19)