Coleção pessoal de demetriosena
CARÁTER
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Não há caráter à prova de ociosidade. Ociosos permanentes são ou serão mau caráter.
DOCUMENTO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Até hoje não vi
seu documento.
Não sei se prefere
a noite, o dia
ou o momento.
Nem sei se converso,
se me calo,
pois não sei se você
gosta mais da fala
ou do...
Saberei aceitá-lo,
dar a minha amizade
mais profunda.
Mas irrompa essa porta;
mostre sua verdade...
sua cara...
ou sua...
VOCÊS UM
Para Rodrigo, Alice Lobo e elas
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Tudo vezes dois
pra vocês um:
emoção e certeza
do agora e depois,
da vida em comum...
Tudo vejam duplicado,
como quem bebeu;
e desta vez
"vós bebês"
do melhor vinho;
mais doce rum...
E a vida, o mundo
são de vocês...
quatro; três...
vocês um.
ADULTERADOS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Conheço adultos que nunca se dão conta de que a conta está posta, feito promissória vencida. O tempo voa. Suas loas não pagam mais a vida, nem o mundo circula em seu redor, como antes parecia fazer. Parecia. Não girava.
São gastos e velhos moços. Meninos e meninas que roem ossos dos dias que já não são seus, nas esquinas cruéis de seus outonos. Eles tanto dão adeus e despacham esses dias, quanto se agarram aos despachos, não querendo ir. Não querendo largar a barra da saia do passado que ainda querem presente. Por isso envelhecem mimados, disfarçam as rugas com gargalhadas postiças, farras forçadas, baladas nas quais são como peixes fora d´água, mas na busca insana de uma inclusão que já não lhes cabe. Cresceram sem crescer, apodrecem nos galhos onde não aceitam ser maduros e formam famílias sem saber por que; pra quê.
E esses adultos que não conseguem acompanhar a idade, de repente abandonam seus rebentos ou agem como se fossem filhos dos próprios filhos. Roubam seus momentos, anos e vidas, e querem que a família faça como o mundo já não faz: gire ao seu redor; viva exclusivamente para eles e satisfaça todos seus caprichos.
Por indiferença ou abandono, este mundo está cheio de crianças que serão adultos que nunca foram crianças... e que por isso, nunca serão adultos... a exemplo dos adultos que agora os adulteram.
EX-LAR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Uma treva cavalga sobre as luzes frias
que refletem seu facho na ilusão dos olhos;
nas lacunas vazias que fazem saber
a verdade que ronda os limites da casa...
Belos móveis e quadros, paredes, enfeites,
boas fotos que mostram momentos vividos,
badulaques de vidro, copos de bom gosto
e vinagres; azeites; temperos; aromas...
Mas aquelas pessoas perderam a graça,
não há risos abertos, conversas floridas,
nem há vida nas vidas que jazem ali...
Dias nascem tão velhos das noites insones,
tanto sonho perdido na sombra e no vão;
na magia quebrada sobre o chão da casa...
O PODER DA ÉTICA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Usava de todos os artifícios para tumultuar a vida do ex-cônjuge, com o qual tinha um filho de 11 anos. Além dos inúmeros truques que dificultavam a comunicação, quando ela estava com o filho, ainda criava inúmeras situações como inventar motivos para dizer desaforos com os quais tentava travar bate-bocas. Tentava, mas o ex-cônjuge sabia se conter; tinha calma e zelo pela ética e os bons modos, mesmo quando a tinhosa tinha coragem de ligar a cobrar, com o único objetivo de gritar impropérios. Ele atendia, ouvia tudo em silêncio, até o momento em que ela batia o telefone, para não ouvir a resposta. Uma resposta que ele não daria mesmo, porque não valia o seu esforço.
Com o tempo, o filho começou a se revoltar com a mãe, o que era natural, mas a mãe não entendeu a mensagem da natureza, e ainda se viu no direito de acusar o ex-cônjuge de falar mal dela, quando estava com a criança. Louca por uma confusão, a mulher nervosa foi cobrar satisfações. Mais uma vez com calma, o sujeito explicou que jamais falara mal. Que ao contrário, fazia de tudo para minimizar a revolta da criança, justamente falando bem. Muitas vezes até justificando as atitudes maternas com explicações bem difíceis, porque no fundo, não havia de fato justificativa.
Mesmo sem saber, aquele homem mentiu para a ex-mulher. Ele falava mal, sim. Sem querer, mas falava. A cada vez que o pai passava o telefone para o filho e ponderava: “Filho; ligue para sua mãe, pois ela deve estar tentando falar com você...”, o menino fazia, no coração e na mente, suas comparações. Toda vez que o pai falava bem da mãe, o menino se lembrava das vezes em que a mãe falava mal do pai. Sempre que o pai cumpria regiamente uma palavra dada à mãe, a criança recordava o número de vezes que a mãe faltou com a palavra dada ao pai. Ao ver o pai ponderar diante dos desaforos, inclusive quando ela ligava a cobrar para dizer tais desaforos, a comparação do filho era inevitável. Com a comparação, a revolta, sem qualquer tentativa paterna.
Ser honesto, ponderar, jogar limpo, ter calma, não aceitar provocações nem ser vingativo foi o que levou aquele homem a depor eficientemente contra aquela mulher. Ele não precisou pronunciar palavras... nem olhares e silêncios para seu filho. Ter postura, bom senso, ética e respeito era o quanto bastava para que sua imagem fosse a melhor possível perante aquela criança. Era dispensável qualquer discurso. Bastava ele ser do bem, para falar mal dela.
AMOR MAIS OU MENOS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Ficarei lhe devendo esse amor extremado
que se tem no calor dos primeiros afetos,
mas que logo é passado e se acomoda n´alma,
quando as dores do mundo nos calcificaram...
Hoje posso lhe amar, mas gastei muito fogo,
tive toda paixão que uma vida concebe,
me perdi nesse jogo e tenho poucas fichas
pra lançar às escuras do que pode ser...
Um amor mais ou menos; cascalhos de sonhos;
uma vida que o tempo arbitrou requentar;
vou me dar no que der pra sentir e viver...
Ficarão na vontade as emoções pendentes,
as miragens e lentes de todas as cores
dos amantes de amores de primeira safra...
DIETA RADICAL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Um dia o banjo
se viu obeso;
quis perder peso;
pesou a mão...
em pouco tempo
ficou em forma:
um violão!...
Não satisfeito
ou só de farra,
mudou de meta...
e fez dieta...
pra ser guitarra.
PRECISA-SE DE MÃES
Demétrio ena, Magé - RJ.
Aprendi com a minha mãe, que todo o cuidado será pouco para um filho, e que por isso, as mães não relaxam. São felizes, podem viver bem, mas não relaxam. Natureza de mãe que tem mesmo natureza não obedece à lei da prática e da serenidade, porque para ela o mundo está sempre a um passo de ruir sobre os ombros do filho. Há sempre alguém muito próximo, e acima de qualquer suspeita, pronto a se revelar capaz de um gesto indigno, malicioso ou desmano contra esse filho.
Com as demais pessoas, aprendi que não é certo a mãe ser extremada, super protetora e desconfiada de todo o mundo. Até minha mãe reconheceu muitas vezes, com palavras, o quanto estava errada por ser assim. No entanto, sua natureza infalível, com gestos e vivências me fez ver definitivamente que alguma coisa está errada com a mãe que não erra nesse aspecto. Especialmente aquela mãe que se deixa sufocar pela mulher, sempre bem-vinda, mas não como substituta da mãe.
Foi com a minha mãe que aprendi a apostar minha vida no caráter do próximo, mas não a vida de um filho. E que a integridade física do meu rebento precisa depender de mim, dos meus cuidados, minha desconfiança, e não da sorte ou do acaso de outra pessoa ter ou não bom caráter, tanto quanto aprendi que o caráter não tem cara.
Finalmente aprendi, com suas poucas palavras e muitos exemplos, que mãe não tem meio termo. Se não pecar por excesso, pecará por falta de cuidados, e que nos tempos em que vivemos, toda falta será castigada em maior ou menor escala. E também aprendi, com a moderna escassez de mães iguais à minha, que os pais de agora têm que aprender a ser mães, pois são muitas as mães que se tornaram como aqueles pais meramente provedores que delegam totalmente seus filhos.
MUNDO PLURAL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Hoje o tempo é meu sócio na vida que levo;
tenho mundo cabível na concha das mãos;
dou aos nãos do que sonho a medida real
do caminho de flores, mas também de farpas...
Não farei latifúndio do espaço excedente,
plantarei onde os olhos, a semente alcançam,
porque gente precisa partilhar o chão
pra fazer o seu campo e trasladar o céu...
Aprendi a ter tudo sem que seja o todo;
que meu tudo é meu algo, basta que me baste
sem desgaste ou batalha de vencer alguém...
Vejo além o bastante pra saber parar
onde o mar adverte que pertence ao peixe;
onde o feixe de sonhos encheu a braçada...
LAMENTÁVEL CONQUISTA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Passados tantos engenhos
e desempenhos
pra distorcer as verdades,
dizer mentiras reais
e sinceras...
Depois de tantas saídas
por mil tangentes,
com seus ardís emergentes
para se manter
porcamente limpa...
Finalmente me rendo
sem nenhuma esperança,
porque nada restou,
você conquistou
minha desconfiança.
VOLTA INTERNA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Desisti muitas vezes.
Mas logo depois
decidi que o depois
decide por mim.
Foi aí que voltei
do caos, da sombra,
do próprio fim
traçado e pronto.
Converti muitos pontos
em reticências;
voltei a sorrir;
persisti, desisti
das desistências.
EU E MEUS INHOS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Apesar das palestras motivacionais que me recomendam a troca de cada "inho" por um "ão" do tamanho do infinito, confesso que sou do tipo que adora um "inho", tanto na vida profissional quanto na pessoal. Se isto, por si só, é um sinal de acomodação, devo confessar que sou irremediavelmente acomodado. Também pudera: moro na roça, tenho vida lenta, trabalho três dias por semana e quase sempre recuso trabalhos extras (como dar palestras motivacionais) que me renderiam em poucas horas mais do que a minha remuneração mensal.
Escolhi me aquietar com um salariozinho de educador, morar numa casinha nos fundos de um quintal cheio de plantinhas, cuidar de minhas filhinhas até que sejam filhonas e não me matar para viver. No meu cantinho, tenho tudo que mais quero: tempo para compor versinhos, bater um papinho com os vizinhos acomodados como eu, criar uma cachorrinha, ler um romancezinho, escrever meus livrinhos e ouvir uma musiquinha de quando em vez. Às vezes, até fazer um amorzinho com quem não despreze um sujeito anti-competitivo; com ambições distorcidas; sem carrão, mansão, "contona" bancária, comendas, fama, influência, status, nominatas.
Agora com licença; preciso tirar uma sonequinha, pois não sou de ferro e meu planinho de saúde não cobre terapias para corrigir problemas que um bom soninho corrige. Ademais, preciso mesmo cuidar bem do corpo e da psique, uma vez que decidi não adoecer física e mentalmente numa peleja insana para pagar, entre outros itens, um grande plano de saúde que não poderá juntar os cacos de quem terá se matado ou simplesmente não vivido exatamente para viver, dentro desse conceito massificado que se tem de vidão.
Cá com os meus botões, e para ninguém ouvir: vidão, mesmo, é a vidinha que levo neste mundinho particular onde vejo o nascer e o pôr do sol, tenho as rédeas do tempo e sei exatamente quem sou. Até mesmo porque não me confundo com toda essa gente que disputa entre si esse campeonato interminável de quem é mais. Mas isso é uma escolha minha... e não me torna especial... inclusive para minhas filhas, que certamente optarão por não serem acomodadas igual ao pai... e às quais desejo todo o sucesso.
SONHO E PROJETO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Nenhum sonho de vida pode ser simplesmente um sonho. Ele tem que ser, também, um projeto. Sonhos não dotados desta composição não têm pés, mãos, direção e asas, pois o projeto é, por si só, esse conjunto que sugere ação. Atitude.
Quem sonha sem projeto apenas dorme, ainda que acordado. Com as janelas da cara visivelmente abertas, mas as da alma, totalmente fechadas para o perfeitamente viável, mesmo que difícil, como quase tudo que vale a pena.
Sonhar com projeto, é fazer; caminhar; voar; tomar atitude. Um resumo fiel e contundente do que significa, em sua essência, viver de verdade. Sonho só se funde com vida, quando se confunde perfeitamente com projeto.
SOFRER COM RAZÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Antes do lamento futuro pelo que esperamos, mas no fim das contas não será, pensemos um pouco e digamos para nós mesmos: será que o que penso que é realmente foi, um dia? Que futuro é esse, do que jamais foi presente?
Quando somos maduros o bastante para nos questionarmos desta forma, sofreremos por todas as outras coisas, mas nunca pelo que não tinha mesmo que ser. E que só por isso não foi. Em outras palavras, podemos sofrer por algo; isso é comum. Por muitas coisas; é compreensível... por tudo, já estamos no campo dos excessos, mas ainda é humano. Já por nada, não... não e nunca, porque por nada, é burrice.
Busquemos dentro de nós aquela sabedoria de visualizar entre o todo, qualquer sintoma do que parece mas não é. Identifiquemos nas sutilezas, aquele nada que sempre acha uma brecha para nos confundir no meio de tudo.
FLOR DO SONHO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Tenha um sonho que o tempo não possa roer
ou roubar sua essência na marcha dos anos;
risque um traço afetivo que leve ao destino
entre perdas e danos de qualquer caminho...
Faça ninho por dentro, pois o vento arrasta
o que só se mantém à fina flor-da-pele,
sele a vida e cavalgue por suas certezas
do que busca e deseja com sinceridade...
É no traço afetivo que surge o desenho;
um engenho do mundo sonhado pra si,
mesmo sendo preciso apagar muitas vezes...
Erre muito, mas erre agarrado ao projeto,
redesenhe seu mundo quantas vezes for,
seu amor pelo sonho cuidará do resto...
DEPRESSÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Um olhar de pedido, perdido no espaço;
expressão da pressão de quem tenta conter;
depressão que depressa o depreda por dentro
e faz traço por traço dar um nó no rosto...
Uma dor bem doída sem dor aparente
sob o nervo escondido no dente afetivo,
alma cheia de cáries que nada obtura
no vazio que oculta cada uma delas...
Quem será que será seu olheiro vital,
pra salvá-lo do vácuo dessa morte viva
ou ogiva de sonhos que há muito explodiram?
Nem há prece que apresse o já bem-vindo fim,
sim nem não, só a mão que segura o destino
e prolonga o seu nada que virou seu tudo...
Antes de sermos valorizados pelo que fazemos, é urgente que o que fazemos seja valorizado pelo nosso amor - Demétrio Sena, Magé - RJ.
FORA DE MIM
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Perco todo esse tempo que tenho a ganhar,
quando sonho apressado e desprezo critério,
pois o mundo é mistério por ser desvendado
e voar nos exige visão de horizonte...
Já perdi muita vida por saltar no escuro,
por querer em excesso e me soltar ao léu,
rabisquei tanto céu e terminei no chão
do futuro passado, perdido e no fim...
Hoje quero conter os impulsos incautos,
o meu tempo de saltos avançou a idade,
mas às vezes esqueço que cheguei aqui...
E me perco nas perdas do tempo já gasto,
me devasto e jamais me replanto a contento,
porque tento correr para fora de mim...
REDICALISMO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Tens um grito guardado
pro momento
em que tua reserva
de arrogância
não tiver argumento...
Há um soco espremido
entre os dedos,
para quando a bravata
já não camuflar
os teus medos...
Haverá sempre um tiro
na pistola
de quem já não sabe
tirar seus coelhos
da cartola.
