Coleção pessoal de claudio_roberio_moura_luz
MILAGRES ACONTECEM
Em um dos anos da década de 80, houve mais uma seca que assolou todo o solo do sertão simpliciomendense. Os açudes, barragens, rios e riachos secaram. A terra rachada tomou conta desses espaços. Nesse tempo, não havia cisternas e nem essas caixas-d'água vendidas nas lojas de materiais de construção. Aqueles que tinham uma condição melhor faziam uma caixa de tijolos; depois, essa caixa era toda cimentada e servia para armazenar a água para o consumo humano. Aposentado rural era raridade e não existiam esses programas sociais de hoje como, por exemplo, o Bolsa Família. O povo da roça, geralmente, tinha que tirar o seu sustento da própria roça.
Foi nesse cenário de seca que ocorreu um fato intrigante com Ana Cecília de Araújo, minha avó por parte de mãe. Ela era uma pessoa muito devotada à religião católica e, nas muitas noites antes de as pessoas da casa irem dormir, era frequente a reza do terço em sua residência na localidade Juá.
Em um desses dias de estiagem, por volta do meio-dia, um sol escaldante estava a queimar sem piedade. Naquele momento, poucas nuvens eram vistas no céu. Mirando o olhar para bem longe no horizonte, se via que devia estar a chover lá para as bandas do município de Picos. Nesse ambiente de silêncio sepulcral, dava-se para escutar, vagamente, o eco tênue do ribombar dos trovões que vinham dessa região distante. Já no Juá, com tanto calor que estava a fazer, tudo que era vivo estava a se proteger do sol.
Foi nesse ambiente que Ana Cecília de Araújo acordou do seu cochilo habitual do meio-dia sentindo um forte cheiro de mato queimado e, naturalmente, levantou-se e foi olhar o que estava acontecendo. Quando saiu para fora da casa, se deparou com um enorme fogo que vinha da roça onde ficava o curral da propriedade. Ela se desesperou, pois pouco podia fazer para apagar aquele incêndio. Além do mais, estava sozinha. Instintivamente, começou a chorar e a rezar pedindo para que, salvo engano, Nossa Senhora apagasse aquele fogo que vinha a destruir tudo à sua frente.
Para o ateu é difícil acreditar e até mesmo para o religioso, pois o panorama de sol quente e poucas nuvens no céu, desfavoreciam o que veio a ocorrer a seguir: o tempo mudou e caiu uma chuvinha que apagou todo aquele fogareú.
REFÚGIO NA ESCURIDÃO
Na calada da noite, seu coração está inquieto. O céu está escuro. Negras nuvens preenchem todos os espaços. Nesses momentos, os espíritos atormentados vagam com uma paz que é rara na sua essência. Tentam esconder toda a amargura que foi acumulada na sua existência pela Terra.
Os espíritos dos criminosos, suicidas, corruptos, ladrões, egoístas e, enfim, de todos aqueles que cometeram pecados graves quando em vida, tentam encontrar refúgio nessa escuridão sem fim.
Oh, pobres espíritos! Que maldades vocês fizeram? Quantas pessoas vocês deixaram a chorar e a sofrer pela Terra?
Oh, Deus eterno, tenha compaixão e piedade dessas pobres almas. Dá-lhes a luz de que tanto necessitam.
A vida e o acaso sempre marcham juntos, mas a diferença maior está, primeiro, em Deus, que é o nosso criador, e, em segundo lugar, nas forças ocultas espirituais que se digladiam para o nosso bem ou para o nosso mal.
Nas pequenas cidades do sertão nordestino, a cachaça, que é a causa maior de mascarar a realidade objetiva e subjetiva, subjuga não só os que, por algum motivo,já entregaram suas vidas e seus sonhos à ociosidade, mas também se apodera da grande massa trabalhadora ativa, principalmente dos construtores das cidades, ou seja, pedreiros, carpinteiros, eletricistas, etc. A maioria desses indivíduos entram nesse ciclo para tentar esquecer as mazelas cruéis desse mundo capitalista.
QUIRINO
Quirino, velho Quirino, viveu boa parte da sua vida em dedicação aos serviços da Igreja Matriz de Simplício Mendes. Alto, moreno, magro e de rosto pequeno, causava, à primeira vista, a sensação de ser circunspecto, mas, era mesmo só aparência, pois tinha uma voz e uma maneira bastante engraçada, e essas características lhe ajudava bastante a conseguir mais fácil a simpatia das pessoas.
Nas suas festas de aniversário, compareciam muitos convidados. Uma boa parte da turma, principalmente a que não tinha muito dinheiro para comprar um bom presente, não queria perder os comes e bebes dessas festinhas. Por isso, compravam sabonetes, embrulhavam-nos e os entregavam como presente. Outros não tinham dinheiro nem para isso e enrolavam pedras no formato de algum objeto.
Quirino, já cansado de tanto embuste, resolveu ficar na entrada da casa recebendo os convidados com seus presentes. Ao apalpar o embrulho e notar que era parecido com sabonete, dizia logo:
— Sabonete não, menino! Sabonete já tem.
Em outra ocasião, sentindo-se chateado no acerto de contas de uma das festas religiosas da Igreja Matriz de Simplício Mendes, ele saiu às ruas gritando e dizendo que ia se enforcar em um pé de coentro que tinha no quintal da sua casa.
PEQUENA HOMENAGEM
Não sou poeta muito menos aboiador e nessa seara vou me aventurar como uma simples maneira de homenagear aos moura de Zé Moura que no céu já foram morar.
No raiar de um ano de bonito inverno o dia já estava a clarear e lá para as bandas da localidade juá, Zé Moura e seus filhos estavam a se preparar a trazer o gado que na seca estava a vagar. ChIquinho e Neto iam a frente e Alcides e Alberto na retaguarda para não facilitar e deixar o boi escapar. Naquele exato instante Antônio e Joãzinho que eram os filhos mais novos no curral estavam com o leite a tirar e na cozinha da casa Ana Araújo e Maria Amélia a cozinhar e a preparar o café da manhã para a turma poder tomar. Era uma vida dura que dava até para reclamar, mas tinha também muitas alegrias para poder contar e só em ter uma família tão unida melhor tesouro não podiam encontrar. E,hoje, toda essa felicidade a mãe terra veio a deixar e agora vive no céu a morar.
Ô saudade!
O FIM DO MUNDO
Em uma tarde do ano de 1977, no município de Simplício Mendes, tudo indicava que seria apenas mais um dia comum. Como de costume, a criançada corria e brincava pelas praças do centro da cidade. Nas calçadas, havia muitas cadeiras e gente conversando ou apenas apreciando o final da tarde, um hábito bastante comum naquela época. No abrigo da praça, a velha radiola tocava, e lá dentro José Olimpio e Baíca vendiam seus picolés e sorvetes.
Nesse momento, um homem passava com uma tropa de jumentos carregados de lenha para vender nas residências. A lenha era o gás de cozinha de hoje. Tudo transcorria normalmente. Mas, de repente, o que era só tranquilidade e rotina agitou-se, motivado por um estranho objeto barulhento que descia do céu.
Todo mundo se assustou. A meninada correu para casa, os adultos trancaram as portas, e três irmãs da família da senhora Sinhá Campos que moravam em frente à praça e nessa hora conversavam animadamente na calçada, apavoraram-se e começaram a rezar e ao mesmo tempo correr para dentro da casa, gritando que era o fim do mundo.
O estranho objeto desceu na pracinha em frente à casa do saudoso Dr. Antônio, que nessa época era apenas um campinho de piçarra rodeado de pedras de calçamento, onde a criançada jogava bola, brincava de pião, pipa, etc.
Naquele tempo, ainda não existia o campo de aviação. Lá era só mato. Depois do grande susto, veio a explicação: o objeto estranho era um helicóptero que trazia políticos de Teresina para Simplício Mendes
Como os meios de comunicação da época se resumiam praticamente aos correios, houve uma falha de comunicação. Os políticos da cidade esperavam que eles viessem de carro, e não de helicóptero. Se hoje essa máquina voadora ainda causa curiosidade, imagine naqueles velhos tempos.
CRISE
Aos poucos o silêncio da madrugada se despede e a cidade acorda para mais um dia. O barulho gerado por pessoas e veículos, gradativamente, vai aumentando.Tudo agora é vida.Vida se movimentando em todos os sentidos e em todas as direções. Tudo parece está dentro da normalidade, mas andando pelas ruas da cidade dá para perceber como o povo anda triste. Placas e mais placas com o nome aluga-se, vende-se ou esta unidade fechou, espalham-se ao longo de toda urbe.
As únicas classes que não sentem tanto o efeito da crise é a do rico e a do pobre. O rico tem o suficiente para inibir qualquer crise e o pobre também não sente tanto , pois toda sua vida já está calejada das agruras desse viver.
O tempo passa rápido e logo as luzes dos carros e da cidade anunciam o final de mais um dia e em poucas horas, quando a alta escuridão chegar, todos esquecerão, momentaneamente, dessa terrível crise financeira ,tendo como maior remédio o sono que leva para longe os problemas e as amarguras de cada ser.
No final da década de 40, a frase ' o petróleo é nosso" dita por Getúlio Vargas tinha o objetivo maior de garantir a soberania nacional e hoje em pleno ano de 2026 não podemos dizer que temos casa e carro, pois ambos estão plenamente vinculados ao IPTU e ao IPVA, respectivamente.
TRISTE!
O MENDIGO
Todo dia o mendigo Manoel saía andando pela cidade a procura de pessoas que lhe dessem uma esmola em dinheiro ou em comida. Ele não tinha nada de bem material nesta vida. Tudo que tinha se resumia a trapos de roupas, panelas velhas, sapatos velhos e chinelos, também, velhos. A sua jornada em terra distante começa quando ele sai do Piauí rumo a São Paulo a procura de serviço e por muitos e muitos anos conseguiu trabalhar em uma firma da "terra da garoa". Em um certo dia foi demitido e depois disso não conseguiu mais emprego. Como escape se entregou à bebida e a mendicância. A única coisa que ainda esperava dessa vida era a chegada da morte. Sonhava com ela todas as noites. Apesar da mente já estar bastante enfraquecida pela pouca comida e pela muita cachaça ele pensava nas injustiças dessa sociedade perversa. Para ele a maior parte da burguesia era constituída de pessoas insensíveis que se alimentavam do suor do trabalhador. Ele pensava muito e muito que poderia ser tudo diferente. Talvez, uma sociedade mais igualitária onde todos seriam mais irmãos nessa curta passagem pelo planeta terra. Pobre Manoel!
"Em um passado não muito distante, a seca era o Tifão do sertão. Hoje, o Tifão maior do Sertão Nordestino é a droga."
Na minha concepção, o mundo material e o mundo espiritual são parecidos com o que acontece na eliminação de um participante do programa 'Big Brother'. Ou seja, quem fica na casa fica chorando a perda do amigo, enquanto o apresentador do programa, juntamente com a plateia, recebe o eliminado com a maior alegria. Fazendo uma analogia, a casa seria o mundo terreno, e o apresentador, com a plateia, seria o mundo espiritual.
