Coleção pessoal de CarlaGP
"Sempre que, pela falta de virtudes, um homem vê diminuída a sua liberdade interior, essencialmente contemplativa, entroniza n'alma a liberdade política, meramente prática. Ele vive então a quimera de libertar-se por completo das penúrias e turbulências do mundo.
Como isto é impossível, ele transforma a sua liberdade em serva de vontadezinhas medíocres e fugazes, transfigura-a em vertigem de quereres sem freio, jamais satisfeitos plenamente.
Vira escravo duma fome de liberdade infinita, a qual espera ver realizada no plano político".
"Entre a sagacidade e a astúcia existe diferença de espécie, e esta se dá de acordo com a proveniência: o sagaz é prudente; o astuto, imprudente. Dolo e fraude são frutos da astúcia nascida da imprudência; discernimento e ponderação, da sagacidade oriunda da prudência.
O sagaz conjectura rápida e acertadamente sobre os meios para alcançar um fim bom, ao passo que o astuto conjectura retamente sobre os meios para atingir um fim mau, além de muitas vezes raciocinar tomando como base premissas totalmente equivocadas, quando não estúpidas.
A imprudência não gera apenas a astúcia. Ela induz três hábitos muito feios, que lhe estão indissociavelmente ligados como por um cordão umbilical satânico: a inconsideração, a inconstância e a precipitação. Em verdade, estes são três sintomas da imprudência, assim como a febre é sintoma de alguma inflamação".
"Nada menos igualitário que a caridade, a qual consiste em amar a Deus acima de todas as coisas.
A caridade não é um ímpeto de benevolência distributiva ou comutativa, um amor cego que põe as coisas amáveis todas num mesmo plano. Ao contrário, ela é "excelentissima virtus" justamente por enxergar a hierarquia de bens existentes na realidade e entregar-se, antes e acima de tudo, ao maior deles: Deus.
Daí defini-la Santo Tomás como "certa amizade do homem a Deus" ("quaedam amicitia hominis ad Deum").
A dileção da caridade, dádiva do céu, é um ato de discernimento, escolha feita de olhos abertos, o que absolutamente nada tem a ver com a lacrimogeneidade enfermiça à qual boa parte dos nossos contemporâneos chama "amor".
"A detração e o insulto são as armas típicas das pessoas que, encafifadas no estudo da filosofia, não suportam o contraditório, a objeção. Desde os pré-socráticos até hoje, estes nefelibatas multiplicam as objeções com o propósito de sair pela tangente e não responder às que lhes são feitas, para então sacar da cartola uma dúzia de pechas que lançarão sobre a honra dos que ousaram objetar-lhes, neste ou naquele ponto. Se conseguissem olhar as próprias almas diante do espelho, morreriam de susto com o tamanho da hediondez moral em que jazem".
"As chagas de Cristo são uma luz insuportável para a consciência humana, que só as consegue contemplar pelo filtro espiritual – protetor – da graça. Para o homem de todos o tempos, é mais fácil fechar os olhos e fugir para o submundo do inconsciente do que aceitar as exigências do Amor assassinado por sua cupidez".
"Piedade é hábito adquirido; santidade é hábito infuso. Estes dois tipos de virtude pertencem a âmbitos entre os quais não existe medida comum: natural e sobrenatural".
"Leis impostas por minorias intolerantes que se apoderam das casas legislativas não nascem de exigências sociais; impõem-se à força de chantagem da propaganda ideológica e do jornalismo panfletário a serviço dos poderosos da vez, e logo encontram eco em magistrados beócios e corruptos que tomam reiteradas decisões contrárias aos costumes do povo. Estes então mudam no compasso da força desagregadora das leis anticonsuetudinárias aprovadas de afogadilho, graças a manobras legislativas infames, e, em duas gerações, a identidade nacional se esboroa, os conflitos acirram-se e os cidadãos são jogados uns contra os outros na forma das novas leis positivadas sabe Deus como.
Em breves termos, leis iníquas representam o pomo da discórdia em qualquer sociedade; são as grandes fomentadoras da desordem.
Novos direitos são logo juridicamente reconhecidos, e os deveres esfumam-se na tradição vilipendiada e, não raro, criminalizada. Em síntese, o que até ontem era costume passa a ser crime, e crimes de todos os tipos tornam-se costumeiros, pois gozam de apoio legislativo, tutela judiciária e incentivo de decretos executivos à luz do novo arcabouço legal – intrinsecamente revolucionário.
Os costumes de um povo mudam no decorrer do tempo, ao longo das gerações sucessivas. Só mudam de maneira abrupta quando são depravados por elites criminosas que chegam às instâncias decisórias do poder, para desgraça geral".
