Casemiro de Abreu Poemas

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Que coisas são essas que me dizes sem dizer, escondidas atrás do que realmente quer dizer?
Tenho me confundido na tentativa de te decifrar, todos os dias.
Mas confuso, perdido, sozinho, minha única certeza é
que de cada vez aumenta ainda mais minha necessidade de ti.
Torna-se desesperada, urgente. Eu já não sei o que faço.
Não sinto nenhuma alegria além de ti. Como pude cair assim nesse fundo poço? Quando foi que me desequilibrei? Não quero me afogar: Quero beber tua água.
Não te negues, minha sede é clara.

Preciso de Alguém

Meu nome é Caio F.

Moro no segundo andar, mas nunca encontrei você na escada

Preciso de alguém, e é tão urgente o que digo. Perdoem excessivas, obscenas carências, pieguices, subjetivismos, mas preciso tanto e tanto. Perdoem a bandeira desfraldada, mas é assim que as coisas são-estão dentro-fora de mim: secas. Tão só nesta hora tardia - eu, patético detrito pós-moderno com resquícios de Werther e farrapos de versos de Jim Morrison, Abaporu heavy-metal -, só sei falar dessas ausências que ressecam as palmas das mãos de carícias não dadas.

Preciso de alguém que tenha ouvidos para ouvir, porque são tantas histórias a contar. Que tenha boca para, porque são tantas histórias para ouvir, meu amor. E um grande silêncio desnecessário de palavras. Para ficar ao lado, cúmplice, dividindo o astral, o ritmo, a over, a libido, a percepção da terra, do ar, do fogo, da água, nesta saudável vontade insana de viver. Preciso de alguém que eu possa estender a mão devagar sobre a mesa para tocar a mão quente do outro lado e sentir uma resposta como - eu estou aqui, eu te toco também. Sou o bicho humano que habita a concha ao lado da conha que você habita, e da qual te salvo, meu amor, apenas porque te estendo a minha mão. (...)

Tenho urgência de ti, meu amor. Para me salvar da lama movediça de mim mesmo. Para me tocar, para me tocar e no toque me salvar. Preciso ter certeza que inventar nosso encontro sempre foi pura intuição, não mera loucura. Ah, imenso amor desconhecido. Para não morrer de sede, preciso de você agora, antes destas palavras todas cairem no abismo dos jornais não lidos ou jogados sem piedade no lixo. Do sonho, do engano, da possível treva e também da luz, do jogo, do embuste: preciso de você para dizer eu te amo outra e outra vez. Como se fosse possível, como se fosse verdade, como se fosse ontem e amanhã.

(Crônica publicada no “Estadão” Caderno 2 de 29/07/87)

É preciso que você venha nesse exato momento. Abandone os antes. Chame do que quiser. Mas venha. Quero dividir meus erros, loucuras, beijos, chocolates... Apague minhas interrogações. Por que estamos tão perto e tão longe?
Quero acabar com as leis da física,dois corpos ocuparem o mesmo lugar! Não nego. Tenho um grande medo de ser sozinha.
Não sou pedaço. Mas não me basto.

Um dia você vai encontrar alguém que te lembre todos os dias que a vida é feita para ser vivida.
Alguém que é perfeito de tão imperfeito.
Alguém que não desista de você por mais que você tente afastá-lo.
Naquele dia que você não estiver procurando por ninguém, naquele dia que você não ia sair de casa e acabou colocando a primeira roupa que viu pela frente.
Quando você não estiver procurando, você vai achar aquela pessoa que faz você sentir que poderia parar de procurar.

E seria cruel demais para mim lembrar agora que cheiro era esse, aquele, bem na curva onde o pescoço se transforma em ombro, um lugar onde o cheiro de nenhuma pessoa é igual ao cheiro de outra pessoa.

(Os Dragões não conhecem o paraíso)

Nem que me corte, nem que eu sofra,
nem que eu lute contra mim todos os dias.
As coisas vão mudar!

[violet]Cante, dance, pule, grite, brigue, faça as pazes, chore,
sorria, estude, fique para recuperação, sinta saudades,
apaixone-se, deseje, ame, dedique-se, beije, abrace, erre,
aprenda, desculpe, faça amizades, tenha objetivos, ande,
emagreça, engorde, fale palavrão, brinque, ganhe, perca,
prometa, cumpra, corra, pare... Enfim... VIVA! Sonhe com o
que você quiser. Vá para onde você queira ir! Seja o que
você quer ser, porque você possui apenas uma vida, e
nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce; dificuldades e
determinação para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la
humana. E esperança suficiente para fazê-la FELIZ!

A Clarice Lispector é meu lado fofo. A Tati Bernardi é a minha revolta. E o Caio Fernando Abreu? Ah, o Caio simplesmente me conhece e sai contando de mim por aí.

Caio Fernando Abreu nos diria: 'Desapegue. Pessoas gostam do que não tem!'.
Em outras palavras: Se você estiver sempre disponível, ele não vai te querer. É isso.

Ícaro

Os deuses o abençoaram com a liberdade,
E um espirito aventureiro,
Cheio de confiança e esperança
Sobre o que o aguarda.

Planeja a sua ida ao sol,
Apolo não permitirá, os deuses
Hão de lhe ajudar.
Héstia o guiará.

Com o fogo da paixão ela o presenteará.
Ele não há de recusar o presente
Que acabara de ganhar, nada irá se findar,
Apenas começar.

A deusa da lua se compadecerá
Da filha de Vênus que ousa o desejar.
Assim uma linda história há de se
Inaugurar no livro de ouro da Mitologia.

Onde todos os deuses vão abençoar
Esta união, feita pelo coração.
E todos os amantes vão se inspirar
Para uma nova canção cantar.

O nome de Ícaro hão gritar.
O nome da filha de Vênus hão clamar.
Todos vão querer vivenciar esta emoção
Escrita no céu de uma doce ilusão.

Daiane Bussularo

Meu Momento que Ainda é Seu

Fiz uma canção para você
Com acordes imprecisos e inesperados
Com letras enfatizando mágoas e flores
Retiradas de tuas lágrimas e sorrisos

Fiz uma cantiga de ninar
Com meu sorriso bobo e olhar encantado
Dedilhando meu violão há tanto esquecido
Dedicando teu sono em sonetos monocórdios

Desenhei teus olhos em folhas canzon
Com meus lápis 6B e meus traços irregulares
Trouxe novamente tua atenção à mim
Trouxe novamente ressentimentos e um pouco de giz pastel

Escrevi um poema com teu nome
E nele meus parágrafos eram desconexos
Que terminavam sempre em reticências
Para nunca terminar o que a realidade me afanou

Ofereci meu dia-a-dia
Te tratei como poesia
Lutei com frenesia
Te enalteci em forma de supremacia

Hoje deixei o dia voltado à mim
Pintei meus quadros acinzentados
Terminei meus textos de frases inacabadas
Mudei meus móveis de lugar (...)

Dediquei meu dia à você
Os cinzas deram cores as tuas cores preferidas
Minhas frases dedicaram as letras do teu nome
E voltei a deixar meu quarto do mesmo modo como você o deixou

Fabiano da Ventura

Falando de Amor

...e com teus olhos me prendeste.
Com tua boca,
foste canção...

Doce ilusão...
Pois que o amor,
é coisa estranha mesmo,
que embriaga lentamente.
E quando acordamos,
eis que já roubou as chaves do nosso coração...

(Dinho Kamers)

CRÔNICA DE UM LEIGO
de: Eduardo Pinter

Uivamos ao clamor da paz mundial
Nesta terra que o apocalipse parece reger.
Esta humanidade desumana viciada em desordem
Perdeu o que talvez nunca teve: um coração.
Jornais televisiveis, escritos e caricaturados
Amam em ênfase a dor do próximo por audiência.
E a pergunta mais imbecil que possa existir
À família que acabara de perder um ente próximo:
" como vocês se sentem?"...
A falta de sensibilidade ou inteligência à questões cruciais
Parece reinar sobre qualquer noção significativa
À ordem humana ou racional.
A impunidade, a diferença social, colabora com a violência;
Mas os poderes dos poderosos só existem
Quando um povo desolado porém, coerente de suas razões,
Não se unem para uma mera questão:
UNIÃO -- não para obter privilégios próprios,
Mas para abraçar causas nobres onde todos deitarão
Sobre a consciência voluntária e verdadeira em harmonia com a Unidade.

26 Abril 2013
Eduardo Pinter

DE QUÊ TRILHAS?

Eu canso ao cansaço de quem me diz que no fim há de ter direção.
Meu espaço que te libertou agora tenta escravisar quem nasceu na escravidão.
Não tive liberdade mas tenho saudade daquela escuridão;
Onde os atos são consumados pelas grades que me tiram a razão.
Me afogo talvez, porque não tenho como respirar
Tua questão é seu coração?
Minha razão corrompe o avesso do que sinto do que tive ao passado.
Porque quando há sentimento é o que foi para quando é de fato,
Não o sentimento que neste exato momento esquece quanto era o acaso,
Mas neste caso, que pensei que poderia contar com você,
Não no que faz. Mas, o que poderia me fazer crescer.
Talvez respiro o que me afoga!

Eduardo Pinter
02102013

Mulher, ó mulher,
Pudesse eu recomeçar este mundo,
inventaria de criar-te primeiro,
e somente depois retiraria Adão de tuas costelas.

Padre Fábio de Melo

Nota: Mulheres de Aço e de Flores

A beleza da vida se multiplica cada vez
Que a gente partilha com alguém que a gente ama...
Se você quiser multiplicar a vida...
Você precisa dividi-la.

O Homem Escrito

Ainda está vivo ou
virou peça de arquivo
sua vida é papel
a fingir de jornal?

Dele faz-se bom uso
seu texto é confuso?
Numa velha gaveta
o esquecem, a caneta?

Após tantos escapes
arredonda-se em lápis?
Essa indelével tinta
é para que não minta
mas do que o necessário
é uma sigla no armário?

Recobre-se de letras
ou são apenas tretas?
Entrará em catálogo
a custa de monólogo?

Terá número, barra
e borra de carimbo?
Afinal, ele é gente
ou registro pungente?

O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.

Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte — ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro — diz o engenho
sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto — é isto?
idem
idem
idem.

O homem funde a cuca se não for a Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto
repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só para tever?
Não-vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato é o Sol, falso touro
espanhol domado.

Restam outros sistemas fora
do solar a col-
onizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.

E ao me sentir ausente
Me busque novamente - e se deixes a dormir
Quando, pacificado, eu tiver de partir.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Álvaro de Campos

Nota: Trecho do poema "Tabacaria" de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa.