Cartas e Prosa de Fernando Pessoa
Quem Dera
Imagino um dia em que estarei no barro.
Às vezes quente, às vezes lama, entre outros,
No mais alto teor malcheiroso que exalam os mortais.
Quem dera!
Se até mesmo sob tanta terra,
Naquele invólucro imóvel, apertado,
Sem água e escuro, a decompor-me,
Exalasse o perfume de jasmim.
Quem dera!
Pois essa podridão indesejável
É o perfume da humanidade vil
Que o exala sem querer, claro!
Transfigurando-se em seu estado mórbido.
Quem dera!
Se eu fosse,
Apenas fosse,
Sem ter que me ver decompor-me
Com tanta fetidez.
Quem dera!
Se eu apenas fosse numa viagem
sem ter que me ver neste estado humano
devorado por vermes.
Quem dera!
Assim o penso,
Assim é o meu lado material.
Quem dera!
Não fosse.
Santo Antônio do Salto da Onça/RN
23/11/2023
São profissões importantes,
O médico, o jornalista,
Ator ou qualquer artista
Eu sei que são relevantes
Também foram estudantes,
O Juiz, o promotor,
Poeta e o escritor.
Mas digo com precisão,
Todos só são o que são
Por causa do PROFESSOR.
Santo Antônio do Salto da Onça RN
10/04/2024
Me chamaram pra eu ir declamar
Fui ao palco sem demora declamei
Fui falar do Cordel que é cultura
E no mundo da Poesia viajei
Alguém disse que eu sabia de tudo
Eu confesso num momento eu fiquei mudo
Mas eu disse que de tudo eu não sei.
Santo Antônio do Salto da Onça RN
Terra dos Cordelistas
11 Janeiro 2025
Quando a verve aparece, o Poeta
Se ilumina e lhe vem inspiração
Ele escreve com grande precisão
E vai logo mostrando a sua meta
Ele toma atitude bem seleta
E mistura o real com a fantasia
E quem ler geralmente se extasia
Com a história que por ele foi criada
Mesmo sendo verdade ou inventada
Ele foi bem fiel com o que escrevia.
Santo Antônio do Salto da Onça RN
Terra dos Cordelistas
10 Janeiro 2025
Só vivia embriagado
Em uma vida mundana
Nos bares tomando cana
E jogando carteado
Sempre mal acompanhado
Em briga e confusão
Na boca só palavrão
Na cidade era o terror
Ontem era pecador
Hoje condena o irmão.
Santo Antônio do Salto da Onça RN Terra dos Cordelistas
Mote: Marciano Medeiros
Glosa: Gélson Pessoa
07 Janeiro 2025
Poema: Ábdito
Caminhando entre túmulos imagino
Muitos vermes devorando um corpo inerte
E às vezes tenho medo que o desperte
E que o espírito deste corpo se liberte
Para então procurar seu assassino
E complique ainda mais o seu destino
E se torne dos dois mundos um peregrino.
Santo Antônio do Salto da Onça RN
Terra dos Cordelistas
20 Julho 2023
Viagem insólita
Era um balão vultoso
Que era de extasiar
Me deixara vultuoso
De tanto eu observar.
Que se tornava flagrante
Com aspecto invulgar
E interior bem fragrante
Que dava gosto exalar.
Estava num canto estático
Quiçá para um conserto
E eu fiquei bem extático
Como a quem ouve um concerto.
Eu tinha que ascender
Pra iniciar a viagem
Mas tinha que acender
Para então fazer a viajem.
Era um momento eminente
Para eu poder emigrar
E estava muito iminente
Pra eu então imigrar,
Mas tinha que ter cuidado
Para nada eu infringir
E agir bem-comportado
Para ninguém me infligir.
Na atual conjuntura
Eu tive que ser facundo
E por minha conjetura
Eu me mostrei bem fecundo.
E a minha aventura
Tinha que iniciar
Mesmo que fosse loucura
O aeróstato pilotar.
Mas eu já estava lasso
De tanto eu trabalhar
Sabe o que fi afinal?
Do balão tirei o laço
E fiquei com alto-astral
Eu o botei no espaço
Fui prum lugar no austral.
Santo Antônio do Salto da Onça RN
Terra dos Cordelistas
13 Maio 2018
Na casa que tem criança,
tem Deus na entrada dela
Para minha sobrinha Tainá Silva Torres
Tem vez que chego cansado
Desanimado da vida
E chego a minha guarida
Fico logo animado
Porque fui abençoado
Com uma presença singela
De uma menina tão bela
Que me dá muita esperança.
"Na casa que tem criança
Tem Deus na entrada dela".
Santo Antônio do Salto da Onça RN
Terra dos Cordelista
11/06/2010
Violeiros fazendo cantoria,
E cordéis pendurados lá na feira
No mercado farinha, macaxeira,
E nas ruas Reisado e Romaria
Com o povo resando com alegria
Padin Ciço em cima de um andor
Com beatas pedindo proteção
Sanfoneiro tocando um baião
Palmatória na mão de quem não leu
Só conhece estas coisas quem viveu
No cenário poético do Sertão.
Mote: Jesus de Rita de Miúdo
Glosa: Gélson Pessoa
Santo Antônio do Salto da Onça RN
Terra dos Cordelistas
09 Janeiro 2022
Regeneratio
Nós somos feito de povo
E se a gente se apertar
A gente vai se quebrar
Quinem a casca do ovo.
Nós temos muitos defeitos
Mas se a gente se apertar
E a gente for olhar
Tem vez que somos perfeitos.
Nós temos dificuldades,
Preguiça de trabalhar
Mas se a gente for olhar
Temos também qualidades.
Nós somos uns trapaceiros
Gostamos de enganar
Mas se a gente se esforçar
Tem uns de nós verdadeiros.
Somos muito egoístas
Só queremos se dar bem
Mas se a gente for além
Tem uns de nós altruístas.
Tem muitos de nós sacanas
Causando desunião
Outros que dão o perdão
Em atitudes bacanas.
Somos muito desonestos
Enganamos facilmente
Tem um ou outro decente
Mais a força de protestos.
Se a gente olhar bem direito
É difícil de encontrar
Um de nós pra se espelhar
Mas vai ficar rarefeito.
É que estamos passando
Por provas e expiações
Onde existem legiões
Contra o mal trabalhando.
Isto é uma transição
Com obstáculos e teste
De maneira que investe
No estágio da evolução.
O mal aqui predomina
Pois tem muita aceitação
Por causa da expiação
Mas que um dia termina.
O mal tá em ascensão
Mas isto acabará
E a terra então passará
De Mundo de Expiação
Para regeneração.
Santo Antônio do Salto da Onça RN Terra dos Cordelistas
Fevereiro de 2025
Como fidel Castro eu andei
Nas avenidas cubana
Com ele eu tomei um cana
Por vezes me embriaguei
Em Cuba eu também mandei
Pois tinha aval pra mandar
E quem quiser duvidar
Vai vê que eu fui além
Quem quiser mentir também
Pode, mas só pra brincar.
Gélson Pessoa
Santo Antônio do Salto da Onça RN
1⁰ de Abril.de 2025
Voei num cavalo alado
E toreei minotauro
Eu domei um dinossauro
Fui Príncipe de um reinado
Com Dayanna do meu lado
Na lua eu fui pescar
Com Aquaman fui nadar
Furei o pneu do trem
Quem quiser mentir também
Pode, mas só pra brincar.
Gélson Pessoa
Santo Antônio do Salto da Onça RN
1⁰ de Abril de 2025
Voa minha ave
Voa sem parar
Viaja pra longe
Te encontrarei
Em algum lugar
Permaneço em ti
Como sempre foi
Mais perfeito e mais fiel
Mesmo sozinho sei que estás perto de mim
Quando triste olho pro céu
Quando eu te vi o sonho aconteceu
Quando eu te vi meu mundo amanheceu
Mas você partiu sem mim
E sei que estás em algum jardim
Entre as flores
Anjo, meu tão amado anjo
Bem sei que estás
E eu do brando sono hei de acordar
Para os teus olhos ver uma vez mais
O verdadeiro amor espera uma vez mais
Bom Dia, Não sei o porque isso acontece, nem por que não consigo mudar meus pensamentos, até acho que sou só um Zé Ninguémque vive em busca de algo...
Só não entendo por que a vida tem que ser tão cruel assim; Quando penso em parar, ela vem e alimenta essa vontade, essa esperança e tudo começa de novo... Não sei quanto tempo isso pode durar mas sei que isso pode doer mais ou melhorar de uma vez...
O que eu posso dizer? Acho que não seja tão forte quanto imaginava, mesmo eu agindo diferente, sendo diferente ainda não é suficiente, Por que?
Talvez eu esteja trilhando em um caminho sem sentido, ou Não? e se esse for a melhor opção? Afs, tão confuso que nem consigo mais pensar direito Bom Não importa, vou até o final, e ver o porque o jogo dessa vida!
Esse é só um dos sintomas, ficar muito tempo deitado. Tem outros, físicos. Uma fraqueza por dentro, assim feito dor nos ossos, principalmente nas pernas, na altura dos joelhos. Outro sintoma é uma coisa que chamo de pálpebras ardentes: fecho os olhos e é como se houvesse duas brasas no lugar das pálpebras. Há também essa dor que sobe do olho esquerdo pela fronte, pega um pedaço da testa, em cima da sobrancelha, depois se estende pela cabeça toda e vai se desfazendo aos poucos enquanto caminha em direção ao pescoço. E um nojo constante na boca do estômago, isso eu também tenho. Não tomo nada: nenhum remédio. Não adianta, sei que essa doença não é do corpo.
Encho a cara sozinha aos sábados esperando o telefone tocar, e nunca toca. Sofre horrores mas continua do bem, sempre inventando histórias com final feliz. Tenho medo de já ter perdido muito tempo. Tenho medo que seja cada vez mais difícil. Tenho medo de endurecer, de me fechar, de me encarapaçar dentro de uma solidão – escudo. E à noite eu ainda te espero, mesmo quando sei que você não virá, só para ter saudade.
Vou te procurar entre as estrelas e os satélites distraídos, que confusos me ditaram caminhos errados e esparsos. Eu irei caminhar por trajetos errados em diferentes passos. Em destinos errantes nas mais estranhas pegadas na areia. E vou te encontrar em um planeta abandonado no curto espaço entre nós dois. Em nossos abraços, em seus sorrisos largos.
[...] Sabe o que eu sinto? Tem duas coisas me puxando, dois tipos de vida — e eu não quero nenhum deles. Quero um terceiro, o meu. Que ninguém tá curtindo. [...] — não estou conseguindo viver como eu gostaria — e não tenho coragem de ficar sozinho e tentar, você me entende? Acho que não. Eu vou levando, tenho horas de soluções drásticas, vou levando. Mas não sei até quando. [...] E eu fico muito comigo mesmo nisso tudo — cada vez mais sufocado, mais necessitado que pinte um VERDADEIRO ENCONTRO com outra pessoa, seja em que termos for. Parece que ou eu ou os outros não somos mais tão disponíveis. Será que estou fechando, perdendo a curiosidade? Eu não sei. Vou dormir. Amanhã te escrevo mais um pouco.
Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo, mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir por quê.
Como se algo estivesse perfeito. Eu insisto no perfeito, era assim: pouco antes da perfeição se cumprir. Perfeito, preparado para acontecer e, de repente, não acontecesse. Não acontece. E logo depois, quando você ainda nem entendeu direito o que aconteceu, ou o que não aconteceu, ou por que deveria ter ou não ter acontecido, vem alguém de repente e te dá um soco no estômago. E a mão que daqui a pouco você tinha certeza que ia estar cheia, pronto!, está vazia de novo.
