Cartas de Amigo de Trabalho

Cerca de 6008 cartas de Amigo de Trabalho

Trabalho e Dignidade

Demétrio Sena - Magé

Se no seu trabalho você exerce uma função comandada, nunca se avilte por isso. Nem se for para manter o próprio emprego. No primeiro momento, é possível que seja fácil para quem diz e difícil para quem ouve. Mas tente pensar em uma vida inteira dentro de uma empresa que não respeita seus direitos: impõe carga horária desumana, tarefas além de suas atribuições, paga salário indigno e trata os funcionários, pior ainda os mais simples, como bichos. Uma empresa cuja hierarquia mais parece de casa grande com senzala; de senhores e capatazes com escravos... ou análogos.

Cobre sempre os seus direitos; não aceite quaisquer tipos de maus tratos; considere sempre o caminho da justiça trabalhista (e de todas as outras, quando for caso de assédio moral entre outros abusos pessoais). Em nenhuma hipótese premie seu patrão! Explico: jamais peça demissão, por ser levado ao seu limite. Aliás, não se deixe levar ao limite. Responda sempre à altura (evidentemente, com respeito e civilidade), não aceite exigências ilegais, abusivas, e faça questão do salário e do registro em carteira justos para o ofício que você exerce.

E se a empresa não gostar de sua dignidade, a cobrança do que lhe é devido, ou de sua consciência social, trabalhista, o problema já não é seu. Que ela então lhe demita com todos os seus direitos, incluindo aquelas longas horas extras "esquecidas", aqueles excessos ignorados e as promoções postergadas, talvez por anos e anos... funções exercidas sem registros e salários correspondentes. Sabemos todos, que não é tão fácil conseguir outro emprego... mas também sabemos que, muitas vezes, recuperar a dignidade roubada por uma empresa injusta e arbitrária pode beirar o impossível.
... ... ...

Respeite autorias. É lei

Hoje eu vejo a igreja muito mais como um trabalho da minha humanidade do que da minha espiritualidade. Porque, sinceramente, me conecto muito com Deus quando estou sozinha, na minha casa, orando e falando com Ele de forma espontânea. Mas ir ao templo religioso me ajuda a olhar mais pro outro, exercitar humildade e viver a fé de forma mais coletiva.


Alexsándra Duárte

"Se a minha felicidade lhe incomoda. Ótimo! Estou fazendo um bom trabalho vivendo a minha vida do jeito que eu gosto, do jeito que eu quero, essa vida a qual você almeja ter incessantemente, tem inveja dela;
Inveja essa ao qual você sente agonia no âmago de sua alma, pois você não é eu, e gostaria de estar em meu lugar.
Ao invés disso, você deveria estar buscando algo que te faça feliz, assim como eu faço, e não fico preocupado com a sua vida medíocre de invejoso."⁠

A mulher perde o interesse pelo casamento e enjoa o marido quando ele tem tempo após o trabalho, para os amigos, para assistir futebol, ler seus jornais, assistir seus filmes, lavar seu carro, fim de semana pescaria e churrasco com amigos etc... E não tem tempo para ela.

Ainda se diz e se acha homem uma desgraça destas.

A "Vitrine" vs. a “Realidade “
Focar na estética e no sucesso imediato. O trabalho real com crianças exige paciência, observação e, principalmente, uma energia de acolhimento que não se resume a um post bem editado.
O Valor do Olhar Atento
Quem atua por amor percebe detalhes que o foco no dinheiro ignora. É aquela vontade de estar junto, de vibrar com cada pequena conquista da criança, que realmente transforma o processo educativo.
Quando a motivação é apenas o status, a "energia positiva" que as redes deveriam passar acaba sendo substituída por uma vibração de comparação e ego.
No final das contas, os resultados mais profundos e duradouros vêm de quem coloca o coração no que faz. O conhecimento técnico é fundamental, mas sem o afeto, ele é apenas teoria.
Você sente que essa onda de postagens acaba tirando o foco do que realmente importa no suporte às crianças?

Há dias em que a escola não cansa apenas pelo excesso de trabalho. Ela cansa porque obriga bons profissionais a escolher, diariamente, entre registrar a realidade ou alimentar a ficção de que ela já foi transformada.
E essa talvez seja uma das violências mais silenciosas da educação brasileira.

Voltando do trabalho, sentado dentro do ônibus, me deparei com uma cena que chamou minha atenção. Um homem, sentado à minha frente, passava lentamente pelas fotos e vídeos da esposa em seu celular. Não era um gesto apressado. Durante quase dez minutos, ele observou cada imagem com cuidado, como quem revive lembranças e escolhe, entre tantas, aquela que melhor traduz o que sente.

Depois de analisar tudo com um olhar de admiração, finalmente decidiu. Publicou uma foto dela no status e escreveu: "Minha companheira que fecha no claro e no escuro. Te amo pra sempre."

Confesso que a cena era bonita. Havia carinho, orgulho e a vontade de mostrar ao mundo o quanto aquela mulher era importante para ele.

Mas, enquanto o ônibus seguia seu caminho, um pensamento atravessou a minha mente. Talvez porque a vida tenha me ensinado a olhar além das aparências. Sorri discretamente e pensei: "Que eles aproveitem bastante esse momento, porque eu já vi essa história."

Não como quem deseja o fim de um amor, mas como quem sabe que promessas eternas nem sempre resistem ao tempo. A vida muda, as pessoas mudam, e aquilo que hoje parece inabalável pode, amanhã, existir apenas como uma lembrança. Ainda assim, enquanto o amor é verdadeiro, merece ser vivido intensamente. Afinal, o presente é a única certeza que temos.

⁠Demagogia

Em todas as esferas do trabalho desde o ramo mais simples ao sofisticado, tem sempre aquele sujeito que se autovitimiza. Esse tipo de pessoa sempre enobrece as suas tarefas. Eles imaginam atingir a transcendência da natureza humana. Um indivíduo como este, não se vê como ser humano. Mas sim como o ser onipotente, a mente onisciente, e o espírito onipresente.

260722II

⁠Amor: semelhanças e contrastes no trabalho ( parte II )

O segundo, nem por algum instante as pessoas o ver como um cidadão de bem, com boas perspectivas profissionais. Mas este, podes crê; Já obteve sonhos misturado ao medo e a ilusão. Um sonho visto bem à linha do horizonte. O medo bem real, na qual aniquila a ilusão e torna-se fato consumado. Já não existe mais medo, não existe mais mãe , não existe mais segredos, muito menos mais sonhos. Se um é o melhor profissional, e tem a consciência que poderia ter alçado voos mais altos. O outro, também executa bem o seu trabalho, e é grato ao destino pelo que se tornou, porque as
possibilidades de escolhas por caminhos obscuros, eram bem mais evidentes do que alternativas dentro da legalidade.

100822II

O feio fez tudo que pode para conquistar
o bonito apenas sorriu
o feio chegou do trabalho cansado, suado
o bonito, perfumado, nem foi trabalhar
o feio, nem era tão feio assim
mas o bonito, também não
era lindo
então o mais ou menos feio até que tentou
o bonito apenas olhou
adivinhe quem levou?
preciso te contar?

Sábado à Noite/poema


Hoje o dia foi mais tranquilo —
mas o trabalho, cansativo,
mil pensamentos querendo sair correndo
pela porta do serviço.
Vontade de ir embora,
mas o medo da instabilidade
segura meus passos
como âncora no peito.


E no meio do barulho das tarefas
surge o sonho antigo:
abrir meu próprio negócio,
ser dono do meu tempo,
da minha coragem,
do meu caminho.
Foi um dia corrido.
Relógio apressado,
mente acelerada,
coração dividido.


À noite cheguei em casa mais leve,
mas não vazio.
Pensando em mudar de cidade,
por não ter amigo nem parente
onde estou agora,
achando a cidade tão chata,
tão silenciosa demais.


Fui ao posto,
na conveniência comprei
uma coxinha e uma coca —
pequenos confortos de sábado.
Na esquina, perguntei do hospital.
Particular. Pago.


E lá veio de novo a pergunta
que nunca dorme
onde está minha estabilidade?


No meio de tudo isso,
só queria alguém para desabafar,
uma conversa sincera na madrugada,
um ouvido que ficasse.
Mas não encontrei.


Entre sonhos e contas,
entre vontade e medo,
o sábado termina
quieto por fora,
barulhento por dentro.

Ou eu trabalho no que eu adoro, ou eu não trabalho.
Ou eu trabalho na hora que eu quiser, ou eu não trabalho.
Ou eu trabalho vivendo, ou eu não trabalho.

Para mim, viver e trabalhar devem ser a mesma coisa. Não vou jamais separar essas duas realidades, para ficar esperando os finais de semana e as férias, enquanto minha vida vai se perdendo em uma rotina de insatisfação, com antidepressivos para disfarçar o desconforto de estar fazendo algo que não gosto. Não vou ser mais um robô sustentando o luxo e o paraíso superficial de banqueiros e mega-ricos, que diariamente roubam meus direitos. Não, isso eu não aceito.

Eu posso pedir esmola na rua para as pessoas que sustentam esses banqueiros e mega-ricos, mas nunca vou aceitar que minha vida seja desperdiçada fazendo algo que não me satisfaz.

Porque, no fim das contas, eu vou morrer, com ou sem dinheiro, trabalhando ou não. Tudo o que eu conquistar vai ficar aqui, não vou levar nada. Então, vivo e viverei sempre do jeito que eu quiser. O jeito que eu gosto de viver é o jeito no qual eu devo trabalhar. Por mais impossível que pareça, é necessário ter criatividade para criar um novo trabalho de sobrevivência baseado no que eu realmente amo. Isso, para mim, é trabalho: viver fazendo o que eu amo. O resto, bem, é apenas escravidão.

⁠Minha condição é esquisita... Eu sou PCD mas, trabalho com logística
O dia é intenso e não me sinto especial, mesmo que o meu trabalho seja fora do normal!
Eu não quero R.E.G...
Não quero badalação
Quero oportunidades dentro e fora da operação;
As minhas necessidades não podem ser atendidas
Se não consigo fazer algo, é corpo mole ou preguiça;
Não posso dá feedback construtivo, se não é advertência... Irresponsável e sem juízo!

Eu aprendi que...
"Está desempregado dá muito trabalho, que trabalhar de mais desgasta muito; que até o nada nas nossas vidas nos enche, que tudo que nos enche não nos leva a nada; que em pé cansa, sentado dá fadiga e deitado gera preguiça; que o tempo de vida vai diminuindo de acordo com a idade que vai aumentando; que o medo é um sentimento, a coragem é uma virtude. Eu entendi que para sobreviver devemos está sempre se movimentando, pois, é o ser humano que se queixa da vida e não a vida que se queixa do ser humano."

JuniorB~

⁠Pão com Café

Volta do trabalho é muito cansativo. Gente reclamando do dia, ônibus lotado, barulho, pessoas entrando e saindo me gera muito incomodo. O que torna o final do dia bom é conversar com Rodrigo que mesmo após os piores dias me faz sentir melhor, mas não gosto quando me diz que seria bom eu possuir uma mulher, filhos, ter um relacionamento, uma família. Isso apenas iria piora meu dia.

Quando chego a minha casa a única coisa que ainda me anima é comer pão com café forte, mas hoje não me lembrei de compra já que só queria fugir do assunto de família que Rodrigo voltara a repetir. Então são 17h30 os pães já deve está no fim é melhor correr.

Descia a rua passava pelo viaduto com aquele cheiro de podridão, uma carniça logo a vista urubus a devora-la me fazia sentir arrepios na espinha, a mesma sensação de conversa hoje com Rodrigo.

Mesmo chegando tarde à fila se encontrava imensa. Porque a única coisa que me alegra vai ser tão difícil de alcançar? O homem que estava a minha frente segurava um bebê, não parava quieta e o homem não parecia lidar com aquela nenê, até que aquele olho rápido me encontrou e me assustou.

Seus olhos se acalmaram e arrumou uma posição para me olhar. Aquela nenê me olhava, não sei o motivo, além disso, seu sorriso me cativou. Busquei não dar atenção além do mais são seres que dão muito trabalho. Ela soltou um grito agudo chamando minha atenção, respondi com um sorriso e ela estendeu a mão. Tão pequena tão frágil, só querendo se aproxima. Não sabia o que fazer. Estendi meu dedo tentando diminuir a distância, quando a fila andou e a distância aumentou como se não fosse para aquilo acontecer.

Voltei a minha consciência e meu pão com café forte, e enfim era minha vez pedi pão, foi bem fácil só restava pão carioca e sovado o pior. Acaba se embebedando todo e estraga o proveito do café que é tão bom de degusta. Pedia carioca e me dirigia ao caixa.

Via a bebé no caixa que nos braços de seu pai, mas uma mossa chegava pegando-a; deve ser a mãe dela. Mulheres drenam toda a energia do homem e no fim pegam apenas aquilo que desejam, mas aquele não sentia isso. O homem de cor, mãos calejadas e roupas sujas de cimento. Como após um dia de trabalho se sentia mais relaxado que eu?

Rodrigo me viu, me senti constrangido por sentir inveja dele, mas ele apenas me deu adeus e foi embora com sua família. Perdi o apetite do meu maravilhoso pão com café.

O Uber, o Azulejista e o Perigo de Esquecer o Despertador
Era mais um dia normal de trabalho para o motorista peregrino. Pelo menos era o que ele imaginava quando, por volta das seis e vinte da manhã, recebeu um chamado da senhora Luana para levá-la até uma marmoraria localizada na Vila Brasília, na zona norte de São Carlos, próxima à Rodovia Washington Luís e ao campus da UFSCar. Para o motorista, uma corrida com mais de oito quilômetros naquele horário, antes das sete da manhã, normalmente significava que alguma coisa havia acontecido. Afinal, passageiro que precisa percorrer uma distância dessas logo cedo geralmente não está simplesmente passeando. Ou perdeu o ônibus, ou perdeu a hora, ou perdeu a paciência. Às vezes, perde os três de uma só vez.
Dito e feito! Ao chegar ao ponto de partida e confirmar o nome da passageira, o motorista desejou-lhe um ótimo dia e, logo em seguida, perguntou: “A senhora está atrasada para o trabalho? O ônibus não passou? Ou será que o relógio não despertou?”. Luana, uma mulher de estatura acima da média, olhou para o motorista e respondeu, com a maior tranquilidade: “E se eu lhe disser que aconteceram as três coisas que o senhor falou e ainda mais duas?”. Naquele momento, o motorista peregrino percebeu que aquela não seria uma corrida como as outras. O problema agora era descobrir quais seriam as duas coisas que faltavam naquela história.
O motorista ficou todo embananado, tentando imaginar o que poderia ter acontecido com Luana. Por alguns segundos, pensou que talvez fosse melhor não perguntar. Afinal, existem passageiros que entram no carro querendo apenas chegar ao destino, e existem aqueles que parecem carregar uma novela inteira dentro da mochila. Como o peregrino adora conversar com os passageiros e, principalmente, colher histórias para o seu próximo livro, resolveu arriscar: “Então me conte o que mais aconteceu. Quem sabe isso não vira uma história engraçada para o meu livro?”. Luana imediatamente perguntou: “O senhor escreve?”. O motorista respondeu que sim. Ela então completou: “Bem que eu imaginei. Pela sua aparência, o senhor deve fazer coisas muito interessantes”. O motorista sorriu e respondeu: “Olhe, senhora, eu faço tantas coisas que, às vezes, até eu mesmo ponho em dúvida a minha sanidade mental”.
Luana caiu na risada e quis saber: “Mas que coisas o senhor faz para se achar um homem assim?”. O motorista, percebendo que a conversa estava ficando cada vez melhor, respondeu: “Primeiro a senhora me conta quais foram essas duas coisas que aconteceram e que a obrigaram a pegar um Uber. Depois eu conto as minhas”. Luana respirou fundo e começou: “Então está bem. O meu marido, na noite anterior, bateu o carro porque tinha bebido um pouco a mais. Ainda bem que foi bem perto da nossa casa. Aliás, ele chegou a tentar entrar na casa do vizinho. Imagine o estado do meu marido!”. O motorista ficou surpreso e perguntou: “Sim, mas, se isso aconteceu na noite anterior, por que a senhora perdeu o horário do trabalho hoje?”.
“Quer saber mesmo?”, perguntou Luana, já segurando o riso. “O meu marido é azulejista. Ele é um ótimo profissional, mas é muito chato quando não bebe. Eu até deixei de trabalhar com ele por causa das chatices. Quando está sóbrio, parece que o mundo inteiro está assentando azulejo errado.” O motorista começou a rir, mas lembrou que ainda faltava uma parte importante da história: “Sim, mas não me enrole, porque já estamos quase chegando ao destino da corrida”. Luana continuou: “O meu marido, quando bebe, é uma pessoa maravilhosa, muito carinhoso. Então, naquela noite, como eu estava a fim de receber uns carinhos, convidei-o para tomar umas cervejas comigo”.
A história estava começando a fazer sentido. Luana prosseguiu: “Lá pelas tantas da noite, eu o peguei pelo braço e o levei para o quarto. Quando chegamos lá, falei para ele: ‘Sobe aí na cama, agora! Se você dormir, eu te taco no chão!’”. O motorista peregrino já não sabia se deveria rir, fazer outra pergunta ou simplesmente continuar dirigindo e agradecer por ter escolhido aquela profissão. Luana, então, encerrou a explicação: “Para resumir, tivemos uma noite maravilhosa. Eu sequer me lembrei de colocar o relógio para despertar”.
Faltava pouco menos de um quilômetro para chegarem ao destino quando Luana, como quem havia acabado de descobrir a moral da própria história, disse ao motorista: “O meu destino é casar-me com gente que gosta de um mé, de cachaça, de cerveja... Sei lá, de tudo o que tem álcool. O meu primeiro marido bebia bastante, mas era violento. Agora este bebe, mas é carinhoso. Então eu estou num dilema: se ele não bebe, ele nem se lembra que eu existo; agora, se ele bebe, sou eu que não me lembro do trabalho”.

Os dois caíram na gargalhada, enquanto o motorista pensava que, definitivamente, aquela não tinha sido apenas mais uma corrida. Tinha sido uma daquelas histórias que aparecem de repente, entram no carro sem avisar e, quando chegam ao destino, deixam uma lembrança que vale mais do que o próprio valor da corrida.
E talvez seja justamente isso que o peregrino aprendeu nas estradas e também atrás do volante: **há pessoas que entram em nossa vida por alguns minutos e acabam deixando histórias que permanecem por muitos anos**. Algumas nos ensinam, outras nos emocionam, algumas nos fazem pensar e outras simplesmente nos fazem rir. E, para quem gosta de caminhar pela vida com os olhos e os ouvidos abertos, até uma corrida de Uber pode se transformar em uma página de livro.
Peregrino Nino Carneiro

Olá, Boa tarde, Só agradecer. Por tudo...


Pelo meu trabalho, que me realiza. Pela chuva que lava a alma e pela luz do sol que a aquece. Pelos amigos, pilares nos dias bons e ruins. Pelo privilégio de poder estudar, de aprender e crescer. Por momentos de paz, tesouro raro e valioso.
Por este coração, capaz de sentir tanto. E, principalmente, por você. Por essa presença única, que trouxe um sentido especial a tudo. Simplesmente insubstituível. A Vida...

Cada vez mais, pessoas perturbam os ambientes que frequentam, seja no trabalho, nas redes sociais ou na internet. As redes, em especial, dão a alguns a liberdade de invadir a vida alheia, criando conflitos políticos, religiosos e sendo agressivos.
Muitos misturam questões pessoais com debates coletivos, tratando problemas emocionais como se fossem filosóficos, sem base sólida. Culpam o mundo por questões que deveriam resolver com profissionais. Também distorcem falas alheias para criar rótulos, fugindo do contexto real.

IPE AMARELO


Na calçada, manhã fresca.
O sol manhoso espreitava mais um dia de trabalho na prefeitura.
E os ipês amarelos, frondosos,
faziam fila na calçada, como quem aplaude a vida.


Então veio um "bom dia, moço!"
Pequeno, suave, sonoro, inteiro.
Da boca de uma menininha
que caminhava com a mãe na calçada.


E aquele bom dia
foi nota de canção em meus ouvidos.
Acorde que me encontrou,
afinou o peito e tocou minha alma.


Disse ao amigo do lado, Ivan:
"Ganhei não só o dia, amigo.
Acho que ganhei o ano todo."
Porque tem gentileza
que dura 365 dias.

A INDIFERENÇA TAMBÉM DEIXA MARCAS


A chuva fazia aquele trabalho sujo de sempre: cair sobre todo mundo sem perguntar quem merecia.
Eu estava no bar, diante da vidraça embaçada, com um copo que já tinha perdido a graça fazia algum tempo.
O bar estava cheio.
Gente falando alto, rindo de coisas que provavelmente não teriam graça no dia seguinte. Gente reclamando do preço da cerveja, do governo, do chefe, da vida, do casamento, do trânsito.
A vida humana em seu estado mais sofisticado: reclamar de pequenas merdas enquanto outras pessoas desaparecem a poucos metros.
Foi então que eu o vi.
Caminhava devagar.
Muito devagar.
Como se cada passo precisasse ser negociado com o corpo.
Um bastão em uma das mãos.
Uma trouxa enorme pendurada nas costas.
Aquele tipo de bagagem que não parece carregar roupas.
Parece carregar anos.
Ele levou a mão ao rosto.
Não sei se chorava.
Talvez estivesse apenas cansado.
Talvez tivesse vergonha.
Talvez estivesse protegendo os olhos da chuva.
Ou talvez estivesse tentando esconder de si mesmo o espetáculo miserável de continuar vivo.
E ninguém parou.
Ninguém.
Alguns passaram por ele com aquela pressa característica de quem tem compromissos importantes.
Um homem esbarrou em seu ombro.
Nem olhou para trás.
Uma mulher desviou como se tivesse encontrado uma poça.
Outro simplesmente continuou andando.
A cidade possui uma técnica admirável para isso.
Ela transforma pessoas em obstáculos.
Depois transforma obstáculos em paisagem.
E, finalmente, transforma paisagem em nada.
Fiquei olhando.
E comecei a me perguntar quando foi que aprendemos a não nos importar.
Talvez tenha começado cedo.
Quando descobrimos que sentir demais dói.
Então construímos pequenas paredes.
Depois paredes maiores.
Depois uma casa inteira dentro da cabeça.
Chamamos aquilo de maturidade.
Chamamos de experiência.
Chamamos de inteligência emocional.
Na verdade, muitas vezes é apenas medo com uma boa roupa.
A gente aprende a olhar sem ver.
A ouvir sem escutar.
A passar por alguém sofrendo e dizer:
Não é problema meu.
É uma frase eficiente.
Curta.
Prática.
Quase elegante.
Serve para tudo.
Para o mendigo.
Para o velho.
Para o vizinho.
Para a criança.
Para o amigo.
Para o planeta.
Para a própria consciência.
Não é problema meu.
E assim vamos ficando especialistas em não pertencer a nada.
A tragédia é que ninguém nos avisou que, quando você se separa suficientemente dos outros, começa também a se separar de si mesmo.
Porque aquele homem ali não era somente aquele homem.
Era uma possibilidade.
Uma versão futura.
Uma lembrança de alguma coisa que poderíamos ter sido.
Ou simplesmente alguém que teve menos sorte.
E essa é a parte que incomoda.
Porque é fácil desprezar aquilo que acreditamos estar muito distante.
Mas e se não estiver?
E se a diferença entre aquele homem e o sujeito sentado aqui no bar for apenas uma sequência de acidentes?
Uma doença.
Um abandono.
Uma dívida.
Uma perda.
Uma velhice que chegou sem pedir licença.
Uma mão que ninguém segurou quando ainda havia tempo.
É aí que a coisa fica desagradável.
Porque começa a desaparecer a confortável fronteira entre eu e ele.
Nós gostamos de acreditar que somos indivíduos separados.
Eu tenho minha vida.
Ele tem a dele.
Eu tenho meus problemas.
Ele tem os dele.
Uma pequena matemática moral para justificar nossa covardia.
Mas existe uma coisa incômoda chamada humanidade.
E ela não respeita nossos muros.
Ela passa por dentro deles.
O homem continuava caminhando.
A chuva continuava caindo.
A motocicleta continuava estacionada.
As pessoas continuavam indo para algum lugar.
E eu continuava atrás do vidro.
Isso também me incomodava.
Porque observar o sofrimento não nos torna melhores.
Às vezes apenas nos torna espectadores mais sofisticados.
Você pode escrever sobre a fome e continuar jantando tranquilamente.
Pode falar sobre compaixão e não oferecer um minuto a ninguém.
Pode publicar frases bonitas sobre humanidade enquanto passa por uma pessoa caída na calçada olhando para o celular.
A consciência é uma coisa estranha.
Ela permite que você se sinta culpado sem precisar mudar absolutamente nada.
Talvez essa seja uma das maiores fraudes que inventamos.
Sentir não basta.
Pensar não basta.
Indignar-se não basta.
A compaixão que não atravessa o corpo e chega às mãos é apenas uma emoção bem-comportada.
E talvez seja disso que este homem esteja nos lembrando.
Não com palavras.
Não com discursos.
Não com nenhuma bandeira.
Apenas com aquele corpo cansado.
Aquele bastão.
Aquela trouxa.
Aquela mão cobrindo o rosto.
Ele não precisa saber que está nos ensinando alguma coisa.
Talvez nem queira.
Talvez só queira chegar a algum lugar.
E existe uma brutalidade nisso.
Ele está tentando chegar.
Nós também.
A diferença é que alguns carregam uma mochila.
Outros carregam apartamentos, carros, diplomas, investimentos, fotografias de família, rancores, traumas, vaidades, fracassos e uma quantidade absurda de medo.
Todos carregamos alguma coisa.
A questão é o que fazemos quando percebemos que outra pessoa não consegue mais carregar a dela.
Viramos o rosto?
Aceleramos o passo?
Ou paramos?
Talvez seja esse o ensaio mais simples para recuperar alguma coisa que perdemos.
Parar.
Olhar.
Reconhecer.
Cuidar.
Não porque somos santos.
Não porque precisamos salvar o mundo.
Mas porque, antes de todas essas teorias sobre sucesso, liberdade, mérito e individualidade, existe uma coisa muito mais antiga dentro de nós.
A necessidade de cuidar.
Ela está lá.
Debaixo do cinismo.
Debaixo do orgulho.
Debaixo das cicatrizes.
Debaixo dessa couraça ridícula que construímos para não sofrer.
Você foi feito para cuidar.
E eu sei que isso soa ingênuo.
Num mundo que transforma gentileza em fraqueza, parece até uma piada.
Mas talvez a verdadeira fraqueza seja justamente o contrário.
Passar por alguém quebrado e precisar fingir que não viu.
Porque para não sentir a dor dos outros você precisa amputar alguma coisa dentro de si.
E amputações emocionais também deixam cicatrizes.
O homem desapareceu na chuva.
O bar continuou cheio.
Pedi outra cerveja.
Não porque tivesse esquecido o que vi.
Mas porque ainda não sabia o que fazer com aquilo.
Talvez começar seja exatamente isso:
não esquecer.
Não deixar que aquela imagem vire apenas mais uma fotografia entre milhares.
Não permitir que a dor de alguém se torne paisagem.
Talvez a mudança comece antes da ação.
Comece no instante em que você se recusa a olhar para o outro como um estranho.
Porque, no fim, somos todos passageiros da mesma coisa.
E a cidade continuará esbarrando em nós.
A chuva continuará caindo.
Os bares continuarão cheios.
As pessoas continuarão com pressa.
E algum homem continuará caminhando devagar, carregando nas costas tudo aquilo que ninguém quis carregar com ele.
A pergunta não é se podemos salvar aquele homem.
Talvez não possamos.
A pergunta é outra.
O que ainda existe dentro de nós quando vemos alguém sofrendo e escolhemos não nos importar?
Talvez seja aí que a humanidade comece.
Ou termine.
Depende do que você fizer depois de olhar.